Reflexão para Sábado da 26ª Semana do Tempo Comum

A SABEDORIA DOS PEQUENOS E A EXPERIÊNCIA DE DEUS

Comentário da Liturgia Eucarística do Sábado da 26ª Semana do Tempo Comum: Jó 42,1-3.5-6.12-16 e Lc 10,17-24

Por Pe. Hermes A. Fernandes

A liturgia deste sábado coloca diante de nós duas experiências profundamente relacionadas: a experiência de Jó, que depois de atravessar o sofrimento chega a uma compreensão nova de Deus, e a experiência dos setenta e dois discípulos, que retornam da missão cheios de alegria. Em ambos os textos, porém, Deus desloca o olhar humano: Jó aprende que não pode aprisionar Deus em explicações pré-fabricadas; os discípulos aprendem que a verdadeira alegria da missão não está no poder que exercem, mas na comunhão com Deus e na revelação do Reino aos pequenos.

Essa perspectiva possui grande importância para a Teologia Latino-americana e para as Comunidades Eclesiais de Base (CEBs). A Palavra de Deus não é apenas objeto de estudo; é Palavra que nasce da história, ilumina a realidade e convoca a comunidade à transformação da vida. A Bíblia é lida a partir dos clamores dos pobres, dos marginalizados e dos excluídos, porque são precisamente os “pequeninos” aos quais, segundo Jesus, o Pai revela os mistérios do Reino.

1. Jó: quando a experiência de Deus supera as explicações religiosas

O Livro de Jó enfrenta uma questão permanente da experiência humana: por que o justo sofre? Jó havia perdido seus bens, seus filhos e sua saúde. Seus amigos tentavam explicar seu sofrimento recorrendo a uma teologia segundo a qual o sofrimento seria consequência direta do pecado. Jó, entretanto, não aceita essa explicação simplista. Ele protesta, questiona e leva seu sofrimento para dentro de sua relação com Deus.

O capítulo 42 constitui a conclusão desse longo processo. Jó afirma: “Conhecia o Senhor apenas por ouvir falar, mas, agora, eu o vejo com meus olhos” (Jó 42,5). Não se trata simplesmente de adquirir uma nova informação sobre Deus. Jó passa de uma religião recebida por discursos para uma experiência pessoal e existencial do mistério divino.

Essa afirmação é fundamental para uma leitura latino-americana da Bíblia. O Deus que encontramos na Escritura não pode ser reduzido às fórmulas daqueles que pretendem explicar o sofrimento dos outros a partir de uma suposta “vontade de Deus”. O Livro de Jó questiona justamente uma religião incapaz de escutar a dor humana.

Por isso, a experiência de Jó pode iluminar a realidade de tantos homens e mulheres que vivem situações de pobreza, desemprego, fome, violência, abandono, migração forçada, ausência de moradia digna ou destruição de seus territórios. Não podemos aproximar-nos dessas pessoas dizendo simplesmente que sua situação é fruto de falta de fé, de pecado ou de uma misteriosa “provação divina”.

A experiência de Jó exige escuta, proximidade e solidariedade.

O final do livro apresenta a restauração de Jó. O texto fala da multiplicação de seus rebanhos e da constituição de uma nova família. Merece atenção especial o fato de suas três filhas receberem herança juntamente com os irmãos (Jó 42,15). Embora o texto pertença a um contexto social muito diferente do nosso, esse detalhe permite perceber uma abertura significativa dentro da narrativa: as mulheres aparecem reconhecidas no âmbito da herança familiar.

É necessário, contudo, evitar uma interpretação superficial do final de Jó, como se a mensagem fosse simplesmente: “quem sofre será recompensado materialmente”. Uma leitura pastoral latino-americana precisa resistir a qualquer espiritualidade que transforme a fé em promessa de prosperidade individual. A vida dos pobres demonstra diariamente que a justiça de Deus não pode ser confundida com enriquecimento automático daqueles que creem.

O centro da experiência de Jó está em outra realidade: Deus não abandona o ser humano em seu sofrimento e não pode ser utilizado para justificar a injustiça.

2. “Agora eu te vejo”: da religião distante à experiência do Deus vivo

Jó reconhece que anteriormente conhecia Deus “por ouvir falar”. Agora, porém, sua experiência é diferente. Ele encontra-se diante do mistério de Deus e reconhece os limites de sua própria compreensão.

Essa passagem possui enorme valor para as CEBs. A fé comunitária não pode consistir apenas na repetição de verdades aprendidas. Ela precisa tornar-se experiência de Deus na vida concreta. Quando uma comunidade se reúne para ler a Bíblia, ela é convidada a perguntar: onde Deus está acontecendo em nossa história? Onde estão seus sinais? Quem são aqueles através dos quais Deus nos chama à conversão?

A Leitura Popular da Bíblia parte precisamente dessa dinâmica: o texto bíblico ilumina a realidade e a realidade ajuda a comunidade a compreender o texto. Assim, a experiência de uma comunidade que acompanha uma família ameaçada de despejo, luta pela moradia, defende um território indígena ou quilombola, acompanha pessoas em situação de rua ou organiza trabalhadores desempregados não é algo externo à espiritualidade cristã. Pode constituir-se em lugar concreto de encontro com Deus.

O Deus de Jó não é encontrado nas explicações abstratas de seus amigos, mas no encontro que transforma seu modo de compreender a realidade.

3. Os setenta e dois: uma Igreja enviada para a missão

No Evangelho de Lucas, os setenta e dois discípulos retornam da missão dizendo: “Senhor, até os demônios nos obedeceram por causa do teu nome” (Lc 10,17). Eles experimentaram a força transformadora da missão.

Jesus, entretanto, corrige imediatamente uma possível compreensão triunfalista: “Não vos alegreis porque os espíritos vos obedecem. Antes, ficai alegres porque vossos nomes estão escritos no céu” (Lc 10,20).

A missão não pode transformar o discípulo em alguém preocupado com poder, prestígio ou domínio. O anúncio do Reino não é uma demonstração de superioridade religiosa. A autoridade cristã está subordinada ao serviço.

Essa palavra é especialmente importante para uma Igreja que deseja ser discípula e missionária. A missão não pertence exclusivamente ao clero. Os setenta e dois representam uma comunidade enviada. A Igreja nasce missionária e cada batizado é chamado a participar da missão.

Nas CEBs, essa compreensão manifesta-se na participação dos leigos e leigas, das mulheres, dos jovens, dos agentes de pastoral, dos ministros e de todos aqueles que colocam seus dons a serviço da comunidade.

4. “Eu te louvo, Pai… porque revelaste aos pequeninos”

O ponto culminante do Evangelho encontra-se na oração de Jesus: “Eu te louvo, Pai, Senhor do céu e da terra, porque escondeste essas coisas aos sábios e inteligentes e as revelaste aos pequeninos” (Lc 10,21).

Aqui encontramos uma das grandes chaves da Teologia Latino-americana.

Jesus não está fazendo uma apologia da ignorância. Ele está revelando que o Reino de Deus não se deixa controlar pelos critérios de poder, prestígio, riqueza ou conhecimento utilizados para estabelecer hierarquias entre as pessoas.

Os “pequeninos” são aqueles que, segundo os critérios dominantes, possuem pouca importância. Jesus revela, porém, que Deus se manifesta justamente a partir daqueles que frequentemente são invisibilizados.

Essa perspectiva encontra forte ressonância na experiência das CEBs. Nas pequenas comunidades, a Palavra é escutada por pessoas simples: agricultores e agricultoras, trabalhadores, aposentados, mulheres, jovens, moradores das periferias, comunidades tradicionais, pessoas que lutam por moradia, por terra, por trabalho e por dignidade.

A comunidade aprende, então, que os pobres não são apenas destinatários da ação evangelizadora. Eles também são sujeitos da evangelização e possuem uma experiência de Deus que precisa ser escutada.

5. A missão das CEBs: transformar a alegria do Evangelho em compromisso

A articulação entre Jó e Lucas conduz a uma consequência pastoral muito concreta.

Jó nos ensina a não falar de Deus sem antes escutar o sofrimento humano. Lucas nos ensina que a missão não pode transformar o discípulo em alguém que busca poder, mas em servidor do Reino.

Por isso, uma comunidade que celebra esta Eucaristia é chamada a perguntar:

Quem são os “Jó” que existem hoje em nosso território?

São as famílias que perderam a casa? Os trabalhadores sem emprego? As pessoas que passam fome? Os migrantes e refugiados? Os povos indígenas e comunidades quilombolas ameaçados em seus territórios? As mulheres vítimas de violência? A população em situação de rua? Os idosos abandonados? Os jovens privados de oportunidades? As pessoas que sofrem discriminação e exclusão?

A resposta cristã não pode limitar-se à assistência ocasional. A caridade é indispensável, mas a ação pastoral também precisa enfrentar as causas que produzem a pobreza e a exclusão.

Assim, as CEBs são chamadas a unir oração, Palavra, solidariedade e compromisso social. A comunidade pode organizar visitas às famílias vulneráveis, círculos bíblicos, ações de segurança alimentar, acompanhamento de pessoas enfermas e idosas, iniciativas de defesa da moradia e da dignidade do trabalho, cuidado da Casa Comum e apoio às organizações populares que atuam em favor dos excluídos.

Não se trata de transformar a Igreja em partido ou a pastoral em instrumento de disputa de poder. Trata-se de assumir a dimensão social do Evangelho: onde a vida humana é ameaçada, o discípulo de Jesus não pode permanecer indiferente.

6. Uma Igreja que aprende com os pequenos

O encontro entre Jó e os setenta e dois discípulos nos oferece uma síntese profundamente evangélica.

Jó descobre que Deus é maior do que suas próprias explicações. Os discípulos descobrem que a missão é maior do que seus próprios resultados. E Jesus revela que os mistérios do Reino são acolhidos pelos pequenos.

Esta é uma provocação particularmente importante para as Comunidades Eclesiais de Base: não podemos evangelizar os pobres sem aprender com eles.

A comunidade que escuta a Palavra precisa também escutar o território. Precisa reconhecer a presença de Deus na sabedoria dos idosos, na resistência das mulheres, na esperança dos jovens, na espiritualidade dos povos tradicionais, na luta dos trabalhadores e na solidariedade daqueles que, mesmo tendo pouco, sabem repartir.

A verdadeira missão não consiste em conquistar pessoas, mas em participar daquilo que Deus já está realizando no meio de seu povo.

Conclusão

A liturgia deste sábado nos conduz de Jó aos “pequeninos” do Evangelho. Jó nos recorda que a fé precisa passar daquilo que apenas “ouvimos falar” para uma experiência concreta de Deus. Os setenta e dois discípulos nos recordam que a Igreja existe para a missão. E Jesus nos revela que o Reino se manifesta de modo privilegiado aos pequenos.

À luz da Teologia Latino-americana, essa Palavra nos chama a construir comunidades capazes de ver, escutar, discernir e agir. Ver a realidade dos pobres; escutar seus clamores; discernir nela os sinais do Reino; e agir para que a vida tenha dignidade.

A Eucaristia celebrada pelas CEBs não pode terminar no templo. O pão partilhado no altar precisa tornar-se compromisso com o pão de cada dia. A Palavra proclamada precisa tornar-se palavra praticada. E a alegria da missão precisa transformar-se em serviço.

Assim, poderemos compreender melhor as palavras de Jesus: “Felizes os olhos que veem o que vós vedes!” (Lc 10,23). Felizes os olhos que conseguem reconhecer, no meio dos pobres e excluídos, não um problema a ser eliminado, mas irmãos e irmãs nos quais Deus continua revelando os mistérios do seu Reino.


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