Reflexão para Quinta-feira da 26ª Semana do Tempo Comum – Santa Teresinha do Menino Jesus

O REDENTOR VIVE E A MISSÃO SE FAZ CAMINHO

Liturgia Eucarística – Quinta-feira da 26ª Semana do Tempo Comum
Memória de Santa Teresinha do Menino Jesus

Por Pe. Hermes A. Fernandes

A Liturgia da Palavra desta quinta-feira da 26ª Semana do Tempo Comum coloca diante de nós duas experiências profundamente humanas e inseparáveis da missão cristã: o sofrimento de quem clama por justiça e o envio de discípulos para anunciar a proximidade do Reino de Deus. De um lado, encontramos Jó, homem ferido pela dor, incompreendido e injustamente acusado; de outro, Jesus envia seus discípulos para percorrer cidades e aldeias, levando paz, cuidado, cura e a Boa-Nova do Reino.

A memória litúrgica de Santa Teresinha do Menino Jesus, celebrada em 1º de outubro, ilumina particularmente esse encontro entre sofrimento, confiança e missão. A Igreja a reconhece como Padroeira das Missões, embora tenha vivido grande parte de sua existência no Carmelo de Lisieux. Sua espiritualidade do “pequeno caminho” recorda que a missão não depende necessariamente de grandes realizações, mas de um amor concreto, humilde e inteiramente entregue a Deus.

1. Jó: a fé daquele que sofre e não aceita ser culpabilizado

Jó 19,21-27 encontra-se no coração de um longo diálogo entre Jó e seus amigos. O protagonista perdeu seus bens, seus filhos, sua saúde e sua posição social. Entretanto, além do sofrimento físico e material, existe uma dor ainda mais profunda: aqueles que deveriam consolá-lo transformam-se em acusadores. Para eles, o sofrimento de Jó seria consequência necessária de algum pecado.

A teologia defendida pelos amigos estabelece uma relação automática entre sofrimento e culpa. Jó, porém, contesta essa lógica. Seu sofrimento não pode ser utilizado como prova de sua culpabilidade. É justamente nesse contexto que ele clama: “Compadecei-vos de mim, meus amigos, porque a mão de Deus me feriu” (Jó 19,21).

A leitura latino-americana do texto permite perceber aqui uma questão extremamente atual. Quantas vezes os pobres, desempregados, moradores de periferias, pessoas em situação de rua, migrantes, indígenas, camponeses, mulheres vítimas de violência e tantos outros excluídos são responsabilizados pela própria situação? Quantas vezes a pobreza é apresentada como resultado de incapacidade individual, falta de esforço ou ausência de fé?

Jó denuncia uma espiritualidade que transforma a vítima em culpada. Seu grito é, portanto, também um grito por justiça e dignidade.

É nesse contexto que aparece uma das afirmações mais conhecidas da tradição bíblica: “Eu sei que o meu Redentor vive” (Jó 19,25). O termo hebraico go’el, traduzido como “redentor”, possui originalmente sentido jurídico e familiar: refere-se ao defensor ou resgatador daquele que se encontra vulnerável e não consegue defender seus próprios direitos.

Por isso, o texto não deve ser retirado de seu contexto para transformá-lo simplesmente em uma afirmação abstrata sobre a vida futura. Jó está afirmando sua confiança de que Deus não permanecerá indiferente diante da injustiça. Ele espera que sua causa seja reconhecida e que sua dignidade seja restituída.

A passagem de Jó 19,26-27 apresenta dificuldades textuais e interpretativas importantes. A expressão hebraica referente a “minha carne” permite diferentes traduções, razão pela qual não é prudente atribuir ao texto, de maneira simplista, uma doutrina já plenamente desenvolvida da ressurreição corporal. O núcleo da afirmação, contudo, é claro: Jó espera ver a Deus e experimentar pessoalmente sua vindicação.

Para as Comunidades Eclesiais de Base, essa palavra possui enorme força pastoral: Deus escuta o grito daquele que sofre. A fé não pode ser utilizada para silenciar o sofrimento dos pobres. Ao contrário, a fé bíblica dá voz àquele que não tem voz, preserva sua memória e mantém viva a esperança de que a injustiça não terá a última palavra.

2. Jesus envia os discípulos: a missão começa pela proximidade

No Evangelho de Lucas 10,1-12, Jesus escolhe setenta e dois discípulos e os envia, dois a dois, para as cidades e lugares onde ele próprio haveria de chegar. Há uma importante variante textual entre “setenta” e “setenta e dois”; a segunda leitura é amplamente atestada e pode evocar, simbolicamente, a universalidade da missão.

O detalhe fundamental, porém, está no fato de que Jesus não envia os discípulos isoladamente. Eles vão “dois a dois”. A missão cristã não é empreendimento individual nem projeto de protagonismo pessoal. É experiência comunitária.

Aqui encontramos uma profunda convergência com a espiritualidade das Comunidades Eclesiais de Base. A fé é vivida em comunidade, a Palavra é partilhada, a realidade é lida à luz do Evangelho e a missão nasce do discernimento comunitário.

Jesus declara: “A colheita é grande, mas os trabalhadores são poucos” (Lc 10,2). A imagem da colheita não significa uma campanha de conquista religiosa. A missão consiste em entrar na realidade humana para descobrir onde Deus já está agindo e colaborar com essa ação.

Por isso, os discípulos devem partir sem excesso de segurança material: “Não leveis bolsa, nem sacola, nem sandálias” (Lc 10,4). A missão não pode transformar-se em busca de poder, prestígio ou enriquecimento. O missionário deve estar suficientemente livre para aproximar-se das pessoas e suficientemente pobre para depender também da acolhida do povo.

O mandato seguinte é extraordinariamente significativo: “Quando entrardes numa casa, dizei primeiro: Paz a esta casa!” (Lc 10,5). Antes de ensinar, o discípulo estabelece relação. Antes de falar, aproxima-se. Antes de converter alguém, reconhece a dignidade de quem o acolhe.

A missão começa pela presença.

E Jesus vai ainda mais longe: “Curai os doentes que nela houver e dizei ao povo: O Reino de Deus está próximo de vós” (Lc 10,9). Anunciar o Reino e cuidar das pessoas são duas dimensões inseparáveis. A evangelização não pode ser reduzida à transmissão de doutrinas. O Reino manifesta-se onde a vida é defendida, onde o sofrimento é acolhido, onde a dignidade é restaurada e onde os excluídos encontram espaço.

Estudos sobre Lucas 10 destacam precisamente essa articulação entre missão, paz, acolhida, cuidado dos enfermos e anúncio do Reino. O texto apresenta uma síntese das características da missão cristã segundo Lucas.

3. Jó e Lucas: da escuta do grito à prática missionária

A aproximação entre as duas leituras revela um itinerário pastoral muito importante.

Jó representa o grito daquele que sofre. Lucas apresenta os discípulos que são enviados para encontrar aqueles que sofrem.

Assim, a Igreja não pode limitar-se a ouvir o clamor dos pobres dentro de seus templos. Precisa colocar-se a caminho. A missão exige sair das estruturas eclesiais e entrar nas periferias geográficas e existenciais onde a vida está ameaçada.

É exatamente aqui que a Teologia Latino-americana oferece uma chave fundamental de leitura. Deus não é indiferente diante da história humana. A opção preferencial pelos pobres não significa transformar os pobres em objetos de assistência, mas reconhecê-los como sujeitos da evangelização, da história e da construção do Reino.

As CEBs podem concretizar essa missão através da visita às famílias, da escuta dos idosos e enfermos, do acompanhamento das pessoas em situação de vulnerabilidade, da defesa dos trabalhadores, da solidariedade com migrantes e refugiados, da atenção às juventudes, da defesa das mulheres vítimas de violência, do compromisso com os povos indígenas e comunidades tradicionais e da defesa da Casa Comum.

Também é necessário enfrentar as estruturas que produzem exclusão. A pastoral não pode limitar-se a distribuir alimentos quando existem estruturas que continuamente produzem fome; nem pode contentar-se em consolar quem perdeu sua moradia sem questionar os mecanismos que negam o direito à habitação.

O Evangelho de Lucas chama os discípulos a anunciar: “O Reino de Deus está próximo”. Portanto, a missão deve perguntar: onde o Reino precisa tornar-se visível hoje? Na luta pela terra? Na defesa das águas? Na proteção das florestas? Na dignidade do trabalho? Na superação da fome? Na defesa da vida das populações periféricas? No combate ao racismo e à violência? Na construção da paz?

4. Santa Teresinha: a grande missão realizada no pequeno caminho

A memória de Santa Teresinha oferece uma perspectiva particularmente bela para esta liturgia. Ela foi proclamada Doutora da Igreja e é reconhecida como Padroeira das Missões. Sua espiritualidade enfatiza a confiança, a humildade, a simplicidade e o amor realizado nas pequenas ações cotidianas.

Sua presença nesta liturgia impede que pensemos a missão apenas em termos de grandes projetos. A missão começa muitas vezes naquilo que parece pequeno: escutar uma pessoa, visitar um doente, acompanhar uma família, defender alguém injustiçado, acolher quem chegou de longe, repartir o pão, organizar a comunidade, estudar a realidade, participar de uma luta popular e manter viva a esperança.

O “pequeno caminho” de Teresinha pode ser profundamente missionário quando compreendido como amor concreto e comprometido.

Jó nos ensina a não silenciar o grito do sofredor. Jesus envia seus discípulos para que esse grito encontre resposta. Teresinha recorda que essa resposta pode começar em pequenos gestos, quando realizados com um amor que não busca poder ou reconhecimento.

5. Uma Igreja que caminha com os pobres

A Palavra proclamada nesta quinta-feira nos convida, portanto, a uma Igreja que não tenha medo de entrar nas casas, nas periferias, nos lugares de sofrimento e nos espaços onde a dignidade humana é ameaçada.

As CEBs são chamadas a permanecer como comunidades que escutam a Palavra, leem a realidade, discernem comunitariamente e transformam a fé em compromisso histórico.

Diante de Jó, aprendemos que o sofrimento do pobre não pode ser explicado de maneira simplista nem utilizado para culpabilizar a vítima. Diante de Lucas, aprendemos que o discípulo precisa colocar-se a caminho, levando paz, cuidado e esperança. Diante de Santa Teresinha, aprendemos que a missão pode nascer de gestos pequenos, mas realizados com grande amor.

A Eucaristia, celebrada no coração dessa experiência, torna-se memória viva de Jesus que entrega sua própria vida. Por isso, celebrar a Palavra e o Pão exige reconhecer o Cristo presente nos corpos feridos de tantos irmãos e irmãs.

“Eu sei que o meu Redentor vive.” A esperança de Jó transforma-se, para nós, em compromisso. Se o Redentor vive, ninguém pode ser considerado descartável. Se o Reino de Deus está próximo, ninguém pode permanecer indiferente diante da fome, da pobreza, da violência, da exclusão e da destruição da Casa Comum.

Que nossas comunidades possam, como os discípulos enviados por Jesus, caminhar de dois em dois, comunidade com comunidade, povo com povo, levando a paz, cuidando dos feridos e anunciando, sobretudo com a própria vida, que o Reino de Deus já está acontecendo onde a vida é defendida.

E que, inspirados por Santa Teresinha, aprendamos a fazer grandes coisas através do amor vivido nas pequenas ações de cada dia.

A missão começa quando o sofrimento do outro deixa de ser um problema alheio e passa a fazer parte da nossa própria caminhada.


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