Reflexão para Quarta-feira da 27ª Semana do Tempo Comum: Bem-aventurada Virgem Maria do Rosário – Memória

A COMUNIDADE QUE ESCUTA, ORA E SE COLOCA A SERVIÇO

Por Pe. Hermes A. Fernandes

A Liturgia Eucarística da Quarta-feira da 27ª Semana do Tempo Comum coloca diante de nós dois textos profundamente relacionados: At 1,12-14 e Lc 1,26-38. O primeiro apresenta a comunidade dos discípulos reunida em oração, juntamente com Maria, aguardando a realização da promessa do Espírito Santo. O segundo narra a Anunciação, quando Maria, em Nazaré, acolhe o chamado de Deus e se coloca inteiramente à disposição de seu projeto. A tradição litúrgica une, assim, o início da vida histórica de Jesus à gestação da comunidade cristã: Maria aparece em Nazaré acolhendo a Palavra e, posteriormente, no Cenáculo, perseverando em oração com a Igreja nascente.

A partir da Teologia Latino-americana e da experiência das Comunidades Eclesiais de Base, esses textos nos ajudam a compreender que a fé cristã não pode ser reduzida a uma espiritualidade intimista. O encontro com Deus gera comunidade, discernimento, resistência diante das situações de morte e compromisso com a transformação da realidade, especialmente em favor dos pobres, marginalizados e excluídos.

1. At 1,12-14: uma Igreja reunida, plural e perseverante

O texto dos Atos situa-se imediatamente depois da Ascensão de Jesus. Os discípulos retornam do Monte das Oliveiras para Jerusalém, conforme havia ordenado o Ressuscitado. Eles entram no Cenáculo, espaço de reunião da primeira comunidade, e ali permanecem em oração. Lucas apresenta os apóstolos nominalmente e, significativamente, acrescenta as mulheres, Maria, mãe de Jesus, e os irmãos de Jesus.

Essa composição da comunidade é teologicamente significativa. A Igreja não nasce como uma realidade constituída apenas pelos Doze ou por uma elite religiosa masculina. Ela nasce como uma comunidade formada por diferentes pessoas que, apesar de suas histórias e funções distintas, esperam juntas a ação do Espírito.

O verbo utilizado para indicar que permaneciam em oração expressa perseverança. Não se trata de uma oração ocasional ou individualista. É uma oração comunitária, realizada por pessoas que compartilham uma esperança e aguardam o cumprimento da promessa de Jesus. O texto apresenta, portanto, uma Igreja que sabe esperar, discernir e preparar-se para a missão.

Para as CEBs, essa imagem possui enorme força pastoral. A comunidade cristã não é simplesmente um agrupamento de pessoas que frequentam uma celebração. Ela é um espaço onde a realidade é iluminada pela Palavra, onde os sofrimentos do povo são colocados diante de Deus e onde se procura discernir os caminhos concretos da missão.

A presença de Maria também é significativa. Ela não aparece ocupando um lugar de poder, mas participando da comunidade que ora e espera. A mulher de Nazaré que acolheu a Palavra encontra-se agora no meio da Igreja nascente, perseverando com os discípulos. Lucas estabelece, assim, uma ligação entre a Anunciação e Pentecostes: a mesma mulher que acolheu o projeto de Deus em sua vida participa agora da comunidade que espera a força do Espírito para testemunhar o Ressuscitado.

A espiritualidade das CEBs pode reconhecer nessa cena um verdadeiro paradigma comunitário: ninguém é dispensável na construção da Igreja. Homens e mulheres, pessoas simples, trabalhadores, pobres e todos aqueles que historicamente foram colocados à margem podem tornar-se sujeitos da missão.

2. Lc 1,26-38: Deus visita a periferia e chama uma mulher

O Evangelho da Anunciação conduz-nos a Nazaré da Galileia, uma região considerada periférica em relação aos centros religiosos e políticos de Israel. É precisamente nesse lugar aparentemente insignificante que Deus manifesta sua iniciativa. O anúncio não acontece no Templo de Jerusalém nem diante de uma autoridade religiosa. A Palavra de Deus chega à casa de uma jovem chamada Maria.

Esse aspecto é particularmente importante para a Teologia Latino-americana. Deus não se revela apenas nos lugares de poder. A história da salvação passa também pelas periferias, pelas casas simples e pela vida de pessoas que não ocupam posições socialmente privilegiadas.

Maria é apresentada como uma jovem prometida em casamento a José, descendente de Davi. O anjo Gabriel anuncia que ela conceberá e dará à luz Jesus, aquele que receberá o trono de Davi e cujo Reino não terá fim. A linguagem utilizada por Lucas remete às promessas messiânicas de Israel, mas introduz uma novidade decisiva: o cumprimento da promessa acontece por meio de uma mulher jovem, em uma realidade periférica, pela ação do Espírito Santo.

Maria pergunta: “Como acontecerá isso?”. Sua pergunta não significa necessariamente incredulidade. Ela procura compreender como se realizará aquilo que Deus está anunciando. A fé bíblica não é alienação da realidade; é capacidade de escutar Deus, questionar, discernir e, finalmente, colocar-se a serviço de seu projeto.

A resposta de Maria — “Eis aqui a serva do Senhor; faça-se em mim segundo a tua palavra” — manifesta disponibilidade. Entretanto, essa disponibilidade não deve ser interpretada como passividade. Maria não desaparece da história depois de dizer “sim”. Pelo contrário, seu consentimento inaugura um caminho de serviço, resistência e participação ativa na história da salvação.

A leitura latino-americana encontra aqui uma importante chave hermenêutica: o verdadeiro “sim” a Deus conduz ao compromisso com a vida.

3. Do “sim” de Maria à missão das CEBs

A conexão entre Lc 1,26-38 e At 1,12-14 é particularmente fecunda. Em Nazaré, Maria acolhe a Palavra e o Espírito; no Cenáculo, persevera em oração com a comunidade que espera o Espírito. Entre uma cena e outra está toda a experiência do seguimento de Jesus.

Isso significa que a espiritualidade cristã precisa articular escuta, oração, discernimento e ação.

Não existe verdadeira espiritualidade cristã quando a oração serve para afastar-nos do sofrimento humano. O Deus anunciado por Jesus é o Deus que escuta o clamor de seu povo e se compromete com a vida. Por isso, a oração das CEBs precisa trazer para diante de Deus os rostos concretos daqueles que sofrem: pessoas sem moradia, famílias submetidas à fome, trabalhadores precarizados, desempregados, migrantes, população em situação de rua, povos indígenas, comunidades quilombolas, mulheres vítimas de violência, crianças e jovens privados de oportunidades e todos aqueles que continuam sendo descartados por estruturas econômicas e sociais injustas.

O Cenáculo das CEBs precisa estar aberto às ruas e às periferias.

Uma comunidade que permanece reunida somente para cuidar de suas próprias necessidades ainda não compreendeu plenamente a dinâmica do Espírito. O Espírito Santo recebido no Cenáculo conduz a Igreja para fora de si mesma, para o encontro com a humanidade ferida.

Por isso, a Leitura Popular da Bíblia possui papel fundamental. A Palavra é lida a partir da vida e retorna à vida como força de discernimento e compromisso. A comunidade pergunta: Onde está Deus presente nesta realidade? Quem está sendo ferido? Quem está sendo excluído? Que estruturas produzem sofrimento? O que o Evangelho nos pede para fazer?

Nesse processo, Maria torna-se referência não de uma devoção desligada da história, mas de uma fé capaz de acolher Deus e colocar-se a serviço de seu projeto.

4. Uma pastoral que transforme oração em compromisso

At 1,12-14 e Lc 1,26-38 desafiam nossas comunidades a superar duas tentações opostas: uma pastoral ativista, que age sem discernimento e sem oração, e uma espiritualidade alienada, que reza muito, mas permanece indiferente diante da injustiça.

As CEBs são chamadas a construir uma espiritualidade na qual oração e compromisso social caminhem juntos.

A comunidade reunida para rezar deve ser também comunidade que visita os enfermos, acompanha famílias vulneráveis, defende a dignidade dos trabalhadores, acolhe migrantes, protege crianças e jovens, combate todas as formas de violência e discriminação, participa da defesa da Casa Comum e se coloca ao lado dos povos ameaçados pela destruição de seus territórios.

O “sim” de Maria não pode ser reduzido a uma fórmula devocional. Ele é uma resposta concreta ao Deus que entra na história. Do mesmo modo, o “sim” das CEBs precisa ser pronunciado diante das situações concretas que clamam por justiça, fraternidade e dignidade.

A oração comunitária do Cenáculo prepara a comunidade para Pentecostes. E Pentecostes não é fechamento espiritual: é envio missionário.

Conclusão: uma Igreja que nasce nas periferias e caminha com os pobres

A Liturgia desta Quarta-feira da 27ª Semana do Tempo Comum apresenta-nos Maria em dois momentos decisivos: em Nazaré, acolhendo o chamado de Deus, e no Cenáculo, perseverando na oração com a comunidade apostólica. Entre esses dois momentos encontra-se uma Igreja que aprende que sua missão nasce da escuta da Palavra, da oração comunitária e da abertura ao Espírito.

Para a Teologia Latino-americana e para as Comunidades Eclesiais de Base, essa Palavra nos recorda que Deus continua visitando nossas periferias e falando através dos pequenos. Continua chamando pessoas e comunidades para colaborar na construção de seu Reino.

Maria ensina-nos a dizer “sim” ao projeto de Deus. O Cenáculo ensina-nos que esse “sim” precisa ser comunitário. O Espírito Santo ensina-nos que ele deve transformar-se em missão.

Por isso, a comunidade cristã não pode permanecer indiferente diante daqueles que sofrem. A oração que nasce do Evangelho precisa tornar-se compromisso com a vida; a fé precisa tornar-se solidariedade; a celebração eucarística precisa alimentar uma Igreja servidora; e a espiritualidade precisa conduzir-nos ao encontro dos pobres, marginalizados e excluídos.

É assim que a Igreja, reunida em oração e aberta ao Espírito, pode continuar dizendo com Maria: “Eis aqui a serva do Senhor” — e, como comunidade, colocar-se a caminho para que a vida, a dignidade e a esperança tenham a última palavra.


Deixe um comentário

Crie um site ou blog no WordPress.com

Acima ↑