O Discurso sobre a Comunidade no Evangelho de Mateus (Mt 18): uma Igreja que acolhe, perdoa e cuida dos pequenos!

Por Pe. Hermes A. Fernandes

Introdução

O capítulo 18 do Evangelho de Mateus é tradicionalmente conhecido como o Discurso sobre a Comunidade. Depois do Sermão da Montanha (Mt 5–7), do Discurso Missionário (Mt 10) e do Discurso em Parábolas (Mt 13), Mateus apresenta um conjunto de ensinamentos de Jesus destinados à vida comunitária. O evangelista não está interessado apenas em transmitir normas de convivência. Ele procura responder a uma questão fundamental: como deve viver uma comunidade que reconhece Jesus como Messias e Senhor?

Mateus 18 nasce em um contexto de conflitos, tensões internas, disputas de autoridade e necessidade de preservar a identidade das comunidades cristãs. Por isso, o capítulo aborda questões extremamente concretas: quem é o maior na comunidade, como acolher os pequenos, o perigo do escândalo, a busca da pessoa perdida, a correção fraterna, o perdão e a reconciliação.

Lido à luz da Teologia Latino-Americana e da experiência das Comunidades Eclesiais de Base (CEBs), esse capítulo ganha uma extraordinária atualidade. A comunidade cristã não pode existir para reproduzir relações de poder, exclusão e privilégios presentes na sociedade. Ela é chamada a ser sinal de uma nova maneira de estabelecer relações, marcada pela fraternidade, pela justiça, pelo cuidado com os vulneráveis e pela opção concreta pelos pobres.

Mateus 18 apresenta, assim, uma verdadeira espiritualidade comunitária da libertação: uma Igreja que coloca os pequenos no centro, procura quem foi afastado, corrige sem humilhar, perdoa sem limites e transforma conflitos em oportunidades de reconciliação.

1. “Quem é o maior?”: Jesus coloca os pequenos no centro (Mt 18,1-5)

O capítulo começa com uma pergunta dos discípulos: “Quem é o maior no Reino dos Céus?” (Mt 18,1). A pergunta revela que, mesmo entre aqueles que seguem Jesus, permanece uma mentalidade baseada em hierarquia, prestígio e poder.

A resposta de Jesus é desconcertante: ele chama uma criança, coloca-a no meio deles e afirma que é necessário tornar-se como uma criança para entrar no Reino dos Céus (Mt 18,2-3).

É importante considerar o contexto histórico. A criança, na sociedade antiga, não possuía o mesmo reconhecimento social atribuído ao adulto. Não se trata simplesmente de idealizar uma suposta “inocência infantil”. Jesus utiliza uma pessoa socialmente pequena e dependente para questionar os critérios de grandeza utilizados pelos discípulos.

A lógica do Reino subverte a lógica do poder.

A comunidade cristã não deve perguntar primeiro quem manda, quem possui prestígio ou quem ocupa os lugares mais importantes. Deve perguntar quem são os pequenos que precisam ser colocados no centro.

Essa perspectiva é fundamental para a Teologia Latino-Americana. A opção pelos pobres não significa apenas realizar ações assistenciais em favor deles. Significa reconhecer os pobres como sujeitos da evangelização, da comunidade e da transformação histórica.

Nas CEBs, essa Palavra encontra uma expressão concreta quando mulheres, trabalhadores, camponeses, jovens, idosos, pessoas negras, indígenas, moradores das periferias e outros grupos socialmente marginalizados encontram espaço para falar, participar, decidir e exercer ministérios.

Uma comunidade inspirada por Mateus 18 não pode reproduzir internamente os mesmos mecanismos de exclusão que procura combater na sociedade.

2. “Quem acolhe uma criança em meu nome, a mim acolhe” (Mt 18,5)

Jesus aprofunda sua resposta: “Quem acolhe uma criança como esta em meu nome, a mim acolhe” (Mt 18,5).

A afirmação possui enorme força cristológica. O pequeno não é simplesmente alguém que merece ajuda. Jesus se identifica com ele.

Aqui encontramos uma das raízes mais profundas da opção preferencial pelos pobres. O encontro com o vulnerável torna-se lugar de encontro com o próprio Cristo.

A comunidade, portanto, precisa desenvolver uma espiritualidade da acolhida. Não basta abrir as portas do templo. É necessário criar condições para que aqueles que normalmente permanecem à margem possam participar efetivamente da vida comunitária.

Isso significa perguntar:

  • Quem não está participando de nossas comunidades?
  • Quem se sente julgado ou rejeitado?
  • Quem não possui voz?
  • Quem vive em situação de pobreza?
  • Quem sofre violência?
  • Quem é discriminado?
  • Quem perdeu a esperança?

A pastoral inspirada por Mateus 18 precisa sair ao encontro dessas pessoas.

As CEBs podem ser espaços privilegiados para essa experiência porque sua dinâmica comunitária favorece a proximidade, a participação e a leitura da realidade à luz da Palavra.

3. O escândalo dos pequenos: uma Igreja que protege a vida (Mt 18,6-9)

Jesus utiliza palavras extremamente fortes ao falar daqueles que fazem um dos “pequeninos” tropeçar: “Quem fizer cair um desses pequeninos que creem em mim, seria melhor para ele que lhe pendurassem ao pescoço uma grande pedra de moinho e o afundassem no fundo do mar” (Mt 18,6).

O vocabulário é radical porque radical é a responsabilidade diante dos vulneráveis.

O texto não pode ser reduzido a uma advertência moral individual. Ele permite uma leitura comunitária e social: existem práticas, estruturas e comportamentos que produzem “escândalo” porque ferem a dignidade dos pequenos.

Uma sociedade que condena crianças à fome, jovens à violência, trabalhadores à exploração, mulheres à violência, povos indígenas à expulsão de seus territórios e populações pobres ao abandono produz escândalo diante do Evangelho.

Também a Igreja precisa examinar suas próprias práticas.

Quando uma comunidade humilha uma pessoa pobre, exclui alguém por sua condição social, trata os diferentes como ameaça, utiliza a religião para controlar consciências ou coloca interesses institucionais acima da dignidade humana, ela contradiz o projeto de Jesus.

A dimensão sociotransformadora do texto exige uma pastoral de defesa da vida e prevenção de todas as formas de violência e exclusão.

4. “Não desprezeis nenhum desses pequeninos” (Mt 18,10-14)

Jesus prossegue afirmando: “Não desprezeis nenhum desses pequeninos” (Mt 18,10). Em seguida apresenta a parábola da ovelha perdida.

O pastor deixa as noventa e nove e vai procurar aquela que se perdeu (Mt 18,12-14).

A lógica é surpreendente. Para uma mentalidade puramente administrativa, seria mais racional proteger as noventa e nove. Jesus, entretanto, concentra sua atenção justamente naquela que está em situação de risco.

Essa é uma chave fundamental para a pastoral latino-americana: a comunidade não pode ser organizada apenas em função daqueles que já estão integrados.

Uma Igreja missionária precisa procurar quem está fora.

A parábola questiona uma pastoral que se satisfaz com aqueles que frequentam regularmente suas celebrações enquanto milhões permanecem distantes da comunidade, vivendo situações de abandono e vulnerabilidade.

Nas periferias urbanas, nos campos, nas comunidades indígenas, nos presídios, nas ruas e nos ambientes de trabalho, existem muitas “ovelhas” que precisam ser procuradas.

A missão das CEBs não é apenas conservar membros, mas ir ao encontro da vida onde ela está ferida.

5. A correção fraterna: recuperar sem destruir (Mt 18,15-20)

Mateus 18,15-20 apresenta um dos textos mais importantes sobre a resolução de conflitos na comunidade: “Se teu irmão pecar contra ti, vai corrigi-lo a sós” (Mt 18,15).

O procedimento apresentado por Jesus é progressivo: primeiro o diálogo pessoal; depois, se necessário, a presença de uma ou duas testemunhas; posteriormente, a comunidade.

O princípio é fundamental: o conflito deve ser enfrentado, mas a pessoa não deve ser destruída.

Em uma sociedade marcada pela cultura do cancelamento, pela polarização e pela violência verbal, essa orientação possui extraordinária atualidade.

A correção fraterna não é humilhação pública. Não é vingança. Não é exposição do outro. É uma tentativa de recuperar relações e proteger a comunidade.

Também aqui aparece uma característica fundamental da tradição das CEBs: a importância da reunião comunitária, do diálogo, da escuta e da construção coletiva das decisões.

Uma comunidade madura não é aquela onde nunca existem conflitos. É aquela que possui instrumentos evangélicos para enfrentá-los.

6. “Onde dois ou três estiverem reunidos”: a presença de Jesus na comunidade (Mt 18,20)

No contexto da correção fraterna, Jesus afirma: “Onde dois ou três estiverem reunidos em meu nome, eu estou ali, no meio deles” (Mt 18,20).

O versículo é frequentemente utilizado de maneira isolada para falar da oração comunitária. Entretanto, seu contexto imediato é o da reconciliação, do discernimento e da responsabilidade comunitária.

A presença de Cristo manifesta-se quando a comunidade procura a verdade, a justiça e a reconciliação.

Essa afirmação possui grande importância eclesiológica para as CEBs. A Igreja não existe somente nos grandes espaços institucionais. Cristo está presente também na pequena comunidade reunida em torno da Palavra, da vida e da missão.

Uma pequena comunidade periférica, quando se reúne para rezar, refletir sobre a realidade e organizar ações em defesa da vida, não é uma expressão “menor” da Igreja. Ela é verdadeira manifestação da presença de Cristo.

7. O perdão sem limites: “setenta vezes sete” (Mt 18,21-22)

Pedro pergunta a Jesus: “Senhor, quantas vezes devo perdoar meu irmão, se ele pecar contra mim? Até sete vezes?” Jesus responde: “Não te digo até sete vezes, mas até setenta vezes sete” (Mt 18,21-22).

O número possui sentido simbólico: indica uma disposição para o perdão que não pode ser reduzida a uma contagem.

Contudo, perdoar não significa aceitar a injustiça. Essa distinção é essencial para uma leitura libertadora.

O perdão cristão não pode ser utilizado para silenciar vítimas, justificar violência ou impedir a busca da justiça. Uma mulher violentada não precisa simplesmente “perdoar” seu agressor para que a comunidade se sinta em paz. Uma pessoa explorada não deve ser obrigada a aceitar a exploração em nome da reconciliação.

O perdão evangélico precisa caminhar junto com a verdade, a justiça, a responsabilização e a reconstrução das relações.

Na perspectiva latino-americana, a reconciliação autêntica não é esquecimento. É construção de uma nova realidade na qual a violência não se repita.

8. A parábola do servo que não perdoa: a lógica da dívida e da misericórdia (Mt 18,23-35)

Jesus apresenta então a parábola de um servo que possui uma dívida enorme. O senhor perdoa sua dívida, mas o servo se recusa a perdoar uma dívida muito menor de outro companheiro.

A parábola denuncia a incoerência de quem recebe misericórdia, mas não pratica misericórdia.

Existe também uma dimensão social importante. A linguagem de dívida, cobrança e prisão remete às relações econômicas de uma sociedade marcada por desigualdades e dependências.

Jesus apresenta uma alternativa à lógica de acumulação e cobrança sem misericórdia: a comunidade deve organizar suas relações a partir da compaixão.

Essa dimensão possui enorme atualidade diante das situações de endividamento, exploração financeira, precarização do trabalho e pobreza.

Uma Igreja comprometida com os pobres precisa perguntar se sua ação pastoral ajuda as pessoas a romper ciclos de dependência e exploração ou se simplesmente oferece consolo espiritual sem enfrentar as causas da pobreza.

A misericórdia bíblica é prática. Ela modifica relações.

9. Mateus 18 e as Comunidades Eclesiais de Base: uma Igreja comunitária e samaritana

O capítulo 18 pode ser sintetizado em quatro grandes movimentos pastorais: acolher os pequenos; procurar os que se perderam; reconciliar os que estão em conflito; perdoar e reconstruir relações.

Esses movimentos podem orientar uma pastoral comunitária profundamente comprometida com a realidade.

As CEBs podem transformar Mateus 18 em um itinerário concreto:

a) Colocar os pequenos no centro

A comunidade deve identificar quem são os pequenos de seu território e garantir-lhes participação e protagonismo.

b) Criar espaços de escuta

Antes de falar em nome dos pobres, é necessário escutá-los. A comunidade deve ouvir suas histórias, necessidades, sofrimentos e esperanças.

c) Construir redes de solidariedade

A fé precisa produzir ações concretas diante da fome, do desemprego, da violência, da falta de moradia e das diversas formas de exclusão.

d) Trabalhar pela justiça e pela paz

A comunidade deve atuar na prevenção da violência, na defesa dos direitos humanos e na construção de políticas públicas que garantam dignidade.

e) Formar consciência crítica

A leitura comunitária da Bíblia precisa ajudar as pessoas a identificar as estruturas que produzem pobreza e exclusão.

f) Promover uma cultura do diálogo

Conflitos não podem ser tratados simplesmente pela exclusão. A comunidade precisa aprender a conversar, discernir, corrigir e reconstruir.

g) Cuidar dos que se afastaram

A pastoral precisa procurar aqueles que se encontram distantes da Igreja não com julgamento, mas com proximidade e misericórdia.

10. Uma espiritualidade comunitária a serviço da transformação social

Mateus 18 impede que a espiritualidade cristã seja reduzida à dimensão individual.

Jesus fala de relações. Fala de crianças, irmãos, pequenos, ovelhas, conflitos, perdão, dívidas e comunidade.

A santidade cristã possui, portanto, uma dimensão profundamente social.

Não existe verdadeira comunhão com Deus quando se desprezam os pequenos. Não existe verdadeira celebração cristã quando a comunidade permanece indiferente diante da injustiça. Não existe verdadeira reconciliação quando as vítimas continuam sofrendo.

A espiritualidade das CEBs pode encontrar em Mateus 18 uma síntese fecunda: oração, Palavra, comunidade, consciência crítica, solidariedade e ação transformadora.

A comunidade reunida em torno da Palavra é chamada a tornar-se uma presença concreta de Cristo no território.

Conclusão

O Discurso sobre a Comunidade, em Mateus 18, apresenta uma das propostas mais revolucionárias de Jesus para a vida da Igreja. Ele não constrói uma comunidade baseada na competição por posições. Coloca uma criança no centro. Não aceita que os pequenos sejam desprezados. Procura a ovelha perdida. Ensina a resolver conflitos pelo diálogo. Promove o perdão e apresenta a misericórdia como fundamento das relações.

À luz da Teologia Latino-Americana, Mateus 18 revela que o modo como uma comunidade trata os pequenos é um critério fundamental de sua fidelidade ao Evangelho.

Por isso, a opção pelos pobres não pode ser apenas um princípio teórico. Precisa tornar-se estrutura da vida pastoral.

As CEBs são chamadas a ser comunidades onde os pequenos tenham rosto, nome e voz; onde ninguém seja descartado; onde o conflito seja enfrentado sem violência; onde o perdão não seja utilizado para encobrir injustiças; onde a misericórdia caminhe com a justiça; e onde a Palavra de Deus produza compromisso concreto com a transformação da sociedade.

Mateus 18 desafia a Igreja a abandonar toda lógica de poder que coloca alguns acima de outros e a assumir a lógica do Reino: quanto menor, mais deve ser cuidado; quanto mais vulnerável, maior deve ser a responsabilidade da comunidade; quanto mais distante, mais precisa ser procurado; quanto mais ferida estiver uma relação, maior deve ser o esforço de reconciliação.

Assim, a comunidade cristã torna-se sinal de uma sociedade nova. Uma sociedade na qual ninguém seja invisível, ninguém seja descartável e ninguém seja considerado pequeno demais para merecer dignidade.

É justamente nessa perspectiva que as Comunidades Eclesiais de Base podem continuar sendo sementes do Reino no meio dos pobres e com os pobres, testemunhando que a fé cristã não se limita a anunciar uma salvação futura, mas participa, já no presente, da construção de relações humanas marcadas pela justiça, pela fraternidade, pela misericórdia e pela defesa incondicional da vida.


Deixe um comentário

Crie um site ou blog no WordPress.com

Acima ↑