CONHECIMENTO QUE INCHA, AMOR QUE CONSTRÓI: MISERICÓRDIA E COMPROMISSO COM OS POBRES
Por Pe. Hermes A. Fernandes
A liturgia da Quinta-feira da 23ª Semana do Tempo Comum, celebrada em 10 de setembro de 2026, coloca diante da comunidade cristã duas palavras profundamente provocadoras: “o conhecimento incha, a caridade é que constrói” (1Cor 8,1) e “sede misericordiosos, como também o vosso Pai é misericordioso” (Lc 6,36). Lidos à luz da Teologia Latino-Americana e da experiência das Comunidades Eclesiais de Base (CEBs), esses textos questionam uma fé reduzida ao conhecimento religioso, às normas ou à defesa de privilégios e apresentam o seguimento de Jesus como caminho de solidariedade, misericórdia e transformação da realidade.
1. O contexto de 1Cor 8,1b-7.11-13: quando o conhecimento deixa de servir à vida
A Primeira Carta aos Coríntios nasce no contexto de uma comunidade marcada por conflitos, desigualdades sociais e diferentes compreensões da fé. Em 1Cor 8, Paulo aborda uma questão concreta: a possibilidade de comer carnes que haviam sido oferecidas aos ídolos. Em Corinto, uma cidade profundamente marcada pela cultura greco-romana, as práticas religiosas estavam inseridas também na vida social e econômica. A questão, portanto, não era simplesmente alimentar, mas envolvia identidade, consciência, relações comunitárias e pertencimento.
Alguns cristãos afirmavam possuir conhecimento suficiente para saber que os ídolos “não são nada” e que existe um único Deus. Paulo não rejeita essa afirmação teológica. Entretanto, introduz uma questão muito mais importante: o que fazemos com aquilo que sabemos?
Por isso, começa dizendo: “O conhecimento incha, a caridade é que constrói”. O verbo utilizado para “inchar” apresenta a ideia de uma pessoa que se torna orgulhosa de sua própria compreensão. Já “construir” remete à edificação da comunidade. A verdadeira sabedoria cristã, portanto, não pode ser medida pela quantidade de conhecimentos que alguém possui, mas pela capacidade de utilizar esse conhecimento para preservar e promover a vida do outro.
Paulo identifica uma situação concreta: alguns membros da comunidade, por sua história anterior de participação no culto aos ídolos, ainda não conseguiam comer aquela carne sem associá-la à antiga prática religiosa. Aquele que se julgava “forte” poderia, então, tornar-se causa de queda para o “fraco”. O problema deixa de ser a carne e passa a ser a responsabilidade ética diante do outro. O conhecimento, quando exercido sem amor, transforma-se em instrumento de dominação e exclusão.
O ponto culminante aparece no versículo 11: “por causa do teu conhecimento perece o fraco, o irmão pelo qual Cristo morreu”. A questão é radicalizada: ferir a consciência do irmão é pecar contra o próprio Cristo (v.12). Paulo chega a afirmar que prefere renunciar à carne para não provocar a queda de seu irmão (v.13).
Aqui encontramos uma importante chave para a Teologia Latino-Americana: nenhuma liberdade cristã pode ser exercida contra a vida dos mais vulneráveis.
2. De Corinto às periferias: quem são hoje os “fracos”?
A Leitura Popular da Bíblia pergunta: quem são hoje aqueles cuja vida pode ser ferida pelas nossas escolhas?
Nas comunidades populares, encontramos pessoas empobrecidas, trabalhadores precarizados, desempregados, moradores das periferias, pessoas em situação de rua, migrantes, indígenas, quilombolas, mulheres vítimas de violência, idosos abandonados, crianças vulnerabilizadas e tantos outros que permanecem à margem da sociedade.
É preciso, entretanto, cuidado com a expressão “fracos”. Paulo não está dizendo que essas pessoas possuem menor dignidade ou menor valor. Ao contrário: ele afirma que são “irmãos pelos quais Cristo morreu”. A fragilidade não diminui sua dignidade; ela aumenta a responsabilidade da comunidade diante deles.
A perspectiva latino-americana permite fazer uma pergunta ainda mais profunda: quem possui hoje o poder de definir o que é conhecimento, liberdade e verdade? Muitas vezes, os grupos socialmente privilegiados estabelecem as regras e depois chamam de “fraqueza” a condição daqueles que sofrem as consequências dessas mesmas regras.
A mensagem paulina nos convida a inverter essa lógica. O critério cristão não é: “Eu posso fazer isso?”. A pergunta é: “Minha liberdade contribui para a vida do meu irmão e da minha irmã?”
Essa perspectiva possui grande importância para as CEBs. A comunidade cristã não pode ser apenas espaço de transmissão de doutrinas; deve ser lugar onde a vida dos pobres é escutada, defendida e valorizada. O conhecimento bíblico somente cumpre sua finalidade quando se transforma em serviço, solidariedade e compromisso.
3. Lc 6,27-38: a revolução do amor e da misericórdia
O Evangelho situa-nos no chamado “Sermão da Planície” de Lucas. Depois de proclamar as bem-aventuranças e denunciar situações de injustiça, Jesus dirige-se aos discípulos e apresenta uma ética que rompe com a lógica da reciprocidade.
“Amai os vossos inimigos e fazei o bem aos que vos odeiam” (Lc 6,27). Jesus não está propondo uma atitude ingênua diante da violência nem exigindo que as vítimas simplesmente aceitem a opressão. Sua proposta é romper o círculo da violência e da vingança, recusando reproduzir a lógica daquele que pratica o mal.
A novidade está justamente na superação da lógica: “eu faço o bem a quem me faz o bem”. Essa é uma relação baseada na reciprocidade e no interesse. Jesus propõe algo diferente: fazer o bem sem esperar retorno (v.35).
Essa proposta encontra seu centro na afirmação: “Sede misericordiosos, como também o vosso Pai é misericordioso” (v.36). A misericórdia, na perspectiva bíblica, não é simples sentimento de piedade. É uma atitude concreta diante do sofrimento do outro. Ela mobiliza, aproxima, acolhe e transforma.
Por isso, o texto termina com imagens econômicas: “Dai e vos será dado. Uma boa medida, calcada, sacudida, transbordante…” (v.38). A linguagem da medida remete à vida cotidiana e às relações de troca. Jesus propõe uma economia alternativa àquela baseada exclusivamente no interesse, no lucro e na reciprocidade.
4. Uma leitura sociotransformadora para as CEBs
Quando colocamos 1Cor 8 e Lc 6 lado a lado, encontramos uma profunda unidade: o centro da vida cristã não é o privilégio individual, mas a vida do outro.
Paulo questiona quem utiliza seu conhecimento para exercer uma liberdade que prejudica os mais vulneráveis. Jesus questiona uma religiosidade que ama apenas aqueles que podem retribuir. Ambos desafiam uma fé autocentrada.
Essa mensagem é particularmente importante no contexto latino-americano. Uma Igreja comprometida com o Evangelho não pode permanecer indiferente diante da fome, do racismo, da violência, da exploração do trabalho, da concentração de renda, da destruição ambiental, da violência contra os povos originários, da exclusão dos migrantes e da marginalização das periferias.
A misericórdia cristã possui, portanto, uma dimensão pessoal, comunitária e estrutural. Não basta ajudar uma pessoa que passa fome; é necessário também questionar as estruturas que produzem a fome. Não basta consolar uma família atingida pela violência; é preciso trabalhar pela construção da paz e por políticas públicas que defendam a vida. Não basta visitar uma pessoa em situação de rua; é necessário perguntar por que existem pessoas condenadas à exclusão.
É nesse ponto que a espiritualidade das CEBs encontra sua força: oração, Palavra, vida comunitária e compromisso social formam uma única experiência de fé.
5. Ação pastoral: conhecimento que serve, misericórdia que transforma
A Palavra proclamada nesta Quinta-feira pode gerar algumas atitudes pastorais concretas:
1. Escutar os pobres antes de falar sobre eles. As comunidades devem criar espaços onde os excluídos possam narrar sua própria história e participar das decisões pastorais.
2. Fazer da Bíblia instrumento de conscientização. A leitura comunitária deve ajudar a identificar as formas atuais de idolatria: dinheiro, poder, consumo, individualismo, racismo e toda realidade que transforma pessoas em objetos.
3. Praticar uma economia da partilha. O apelo de Jesus para dar sem esperar retorno pode inspirar fundos comunitários, cozinhas solidárias, iniciativas de geração de renda, apoio a desempregados e ações de defesa dos trabalhadores.
4. Romper os ciclos de violência. Amar o inimigo não significa legitimar a injustiça. As CEBs podem promover círculos de diálogo, cultura de paz, acompanhamento das vítimas e ações pela justiça e pelos direitos humanos.
5. Defender os mais vulneráveis. Como Paulo, a comunidade deve perguntar constantemente se suas decisões colocam alguém em situação de exclusão ou sofrimento.
6. Unir oração e transformação social. A celebração eucarística não termina no templo. O pão partilhado no altar exige compromisso com o pão que falta na mesa dos pobres.
Conclusão: uma Igreja que constrói e não exclui
A Palavra desta Quinta-feira da 23ª Semana do Tempo Comum apresenta um critério exigente para o discipulado: o conhecimento cristão somente é verdadeiro quando se transforma em amor; e o amor somente é autêntico quando se transforma em misericórdia concreta.
Paulo nos ensina que não podemos utilizar nossa liberdade de maneira indiferente diante da fragilidade do outro. Jesus nos conduz ainda mais longe: devemos amar, fazer o bem, perdoar, partilhar e agir com misericórdia, porque o Pai é bom para com todos.
Para as Comunidades Eclesiais de Base, essa Palavra permanece profundamente atual. A comunidade cristã é chamada a ser espaço onde ninguém seja descartado, onde os pobres não sejam apenas destinatários de assistência, mas sujeitos da missão e da transformação social.
Assim, “o conhecimento que incha” dá lugar ao conhecimento que serve; a liberdade individual dá lugar à responsabilidade comunitária; a reciprocidade dá lugar à gratuidade; e a indiferença dá lugar à misericórdia.
O Evangelho nos desafia a construir uma Igreja que caminhe com os pobres, escute os excluídos, enfrente as estruturas que produzem sofrimento e testemunhe, no meio das contradições do mundo, que a misericórdia de Deus pode tornar-se prática histórica de fraternidade, justiça e vida para todos.
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