Reflexão para Segunda-feira da 23ª Semana do Tempo Comum

ENTRE A COMUNIDADE QUE DISCERNE E A VIDA QUE PRECISA SER RESTAURADA

Por Pe. Hermes A. Fernandes

Introdução

Na Liturgia de hoje, os textos de 1Cor 5,1-8 e Lc 6,6-11 apresentam situações distintas, mas profundamente relacionadas: ambos colocam diante da comunidade uma questão fundamental para a fé cristã — que tipo de comunidade o Evangelho deseja construir? Em Corinto, Paulo confronta uma situação que ameaça a integridade comunitária; em Lucas, Jesus confronta uma interpretação religiosa que, ao privilegiar a norma, acaba colocando a vida humana em segundo plano.

Lidos a partir da Teologia Latino-Americana e da experiência das Comunidades Eclesiais de Base (CEBs), esses textos nos convidam a superar tanto o moralismo individualista quanto uma religiosidade incapaz de perceber os sofrimentos concretos do povo. A fé cristã não pode ser indiferente diante da injustiça, da exclusão, da exploração e de tudo aquilo que desfigura a dignidade humana. A comunidade cristã é chamada a discernir, cuidar, libertar e transformar.

1. 1Cor 5,1-8: uma comunidade chamada à responsabilidade

A Primeira Carta aos Coríntios nasce no contexto de uma comunidade marcada por conflitos, divisões e dificuldades para compreender as exigências concretas da novidade cristã. Em 1Cor 5, Paulo enfrenta uma situação considerada particularmente grave: um membro da comunidade mantém uma relação com a mulher de seu pai (5,1). O problema não é apresentado apenas como uma transgressão moral individual. Paulo está preocupado com a repercussão comunitária daquela situação.

O apóstolo critica, sobretudo, a postura de uma comunidade que se mostra orgulhosa quando deveria estar vivendo um processo de discernimento e responsabilidade. A expressão de Paulo sobre o “fermento” (5,6-8) é decisiva: “um pouco de fermento leveda toda a massa”. O fermento representa aquilo que, embora pareça pequeno, pode contaminar o conjunto da comunidade. A metáfora é particularmente significativa porque Paulo a relaciona à Páscoa: “Cristo, nossa Páscoa, foi imolado” (5,7). A comunidade, portanto, precisa viver de acordo com aquilo que celebra.

É importante, entretanto, evitar uma leitura que transforme o texto em justificativa para práticas de exclusão ou condenação. Paulo não está propondo uma comunidade de “puros” que se considera superior aos demais. A disciplina comunitária possui uma finalidade pedagógica e restauradora. O objetivo é preservar a comunidade e possibilitar um processo de conversão. A própria tradição bíblica compreende essas medidas como diferentes formas de correção comunitária, não simplesmente como uma condenação definitiva.

A questão central, portanto, não é simplesmente: “Quem está dentro e quem está fora?” A pergunta evangélica é: “O que está destruindo a vida da comunidade e o que precisa ser transformado?”

Essa perspectiva possui enorme importância para as CEBs. Uma comunidade cristã popular não pode ser indiferente diante de situações de violência, abuso, exploração, racismo, machismo, corrupção, opressão ou destruição da vida. Ao mesmo tempo, não pode reproduzir mecanismos de humilhação e exclusão daqueles que já são marginalizados. O discernimento comunitário precisa estar orientado pela justiça, pela verdade, pela misericórdia e pela possibilidade de reconstrução das relações.

Na perspectiva latino-americana, o “fermento” pode ser identificado também com estruturas sociais e eclesiais que aparentemente são pequenas ou naturalizadas, mas que contaminam toda a vida: preconceitos, privilégios, concentração de poder, indiferença diante da pobreza, clericalismo, autoritarismo e acomodação diante das injustiças.

A comunidade de Jesus não pode considerar normal aquilo que produz morte.

2. Lc 6,6-11: quando a religião precisa escolher a vida

O episódio da cura do homem que possuía a mão direita atrofiada acontece na sinagoga, em dia de sábado. Jesus está diante de escribas e fariseus que observam atentamente sua ação, procurando um motivo para acusá-lo. O homem, que provavelmente já carregava uma condição que limitava sua participação social e econômica, é colocado “no meio” (6,8).

Esse detalhe é teologicamente significativo. Jesus retira aquele homem da invisibilidade. Ele deixa de ser alguém esquecido nas margens e passa a ocupar o centro da cena. O gesto de Jesus é, antes de tudo, uma restituição de dignidade.

A pergunta de Jesus desestabiliza a lógica de seus adversários: “o que é permitido fazer no sábado: o bem ou o mal, salvar uma vida ou deixar que se perca?” (6,9). Jesus não despreza o sábado. Ele revela seu sentido mais profundo: a religião deve estar a serviço da vida. Uma interpretação da Lei que impede o bem contradiz a própria finalidade da Lei.

Estudos exegético-históricos recentes sobre a passagem destacam precisamente esse aspecto: no relato lucano, a cura não significa desprezo pelo sábado, mas sua compreensão como espaço de misericórdia, restauração e manifestação do Reino de Deus.

O conflito acontece porque Jesus não aceita uma religião que consegue defender uma norma e, simultaneamente, permanecer indiferente diante de uma pessoa que sofre. O resultado é surpreendente: diante da mão restaurada, os adversários não celebram a vida recuperada; ficam furiosos e começam a discutir o que fazer contra Jesus (6,11).

Aqui encontramos uma forte provocação para a Igreja de hoje: podemos estar tão preocupados em defender estruturas, normas e costumes que já não percebemos as pessoas que estão sofrendo ao nosso lado?

3. Da sinagoga às periferias: uma hermenêutica latino-americana

A Teologia Latino-Americana parte da convicção de que Deus se revela na história concreta, especialmente no clamor dos pobres e excluídos. Nesse sentido, Lc 6,6-11 nos ajuda a reconhecer que o lugar da pessoa marginalizada deve estar no centro da ação pastoral.

Nas CEBs, essa perspectiva se traduz em uma Igreja que lê a Bíblia a partir da vida. A pergunta não é somente “o que o texto significou?”, mas também: “onde está hoje o homem da mão ressequida?”

Ele pode ser o trabalhador submetido a condições precárias; a pessoa desempregada; o morador das periferias abandonadas pelo poder público; a população em situação de rua; os povos indígenas ameaçados em seus territórios; as comunidades quilombolas vítimas de discriminação; os migrantes e refugiados; as mulheres vítimas de violência; as crianças e adolescentes privados de oportunidades; os idosos abandonados; aqueles que sofrem racismo, fome ou exclusão.

A Leitura Popular da Bíblia percebe que a mão atrofiada não é apenas uma realidade física. Ela pode representar tudo aquilo que impede uma pessoa ou um povo de trabalhar, participar, decidir, produzir, abraçar, construir e viver com dignidade.

Por isso, a ação de Jesus possui uma dimensão claramente sociotransformadora. Ele não apenas consola aquele homem; devolve-lhe uma condição de participação. A salvação manifesta-se como restauração da vida concreta.

4. O fermento da transformação e a missão das CEBs

Colocados lado a lado, os dois textos oferecem uma chave pastoral poderosa. Em 1Cor 5, Paulo pergunta o que precisa ser retirado do interior da comunidade para que ela não seja contaminada pelo “fermento” da corrupção. Em Lc 6, Jesus pergunta o que precisa ser feito para que a vida seja restaurada.

Assim, as CEBs são chamadas a realizar um duplo movimento: discernir aquilo que produz morte e promover aquilo que gera vida.

Isso exige uma pastoral que não se limite à assistência imediata. A solidariedade cristã precisa transformar-se também em compromisso com as causas estruturais da pobreza e da exclusão. Dar alimento a quem tem fome é indispensável; lutar para que ninguém precise passar fome é igualmente parte da missão cristã.

A comunidade que se reúne para celebrar a Palavra precisa também organizar-se para defender a vida. A celebração conduz à missão; a oração conduz ao compromisso; a leitura da Bíblia conduz à transformação da realidade.

Nesse sentido, o “fermento” que deve ser eliminado hoje pode ser a indiferença diante da pobreza, a naturalização da violência, o racismo estrutural, a concentração de renda, a destruição ambiental, o preconceito contra os povos tradicionais, a exploração do trabalho e toda forma de fundamentalismo que coloque a norma acima da pessoa.

Em contrapartida, o fermento do Evangelho é a solidariedade, a justiça, a partilha, a participação popular, o cuidado com a Casa Comum, a defesa dos Direitos Humanos e a opção concreta pelos pobres.

Conclusão

1Cor 5,1-8 e Lc 6,6-11 mostram que a fidelidade ao Evangelho não pode ser reduzida à observância exterior de normas nem à manutenção de uma aparência de comunidade. A fé cristã exige discernimento, responsabilidade e compromisso com a vida.

Paulo recorda que uma comunidade precisa enfrentar aquilo que destrói sua fraternidade. Jesus revela que nenhuma interpretação religiosa pode ser colocada acima da vida humana. A Lei, a tradição e as estruturas religiosas somente cumprem sua finalidade quando contribuem para que homens e mulheres tenham vida digna.

Para as Comunidades Eclesiais de Base, esses textos constituem um forte chamado à missão. É preciso colocar “no meio” aqueles que a sociedade empurra para as margens; reconhecer seus rostos; ouvir seus clamores; caminhar com eles e lutar para que suas mãos possam novamente participar da construção da história.

O Evangelho não nos permite permanecer indiferentes. Onde houver uma vida ferida, ali estará uma pergunta dirigida à Igreja: fazer o bem ou deixar se perder? A resposta cristã somente será verdadeira quando a comunidade se tornar presença solidária, profética e transformadora junto aos pobres, marginalizados e excluídos.

A Páscoa de Cristo nos recorda que não somos chamados a conservar um mundo marcado pelo “velho fermento”, mas a colaborar na construção de uma nova realidade, fermentada pela justiça, pela fraternidade e pela esperança.


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