Por Pe. Hermes A. Fernandes
“Ouve, Israel! Iahweh nosso Deus é o único Senhor. Amarás o Senhor, teu Deus, de todo o teu coração, de toda tua alma e com toda tua força. Estejam no teu coração estas palavras que hoje te ordeno. Tu as repetirás a teus filhos, delas falarás quando estiveres sentado em tua casa ou andando a caminho, quando te deitares ou te levantares” (Dt 6,4-7).
Essas palavras constituem o núcleo do chamado Shemá Israel, uma das mais importantes profissões de fé da tradição bíblica e judaica. Não se trata, porém, de uma afirmação religiosa abstrata. O texto nasce dentro de um processo histórico no qual Israel procura preservar sua identidade, sua memória e sua fidelidade a Iahweh diante das estruturas políticas, econômicas e religiosas que ameaçavam sua existência. Estudos sobre a formação do Shemá apontam inclusive para o diálogo e o contraste com a ideologia dos tratados de vassalagem assírios do século VII a.C.
Lido a partir da Teologia Latino-americana e da experiência das Comunidades Eclesiais de Base (CEBs), Dt 6,4-7 apresenta uma pergunta fundamental: a quem pertence o coração do povo? A resposta bíblica é decisiva: somente Deus. Por isso, nenhuma outra realidade — poder político, dinheiro, mercado, ideologia, império, nacionalismo ou qualquer forma de dominação — pode ocupar o lugar que pertence a Deus.
1. “Ouve, Israel”: a fé começa escutando
O texto começa com um imperativo: “Ouve!”. A fé bíblica não começa com a imposição de uma doutrina, mas com a capacidade de escutar. Israel precisa ouvir a Palavra de Deus para discernir sua realidade e compreender os caminhos que conduzem à vida.
Essa dimensão da escuta possui enorme importância para a Teologia Latino-americana. A fé não pode ser construída ignorando os clamores concretos do povo. É preciso escutar o grito dos pobres, das pessoas sem moradia, dos trabalhadores explorados, dos povos indígenas, das comunidades quilombolas, dos migrantes, das mulheres vítimas da violência, da juventude marginalizada e da própria Casa Comum ameaçada.
A metodologia latino-americana de leitura bíblica parte justamente dessa relação entre realidade, Palavra e ação. Medellín contribuiu decisivamente para uma Igreja que une fé e justiça e que encontra nas comunidades populares um espaço privilegiado para a leitura da Bíblia e para a transformação da realidade.
Por isso, “Ouve, Israel” pode tornar-se hoje “Ouça, Igreja; ouça, comunidade; ouça, povo de Deus!”. Uma Igreja que não escuta os pobres corre o risco de falar de Deus sem ouvir o próprio Deus que se manifesta no clamor dos pequenos.
2. “Iahweh é nosso Deus”: a fé possui uma dimensão comunitária
O texto não diz simplesmente “Iahweh é meu Deus”, mas “nosso Deus”. A fé bíblica possui uma dimensão comunitária. Deus estabelece uma relação com um povo e não simplesmente com indivíduos isolados.
Esse aspecto é particularmente significativo para as CEBs. Elas representam uma forma de viver a Igreja na qual a fé é compartilhada, refletida e celebrada em comunidade. Estudos destacam que as CEBs articulam oração, leitura bíblica, desafios concretos da vida e compromisso social, especialmente entre os setores populares.
A comunidade, portanto, não é apenas um lugar onde pessoas se reúnem para rezar. Ela constitui um espaço onde a Palavra é interpretada a partir da vida e onde a fé se transforma em compromisso.
O “nosso Deus” do Shemá questiona uma religiosidade individualista, centrada exclusivamente na salvação pessoal. Deus é nosso porque somos responsáveis uns pelos outros. Não é possível confessar Deus como Pai e, simultaneamente, aceitar que seus filhos sejam descartados pela sociedade.
3. “Iahweh é um só”: nenhuma forma de poder pode ocupar o lugar de Deus
A afirmação da unicidade de Deus possui também uma profunda dimensão crítica. Em seu contexto histórico, Israel vivia cercado por grandes impérios, divindades nacionais e estruturas de poder que pretendiam determinar o destino dos povos.
Dizer “Iahweh é um só” significa reconhecer que nenhum império é absoluto. Nenhum governante, sistema econômico ou projeto político pode reivindicar para si uma autoridade divina.
Essa afirmação pode ser extremamente atual. Quando o dinheiro se transforma em medida de todas as coisas; quando o mercado passa a determinar quem merece viver com dignidade; quando o poder político se apresenta como salvador absoluto; quando ideologias justificam violência, exclusão e desigualdade, a confissão do Shemá torna-se uma palavra profética.
Para a Teologia Latino-americana, essa dimensão é fundamental: Deus não pode ser utilizado para legitimar sistemas que produzem pobreza e exclusão. Pelo contrário, a experiência bíblica revela um Deus comprometido com a vida e com a libertação dos oprimidos.
Assim, confessar que Deus é um só significa também denunciar os “ídolos” contemporâneos: o lucro colocado acima da vida, o individualismo, o consumismo, o racismo, o patriarcado, a exploração dos trabalhadores, a destruição ambiental e toda estrutura que transforme pessoas em instrumentos descartáveis.
4. “Amarás… com todo o teu coração”: amor que compromete a existência inteira
O versículo 5 aprofunda a profissão de fé: “Amarás o Senhor, teu Deus, com todo o teu coração, com toda a tua alma e com toda a tua força.”
Na Bíblia, amar a Deus não significa apenas experimentar um sentimento religioso. O amor envolve a totalidade da pessoa e orienta suas escolhas, relações e práticas.
Por isso, a pergunta fundamental não é apenas: “Eu amo a Deus?”, mas: “Que consequências esse amor produz na minha maneira de viver?”
O Novo Testamento levará essa compreensão às últimas consequências. Jesus relacionará o amor a Deus com o amor ao próximo, mostrando que não existe verdadeira fidelidade a Deus separada da prática da justiça, da misericórdia e da solidariedade.
A espiritualidade das CEBs pode atualizar concretamente esse princípio. Amar a Deus significa participar da vida comunitária, visitar os enfermos, acompanhar as famílias vulnerabilizadas, lutar contra a fome, defender os direitos dos trabalhadores, proteger os territórios indígenas e quilombolas, cuidar da Casa Comum, acolher migrantes e combater todas as formas de discriminação.
A fé deixa, assim, de ser uma realidade desencarnada. Amar a Deus passa a significar colocar a própria existência a serviço da vida.
5. “Estas palavras estarão em teu coração”: a memória da Palavra
O versículo 6 determina que as palavras de Deus estejam “no coração”. Na tradição bíblica, o coração não é apenas sede dos sentimentos, mas centro da pessoa, lugar das decisões e da orientação da vida.
A Palavra precisa, portanto, tornar-se memória viva.
Aqui encontramos uma característica essencial das CEBs: a memória bíblica construída a partir da experiência cotidiana do povo. A Bíblia é lida não como objeto distante, mas como Palavra que ilumina acontecimentos concretos.
A Leitura Popular da Bíblia, desenvolvida fortemente na América Latina, procura justamente colocar em diálogo a experiência do povo com a experiência bíblica. A realidade ilumina a Bíblia e a Bíblia ilumina a realidade, conduzindo a uma ação transformadora.
Essa dinâmica impede dois extremos: uma leitura fundamentalista que ignora a história e uma leitura espiritualista que utiliza a Bíblia para fugir da realidade.
6. “Tu as repetirás a teus filhos”: uma fé transmitida pela vida
O versículo 7 apresenta uma responsabilidade intergeracional: “Tu as repetirás a teus filhos.” A fé não deve permanecer restrita ao espaço do culto. Ela deve ser transmitida na vida cotidiana: em casa, no caminho, ao se deitar e ao se levantar.
A expressão mostra que a educação da fé acontece em todos os espaços da existência. O cotidiano transforma-se em lugar de transmissão da memória, dos valores e da esperança.
Para as CEBs, isso significa recuperar uma pedagogia comunitária da fé. Crianças, adolescentes, jovens, adultos e idosos podem aprender juntos, compartilhando histórias, experiências e testemunhos.
Mas aquilo que transmitimos às novas gerações não pode ser simplesmente um conjunto de fórmulas religiosas. Precisamos transmitir uma fé comprometida com a vida, uma espiritualidade que ensine que ninguém é descartável e que os pobres possuem rosto, nome, história e dignidade.
As novas gerações precisam aprender que seguir Jesus implica assumir a causa do Reino de Deus, isto é, uma sociedade fundada na justiça, na fraternidade, na solidariedade e no cuidado com a criação.
7. Uma espiritualidade sociotransformadora
Dt 6,4-7 desafia as comunidades cristãs a superar uma espiritualidade puramente intimista. A fé bíblica possui consequências sociais.
O Shemá pergunta à comunidade: que tipo de sociedade estamos construindo? Se Deus é único e se devemos amá-lo com toda a nossa existência, então não podemos permanecer indiferentes diante da realidade daqueles que sofrem.
A experiência das CEBs demonstra precisamente essa articulação entre fé e transformação social. Medellín e Puebla reconheceram nelas uma expressão importante da renovação eclesial latino-americana, associada à evangelização, à promoção humana e à opção preferencial pelos pobres.
A Palavra lida em comunidade deve conduzir a compromissos concretos: organização popular, defesa dos Direitos Humanos, combate à fome e à pobreza, proteção dos territórios, defesa das mulheres e das crianças, acolhida aos migrantes, cuidado com os idosos, inclusão das pessoas com deficiência e compromisso com a justiça socioambiental.
Não se trata de instrumentalizar a Bíblia para fins políticos. Trata-se de reconhecer que a própria fé bíblica possui uma dimensão ética e social inseparável da relação com Deus.
8. Ação pastoral: ouvir, discernir e transformar
Uma pastoral inspirada em Dt 6,4-7 poderia organizar sua caminhada em três movimentos:
Primeiro: ouvir. Escutar a Palavra de Deus e, simultaneamente, escutar os clamores concretos do território. Antes de falar ao povo, a Igreja precisa aprender a escutá-lo.
Segundo: discernir. Colocar a realidade à luz da Palavra, perguntando: onde estão hoje os sinais de vida e os sinais de morte? Quais estruturas produzem exclusão? Quem são os “pequenos” que estão sendo esquecidos?
Terceiro: agir. Transformar a reflexão em compromisso. Uma reunião de comunidade não termina quando a Bíblia é fechada. Ela termina quando nasce um compromisso concreto com a vida.
Nesse sentido, cada Comunidade Eclesial de Base pode tornar-se uma pequena escola de cidadania, espiritualidade, solidariedade e esperança. Pode organizar visitas aos enfermos, ações contra a fome, acompanhamento de famílias vulneráveis, defesa dos territórios, formação bíblica, círculos de diálogo, iniciativas de economia solidária e participação nos espaços sociais onde a vida do povo é decidida.
Conclusão: amar a Deus é escolher a vida
Dt 6,4-7 começa com uma palavra simples e exigente: “Ouve!”. O Deus bíblico não é encontrado apenas no silêncio de uma experiência individual. Ele se revela também na história, na memória de um povo e no clamor daqueles que sofrem.
“Ouve, Israel” continua sendo uma palavra atual para a Igreja. Ouvir significa abrir os olhos para a realidade, reconhecer os gritos dos pobres e permitir que a Palavra de Deus questione nossas escolhas.
Para as Comunidades Eclesiais de Base, o Shemá pode tornar-se uma verdadeira escola de espiritualidade libertadora: escutar a Palavra, guardar a memória, amar a Deus com toda a existência e transformar esse amor em compromisso com os irmãos e irmãs mais vulnerabilizados.
Se Deus é único, nenhum ídolo pode ocupar seu lugar. Se devemos amá-lo com todo o coração, não podemos entregar nossa vida ao individualismo e à indiferença. E se devemos transmitir sua Palavra às novas gerações, precisamos ensinar, sobretudo pelo testemunho, que a fé cristã não pode ser separada da defesa da vida, da dignidade humana, da justiça social e do cuidado com a Casa Comum.
Assim, a antiga voz do Shemá continua ecoando no coração das comunidades: “Ouve!”. E a resposta das CEBs pode ser a resposta de uma Igreja que escuta, discerne, se compromete e caminha com os pobres na construção do Reino de Deus.
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