Reflexão para Quarta-feira da 26ª Semana do Tempo Comum – Memória Litúrgica de São Jerônimo

Entre o clamor de Jó e o caminho de Jesus: uma fé que se faz compromisso

Comentário à Liturgia Eucarística da Quarta-feira da 26ª Semana do Tempo Comum – Memória de São Jerônimo, presbítero e doutor da Igreja – Jó 9,1-12.14-16; Lc 9,57-62

Por Pe. Hermes A. Fernandes

A liturgia da Quarta-feira da 26ª Semana do Tempo Comum, celebrando a memória de São Jerônimo, coloca diante da comunidade cristã duas experiências que parecem distintas, mas profundamente se entrelaçam: o clamor de Jó diante do mistério do sofrimento e o chamado de Jesus ao seguimento radical. A primeira leitura apresenta um ser humano que procura compreender a ação de Deus em meio à dor; o Evangelho apresenta Jesus a caminho e convidando pessoas a fazerem do Reino de Deus o centro de suas vidas.

Lidos a partir da Teologia Latino-americana e da experiência das Comunidades Eclesiais de Base (CEBs), esses textos nos ajudam a compreender que a fé cristã não pode permanecer indiferente diante do sofrimento humano. A Palavra de Deus nasce dentro da história e nela precisa ser acolhida, discernida e transformada em compromisso com a vida, especialmente com a vida ameaçada dos pobres, marginalizados e excluídos.

Jó: o grito de quem sofre não pode ser silenciado

O Livro de Jó constitui uma das grandes reflexões da Bíblia sobre o sofrimento do justo. Jó não é apresentado simplesmente como alguém que perdeu sua fé. Ao contrário, é precisamente porque leva Deus a sério que ele não consegue aceitar respostas fáceis para sua situação.

No capítulo 9, Jó responde aos argumentos de seus interlocutores. Sua questão fundamental é: como compreender a justiça de Deus quando uma pessoa que procura viver corretamente encontra-se mergulhada no sofrimento? O texto reconhece a grandeza e a transcendência de Deus: ele é apresentado como Senhor da criação, aquele que desloca montanhas, abala a terra e realiza “prodígios insondáveis” (Jó 9,5-10). Mas essa grandeza divina produz em Jó uma sensação ainda mais profunda de impotência: “Se passa junto de mim, não o vejo” (9,11).

É importante perceber que Jó não está fazendo uma afirmação abstrata sobre Deus. Ele fala a partir de sua própria experiência. Seu sofrimento tornou-se o lugar teológico de sua pergunta.

Aqui encontramos uma importante contribuição para a leitura popular da Bíblia. O povo também lê a Palavra a partir de sua própria realidade. O desempregado lê Jó a partir de sua luta pela sobrevivência; a família que perdeu alguém para a violência lê Jó a partir do luto; quem não possui moradia lê Jó a partir da insegurança; os povos atingidos pela destruição ambiental leem Jó a partir das feridas provocadas sobre a Casa Comum.

Por isso, Jó nos ensina a não oferecer explicações simplistas para o sofrimento. Uma religiosidade que afirma que toda pobreza é consequência de pecado, falta de fé ou castigo divino acaba transformando Deus em legitimador da injustiça. O Livro de Jó questiona exatamente esse tipo de teologia.

A pergunta cristã diante do sofrimento não deve ser inicialmente “quem é culpado?”, mas “quem está sofrendo, por que está sofrendo e o que podemos fazer para que sua dignidade seja respeitada?”

Uma pastoral que escuta antes de explicar

O clamor de Jó encontra profunda ressonância na experiência das Comunidades Eclesiais de Base. Uma CEB não deveria ser simplesmente um lugar onde se repetem respostas religiosas já prontas. Ela precisa ser espaço de escuta da vida, leitura comunitária da Palavra e discernimento da ação de Deus na história.

A leitura popular da Bíblia permite que o texto bíblico dialogue com a realidade concreta. A Palavra ilumina a vida, mas também a vida ajuda a descobrir novas dimensões da Palavra.

O Salmo proclamado nesta celebração reforça essa dinâmica: “Chegue a minha oração até a vossa presença!” (Sl 87/88). O orante não esconde sua angústia. Ele clama, pergunta e insiste.

Isso é particularmente significativo para uma pastoral dos pobres. A Igreja não pode ter medo das perguntas que nascem da dor. Uma comunidade madura não silencia o grito do povo em nome de uma falsa imagem de Deus. Ao contrário, leva esse grito para a oração, para a reflexão comunitária e para a ação transformadora.

O sofrimento de Jó, portanto, não deve produzir resignação diante da injustiça. Deve despertar uma espiritualidade capaz de reconhecer a presença de Deus junto aos que sofrem e, ao mesmo tempo, assumir a responsabilidade humana pela transformação das situações que geram sofrimento.

Jesus e o caminho do discipulado

O Evangelho de Lucas apresenta Jesus caminhando. O contexto imediato é fundamental: Jesus está se dirigindo para Jerusalém, e esse caminho ocupa lugar decisivo na narrativa lucana. O discipulado acontece, portanto, no caminho.

Três pessoas aparecem diante de Jesus. A primeira declara: “Eu te seguirei para onde quer que fores”. Jesus responde: “As raposas têm tocas e os pássaros têm ninhos; mas o Filho do Homem não tem onde repousar a cabeça” (Lc 9,57-58).

Jesus não apresenta o discipulado como busca de segurança, privilégio ou conforto. O caminho do Reino passa pela vulnerabilidade e pela disposição de abandonar determinadas seguranças para colocar-se a serviço da missão.

Essa palavra possui uma enorme força quando lida a partir da realidade dos pobres. Há pessoas que não possuem uma casa segura, um trabalho estável ou sequer o necessário para sobreviver. Quando Jesus afirma que o Filho do Homem não tem onde reclinar a cabeça, o Evangelho nos coloca diante da realidade dos sem-teto, dos migrantes, dos moradores de rua, das famílias expulsas de seus territórios e de tantos que vivem em permanente insegurança.

O discípulo de Jesus não pode construir uma espiritualidade distante dessa realidade.

A segunda pessoa recebe diretamente o chamado: “Segue-me!”. Ela responde pedindo primeiro para enterrar o pai. Jesus afirma: “Deixa que os mortos enterrem seus mortos; mas tu, vai anunciar o Reino de Deus” (9,59-60).

A frase é radical e precisa ser compreendida no contexto do Evangelho. Jesus não está desprezando os vínculos familiares nem negando o respeito devido aos mortos. O sepultamento possuía enorme importância na cultura judaica. A força da expressão está na urgência do Reino: a missão não pode ser indefinidamente adiada.

A terceira pessoa também quer seguir Jesus, mas pede primeiro para despedir-se dos familiares. A resposta é igualmente contundente: “Quem põe a mão no arado e olha para trás não está apto para o Reino de Deus” (9,62).

A imagem do agricultor é muito concreta. Quem conduz o arado precisa olhar para frente para manter o sulco. Jesus utiliza a experiência cotidiana do trabalho agrícola para falar da decisão do discípulo: o Reino exige direção, perseverança e compromisso.

A mão no arado e a opção pelos pobres

Para a Teologia Latino-americana, o discipulado não pode ser compreendido como mera adesão intelectual a Jesus. Seguir Jesus significa assumir sua prática e sua missão.

A opção pelos pobres, portanto, não é um elemento secundário da vida cristã. Ela nasce da própria dinâmica do Reino anunciado por Jesus. O discípulo é chamado a caminhar na direção daqueles que estão à margem, daqueles cuja dignidade é negada e daqueles que permanecem invisíveis aos olhos de uma sociedade marcada pela desigualdade.

Por isso, colocar a mão no arado hoje significa assumir concretamente compromissos com os pobres, trabalhadores precarizados, pessoas em situação de rua, migrantes, refugiados, povos indígenas, comunidades quilombolas, mulheres vítimas de violência, crianças e adolescentes vulnerabilizados, idosos abandonados, pessoas privadas de liberdade e todos aqueles que sofrem diferentes formas de exclusão.

Significa também defender a Casa Comum diante das agressões ambientais que atingem principalmente as populações mais vulneráveis.

As CEBs podem tornar esse compromisso concreto por meio de círculos bíblicos, visitas às famílias, pastorais sociais, ações solidárias, organização comunitária, defesa de direitos, cuidado com pessoas em situação de vulnerabilidade e participação responsável na construção de uma sociedade mais justa.

A Eucaristia não termina no altar. A comunidade que escuta a Palavra e participa da mesa do Senhor é enviada novamente para o caminho.

São Jerônimo e a Palavra que se torna vida

A memória litúrgica de São Jerônimo acrescenta uma dimensão particularmente significativa à celebração. Jerônimo dedicou sua vida ao estudo e à tradução das Escrituras. Sua memória recorda à Igreja que a Palavra precisa ser conhecida, estudada, proclamada e compreendida.

Mas conhecer a Bíblia não é acumular informações religiosas. A Palavra precisa alcançar a vida.

Nesse sentido, há uma profunda convergência entre a missão de São Jerônimo e a experiência das CEBs: a Bíblia precisa chegar ao povo e o povo precisa encontrar sua própria vida dentro da Bíblia.

Uma Igreja que conhece a Escritura, mas permanece indiferente ao sofrimento humano, ainda não permitiu que a Palavra se tornasse plenamente vida. A exegese cristã precisa conduzir à hermenêutica da existência e à prática do amor.

Conclusão: do clamor à missão

Jó nos coloca diante do clamor dos que sofrem. Jesus coloca seus discípulos a caminho. Entre os dois textos existe uma pergunta fundamental para a comunidade cristã: o que fazemos diante da dor humana?

Podemos oferecer respostas prontas e justificar a realidade. Ou podemos escutar, discernir e agir.

Podemos permanecer instalados em nossas seguranças religiosas. Ou podemos colocar a mão no arado e caminhar com Jesus.

A liturgia desta quarta-feira da 26ª Semana do Tempo Comum nos convida a uma fé que não foge das perguntas de Jó nem recua diante das exigências do Evangelho. A comunidade cristã é chamada a acolher o grito dos pobres, discernir as causas de seu sofrimento e transformar a compaixão em compromisso.

Nas CEBs, a Palavra de Deus pode continuar sendo uma força de libertação quando lida com os pés na realidade, o coração aberto à ação do Espírito e os olhos voltados para aqueles que mais sofrem.

Jó nos ensina que o sofrimento pode tornar-se clamor diante de Deus. Jesus nos ensina que o encontro com Deus se transforma em caminho e missão.

Por isso, celebrar a Eucaristia nesta memória de São Jerônimo significa deixar que a Palavra nos conduza do altar para a vida, da oração para a solidariedade, da escuta para o compromisso e da fé para a transformação da realidade.

A mão que recebe o pão eucarístico é a mesma mão chamada a cuidar do ferido. A boca que proclama a Palavra é a mesma que precisa dar voz aos que foram silenciados. E os pés que se aproximam da mesa do Senhor são os mesmos pés que devem colocar-se a caminho, ao encontro dos pobres, marginalizados e excluídos.

Seguir Jesus é não olhar para trás quando o Reino nos chama a caminhar.


Deixe um comentário

Crie um site ou blog no WordPress.com

Acima ↑