Reflexão para Sexta-feira da 23ª Semana do Tempo Comum

Evangelho que se faz serviço e olhar que se deixa converter

Por Pe. Hermes A. Fernandes

A liturgia da Sexta-feira da 23ª Semana do Tempo Comum coloca diante de nós dois textos que se iluminam mutuamente. Em 1Cor 9,16-19.22b-27, Paulo apresenta sua missão como serviço gratuito ao Evangelho; em Lc 6,39-42, Jesus adverte contra a cegueira daqueles que pretendem conduzir os outros sem antes reconhecer as próprias limitações. A Palavra, portanto, questiona simultaneamente a finalidade da missão cristã e a qualidade do olhar daquele que evangeliza. Na perspectiva da Teologia Latino-americana e das Comunidades Eclesiais de Base (CEBs), trata-se de um convite a uma Igreja servidora, próxima dos pobres e capaz de reconhecer seus próprios limites para não reproduzir as cegueiras e exclusões presentes na sociedade.

1. Paulo: o Evangelho não é privilégio, mas missão

A Primeira Carta aos Coríntios nasceu em uma comunidade marcada por conflitos, divisões e disputas relacionadas à autoridade, ao prestígio e aos diferentes dons. Nos capítulos 8–10, Paulo trata especialmente da liberdade cristã e de como ela deve ser colocada a serviço do bem dos outros.

É nesse contexto que afirma: “Ai de mim se eu não pregar o Evangelho!”. A missão não é apresentada como fonte de prestígio pessoal, mas como responsabilidade recebida. Paulo chega a renunciar a direitos legítimos para que o Evangelho seja oferecido gratuitamente. Sua liberdade não é utilizada para afirmar privilégios, mas para colocar-se a serviço.

A expressão “fiz-me tudo para todos” (v. 22) não significa abandonar convicções ou adaptar o Evangelho às conveniências de cada situação. Significa, antes, a disposição de aproximar-se concretamente das pessoas, compreender suas condições e colocar-se ao lado delas. O próprio Paulo afirma que se fez “fraco com os fracos”. A missão cristã, portanto, exige proximidade, escuta, empatia e despojamento.

Essa perspectiva possui grande afinidade com a Teologia Latino-americana. Evangelizar não significa simplesmente levar uma mensagem religiosa a pessoas consideradas objeto de evangelização. Significa entrar na realidade concreta do povo, reconhecer Deus já presente na caminhada dos pobres e deixar-se interpelar pelos seus sofrimentos, esperanças e lutas.

As CEBs expressam essa dinâmica quando a Palavra de Deus é lida a partir da vida. O povo não é mero destinatário da evangelização: é sujeito eclesial, sujeito da interpretação da Palavra e sujeito da transformação da realidade.

Paulo compara ainda a missão à corrida de um atleta. A imagem não deve ser entendida como competição individual pela salvação. O contexto da carta mostra que a “disciplina” cristã consiste em orientar a própria liberdade pelo amor. O verdadeiro prêmio não é a conquista de poder, reconhecimento ou superioridade, mas a fidelidade ao Evangelho.

Para uma Igreja latino-americana, isso significa perguntar: para quem estamos evangelizando? De que maneira evangelizamos? Quem ocupa o centro de nossas preocupações pastorais?

Uma comunidade que anuncia o Evangelho, mas permanece distante dos pobres, dos moradores das periferias, dos povos indígenas, das comunidades quilombolas, das pessoas em situação de rua, dos migrantes, dos trabalhadores explorados e de todos os excluídos, corre o risco de anunciar um Evangelho desencarnado.

2. Jesus: “Pode um cego guiar outro cego?”

No Evangelho de Lucas, Jesus continua seu ensinamento aos discípulos. Depois das bem-aventuranças, dos “ais” e do mandamento do amor aos inimigos, apresenta uma série de imagens que ajudam a comunidade a compreender como deve viver.

A primeira pergunta é contundente: “Pode um cego guiar outro cego?”. A imagem não é uma condenação das pessoas que possuem deficiência visual, mas uma metáfora sobre a incapacidade de quem não consegue discernir o caminho do Reino e, mesmo assim, pretende conduzir os outros.

Jesus acrescenta: “Um discípulo não é maior do que o mestre; todo discípulo bem formado será como o mestre.” O objetivo da formação cristã é tornar o discípulo semelhante ao Mestre. E qual é o caminho de Jesus? É o caminho do serviço, da misericórdia, da defesa dos pequenos e da aproximação daqueles que eram considerados impuros, pecadores e excluídos.

Em seguida aparece a conhecida imagem do cisco e da trave. Jesus não afirma que o discípulo jamais deve ajudar a corrigir o irmão. O problema está na incoerência de quem se coloca como juiz do outro sem realizar primeiro um processo de conversão pessoal.

A crítica de Jesus é dirigida à hipocrisia: enxergar com facilidade o pequeno defeito do outro enquanto se permanece incapaz de perceber aquilo que compromete profundamente a própria vida.

Essa palavra possui enorme atualidade eclesial. A Igreja pode tornar-se “cega” quando passa a enxergar apenas os pecados individuais dos pobres e deixa de perceber as estruturas sociais que produzem pobreza, violência, racismo, fome, desemprego e exclusão. Pode também tornar-se “cega” quando condena comportamentos dos marginalizados, mas não questiona os mecanismos econômicos, políticos e culturais que geram marginalização.

3. Uma Igreja que aprende a enxergar a partir dos pobres

A aproximação entre os dois textos é particularmente significativa. Paulo ensina que a missão exige fazer-se próximo dos outros; Jesus ensina que ninguém pode pretender conduzir os outros sem primeiro deixar-se converter.

Aqui encontramos uma contribuição fundamental da Teologia Latino-americana: a conversão pastoral passa por uma mudança de olhar.

Não basta olhar para os pobres. É necessário aprender a olhar a realidade a partir dos pobres.

Essa mudança é decisiva. Quando olhamos os pobres apenas de fora, podemos transformá-los em objetos de assistência. Quando aprendemos a olhar a realidade a partir deles, começamos a compreender as causas da pobreza e somos chamados à solidariedade, à justiça e à transformação social.

É exatamente nesse terreno que as Comunidades Eclesiais de Base possuem uma missão profética. A CEB não deve ser apenas um espaço onde pessoas se reúnem para rezar, mas uma comunidade que lê a Bíblia, lê a realidade e procura discernir caminhos de ação. A Palavra ilumina a vida, e a vida ajuda a compreender a Palavra.

O “cisco” pode representar nossas pequenas diferenças e limitações comunitárias; a “trave” pode ser a incapacidade de perceber estruturas de pecado que atingem milhões de pessoas. Não podemos gastar toda nossa energia julgando o irmão enquanto permanecemos indiferentes diante da fome, da violência, do racismo, da destruição ambiental, da concentração de riqueza e das diversas formas de exclusão.

4. Dimensão sociotransformadora: evangelizar é comprometer-se

Os textos desta liturgia nos recordam que a evangelização não pode ser reduzida à transmissão de conteúdos religiosos. O Evangelho deseja formar discípulos capazes de participar da construção de uma sociedade mais humana.

O compromisso com os pobres não é um acréscimo opcional à missão cristã. Ele pertence ao próprio coração do Evangelho. Por isso, a ação pastoral das CEBs deve favorecer processos concretos de participação e transformação.

Isso implica criar espaços comunitários para escutar os que sofrem, identificar as causas das injustiças, defender direitos, fortalecer organizações populares, acompanhar trabalhadores, apoiar migrantes, cuidar da Casa Comum, combater todas as formas de discriminação e promover políticas públicas voltadas para a dignidade humana.

Também exige uma permanente autocrítica eclesial. Antes de perguntar “qual é o problema do outro?”, precisamos perguntar: que cegueiras existem em nós e em nossas comunidades? Quem ainda não conseguimos enxergar? Quem está sendo deixado para trás?

A missão de Paulo e o ensinamento de Jesus convergem numa mesma direção: o discípulo não existe para si mesmo. Existe para o Evangelho e para a vida.

5. Para a caminhada das Comunidades Eclesiais de Base

A Palavra desta sexta-feira pode ser transformada em um verdadeiro programa pastoral para as CEBs:

Primeiro: anunciar o Evangelho com gratuidade, evitando transformar a missão em instrumento de poder ou prestígio.

Segundo: aproximar-se concretamente dos pobres e excluídos, não apenas para falar sobre eles, mas para escutá-los e caminhar com eles.

Terceiro: realizar uma permanente conversão do olhar, reconhecendo as próprias “traves” e preconceitos.

Quarto: unir oração, reflexão bíblica e compromisso social, para que a fé produza frutos concretos de justiça e fraternidade.

Quinto: formar discípulos capazes de discernir as estruturas que produzem exclusão e de participar da transformação da sociedade.

A pergunta de Jesus permanece atual: “Pode um cego guiar outro cego?”. E Paulo nos oferece uma resposta através de sua própria vida: o evangelizador deve colocar-se a serviço, tornar-se próximo e fazer da liberdade um instrumento de amor.

Assim, a liturgia de hoje nos chama a uma Igreja que não pretende simplesmente apontar os defeitos do mundo, mas que começa por deixar-se converter pela Palavra. Uma Igreja que reconhece suas próprias cegueiras e, por isso mesmo, aprende a enxergar melhor os pobres, os marginalizados e os excluídos.

Nas CEBs, essa conversão do olhar pode tornar-se prática cotidiana: Bíblia na mão, realidade diante dos olhos, coração junto aos pobres e compromisso transformador na caminhada. É assim que o Evangelho deixa de ser apenas palavra anunciada e se transforma em vida partilhada, justiça construída e esperança organizada.


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