OS ANJOS QUE ACOMPANHAM O CAMINHO E OS PEQUENOS QUE REVELAM O REINO
Comentário bíblico-pastoral para a Sexta-feira da 26ª Semana do Tempo Comum – Memória dos Santos Anjos da Guarda | Ex 23,20-23; Mt 18,1-5.10
Por Pe. Hermes A. Fernandes
A Liturgia Eucarística da Sexta-feira da 26ª Semana do Tempo Comum, celebrando a memória dos Santos Anjos da Guarda, coloca diante de nós duas imagens profundamente significativas: o anjo que acompanha o povo em seu caminho e a criança colocada por Jesus no centro da comunidade. A primeira leitura afirma: “Vou enviar um anjo que vá à tua frente, que te guarde pelo caminho e te conduza ao lugar que te preparei” (Ex 23,20). O Evangelho, por sua vez, apresenta Jesus colocando uma criança no meio dos discípulos e advertindo: “Não desprezeis nenhum desses pequeninos” (Mt 18,10).
Lidos a partir da Teologia Latino-americana e da experiência das Comunidades Eclesiais de Base, esses textos revelam que a presença de Deus não pode ser compreendida como uma realidade distante da história. O Deus bíblico acompanha o seu povo, protege os vulneráveis, questiona relações de poder e coloca no centro aqueles que a sociedade tende a deixar nas margens.
1. Deus caminha com seu povo: a mensagem de Êxodo 23,20-23
O livro do Êxodo apresenta Israel como um povo em caminho. A experiência fundamental é a libertação da escravidão e a caminhada em direção à terra prometida. O texto de Ex 23,20-23 encontra-se justamente nesse contexto: Deus promete enviar um anjo à frente do povo para guardá-lo e conduzi-lo.
O termo “anjo” não deve ser reduzido à imagem infantilizada de uma criatura alada que simplesmente protege indivíduos de perigos cotidianos. Na linguagem bíblica, o anjo é mensageiro e instrumento da ação de Deus. O texto afirma que ele vai “à frente”, isto é, acompanha o caminho do povo e manifesta que Deus não o abandona. O anjo conduz, orienta e chama à escuta: “Respeita-o e ouve a sua voz” (Ex 23,21). A própria tradição pastoral da Igreja reconhece nessa passagem a imagem de Deus que não deixa seu povo caminhar sozinho.
A perspectiva latino-americana permite perceber uma dimensão ainda mais profunda. Deus não é apresentado como alguém que contempla a história de longe. Ele se coloca ao lado de um povo que saiu da escravidão e ainda precisa aprender a caminhar em liberdade. A libertação não termina com a saída do Egito; é necessário construir uma sociedade nova, baseada na justiça, na responsabilidade e na fidelidade à Aliança.
Por isso, a espiritualidade dos Anjos da Guarda não pode transformar-se em uma espiritualidade individualista. Não se trata apenas de pedir proteção para “mim”, para minha casa ou para meus projetos pessoais. O anjo é apresentado no Êxodo como aquele que acompanha o povo em seu caminho. A fé bíblica, portanto, conduz da proteção individual para a responsabilidade comunitária.
Essa perspectiva possui grande importância para as CEBs. Uma comunidade cristã é chamada a ser presença que acompanha, protege, orienta e fortalece os que caminham pelas estradas difíceis da vida. Em nossas periferias, favelas, comunidades rurais, territórios indígenas, quilombolas e bairros populares, existem muitas pessoas que experimentam diferentes formas de “Egito”: fome, desemprego, violência, racismo, abandono, migração forçada, falta de moradia, precarização do trabalho e destruição da Casa Comum.
Nesse contexto, podemos perguntar: quem são hoje os anjos que Deus coloca no caminho dos pequenos? São as pessoas e comunidades que não permanecem indiferentes diante do sofrimento. São agentes de pastoral, lideranças comunitárias, educadores, trabalhadores, jovens, mulheres, religiosos, ministros e tantos homens e mulheres que colocam sua vida a serviço da defesa da dignidade humana.
Mais ainda: somos chamados a ser, comunitariamente, sinais da presença cuidadora de Deus.
2. “Quem é o maior?”: a inversão proposta por Jesus
No Evangelho de Mateus, os discípulos aproximam-se de Jesus com uma pergunta que revela uma preocupação profundamente humana: “Quem é o maior no Reino dos Céus?” (Mt 18,1). A pergunta não é simplesmente sobre santidade. Ela nasce da lógica da comparação, da posição, da importância e do poder.
Jesus responde realizando um gesto desconcertante: chama uma criança, coloca-a no meio dos discípulos e afirma que eles precisam converter-se e tornar-se como aquela criança. O maior, no Reino, é aquele que se faz pequeno.
É importante evitar uma interpretação romântica da infância. No mundo antigo, a criança não ocupava o lugar de prestígio que muitas vezes possui em nossa sociedade contemporânea. Era alguém dependente, vulnerável e sem poder social. Ao colocar a criança no centro, Jesus realiza uma verdadeira inversão das relações de poder.
O centro da comunidade cristã não deve ser ocupado pelos que possuem maior prestígio, autoridade ou influência. Jesus coloca no centro aqueles que são pequenos.
Por isso, a afirmação seguinte é decisiva: “Quem recebe em meu nome uma criança como esta, é a mim que recebe” (Mt 18,5). E logo depois vem a advertência: “Não desprezeis nenhum desses pequeninos” (Mt 18,10).
A expressão “pequeninos” amplia o horizonte. Não se trata somente de crianças. No contexto do capítulo 18 de Mateus, os “pequenos” são aqueles que possuem pouca importância aos olhos dos poderosos, os vulneráveis, os que podem ser facilmente desprezados ou marginalizados pela sociedade e até pela própria comunidade religiosa.
Aqui encontramos um dos grandes princípios da Teologia Latino-americana: Deus se revela a partir daqueles que a história costuma tornar invisíveis.
3. O anjo e o pequeno: uma espiritualidade da defesa da vida
Existe uma profunda ligação entre as duas leituras. Em Êxodo, Deus coloca um anjo à frente do povo para acompanhá-lo no caminho. Em Mateus, Jesus afirma que os anjos dos pequenos “veem sem cessar a face” do Pai.
O anjo, portanto, aparece como sinal de que Deus está comprometido com o caminho e com a dignidade daqueles que precisam de cuidado. O Papa Francisco, ao refletir sobre essa liturgia, relacionou as duas imagens — o anjo e a criança — à necessidade de abandonar a autossuficiência e reconhecer que ninguém caminha sozinho.
Essa mensagem possui grande força para a realidade latino-americana. Uma fé verdadeiramente evangélica não pode desprezar os pequenos enquanto afirma amar a Deus. Não podemos celebrar os Anjos da Guarda e, ao mesmo tempo, permanecer indiferentes diante das crianças vítimas da fome, da violência, do abuso, do abandono ou da falta de oportunidades.
Não podemos falar de proteção divina e ignorar famílias ameaçadas pela violência, trabalhadores submetidos à exploração, pessoas em situação de rua, migrantes, povos originários, comunidades quilombolas ou populações que sofrem com a destruição ambiental.
O Deus que envia o anjo para acompanhar o povo é o mesmo Deus que, em Jesus, declara que acolher um pequeno é acolher o próprio Cristo.
4. As CEBs como comunidades que acompanham e acolhem os pequenos
As Comunidades Eclesiais de Base podem encontrar nessas leituras uma inspiração muito concreta para sua missão. Uma CEB não é apenas um lugar onde as pessoas se reúnem para rezar. Ela é chamada a ser comunidade de escuta, cuidado, participação, solidariedade e compromisso com a vida.
Celebrar os Santos Anjos da Guarda pode significar renovar a decisão de acompanhar aqueles que caminham em situações de vulnerabilidade. Isso exige uma pastoral que saiba escutar antes de falar, caminhar antes de julgar e servir antes de buscar reconhecimento.
A espiritualidade das CEBs precisa perguntar permanentemente:
Quem são os pequenos que vivem em nosso território? Quem está sendo desprezado? Quem não tem voz? Quem está sendo expulso de sua terra? Quem não consegue ter acesso à moradia, ao trabalho, à saúde e à educação? Que crianças estão sofrendo? Que idosos estão abandonados? Que famílias estão sobrevivendo em condições indignas?
Essas perguntas transformam a celebração em compromisso.
A Liturgia Eucarística não termina no altar. A Eucaristia envia a comunidade para a realidade. O pão partilhado na mesa do Senhor exige que procuremos também o pão cotidiano daqueles que têm fome. A comunhão celebrada sacramentalmente precisa tornar-se comunhão na vida.
Assim, a ação pastoral das CEBs pode assumir iniciativas concretas: acompanhamento das famílias vulneráveis; defesa das crianças e adolescentes; participação em redes de solidariedade; apoio aos trabalhadores desempregados; atenção às pessoas em situação de rua; defesa dos povos tradicionais; promoção da economia solidária; cuidado com a Casa Comum; combate ao racismo e a todas as formas de discriminação; presença junto aos migrantes e refugiados; e participação cidadã na construção de políticas públicas que promovam a dignidade humana.
5. Uma Igreja que se faz pequena para que os pequenos tenham lugar
O Evangelho não nos pede simplesmente que “sejamos crianças” no sentido psicológico ou afetivo. Jesus nos chama à conversão da lógica do poder. “Quem é o maior?” — perguntam os discípulos. Jesus responde apontando para aquele que não possui poder.
Essa palavra continua extremamente atual. Também dentro da Igreja podemos cair na tentação da competição, do carreirismo, da busca de prestígio e da centralização. O Evangelho nos convida a outra lógica: quanto maior a responsabilidade, maior deve ser o serviço.
A Igreja torna-se verdadeiramente missionária quando se coloca ao lado dos pequenos e permite que eles tenham voz, participação e protagonismo. O Papa Francisco insistiu que Deus não abandona o seu povo, mas caminha com ele, oferecendo ajuda e companhia.
Por isso, a memória dos Santos Anjos da Guarda pode ser compreendida pelas CEBs como uma celebração da presença de Deus que acompanha o povo e suscita pessoas capazes de cuidar umas das outras.
Conclusão: ser anjos na estrada dos pequenos
Ex 23,20-23 e Mt 18,1-5.10 apresentam uma mensagem profundamente atual: Deus acompanha o caminho e não permite que os pequenos sejam esquecidos.
O anjo que vai à frente do povo e os anjos dos pequeninos apontam para um Deus que protege, orienta e se compromete com a vida. A resposta cristã não pode ser uma devoção desencarnada. Celebrar os Anjos da Guarda significa também aceitar o chamado para sermos presença cuidadora na história.
Nas CEBs, essa espiritualidade pode tornar-se compromisso concreto: caminhar com os pobres, defender os pequenos, escutar os que não são ouvidos, acolher os marginalizados e lutar para que ninguém seja tratado como descartável.
A pergunta dos discípulos — “Quem é o maior?” — recebe hoje uma resposta revolucionária: grande, no Reino de Deus, é quem se faz pequeno para servir. E grande é a comunidade que, seguindo Jesus, coloca os pequenos no centro.
Que a memória dos Santos Anjos da Guarda nos ensine, portanto, não apenas a pedir proteção, mas a proteger; não apenas a pedir companhia, mas a acompanhar; não apenas a pedir cuidado, mas a cuidar.
Porque o Deus que caminha à frente do seu povo continua passando pelas estradas da história. E, muitas vezes, Ele nos chama a ser seus sinais de presença, cuidado e esperança junto daqueles que mais necessitam.
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