A Palavra que liberta e cria uma nova fraternidade
Por Pe. Hermes A. Fernandes
A Liturgia Eucarística do sábado da 27ª Semana do Tempo Comum nos apresenta dois textos que, embora breves, possuem uma extraordinária força transformadora: Gl 3,22-29 e Lc 11,27-28. Paulo proclama que, em Cristo, somos filhos e filhas de Deus e que as antigas barreiras de raça, condição social e gênero não podem determinar o valor ou a dignidade das pessoas. No Evangelho, Jesus desloca a atenção da admiração meramente exterior para a verdadeira felicidade daqueles que ouvem a Palavra de Deus e a põem em prática.
Lidos à luz da Teologia Latino-americana e da experiência das Comunidades Eclesiais de Base (CEBs), esses textos nos recordam que a fé cristã não pode permanecer reduzida a fórmulas religiosas, devoções ou discursos. A Palavra acolhida verdadeiramente transforma relações, questiona estruturas de exclusão e conduz ao compromisso com os pobres, marginalizados e excluídos.
1. “Todos sois filhos de Deus pela fé em Cristo Jesus” (Gl 3,26)
A Carta aos Gálatas nasce em meio a um conflito concreto. Paulo enfrenta aqueles que pretendiam impor aos cristãos de origem não judaica determinadas exigências da Lei como condição para sua plena pertença ao povo de Deus. O apóstolo insiste que a salvação não é resultado da observância de um sistema de normas que possa criar distinções entre pessoas, mas dom recebido mediante a fé em Jesus Cristo.
Nos versículos 22-25, Paulo apresenta a Lei como uma realidade que teve uma função pedagógica na história da salvação. Antes da chegada da fé, ela exercia uma função de tutela; com Cristo, porém, começa uma nova etapa. A própria catequese do Papa Francisco sobre Gálatas ressalta que a Lei possui uma função propedêutica: ela encaminha para Cristo, mas não é ela que justifica nem constitui o fundamento último da dignidade humana.
Por isso, Paulo chega a uma afirmação revolucionária para seu contexto histórico: “todos sois filhos de Deus pela fé em Cristo Jesus” (Gl 3,26). E acrescenta: “não há mais judeu ou grego, escravo ou livre, homem ou mulher” (3,28).
Não significa que Paulo esteja negando as diferenças culturais, sociais ou biológicas existentes entre as pessoas. Ele está afirmando algo muito mais profundo: nenhuma dessas diferenças pode servir de fundamento para estabelecer hierarquias de dignidade dentro da comunidade cristã. Em Cristo, todos participam da mesma promessa e constituem um único povo.
O batismo, portanto, não pode ser entendido apenas como um rito de pertença religiosa. Ser “revestido de Cristo” significa assumir uma nova existência. O Papa Francisco observa que, para Paulo, o batismo introduz a pessoa numa condição radicalmente nova: somos filhos e filhas de Deus e recebemos uma dignidade que supera as divisões étnicas, sociais e de gênero.
Aqui encontramos uma importante chave para a realidade das CEBs. Uma comunidade verdadeiramente cristã não pode reproduzir dentro de si as mesmas estruturas de exclusão existentes na sociedade. Se na sociedade alguém vale mais por causa de sua riqueza, cor da pele, escolaridade, profissão, gênero, origem social ou poder, a comunidade cristã é chamada a testemunhar uma lógica diferente.
2. Uma Palavra que confronta as estruturas de exclusão
A leitura latino-americana da Bíblia procura perceber não somente o que o texto significou ontem, mas também o que ele significa hoje, diante da realidade concreta dos povos.
Quando Paulo afirma que não há “escravo nem livre”, sua Palavra interpela uma sociedade marcada por formas antigas e novas de escravidão. Hoje ainda encontramos trabalhadores submetidos a condições degradantes, pessoas exploradas pelo trabalho precário, populações expulsas de seus territórios, migrantes vulnerabilizados, moradores de rua, pessoas privadas de oportunidades e multidões condenadas à fome.
Quando afirma que não há “judeu nem grego”, a Palavra questiona racismos, preconceitos, xenofobias e todas as formas de discriminação que transformam diferenças culturais em instrumentos de dominação.
Quando afirma que não há “homem nem mulher”, Paulo aponta para uma comunidade na qual a dignidade não pode ser condicionada ao sexo ou utilizada para legitimar relações de dominação. A igualdade fundamental em Cristo exige que a Igreja examine também suas próprias práticas, estruturas e linguagens.
É precisamente nesse ponto que a experiência das CEBs possui uma contribuição preciosa. A comunidade reunida ao redor da Palavra aprende a reconhecer que o Evangelho não é propriedade de especialistas. A própria Pontifícia Comissão Bíblica recorda que a tradição bíblica apresenta como ouvintes privilegiados da Palavra aqueles que o mundo frequentemente considera pequenos e humildes; sua experiência de vida deve ser levada em consideração pela Igreja na interpretação da Escritura.
Nas CEBs, portanto, a Bíblia pode ser lida a partir da vida do povo: a mãe que luta para alimentar os filhos, o trabalhador que busca emprego, o jovem ameaçado pela violência, a população negra vítima do racismo, os povos indígenas que defendem seus territórios, os camponeses ameaçados pela concentração fundiária, as comunidades afetadas pela mineração e pela destruição da Casa Comum.
A Palavra de Deus deixa de ser um livro distante e torna-se Palavra viva no meio da caminhada do povo.
3. “Felizes os que ouvem a Palavra de Deus e a põem em prática” (Lc 11,28)
No Evangelho, uma mulher, maravilhada diante de Jesus, proclama: “Feliz o ventre que te trouxe e os seios que te amamentaram!” (Lc 11,27). A afirmação é profundamente bonita. Jesus, entretanto, responde conduzindo aquela admiração para uma dimensão mais profunda: “Felizes são aqueles que ouvem a Palavra de Deus e a põem em prática” (Lc 11,28).
Jesus não desvaloriza sua mãe. Pelo contrário, Maria é precisamente aquela que escuta, acolhe e realiza a Palavra. O que Jesus faz é deslocar o foco de uma maternidade compreendida apenas biologicamente para a verdadeira relação com Deus: a grandeza está em acolher a Palavra e deixar que ela transforme a existência. A própria tradição da Igreja reconhece Maria como aquela que acolheu a Palavra e a viveu fielmente.
Assim, a bem-aventurança de Jesus não é dirigida aos que simplesmente escutam a Palavra, mas aos que a escutam e a praticam.
Esta pequena frase possui enorme importância para uma espiritualidade latino-americana. Não basta multiplicar celebrações, devoções, encontros, congressos, peregrinações ou discursos religiosos se a Palavra não produz transformação na vida.
Uma Igreja que escuta a Palavra precisa necessariamente perguntar: o que essa Palavra está exigindo de nós diante da fome, da pobreza, da violência, do racismo, da desigualdade, da destruição ambiental e da exclusão social?
A verdadeira escuta da Palavra conduz à prática da misericórdia, da justiça e da fraternidade.
4. Das CEBs para a transformação da realidade
É justamente aqui que os dois textos se encontram.
Gálatas anuncia que em Cristo somos uma comunidade sem muros de superioridade e inferioridade. Lucas ensina que a Palavra somente produz felicidade quando é colocada em prática.
Consequentemente, uma comunidade que se reúne para ouvir a Palavra precisa tornar-se uma comunidade que se coloca a serviço da vida.
A celebração eucarística não pode terminar no templo. A Eucaristia envia a comunidade para as periferias. A Palavra proclamada no altar precisa continuar sendo proclamada na defesa daqueles cuja dignidade é negada.
Por isso, a ação pastoral das CEBs pode concretizar esses textos através da organização comunitária, da defesa dos direitos sociais, da promoção da dignidade humana, do acompanhamento das famílias vulnerabilizadas, da defesa dos povos indígenas e quilombolas, da luta pela moradia e pelo trabalho digno, do cuidado com a Casa Comum e da presença junto aos que vivem situações de abandono.
Também é necessário recuperar uma Igreja na qual os pobres não sejam apenas destinatários de assistência, mas sujeitos da evangelização. Eles têm voz, saber, experiência e capacidade de interpretar a realidade à luz da fé. A leitura popular da Bíblia nasce precisamente desse encontro entre a Palavra e a vida.
5. Uma Igreja que pratica aquilo que escuta
A Liturgia deste sábado nos coloca diante de uma pergunta decisiva: que tipo de comunidade estamos construindo?
Podemos construir comunidades preocupadas apenas com sua própria conservação, com seus espaços, suas estruturas, suas devoções e seus grupos internos. Ou podemos construir comunidades abertas à realidade, capazes de ouvir o grito dos pobres e de reconhecer nele um apelo do próprio Deus.
Gl 3,22-29 nos recorda que ninguém pode ser considerado cristão de segunda categoria. Em Cristo, todos recebem a mesma dignidade. Lc 11,27-28 nos recorda que essa verdade precisa tornar-se prática concreta.
A Palavra que não transforma as relações corre o risco de tornar-se apenas discurso religioso. A fé que não se compromete com a vida dos pobres perde a força profética do Evangelho.
Por isso, neste sábado da 27ª Semana do Tempo Comum, a Liturgia nos convida a renovar a identidade das CEBs como comunidades da Palavra, da Eucaristia, da fraternidade e da missão. Comunidades nas quais se aprende a ler a Bíblia a partir da vida e a ler a vida à luz da Bíblia.
Ser feliz, segundo Jesus, não é simplesmente possuir uma religião. É ouvir a Palavra e colocá-la em prática. E colocar a Palavra em prática significa reconhecer, em cada ser humano ferido pela pobreza, pela violência, pelo preconceito ou pela exclusão, um irmão ou uma irmã revestido da mesma dignidade de Cristo.
Assim, a comunidade que escuta verdadeiramente a Palavra torna-se sinal do Reino de Deus no meio da história: uma comunidade sem escravos nem senhores, sem superiores nem inferiores, sem excluídos; uma comunidade na qual todos são irmãos e irmãs porque todos pertencem a Cristo.
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