Por Pe. Hermes A. Fernandes
O Segundo Turno das Eleições de 2026 constitui um momento decisivo para o futuro do Brasil. Mais do que escolher pessoas para ocupar cargos públicos, votar significa participar da construção do projeto de sociedade que desejamos. Por isso, para quem assume a fé cristã e, particularmente, para as Comunidades Eclesiais de Base, o processo eleitoral não pode ser tratado como simples disputa entre candidatos. Ele exige discernimento, consciência crítica e compromisso com a vida, sobretudo com a vida daqueles que historicamente têm sido empobrecidos, marginalizados e excluídos.
O Tribunal Superior Eleitoral tem ressaltado, nas eleições deste ano, a necessidade de preservar o pluralismo político, a dignidade humana, as liberdades de consciência, crença e expressão e o respeito às diferenças. Esses valores não são estranhos ao Evangelho. Ao contrário, correspondem à defesa da dignidade de cada pessoa humana e à construção de uma sociedade na qual ninguém seja tratado como descartável.
O perigo de uma política que transforma o pobre em instrumento
Um dos grandes desafios das eleições de 2026 é reconhecer os projetos políticos que, sob diferentes discursos, podem aprofundar a concentração de riqueza e de poder.
A Extrema-direita, especialmente quando assume características ultraconservadoras e autoritárias, apresenta frequentemente uma visão de sociedade marcada pela exaltação da força, pela defesa de hierarquias rígidas, pelo individualismo econômico e pela desconfiança em relação às políticas públicas e aos movimentos populares. Isso pode favorecer aqueles que já concentram riqueza, propriedade e poder, enquanto transfere para os mais pobres o peso das crises econômicas e sociais.
É preciso, portanto, perguntar diante de cada candidatura: quem será beneficiado por esse projeto? Quem pagará a conta? Quem terá seus direitos ampliados e quem poderá perdê-los?
A questão não é simplesmente identificar candidatos de direita ou de esquerda. A democracia comporta diferentes correntes políticas. O problema surge quando um projeto político passa a considerar legítimo que poucos acumulem privilégios enquanto milhões permanecem sem acesso adequado à moradia, à saúde, à educação, ao trabalho digno, à terra, à alimentação e às condições fundamentais para uma vida digna.
A própria Comissão Pastoral da Terra tem alertado, no contexto eleitoral de 2026, para os riscos de criminalização dos movimentos sociais, enfraquecimento de políticas de reforma agrária e fortalecimento de interesses ligados à concentração fundiária.
Para a fé cristã, entretanto, a economia precisa estar a serviço da vida e não a vida subordinada aos interesses econômicos.
Quando o diferente passa a ser tratado como inimigo
Outro elemento preocupante de determinadas expressões da extrema-direita é a transformação do adversário político em inimigo.
A democracia exige conflito de ideias, mas não pode aceitar a desumanização daquele que pensa diferente. Quando alguém passa a considerar o outro como inimigo da pátria, da família, de Deus ou da sociedade simplesmente porque possui outra visão política, religiosa, cultural ou social, abre-se espaço para a intolerância.
É nesse contexto que devemos olhar com atenção para a situação das minorias e dos grupos historicamente vulnerabilizados: população negra, povos indígenas, quilombolas, migrantes, pessoas em situação de rua, mulheres, pessoas com deficiência, população LGBTQIAPN+, comunidades tradicionais e tantos outros grupos que frequentemente se tornam alvo de discursos de ódio.
Uma sociedade verdadeiramente democrática não pode exigir que essas pessoas renunciem à própria dignidade para serem aceitas.
O Evangelho tampouco permite essa exclusão. Jesus aproxima-se precisamente daqueles que a sociedade religiosa e social de seu tempo marginalizava. Toca os intocáveis, acolhe os pecadores, conversa com mulheres, aproxima-se dos pobres, cura os doentes e devolve dignidade àqueles que haviam sido reduzidos à condição de excluídos.
O critério cristão não pode ser a pureza de alguns contra a dignidade de outros. O critério cristão é o amor.
Uma moral que exclui não corresponde ao Evangelho
É necessário também discernir determinados discursos moralistas que procuram apresentar-se como expressão exclusiva do cristianismo.
Existe uma diferença profunda entre defender valores éticos e utilizar a moral como instrumento de controle, julgamento e exclusão.
Quando uma determinada corrente política passa a dividir as pessoas entre “cidadãos de bem” e aqueles considerados moralmente inferiores; quando determinados grupos são apresentados como ameaça à família, à sociedade ou à religião; quando pessoas são condenadas antes mesmo de serem escutadas; quando se pretende impor a todos uma única forma de viver, pensar ou constituir família, estamos diante de uma perigosa redução da dignidade humana.
O cristianismo não pode transformar-se em instrumento de perseguição moral.
A moral cristã precisa nascer da misericórdia, da justiça e da defesa da vida. O próprio Jesus confrontou uma religiosidade que se preocupava excessivamente com normas enquanto negligenciava “a justiça, a misericórdia e a fidelidade” (Mt 23,23).
Por isso, uma comunidade cristã não deveria perguntar somente se determinado candidato fala em Deus, família ou valores cristãos. Deve perguntar também: como esse candidato trata os pobres? Como trata quem pensa diferente? Como trata as mulheres? Como trata as minorias? Como trata os povos indígenas? Como se posiciona diante da violência? Como compreende a justiça social? Como enfrenta a fome? Como protege a Casa Comum?
É pelas práticas e pelas opções concretas que um projeto político deve ser discernido.
A intolerância religiosa é incompatível com o Evangelho
Outro sinal preocupante é a utilização política da religião para produzir divisão social.
A fé não pode ser transformada em arma eleitoral. Nenhuma religião possui o direito de reivindicar para si o monopólio da cidadania. O Brasil é uma sociedade plural, na qual católicos, evangélicos, espíritas, judeus, muçulmanos, religiões de matriz africana, povos indígenas e pessoas sem religião possuem igual dignidade e devem ter assegurada sua liberdade de consciência.
Dados recentes mostram que a intolerância religiosa continua sendo uma realidade concreta no país. Em audiência pública realizada na Câmara dos Deputados em junho de 2026, foram apresentados dados do Disque 100 indicando 2,7 mil denúncias relacionadas à intolerância religiosa entre janeiro de 2025 e janeiro de 2026.
Também merece atenção a instrumentalização do próprio nome de Deus na disputa política. Uma análise publicada pelo Instituto Humanitas Unisinos chamou atenção para discursos que mobilizam símbolos religiosos para demonizar grupos sociais, inclusive pessoas LGBTQIAPN+, feministas, indígenas e adeptos de outras religiões.
Isso exige das comunidades cristãs um discernimento ainda maior.
Deus não precisa de candidatos que odeiem em seu nome.
Jesus não ensinou seus discípulos a conquistar poder político pela demonização dos adversários. Ensinou a amar os inimigos, acolher os pequenos, perdoar, servir e colocar-se ao lado dos últimos.
O compromisso das CEBs nas Eleições de 2026
As Comunidades Eclesiais de Base possuem uma contribuição fundamental neste processo. Não lhes cabe transformar a comunidade em comitê eleitoral de determinado partido ou candidato. Cabe-lhes formar consciências, promover a Leitura Popular da Bíblia, analisar a realidade e ajudar o povo a perceber quais projetos políticos favorecem ou ameaçam a dignidade humana.
Uma comunidade madura não entrega seu voto porque alguém utiliza linguagem religiosa. Tampouco rejeita automaticamente alguém simplesmente por pertencer a determinada corrente política. O discernimento precisa considerar programas, propostas, histórico, alianças, práticas e compromisso efetivo com o bem comum.
As CEBs podem promover rodas de conversa, círculos bíblicos e encontros comunitários nos quais sejam discutidas questões concretas: fome, desemprego, saúde pública, educação, moradia, reforma agrária, meio ambiente, violência, direitos das mulheres, juventude, povos tradicionais, liberdade religiosa e combate à desigualdade.
O voto consciente nasce de uma população que conhece sua realidade e não se deixa manipular pelo medo, pela mentira ou pelo ódio.
O TSE, inclusive, disponibiliza informações oficiais sobre candidaturas, patrimônio, propostas de governo e prestação de contas das campanhas, instrumentos importantes para que eleitoras e eleitores possam exercer seu discernimento com maior responsabilidade.
Não basta perguntar em quem votar: é preciso perguntar que sociedade queremos
As eleições não podem ser reduzidas a uma disputa entre pessoas. O mais importante é discernir qual projeto de país está sendo colocado diante do povo brasileiro.
Queremos um país onde poucos possam acumular cada vez mais enquanto milhões lutam para sobreviver?
Queremos uma sociedade na qual movimentos populares sejam tratados como inimigos?
Queremos um Estado que discrimine pessoas por sua religião, origem, condição social, gênero ou modo de viver?
Queremos uma política fundada no medo, na violência, na intolerância e na eliminação simbólica do adversário?
Ou queremos construir uma sociedade democrática, plural, solidária, socialmente justa e comprometida com a dignidade de todas as pessoas?
Para os cristãos, essas perguntas possuem uma dimensão evangélica. Jesus afirma: “Eu vim para que todos tenham vida e a tenham em abundância” (Jo 10,10). Portanto, qualquer projeto político que aprofunde a exclusão, a fome, a violência, a discriminação e a concentração de privilégios precisa ser analisado criticamente.
A opção pelos pobres não é uma preferência partidária. É uma consequência do Evangelho.
Conclusão: votar pela vida, pela democracia e pelos pobres
As Eleições de 2026 exigem de nós responsabilidade. Não podemos permitir que o medo substitua o discernimento, que a mentira substitua a verdade, que o ódio substitua o diálogo ou que Deus seja utilizado para legitimar a exclusão de seus próprios filhos e filhas.
A democracia precisa ser defendida não apenas como procedimento eleitoral, mas como espaço de dignidade, participação, pluralismo, direitos e convivência entre diferentes. O próprio TSE tem insistido que o outro, mesmo quando pensa diferente, não deve ser tratado como inimigo.
As CEBs são chamadas a permanecer ao lado do povo, ajudando-o a discernir os projetos que serão colocados diante das urnas. Precisam continuar sendo espaços onde os pobres possam falar, onde a Palavra ilumine a realidade e onde a fé se transforme em compromisso social.
Diante das eleições, portanto, não basta perguntar: “Quem promete defender os meus valores?”
É preciso perguntar:
Quem defenderá a vida dos pobres?
Quem combaterá a fome e a desigualdade?
Quem respeitará as diferenças?
Quem protegerá a democracia?
Quem defenderá a liberdade religiosa?
Quem acolherá os marginalizados?
Quem cuidará da Casa Comum?
Quem trabalhará para que ninguém seja tratado como descartável?
Esse é o discernimento que uma fé comprometida com o Evangelho deve realizar.
Porque, para nós, cristãos, não existe verdadeira defesa da família quando se abandona o pobre; não existe verdadeira defesa da moral quando se cultiva o ódio; não existe verdadeira defesa de Deus quando se persegue quem crê de maneira diferente; e não existe verdadeira defesa da pátria quando se destrói a dignidade de seus próprios filhos e filhas.
Nas Eleições de 2026, que o povo brasileiro possa escolher com liberdade, consciência e responsabilidade. E que nosso voto seja, acima de tudo, um compromisso com a vida, a justiça, a democracia, a paz, a dignidade humana e os pobres.
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