DA TRANSFORMAÇÃO PELA GRAÇA À ESCUTA QUE GERA COMPROMISSO
Por Pe. Hermes A. Fernandes
A liturgia da Terça-feira da 27ª Semana do Tempo Comum coloca diante de nós dois textos que, à primeira vista, parecem pertencer a universos diferentes. Na primeira leitura, Paulo recorda sua transformação: de perseguidor da comunidade cristã tornou-se anunciador do Evangelho entre os povos. No Evangelho, encontramos Jesus na casa de Marta e Maria, onde a atitude de escuta de Maria é colocada em contraste com a inquietação de Marta. Contudo, lidos a partir da Teologia Latino-americana e da experiência das Comunidades Eclesiais de Base (CEBs), os dois textos convergem em uma questão fundamental: como a experiência da Palavra de Deus transforma nossa maneira de viver e nos coloca a serviço do Reino, especialmente junto aos pobres e excluídos?
1. Paulo: uma experiência de graça que rompe com o passado
Na Carta aos Gálatas, Paulo apresenta sua trajetória anterior: havia sido extremamente zeloso pelas tradições de seus antepassados e perseguia violentamente a Igreja de Deus. Seu zelo religioso, entretanto, não o conduzia à vida, mas à perseguição daqueles que haviam acolhido o Evangelho.
O ponto decisivo de sua história aparece quando afirma que Deus, por sua graça, revelou-lhe o Filho para que o anunciasse entre os povos. Paulo não apresenta sua transformação como conquista pessoal. O protagonista é Deus: aquele que chama, revela e envia. A missão nasce, portanto, da graça recebida e não da busca de prestígio, poder ou reconhecimento.
Esse aspecto é particularmente significativo para uma leitura latino-americana. A experiência de Paulo questiona toda forma de religião que, em nome de tradições, normas ou estruturas, acaba perseguindo, excluindo ou silenciando pessoas. O próprio Paulo reconhece que seu zelo religioso havia produzido destruição. A experiência de Cristo o leva a realizar uma profunda conversão de sua compreensão de Deus, da comunidade e da própria missão.
A conversão cristã, portanto, não pode ser reduzida a uma mudança individual de comportamento. Ela implica uma transformação do olhar. Quem encontra verdadeiramente Jesus Cristo passa a enxergar de maneira diferente aqueles que anteriormente eram considerados inferiores, impuros, perigosos ou indignos.
É justamente nesse ponto que a experiência de Paulo ilumina a realidade das CEBs. Comunidades que se alimentam da Palavra são chamadas a discernir continuamente se suas práticas religiosas estão produzindo acolhida, participação e vida ou, ao contrário, exclusão, medo e condenação.
A verdadeira conversão pastoral exige que a Igreja se deixe interpelar pela realidade dos pobres, dos moradores das periferias, das pessoas em situação de rua, dos trabalhadores explorados, dos migrantes, dos povos indígenas, das comunidades quilombolas, das mulheres vítimas de violência e de tantos outros grupos que continuam sendo colocados à margem.
Paulo, aquele que antes perseguia a comunidade, torna-se precisamente aquele que anuncia a fé que antes procurava destruir. As Igrejas da Judeia glorificavam a Deus porque reconheciam que uma vida pode ser radicalmente transformada pela graça.
2. Maria e Marta: escutar a Palavra para discernir o essencial
No Evangelho de Lucas, Jesus entra em uma aldeia e é recebido na casa de Marta. Maria senta-se aos pés do Senhor e escuta sua Palavra, enquanto Marta permanece ocupada com muitos afazeres. Inquieta, ela pede que Jesus ordene à irmã que a ajude. Jesus, porém, responde: “Marta, Marta! Tu te preocupas e andas agitada por muitas coisas. Porém, uma só coisa é necessária”.
Durante séculos, essa passagem foi algumas vezes interpretada como uma oposição entre ação e contemplação, como se Jesus estivesse condenando o serviço e exaltando uma espiritualidade desligada da realidade. Uma leitura mais atenta, porém, permite perceber que o problema não está no serviço de Marta. O próprio Evangelho valoriza o serviço, a hospitalidade e o cuidado.
O problema está na agitação que impede o discernimento do essencial.
Marta acolhe Jesus em sua casa, mas corre o risco de transformar o acolhimento em ativismo. Maria, sentada aos pés de Jesus, assume uma postura de discípula. Esse detalhe possui grande importância: naquele contexto social, colocar-se aos pés de um mestre era uma posição própria do discípulo. Jesus, portanto, reconhece a mulher como alguém capaz de escutar, aprender e participar do discipulado.
A Palavra de Deus devolve a Maria o direito de ser discípula. E isso possui uma profunda dimensão libertadora.
A Teologia Latino-americana encontra aqui uma chave importante para compreender a missão das CEBs: não existe verdadeira ação pastoral sem escuta da Palavra e sem escuta da realidade. A comunidade cristã não é chamada simplesmente a fazer muitas coisas. É chamada a discernir, à luz do Evangelho, aquilo que efetivamente produz vida.
Por isso, Maria e Marta não precisam ser colocadas como inimigas. A comunidade necessita tanto da escuta quanto do serviço. O que Jesus questiona é um serviço que se torna ansioso, centralizador e incapaz de reconhecer o essencial.
3. A Palavra escutada transforma-se em compromisso
A aproximação entre os dois textos torna-se ainda mais significativa quando os colocamos em diálogo.
Maria escuta. Paulo experimenta a revelação de Cristo. Maria acolhe a Palavra. Paulo transforma sua existência em missão. Maria rompe com uma lógica social que poderia restringir sua participação ao espaço doméstico. Paulo rompe com uma compreensão religiosa que o havia tornado perseguidor.
Em ambos os casos, a experiência da Palavra provoca deslocamento.
A Palavra de Deus não é oferecida para nos manter confortavelmente dentro de nossas certezas. Ela nos envia para fora de nós mesmos.
É essa dinâmica que encontramos nas CEBs. A Leitura Popular da Bíblia parte da vida, aproxima-se da Palavra e retorna à vida com um novo compromisso. O texto bíblico não é utilizado apenas para responder às necessidades individuais. Ele ilumina a realidade, ajuda a identificar as estruturas que produzem sofrimento e desperta a comunidade para uma ação transformadora.
Nesse sentido, escutar Jesus é também escutar o clamor dos pobres.
Não podemos dizer que escolhemos “a melhor parte” se nossa espiritualidade nos torna indiferentes diante da fome, da violência, do racismo, da desigualdade, do desemprego, da falta de moradia, da destruição da Casa Comum ou da exclusão social.
A contemplação cristã conduz ao compromisso. A Palavra acolhida no coração precisa alcançar as mãos, os pés e as decisões da comunidade.
4. CEBs: comunidades que escutam, discernem e servem
Nas Comunidades Eclesiais de Base, a Palavra de Deus é tradicionalmente colocada no centro da vida comunitária. A Bíblia é lida a partir da realidade concreta do povo e, ao mesmo tempo, a realidade é iluminada pela Palavra.
Essa dinâmica pode ser expressa em três movimentos: escutar, discernir e agir.
Primeiro, escutar a Palavra. É o movimento de Maria, que se coloca aos pés de Jesus. A comunidade precisa criar espaços de silêncio, Leitura Orante, círculos bíblicos e partilha comunitária capazes de superar uma religião marcada pelo excesso de informações e pela superficialidade.
Depois, discernir. É preciso perguntar: o que esta Palavra revela sobre nossa realidade? Quem está sofrendo? Quem está sendo excluído? Quais estruturas produzem pobreza? Que interesses impedem que todos tenham vida digna? Onde Deus está chamando a comunidade a mudar?
Finalmente, agir. A experiência de Paulo demonstra que o encontro com Cristo conduz à missão. As CEBs não podem permanecer apenas reunidas ao redor da Bíblia. Precisam ser comunidades enviadas às periferias da existência humana.
Isso significa fortalecer a solidariedade com os pobres, apoiar iniciativas de economia solidária, defender os direitos humanos, acompanhar trabalhadores e comunidades ameaçadas, cuidar da Casa Comum, combater todas as formas de discriminação e promover espaços nos quais os próprios pobres sejam sujeitos da evangelização e da transformação social.
5. Uma espiritualidade que não separa altar e vida
Os dois textos também nos ajudam a superar uma falsa oposição entre espiritualidade e compromisso social.
Maria nos recorda que precisamos sentar aos pés de Jesus. Paulo nos recorda que, depois de encontrar Cristo, é necessário partir em missão.
A espiritualidade cristã não pode ser alienante. Uma Igreja que contempla Jesus, mas não reconhece Jesus nos pobres, precisa perguntar se realmente compreendeu o Evangelho.
Por isso, a experiência das CEBs possui uma contribuição fundamental para a Igreja latino-americana: a fé celebrada deve tornar-se fé praticada; a Palavra proclamada deve tornar-se Palavra encarnada; a oração deve alimentar a missão; e a experiência comunitária deve gerar compromisso com a vida do povo.
O desafio não é escolher entre Maria e Marta. É permitir que a escuta de Maria purifique o serviço de Marta. É fazer com que a contemplação conduza à ação e que a ação permaneça permanentemente alimentada pela Palavra.
Paulo nos mostra o resultado dessa dinâmica: aquele que anteriormente perseguia passa a anunciar; aquele que destruía passa a construir comunidades; aquele que estava preso a uma visão religiosa excludente torna-se mensageiro do Evangelho entre os povos.
Conclusão
A liturgia desta Terça-feira da 27ª Semana do Tempo Comum nos convida, portanto, a uma profunda revisão de nossa experiência cristã. Gl 1,13-24 recorda que a graça de Deus é capaz de transformar pessoas e comunidades, fazendo nascer uma nova maneira de compreender a missão. Lc 10,38-42 ensina que, em meio às muitas preocupações e atividades, precisamos recuperar a escuta atenta da Palavra.
Para as Comunidades Eclesiais de Base, essa mensagem é particularmente atual. Precisamos ser comunidades que sabem parar para escutar, discernir para compreender e agir para transformar.
Sentar aos pés de Jesus não significa abandonar os pobres à própria sorte. Pelo contrário: significa aprender com Jesus a enxergar aqueles que a sociedade prefere não enxergar.
A melhor parte escolhida por Maria não nos retira da realidade. Ela nos devolve à realidade com olhos novos.
E quando a Palavra verdadeiramente nos alcança, acontece conosco aquilo que aconteceu com Paulo: nossa vida deixa de girar em torno de nós mesmos e se transforma em missão.
Que nossas comunidades saibam escutar a Palavra, discernir os sinais dos tempos e colocar-se a serviço dos pobres, marginalizados e excluídos. Assim, a Eucaristia celebrada, a Palavra proclamada e a vida compartilhada poderão tornar-se, juntas, sinais concretos do Reino de Deus entre nós.
Deixe um comentário