A liberdade do Evangelho e a pureza que nasce da justiça
Por Pe. Hermes A. Fernandes
A Liturgia Eucarística da terça-feira da 28ª Semana do Tempo Comum nos convida a refletir sobre duas questões fundamentais para a vida cristã: a liberdade que recebemos de Cristo e a autenticidade de uma fé que não se limita às aparências religiosas. Em Gálatas 5,1-6, Paulo defende a liberdade dos cristãos diante de uma religião reduzida à observância de prescrições externas. Em Lucas 11,37-41, Jesus questiona a atitude dos que se preocupam com a purificação exterior, mas deixam de lado a justiça e a partilha.
Lidos à luz da Teologia Latino-americana e da caminhada das Comunidades Eclesiais de Base (CEBs), esses textos nos recordam que a fé cristã não pode ser separada da realidade concreta do povo. O Evangelho nos liberta de tudo aquilo que aprisiona a consciência, legitima privilégios e transforma a religião em instrumento de exclusão. A verdadeira conversão manifesta-se no amor, na solidariedade e no compromisso com os pobres, marginalizados e excluídos de ontem e de hoje.
1. Gálatas 5,1-6: Cristo nos libertou para vivermos na liberdade
A Carta aos Gálatas foi escrita em um contexto de conflito entre Paulo e aqueles que defendiam que os cristãos provenientes dos povos pagãos deveriam assumir a circuncisão e outras prescrições da Lei judaica como condição para pertencer plenamente ao povo de Deus. O apóstolo não está condenando a tradição judaica nem afirmando que a Lei fosse destituída de valor. Seu questionamento dirige-se à pretensão de transformar a circuncisão e a observância legal em requisitos indispensáveis para a salvação e para o reconhecimento da pertença à comunidade cristã.
Por isso, Paulo proclama: “É para a liberdade que Cristo nos libertou” (Gl 5,1). A liberdade cristã não significa viver sem responsabilidade, ignorando o próximo ou fazendo da vontade individual o critério absoluto da existência. Trata-se da libertação proporcionada pela graça de Deus, que rompe com as relações de dependência religiosa e com toda tentativa de colocar obstáculos à ação salvadora de Cristo.
Quando Paulo adverte os gálatas a não se submeterem novamente ao “jugo da escravidão”, sua preocupação é impedir que a comunidade abandone a centralidade de Cristo para se sujeitar a exigências que comprometem a gratuidade do Evangelho. A salvação não é uma mercadoria conquistada pelo cumprimento de regras, tampouco um privilégio reservado a quem consegue satisfazer determinadas exigências religiosas.
Essa mensagem adquire uma força especial na realidade latino-americana. Os povos historicamente empobrecidos conheceram formas de dominação que utilizaram inclusive a linguagem religiosa para justificar a exploração, a desigualdade e a submissão. Ainda hoje, determinadas expressões do cristianismo apresentam a prosperidade material como recompensa automática da fé, atribuem o sofrimento dos pobres à falta de mérito pessoal ou reduzem a vida cristã a proibições e comportamentos individuais, silenciando diante das estruturas que produzem miséria.
A Teologia Latino-americana, especialmente em sua opção preferencial pelos pobres, ajuda-nos a compreender que a liberdade anunciada por Paulo possui consequências sociais e históricas. Deus não deseja apenas uma humanidade interiormente reconciliada, mas também relações sociais transformadas pela justiça, pela fraternidade e pela dignidade de cada pessoa.
No versículo 6, Paulo apresenta o critério decisivo: a fé que atua pelo amor. Nem a circuncisão nem a ausência dela constituem o centro da vida cristã; o que importa é a fé que se torna operante na caridade. A autenticidade da fé, portanto, não se mede pela ostentação religiosa, pelo rigor exterior ou pela capacidade de julgar os outros, mas pelo amor que se faz concreto.
Nas CEBs, essa convicção se traduz na leitura comunitária da Palavra, na organização popular, na defesa dos direitos humanos, na luta por moradia digna, trabalho, alimentação, saúde e educação, bem como na solidariedade com povos indígenas, comunidades quilombolas, trabalhadores rurais, população em situação de rua e pessoas migrantes. A liberdade recebida de Cristo torna-se compromisso com a libertação de quem continua submetido a diferentes formas de escravidão.
2. Lucas 11,37-41: a verdadeira pureza nasce da justiça e da partilha
O Evangelho de Lucas apresenta Jesus à mesa de um fariseu. O anfitrião surpreende-se porque Jesus não realiza a purificação ritual das mãos antes da refeição. A reação de Jesus desloca o debate da observância exterior para a coerência entre a prática religiosa e a maneira de viver.
É importante compreender que Jesus não está condenando o povo judeu nem afirmando que todos os fariseus fossem hipócritas. Ele questiona uma religiosidade que, quando absolutiza os ritos e negligencia a justiça, deixa de corresponder à vontade de Deus. A crítica profética já denunciava esse mesmo problema: não basta oferecer sacrifícios quando se pratica a injustiça e se abandona o necessitado.
Jesus emprega a imagem do copo: os fariseus limpam o exterior, enquanto o interior está cheio de ganância e maldade. A metáfora revela uma contradição: cuidar da aparência religiosa sem transformar as relações humanas. O problema não está na existência de ritos, orações ou tradições, mas em utilizá-los para encobrir a indiferença diante do sofrimento alheio.
No versículo 40, Jesus recorda que Deus é o criador tanto do exterior quanto do interior. A pessoa humana não pode ser dividida entre uma dimensão religiosa aparentemente irrepreensível e uma prática cotidiana marcada pela exploração. A conversão precisa alcançar as intenções, as escolhas, o uso dos bens e a maneira como tratamos as pessoas.
O versículo 41 oferece uma indicação decisiva: a esmola, expressão concreta da generosidade e da partilha. No contexto bíblico, dar esmola não é simplesmente entregar algo que sobra, de modo a tranquilizar a consciência. É reconhecer no necessitado alguém cuja dignidade exige uma resposta concreta. A verdadeira pureza religiosa se manifesta quando o coração deixa de estar dominado pela ganância e se abre à solidariedade.
Essa palavra de Jesus interpela nossas comunidades e instituições eclesiais. É possível participar de celebrações, realizar novenas, organizar procissões, promover adorações e multiplicar devoções sem permitir que essas práticas transformem nossa relação com os pobres. A oração é indispensável, mas não pode tornar-se uma fuga da realidade. A espiritualidade cristã não nos afasta das feridas do mundo: aproxima-nos delas com compaixão e coragem.
A Teologia Latino-americana insiste que a fé precisa ser lida a partir da realidade concreta dos empobrecidos. Quando famílias não têm o que comer, trabalhadores são submetidos a condições degradantes, mulheres sofrem violência, povos indígenas têm seus territórios ameaçados e comunidades inteiras padecem com a falta de saneamento, moradia e acesso à saúde, a questão da pureza religiosa não pode ser separada da exigência de justiça.
Nas CEBs, o Evangelho de Lucas encontra uma expressão privilegiada. A comunidade que celebra a Eucaristia é chamada a tornar-se espaço de acolhida, escuta, partilha e organização solidária. Não basta oferecer assistência emergencial: é preciso também compreender e enfrentar as estruturas econômicas, políticas e culturais que produzem exclusão. A caridade que socorre deve caminhar junto com a justiça que transforma.
3. Das aparências religiosas à conversão pastoral: o desafio das CEBs
Os dois textos bíblicos convergem em uma mesma exigência: a relação com Deus precisa produzir liberdade, amor e compromisso com a vida. Paulo denuncia a submissão a exigências religiosas que obscurecem a gratuidade da salvação; Jesus denuncia a incoerência de uma prática exteriormente zelosa, mas interiormente fechada à justiça.
Essa convergência questiona também o clericalismo, o moralismo seletivo e as espiritualidades que se preocupam excessivamente com o comportamento individual, mas permanecem silenciosas diante da fome, do racismo, da violência contra as mulheres, da concentração da riqueza e da destruição da Casa Comum. Não se trata de abandonar a moral cristã, mas de recuperar sua centralidade evangélica: amar a Deus e ao próximo, reconhecendo a dignidade de cada pessoa e defendendo a vida em todas as suas dimensões.
A conversão pastoral proposta por esses textos pode concretizar-se em algumas iniciativas:
- Fortalecer a Leitura Popular da Bíblia, ajudando as comunidades a relacionar a Palavra de Deus com as experiências cotidianas, os sofrimentos do povo e as esperanças de libertação.
- Transformar a solidariedade em prática comunitária, organizando redes de partilha de alimentos, apoio às famílias vulnerabilizadas, acompanhamento de pessoas enfermas e acolhida aos migrantes.
- Assumir a defesa dos direitos humanos, articulando fé e cidadania na luta por moradia, trabalho digno, saúde, educação, segurança alimentar e políticas públicas que protejam os mais pobres.
- Promover a ecologia integral, em comunhão com a Pastoral da Ecologia Integral, a CPT e o CIMI, defendendo os territórios, os povos tradicionais e as comunidades atingidas pela mineração predatória e por outras formas de degradação ambiental.
- Revisar nossas práticas eclesiais, para que a liturgia, a catequese, a formação das lideranças e a administração dos bens da Igreja expressem transparência, participação, acolhida e compromisso com os últimos.
A Eucaristia, centro da vida cristã, educa-nos para a comunhão. Não podemos receber o Corpo de Cristo e permanecer indiferentes aos corpos feridos pela fome, pela pobreza, pela violência e pela exclusão. O altar e a vida cotidiana não são realidades concorrentes: a celebração deve alimentar a missão, e a missão deve testemunhar aquilo que celebramos.
Conclusão: uma fé que liberta e transforma
A Liturgia da Palavra nos coloca diante de uma pergunta fundamental: que tipo de cristianismo estamos construindo? Uma religião preocupada em preservar aparências, fronteiras e privilégios ou uma comunidade de discípulos e discípulas que testemunha a liberdade de Cristo por meio do amor concreto?
Gálatas 5,1-6 recorda que fomos libertados para viver na graça e que a fé verdadeira atua pelo amor. Lucas 11,37-41 ensina que a conversão interior precisa manifestar-se na generosidade, na justiça e na partilha. Ambos os textos denunciam a separação entre a profissão religiosa e a prática da fraternidade.
Para as Comunidades Eclesiais de Base, permanece o desafio de ser Igreja em saída, samaritana e profética, comprometida com os pobres não apenas por meio de discursos, mas pela presença solidária, pela organização popular e pela defesa incondicional da dignidade humana.
Que nossas celebrações não sejam refúgios diante dos conflitos da história, mas fontes de coragem para enfrentá-los à luz do Evangelho. Que nossa oração nos torne mais sensíveis, nossa fé mais comprometida e nossa esperança mais perseverante.
A verdadeira liberdade cristã não consiste em estar livre do compromisso com os outros, mas em estar livre para amar, partilhar e lutar por um mundo no qual ninguém seja condenado à exclusão. É assim que a fé deixa de ser aparência e se torna testemunho vivo do Reino de Deus.
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