O BANQUETE DE DEUS: UMA MESA ABERTA AOS POBRES E EXCLUÍDOS

Comentário às leituras do 28º Domingo do Tempo Comum – (Ano A): Is 25,6-10a; Fl 4,12-14.19-20; Mt 22,1-14

Por Pe. Hermes A. Fernandes

A Liturgia Eucarística do 28º Domingo do Tempo Comum apresenta-nos uma das imagens mais bonitas da Sagrada Escritura: o banquete preparado por Deus. Em Isaías, é o próprio Senhor quem prepara uma mesa abundante para todos os povos e promete eliminar a morte, enxugar as lágrimas e retirar a vergonha de seu povo. Em Filipenses, Paulo testemunha uma espiritualidade marcada pela solidariedade e pela capacidade de viver tanto na abundância quanto na necessidade. No Evangelho de Mateus, Jesus apresenta o Reino de Deus como uma festa de casamento para a qual todos são convidados.

Lidos à luz da Teologia Latino-americana e da experiência das Comunidades Eclesiais de Base (CEBs), esses textos nos interpelam profundamente: quem está sentado à mesa? Quem permanece do lado de fora? Quem é convidado? E quais são as estruturas que impedem que o pão seja repartido entre todos?

1. Isaías: Deus prepara uma mesa para todos os povos

O texto de Is 25,6-10a pertence a uma seção do livro de Isaías que apresenta uma perspectiva fortemente escatológica: Deus manifesta definitivamente sua vitória sobre aquilo que produz sofrimento e morte. A imagem escolhida pelo profeta é a de um grande banquete no monte do Senhor. Não se trata simplesmente de uma refeição abundante, mas de uma imagem de salvação, comunhão e vida plena.

O texto afirma que Deus oferecerá a todos os povos “um banquete de carnes gordas e vinhos finos”. A universalidade é fundamental: a salvação não está reservada a um pequeno grupo. O horizonte de Deus é a humanidade inteira. A própria CNBB destaca, ao comentar esta liturgia, que Isaías apresenta o Reino como uma realidade destinada a todos os povos e vinculada à superação do sofrimento.

Mais significativo ainda é aquilo que Deus fará: “eliminará para sempre a morte”, “enxugará as lágrimas” e retirará a desonra do seu povo. Portanto, o banquete bíblico não pode ser reduzido a uma promessa individual de felicidade depois da morte. Ele expressa o projeto de Deus de vencer tudo aquilo que nega a vida.

Aqui encontramos uma chave fundamental da Teologia Latino-americana: a salvação possui uma dimensão histórica e concreta. Deus não é indiferente à fome, à pobreza, à exclusão, à violência, ao desemprego, à falta de moradia ou à destruição da Casa Comum. A mesa de Deus entra em conflito com todas as mesas nas quais poucos acumulam enquanto muitos permanecem sem o necessário.

As CEBs são chamadas a transformar esta profecia em prática pastoral. Onde existe uma comunidade que partilha alimentos, acompanha famílias vulneráveis, defende os direitos dos trabalhadores, acolhe migrantes, protege a Casa Comum e se compromete com os excluídos, ali a Igreja começa a tornar visível o banquete anunciado pelo profeta.

2. Filipenses: a espiritualidade da partilha

Em Fl 4,12-14.19-20, Paulo agradece à comunidade de Filipos pela solidariedade recebida. Ele afirma ter aprendido a viver tanto na abundância quanto na necessidade. Não significa que a pobreza seja desejável ou que a privação deva ser espiritualizada. Paulo reconhece concretamente a existência da necessidade e valoriza a comunidade que não o abandonou.

O elemento central é a solidariedade comunitária. A comunidade de Filipos não se limita a ouvir o Evangelho: ela participa concretamente da missão apostólica de Paulo.

Essa perspectiva é profundamente próxima da experiência das CEBs. A fé cristã não pode permanecer restrita ao interior do templo. A comunidade que celebra a Eucaristia é chamada a tornar-se uma comunidade que partilha a vida, os dons, os recursos, as dores e as esperanças do povo.

A afirmação de Paulo de que Deus suprirá as necessidades da comunidade não deve ser utilizada para justificar uma teologia da prosperidade. O texto aponta em outra direção: Deus age também através da solidariedade concreta entre pessoas e comunidades.

A espiritualidade cristã não consiste em pedir a Deus que alguns tenham cada vez mais enquanto outros nada possuem. Consiste em construir relações nas quais ninguém seja abandonado à própria sorte. É precisamente nesse sentido que a Eucaristia adquire sua dimensão social: o pão partido no altar precisa tornar-se pão repartido na vida.

3. Mateus: o banquete é oferecido aos que estavam fora

Em Mt 22,1-14, Jesus compara o Reino dos Céus a um rei que prepara a festa de casamento de seu filho. Os primeiros convidados recusam o convite. Alguns simplesmente ignoram a convocação porque estão ocupados com seus negócios; outros violentam e matam os mensageiros.

A parábola está situada no contexto dos conflitos entre Jesus e as autoridades religiosas de Jerusalém. Mateus utiliza a imagem do banquete para falar do Reino e da resposta humana ao convite de Deus. Estudos recentes sobre a passagem também ressaltam sua dimensão escatológica: o banquete nupcial funciona como imagem da consumação do Reino.

O ponto decisivo aparece quando o rei manda os servos saírem “pelas encruzilhadas dos caminhos” e convidarem todos os que encontrarem. A sala então se enche de pessoas.

Aqui está uma das grandes forças pastorais do Evangelho: aqueles que estavam fora são chamados para dentro.

A lógica do Reino rompe com os mecanismos de exclusão. Pessoas consideradas socialmente insignificantes, pecadoras, pobres, marginalizadas e desprezadas encontram lugar à mesa. O Reino não é um clube reservado aos que se consideram merecedores. A iniciativa pertence à graça de Deus.

Entretanto, a parábola também apresenta a imagem desconcertante da veste nupcial. O sentido dessa imagem é objeto de diferentes interpretações exegéticas. Em uma leitura pastoral, podemos compreendê-la como sinal de que aceitar o convite para o Reino implica assumir uma nova maneira de viver. Não basta entrar na sala do banquete; é necessário deixar-se transformar pela lógica do Evangelho.

A veste nupcial, portanto, pode representar uma existência revestida de justiça, misericórdia, fraternidade e compromisso com a vida. Não seria coerente participar da mesa do Senhor e, ao mesmo tempo, colaborar com estruturas que retiram o pão da mesa dos pobres.

4. A Eucaristia e a mesa dos pobres

Os três textos convergem para uma questão fundamental: Deus prepara uma mesa, mas a humanidade precisa decidir se aceita viver segundo a lógica dessa mesa.

Isaías anuncia uma mesa universal, onde Deus vence a morte e enxuga as lágrimas. Paulo apresenta uma comunidade que não abandona seu irmão na necessidade. Mateus anuncia um Reino cuja festa é aberta justamente àqueles que estavam nas encruzilhadas.

A Eucaristia torna presente sacramentalmente essa realidade. Contudo, celebrar a Eucaristia sem assumir a causa da vida seria contradizer o significado da própria mesa que celebramos.

Para as CEBs, essa Palavra possui consequências concretas. É necessário:

  • fortalecer a partilha de alimentos e a solidariedade com famílias em situação de vulnerabilidade;
  • combater as causas da fome, da pobreza, do desemprego e da falta de moradia;
  • acolher migrantes, moradores de rua, pessoas discriminadas e todos aqueles que a sociedade tende a deixar à margem;
  • defender a dignidade dos trabalhadores e trabalhadoras;
  • promover a participação das mulheres, da juventude, dos povos originários, das comunidades quilombolas e dos grupos historicamente excluídos;
  • cuidar da Casa Comum, reconhecendo que a degradação ambiental atinge sobretudo os pobres;
  • transformar a Leitura Orante da Bíblia em oração que conduz à ação pastoral e sociotransformadora.

As CEBs podem ser, assim, pequenas comunidades de mesa aberta: lugares onde ninguém seja invisível, onde o pão seja repartido, onde a Palavra seja escutada e onde a fé produza compromisso com a transformação da realidade.

5. “Muitos são chamados”: uma Igreja de portas abertas

A frase final do Evangelho — “muitos são chamados, mas poucos são escolhidos” — não deveria ser utilizada para alimentar uma espiritualidade de exclusão. Pelo contrário, depois de afirmar que os primeiros convidados recusaram o convite, Jesus apresenta uma sala que se enche com pessoas encontradas nas estradas.

A questão decisiva não é simplesmente quem pertence formalmente à comunidade, mas quem efetivamente aceita viver segundo os valores do Reino.

Uma Igreja verdadeiramente eucarística precisa ter portas abertas e coração missionário. Precisa sair das estruturas autorreferenciais e encontrar o povo nas periferias geográficas e existenciais. Precisa perguntar onde estão hoje aqueles que permanecem nas “encruzilhadas dos caminhos”.

O banquete de Deus não pode ser transformado em privilégio de poucos. A mesa eucarística anuncia uma humanidade reconciliada, na qual o pão é suficiente para todos e ninguém é descartado.

Por isso, a Palavra deste 28º Domingo do Tempo Comum nos convida a passar do altar à vida, da celebração à missão, da oração à solidariedade. A Eucaristia que celebramos torna-se verdadeira quando o pão partido no altar se prolonga no pão repartido entre os irmãos e irmãs.

O sonho de Deus é uma mesa onde todos tenham lugar. A missão das CEBs é ajudar a preparar essa mesa já no meio da história.


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