Por Karina Moreti
Há uma pergunta que atravessa a história humana e que talvez precisemos fazer com mais frequência: o que realmente faz uma sociedade prosperar? Durante muito tempo, aprendemos a admirar a força associada à conquista, à autoridade, à capacidade de dominar territórios, vencer adversários e impor decisões. Os grandes impérios foram frequentemente narrados a partir de seus reis, seus exércitos, suas batalhas e suas conquistas. A história registrou monumentos erguidos pelos vencedores e muitas vezes deixou em segundo plano aquilo que sustentou a vida cotidiana de quem estava por trás dessas grandes construções. Entretanto, quando olhamos com mais atenção para a história, percebemos que nenhum império, nenhuma comunidade, nenhuma família e nenhum projeto humano se sustenta somente pela força. Para que alguma coisa realmente prospere, é preciso haver capacidade de gerar, alimentar, cuidar, proteger, estabelecer vínculos e reconstruir aquilo que foi destruído.
É nesse sentido que podemos compreender a força feminina. Não estamos falando de uma suposta essência natural das mulheres, como se toda mulher fosse necessariamente cuidadora, amorosa, maternal ou conciliadora. Pensar dessa maneira também seria uma forma de aprisionamento. Estamos falando de uma dimensão da experiência humana que, por razões históricas e culturais, foi muitas vezes atribuída ao feminino e, justamente por isso, acabou sendo desvalorizada. Gerar vida, cuidar de alguém, alimentar uma família, preservar a memória, manter uma comunidade unida, acolher quem chega, proteger quem está vulnerável e reconstruir relações depois de um conflito raramente aparecem como grandes feitos quando contamos a história a partir dos vencedores. No entanto, sem essas ações, nenhuma sociedade teria conseguido chegar até aqui.
A força que gera vida é diferente da força que simplesmente domina. A violência pode obrigar alguém a obedecer, mas não consegue produzir pertencimento. Pode destruir uma estrutura, mas não sabe, sozinha, como reconstruí-la. Pode calar uma pessoa, mas não consegue estabelecer diálogo. Pode conquistar um território, mas não é capaz de transformar automaticamente aquele espaço em uma comunidade. Por isso, um progresso baseado apenas na força e na violência acaba revelando sua própria contradição: ele pode produzir domínio, mas não necessariamente produz vida. Pode construir poder, mas não necessariamente constrói futuro.
Talvez seja justamente por isso que tantas histórias de mulheres tenham sido consideradas pequenas diante dos grandes acontecimentos políticos e militares. Enquanto os homens eram registrados como reis, guerreiros, governantes e conquistadores, muitas mulheres apareciam apenas como mães, esposas, viúvas, trabalhadoras ou cuidadoras. O problema não está nessas experiências em si, porque cuidar também é uma forma concreta de transformar a história. O problema está na maneira como a sociedade aprendeu a considerar algumas atividades grandiosas e outras insignificantes. Quando valorizamos somente aquilo que produz poder, riqueza ou conquista, deixamos de perceber que existe uma enorme quantidade de trabalho invisível sustentando aquilo que chamamos de progresso.
A própria Bíblia oferece inúmeras histórias que nos ajudam a questionar essa lógica. Mulheres aparecem em momentos decisivos não necessariamente empunhando armas ou ocupando tronos, mas criando possibilidades para que a vida continue. Há mulheres que acolhem, que protegem, que alimentam, que acompanham, que anunciam, que sustentam comunidades e que assumem responsabilidades quando as estruturas estabelecidas não conseguem responder às necessidades do povo. Em muitos desses relatos, a transformação não acontece porque alguém simplesmente vence o adversário, mas porque alguém encontra uma maneira de preservar a vida em meio à ameaça.
Isso nos ajuda a perceber que fertilidade também precisa ser entendida de maneira mais ampla. Fertilidade não significa apenas gerar biologicamente uma criança. Uma comunidade pode ser fértil quando consegue gerar esperança. Uma Igreja pode ser fértil quando consegue gerar participação, solidariedade e novas formas de viver a fé. Uma sociedade pode ser fértil quando cria condições para que pessoas diferentes possam desenvolver seus dons e contribuir para o bem comum. Uma relação é fértil quando produz crescimento, liberdade e cuidado. Gerar, portanto, é muito mais do que colocar alguma coisa no mundo; é criar condições para que aquilo que nasceu possa continuar vivendo e se desenvolvendo.
É aí que o amor entra como uma força profundamente transformadora. Não estamos falando de um amor romantizado, ingênuo ou incapaz de confrontar injustiças. O amor também pode ser resistência. Quem ama a vida precisa ser capaz de enfrentar aquilo que ameaça a vida. Quem cuida de uma comunidade precisa, muitas vezes, questionar estruturas que produzem sofrimento. Quem protege uma pessoa vulnerável nem sempre está realizando um gesto delicado; às vezes está tomando uma posição corajosa diante de quem possui mais poder. Por isso, cuidado e resistência não são opostos. Muitas vezes, cuidar é justamente uma das formas mais concretas de resistir.
Quando olhamos para as mulheres que atravessaram a história bíblica, percebemos essa dimensão com muita clareza. Elas não aparecem apenas como personagens que acompanham a ação dos homens. Em diferentes momentos, suas escolhas interferem diretamente no destino de famílias, comunidades e até do próprio povo. Algumas acolhem pessoas perseguidas, outras preservam tradições, outras anunciam aquilo que compreenderam da ação de Deus, outras organizam comunidades e outras colocam seus próprios recursos e sua própria casa a serviço da missão. A história de tantas dessas mulheres nos mostra que a transformação também acontece por meio de gestos que, à primeira vista, parecem pequenos, mas que são capazes de produzir consequências profundas.
Talvez precisemos, então, rever nossa própria compreensão de progresso. Uma sociedade não deveria ser considerada desenvolvida apenas porque consegue produzir mais, conquistar mais ou acumular mais poder. Precisamos perguntar o que acontece com as pessoas durante esse processo. Quem está sendo cuidado? Quem está sendo deixado para trás? Quem pode participar? Quem está tendo sua dignidade preservada? Que tipo de relações estamos construindo? De que maneira aquilo que conquistamos será utilizado para gerar novas possibilidades de vida?
Sem a força feminina, entendida não como uma característica exclusiva das mulheres, mas como essa capacidade humana de gerar, cuidar, alimentar, estabelecer vínculos e fazer a vida continuar, nenhuma criação prospera por muito tempo. Toda construção precisa de cuidado para permanecer de pé. Toda comunidade precisa de vínculos para não se transformar apenas em uma estrutura. Toda conquista precisa ser acompanhada pela responsabilidade de preservar a vida que existe depois dela. Quando isso não acontece, o progresso pode se transformar em uma corrida na qual acumulamos poder enquanto perdemos aquilo que deveria dar sentido às nossas conquistas.
Talvez a grande questão não seja escolher entre força e fragilidade, nem colocar homens de um lado e mulheres do outro. A questão é compreender que uma sociedade precisa de diferentes formas de força e que nenhuma delas deveria ser utilizada para eliminar as demais. Precisamos da coragem que enfrenta a injustiça, mas também da sensibilidade capaz de perceber quem está sofrendo. Precisamos da firmeza para defender direitos, mas também da capacidade de construir relações. Precisamos saber transformar estruturas, mas precisamos igualmente saber cuidar das pessoas que vivem dentro delas.
Porque a força que apenas domina pode até deixar marcas na história, mas a força que gera vida deixa pessoas capazes de continuar a história.
E talvez seja justamente essa a pergunta que precisamos levar conosco: depois de toda a força que empregamos para conquistar alguma coisa, o que fomos capazes de gerar?
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