Por Pe. Hermes A. Fernandes
1. Introdução: quando a oração nasce da vida do povo
O Livro dos Salmos ocupa um lugar privilegiado na espiritualidade bíblica porque nele encontramos a oração de um povo que experimenta a presença de Deus nas alegrias e nas tristezas, nas conquistas e nas derrotas, na liberdade e na opressão. Seus 150 salmos constituem uma grande escola de oração, na qual a fé não está separada da realidade concreta da existência humana. O povo louva, agradece, suplica, lamenta, denuncia injustiças e clama por libertação. Por isso, os Salmos não podem ser reduzidos a fórmulas religiosas destinadas exclusivamente ao consolo individual: eles expressam a experiência histórica, comunitária e espiritual de Israel diante de seu Deus.
Uma leitura à luz da Teologia Latino-americana e da Leitura Popular da Bíblia permite reconhecer que a oração bíblica nasce, muitas vezes, das contradições da vida. O Deus invocado pelos salmistas não é indiferente à fome, à violência, à perseguição ou à humilhação dos pequenos. É o Deus da Aliança, que escuta o clamor dos oprimidos e chama seu povo a viver segundo a justiça e a misericórdia.
Nas Comunidades Eclesiais de Base (CEBs), essa experiência adquire especial significado. Quando homens e mulheres se reúnem para rezar, partilhar a Palavra e organizar a solidariedade, a oração dos Salmos encontra continuidade na vida de um povo que deseja caminhar com Deus e transformar as estruturas que produzem sofrimento. Rezar os Salmos é aprender a apresentar a realidade diante do Senhor e, ao mesmo tempo, deixar-se enviar para transformá-la.
2. O contexto histórico e literário do Livro dos Salmos
O Saltério, nome tradicional da coleção dos Salmos, reúne textos produzidos e utilizados ao longo de diferentes períodos da história de Israel. Embora muitos salmos sejam tradicionalmente associados a Davi, não é possível atribuir a ele a autoria de toda a coleção. Seus textos foram compostos, transmitidos, reunidos e utilizados na oração pessoal, no culto do Templo e na vida comunitária.
A coleção reflete experiências diversas: a monarquia, as celebrações litúrgicas, as crises nacionais, o exílio na Babilônia, a esperança de restauração e a confiança na fidelidade divina. Encontramos salmos de louvor, ação de graças, súplica individual, lamentação coletiva, confiança, sabedoria e realeza. Essas categorias ajudam a compreender como cada composição responde a uma situação específica.
Os títulos presentes em muitos salmos oferecem indicações tradicionais sobre autores, instrumentos, ocasiões ou contextos, mas nem sempre permitem reconstruir com certeza sua origem histórica. A interpretação exige atenção ao gênero literário, às imagens poéticas, à estrutura do texto e à situação de sofrimento, gratidão ou esperança que ele expressa.
A poesia dos Salmos utiliza metáforas intensas: Deus é pastor, rocha, refúgio, libertador e juiz. O inimigo pode representar uma ameaça concreta, a perseguição política, a violência social ou a experiência pessoal de angústia. Não devemos, porém, transformar automaticamente cada imagem em uma descrição literal de acontecimentos históricos. A exegese ajuda a reconhecer o sentido original e a estabelecer pontes responsáveis com a realidade atual.
Na perspectiva latino-americana, essa contextualização é indispensável. A Palavra de Deus deve ser escutada a partir de seu contexto histórico e, simultaneamente, da vida das comunidades que hoje a recebem. O método ver-julgar-agir, enriquecido pela leitura orante e pela escuta comunitária, permite relacionar a experiência bíblica com os desafios contemporâneos sem desconsiderar as diferenças entre o antigo Israel e as sociedades atuais.
3. O Deus que escuta o clamor dos pobres
Um dos textos fundamentais para compreender a espiritualidade dos Salmos é o Salmo 34, especialmente a afirmação de que o Senhor escuta o clamor dos justos e está próximo dos corações atribulados (Sl 34,18-19, conforme a numeração de algumas traduções).
A linguagem do salmista revela uma fé que não nega o sofrimento. O justo pode atravessar tribulações, experimentar perseguição e sentir-se abandonado, mas encontra em Deus uma presença que sustenta sua esperança. Isso não significa que toda pessoa fiel será imediatamente libertada de suas dificuldades. A própria experiência bíblica conhece o silêncio de Deus, a demora da justiça e a persistência da violência.
O Salmo 10 apresenta um questionamento ainda mais contundente: por que Deus parece permanecer distante quando o ímpio persegue o pobre? O salmista denuncia a arrogância de quem explora os vulneráveis e age como se nunca precisasse prestar contas de seus atos. O texto não esconde a indignação diante da impunidade; transforma-a em oração e súplica por justiça.
Também o Salmo 12 denuncia a falsidade e a opressão exercidas contra os fracos. Em seu centro está a convicção de que Deus se levanta em favor dos pobres e daqueles que sofrem violência. O Salmo 82, por sua vez, questiona os responsáveis pelo julgamento e exige que defendam o fraco e o órfão, façam justiça ao humilde e libertem o indigente das mãos dos perversos (Sl 82,3-4).
Esses textos revelam que a fé bíblica possui consequências sociais. O culto ao Deus da Aliança não pode ser separado da defesa daqueles cujos direitos são negados. Oração e justiça caminham juntas.
Na realidade latino-americana, esses salmos encontram ressonância nas famílias que vivem sem moradia digna, nas pessoas submetidas ao desemprego e à precarização do trabalho, nos povos indígenas ameaçados pela invasão de seus territórios, nas comunidades quilombolas, nos trabalhadores rurais, nas populações periféricas e nas pessoas migrantes. Seus sofrimentos não são problemas exteriores à vida da Igreja: constituem interpelações que exigem discernimento, solidariedade e ação pastoral.
Quando uma comunidade reza para que Deus escute o clamor dos pobres, precisa também perguntar se está disposta a escutá-los, acolhê-los e caminhar com eles.
4. Salmo 72: o governante justo e a defesa dos pequenos
O Salmo 72 apresenta uma oração em favor do rei, pedindo que ele receba de Deus a capacidade de governar com justiça. O governante ideal não é definido simplesmente pelo poder, pela riqueza ou pela força militar, mas por sua responsabilidade diante dos pobres.
O texto afirma que o rei deve julgar o povo com justiça, proteger os humildes, socorrer os filhos dos necessitados e enfrentar quem os oprime (Sl 72,1-4). Mais adiante, declara que ele libertará o indigente que clama e o pobre que não encontra quem o socorra (Sl 72,12-14).
No contexto da monarquia israelita, essa oração expressava um ideal de autoridade submetida à justiça divina. O poder político não deveria existir para enriquecer os governantes, fortalecer privilégios ou perpetuar a opressão, mas para promover a vida e defender aqueles que não dispõem de meios para proteger seus direitos.
A leitura cristã reconhece nesse horizonte a esperança de um reinado de justiça e paz que encontra sua plenitude em Jesus Cristo. Entretanto, o texto também conserva sua força crítica diante das autoridades e das instituições humanas. Nenhum governo, partido ou liderança pode reivindicar legitimidade moral apenas por recorrer ao nome de Deus. A avaliação ética de seu exercício do poder passa pelo tratamento dispensado aos pobres, pela promoção do bem comum e pela defesa da dignidade humana.
Para as CEBs, o Salmo 72 constitui um convite à formação da consciência cidadã. A comunidade pode promover rodas de conversa sobre políticas públicas, acesso à saúde, educação, moradia, alimentação, trabalho digno e proteção ambiental. Pode também acompanhar os conselhos de direitos, fortalecer iniciativas populares e cobrar das autoridades respostas concretas às necessidades da população.
Essa participação não significa transformar a Igreja em instrumento de uma organização partidária. Significa reconhecer que a fé possui uma dimensão pública e que a caridade cristã exige compromisso com as condições sociais que tornam possível uma vida digna.
5. Salmo 23: Deus caminha com seu povo nas situações de sofrimento
O Salmo 23 é um dos textos mais conhecidos da Bíblia: “O Senhor é meu pastor, nada me faltará”. A imagem do pastor remete a uma realidade familiar ao mundo antigo, no qual a sobrevivência dos rebanhos dependia de cuidado, orientação e proteção.
O salmista descreve Deus como aquele que conduz às pastagens, leva às águas tranquilas, restaura as forças e acompanha o fiel mesmo quando atravessa o vale escuro. A imagem da mesa preparada diante dos adversários amplia a experiência de acolhimento e segurança.
O centro da composição não é a promessa de uma existência sem dificuldades, mas a confiança na presença de Deus durante a travessia. O vale não desaparece magicamente; o salmista encontra coragem porque não caminha sozinho.
Para as comunidades cristãs, essa confiança adquire uma dimensão comunitária. O Deus-pastor reúne, conduz e protege seu povo, mas também chama seus discípulos a exercerem o cuidado recíproco. A imagem do pastor não legitima a passividade das ovelhas nem autoriza lideranças autoritárias. Ela aponta para uma autoridade que serve, conhece as necessidades do rebanho e não abandona os vulneráveis.
Na América Latina, marcada por deslocamentos forçados, violência, conflitos agrários, precariedade habitacional e insegurança alimentar, o Salmo 23 pode sustentar a esperança sem espiritualizar a dor. Rezar que o Senhor é nosso pastor implica perguntar quem está cuidando das pessoas abandonadas e quais ações são necessárias para que ninguém seja privado do alimento, da segurança e do acolhimento.
Nas CEBs, essa espiritualidade pode se traduzir em visitas às famílias, acompanhamento de pessoas enfermas, redes de solidariedade, acolhida de migrantes e refugiados, apoio a pessoas enlutadas e atenção às crianças, aos idosos e às pessoas com deficiência. O consolo espiritual se torna sinal concreto da presença de Deus quando se transforma em cuidado fraterno.
6. Salmo 137: a memória dos oprimidos e o grito diante da violência
O Salmo 137 nasce da experiência traumática do exílio na Babilônia. Os deportados recordam Sião, choram junto aos rios da terra estrangeira e sentem a dor de terem perdido sua cidade, seu Templo e suas referências comunitárias. Seus opressores exigem que cantem, como se a música sagrada pudesse ser transformada em entretenimento para quem os humilha.
A pergunta “Como poderíamos cantar um canto do Senhor em terra estrangeira?” (Sl 137,4) expressa a crise de um povo cuja identidade foi ferida pela dominação imperial. O salmo demonstra que a memória, a cultura e a espiritualidade também são atingidas pela violência política.
Seus versículos finais contêm imagens violentas de vingança, relacionadas à brutalidade sofrida pelos exilados e ao desejo de que os opressores experimentem o juízo que merecem. A leitura responsável não deve ocultar esse conteúdo nem transformá-lo em autorização para reproduzir a violência. É preciso reconhecer a linguagem de uma comunidade traumatizada, que verbaliza diante de Deus uma dor extrema, e interpretá-la à luz do conjunto da revelação bíblica e do Evangelho de Jesus, que convoca seus discípulos a romper com a lógica da vingança.
O salmo nos ensina que a oração pode acolher sentimentos difíceis, inclusive a indignação, sem que isso signifique legitimar toda ação desejada por quem sofre. Deus não exige que a vítima esconda sua dor para parecer religiosa. O espaço da oração pode ser também lugar de denúncia, memória e busca de justiça.
Essa perspectiva é importante diante dos povos indígenas e quilombolas, das populações negras atingidas pelo racismo, das famílias expulsas de seus territórios e das comunidades que carregam a memória de massacres, ditaduras e violações de direitos humanos. Uma pastoral comprometida com os pobres não deve silenciar essas histórias nem exigir reconciliação sem verdade, justiça e reparação.
As CEBs podem promover celebrações da memória, escuta de testemunhos, valorização das culturas populares e iniciativas de educação em direitos humanos. A memória dos que sofreram injustiças torna-se compromisso com a construção de uma sociedade na qual nenhuma pessoa seja humilhada ou descartada.
7. Salmos 146 e 147: louvar a Deus é defender a vida
Os Salmos 146 e 147 integram a conclusão do Saltério, marcada por um grande movimento de louvor. O Salmo 146 adverte contra a confiança absoluta nos poderosos, cuja existência é passageira, e proclama a fidelidade do Senhor, que faz justiça aos oprimidos, dá pão aos famintos, liberta os prisioneiros e ampara o estrangeiro, o órfão e a viúva (Sl 146,7-9).
O texto reúne dimensões que frequentemente são separadas: a crítica à confiança irrestrita no poder humano e a afirmação da ação libertadora de Deus. O Senhor é louvado não por permanecer distante das necessidades do povo, mas porque sua fidelidade se manifesta na defesa da vida ameaçada.
O Salmo 147, por sua vez, apresenta Deus como aquele que reconstrói Jerusalém, reúne os dispersos, cura os corações feridos e sustenta os humildes. A imagem da reconstrução remete à esperança de um povo que deseja recuperar a vida comunitária depois de experiências de dispersão e sofrimento.
Esses salmos desafiam qualquer espiritualidade que se limite à beleza das celebrações sem assumir as exigências da justiça. O louvor cristão não perde sua dimensão contemplativa quando se compromete com a transformação social; ao contrário, torna-se mais coerente com o Deus que proclama.
Nas CEBs, cantar e rezar esses textos pode fortalecer a organização comunitária em torno de iniciativas como cozinhas solidárias, campanhas de combate à fome, cooperativas, hortas comunitárias, apoio às famílias sem moradia e defesa dos serviços públicos essenciais. É importante, contudo, que a assistência imediata não substitua a reflexão sobre as causas estruturais da pobreza.
Dar alimento a quem tem fome é indispensável. Trabalhar para que todas as pessoas tenham acesso estável à alimentação, à renda, à terra, à educação e às condições de produzir a própria vida também é exigência da justiça. A ação pastoral precisa articular solidariedade, formação crítica, organização popular e incidência pública.
8. Salmo 104: a criação como dom e responsabilidade
O Salmo 104 é um hino à criação. Em linguagem poética, contempla os céus, as águas, as montanhas, os animais, as plantas e os ritmos que sustentam a vida. A criação aparece como obra de Deus, marcada por diversidade, interdependência e fecundidade.
O salmista não apresenta a natureza como simples cenário da história humana. Os seres vivos possuem seu lugar na ordem criada e dependem do cuidado providente de Deus. O poema desperta admiração e gratidão diante de uma realidade que ultrapassa os interesses imediatos do ser humano.
À luz da ecologia integral, essa visão questiona práticas econômicas que tratam a terra, as águas, as florestas e os povos como recursos descartáveis. A destruição ambiental não atinge apenas paisagens: compromete a saúde, a alimentação, a cultura e a sobrevivência das comunidades, sobretudo daquelas que possuem menos recursos para enfrentar os impactos da degradação.
Na América Latina, os conflitos relacionados à mineração, ao desmatamento, ao uso de agrotóxicos, à contaminação dos rios e à concentração fundiária revelam a estreita relação entre a crise ecológica e a injustiça social. Povos indígenas, comunidades tradicionais, agricultores familiares e populações periféricas frequentemente suportam consequências que não produziram na mesma proporção.
As CEBs podem rezar o Salmo 104 em celebrações da criação, mutirões de recuperação ambiental, defesa de nascentes, formação sobre consumo responsável e iniciativas de proteção dos territórios. A espiritualidade ecológica deve unir contemplação, mudança de hábitos, solidariedade com as populações atingidas e defesa de políticas que protejam a Casa Comum.
Louvar o Criador é reconhecer que a vida não nos pertence como propriedade absoluta. Somos responsáveis por cuidar da criação e garantir que as gerações futuras também encontrem condições dignas para viver.
9. Os Salmos de lamentação: a fé que não tem medo de perguntar
Uma característica fundamental do Saltério é a presença de orações que questionam a experiência do sofrimento. O Salmo 13 começa com uma pergunta insistente sobre até quando Deus permanecerá distante. O Salmo 22 expressa a sensação de abandono, mas também recorda a história da fidelidade divina e abre espaço para a esperança. O Salmo 44 apresenta a dor coletiva de um povo que não compreende por que está sofrendo apesar de permanecer fiel à Aliança.
Essas orações demonstram que a fé bíblica não exige respostas fáceis nem proíbe perguntas difíceis. A lamentação é uma forma legítima de oração porque leva a Deus a realidade sem disfarces. Ela permite que a comunidade reconheça sua fragilidade, expresse indignação e procure forças para continuar caminhando.
Na perspectiva pastoral, isso é especialmente importante para pessoas que vivem o luto, enfrentam doenças, sofrem violência doméstica, perderam o emprego ou se sentem abandonadas pelas instituições. Uma comunidade cristã não deve responder automaticamente ao sofrimento com acusações de falta de fé, promessas de prosperidade ou explicações que responsabilizem a própria vítima.
A Leitura Popular da Bíblia ensina a aproximar o texto das experiências concretas da comunidade. Ao rezar os salmos de lamentação, os participantes podem reconhecer suas feridas, partilhar suas histórias e discernir caminhos de apoio. A escuta respeitosa, o acompanhamento pastoral e, quando necessário, o encaminhamento a serviços especializados constituem expressões concretas de cuidado.
A esperança cristã não consiste em negar a realidade, mas em atravessá-la à luz da fidelidade de Deus. Muitas vezes, a resposta à oração passa pela presença solidária de outras pessoas e pela ação coletiva em favor da vida.
10. Os Salmos na vida e na missão das Comunidades Eclesiais de Base
As CEBs encontram no Saltério uma fonte privilegiada para integrar Palavra de Deus, oração, vida comunitária e compromisso social. Os Salmos ensinam que a espiritualidade não pode ser reduzida a uma experiência intimista, desconectada dos acontecimentos que marcam a existência do povo.
A oração comunitária pode partir de três perguntas fundamentais: o que o salmo revela sobre Deus? Que realidade humana está presente em sua linguagem? Que compromisso nasce dessa escuta da Palavra?
Esse caminho permite que a comunidade reconheça tanto as experiências de sofrimento quanto os sinais de esperança existentes em seu território. A Bíblia ilumina a realidade, enquanto a realidade suscita novas perguntas ao texto bíblico. Trata-se de uma relação de escuta e discernimento, não de utilizar a Escritura apenas para confirmar opiniões previamente estabelecidas.
Uma pastoral inspirada nos Salmos pode assumir, entre outras, as seguintes iniciativas:
- Leitura orante comunitária: escolher um salmo, situá-lo em seu contexto, escutá-lo em silêncio, partilhar seus apelos e concluir com um compromisso concreto.
- Pastoral da escuta e do cuidado: visitar pessoas enfermas, acolher famílias em sofrimento, acompanhar vítimas de violência e fortalecer redes comunitárias de proteção.
- Defesa dos direitos humanos: promover formação cidadã, acompanhar políticas públicas e colaborar com iniciativas legítimas de combate à fome, ao racismo, à exploração do trabalho e à violência.
- Solidariedade organizada: desenvolver ações de segurança alimentar, apoio às pessoas desempregadas, acolhida de migrantes e defesa do direito à moradia.
- Ecologia integral: defender a água, o solo, as florestas e os territórios, reconhecendo que a degradação ambiental atinge de modo especial os pobres.
- Memória profética: recordar mártires e testemunhas que entregaram a vida pela justiça, pela dignidade humana e pela fidelidade ao Evangelho, sem transformar seu testemunho em instrumento de ódio ou vingança.
- Formação bíblica e teológica: aprofundar o conhecimento das Escrituras e da tradição latino-americana, articulando espiritualidade, análise social, discernimento e ação.
Essas iniciativas devem nascer da participação efetiva do povo, especialmente das pessoas que vivem situações de pobreza e exclusão. Os pobres não podem ser considerados apenas destinatários da caridade eclesial; são sujeitos da evangelização, portadores de experiência, sabedoria, cultura e capacidade de organização. Escutá-los significa reconhecer sua dignidade e permitir que participem das decisões que afetam suas vidas.
11. Conclusão: rezar os Salmos é aprender a caminhar com os pobres
O Livro dos Salmos testemunha que a oração de Israel nasce da história concreta de um povo que experimenta a alegria da libertação, a dor da opressão, a fragilidade humana e a esperança na fidelidade de Deus. Nele encontramos louvor e lamento, confiança e indignação, gratidão e súplica. Essa diversidade impede que a espiritualidade bíblica seja reduzida a uma fórmula única ou a uma promessa de sucesso individual.
Lidos à luz de Jesus Cristo e da Teologia Latino-americana, os Salmos nos conduzem ao encontro de um Deus que escuta o clamor dos pequenos e convoca seu povo à justiça. Não se trata de atribuir aos textos antigos respostas prontas para todos os problemas atuais, mas de acolher sua força profética e discernir, em cada contexto, os caminhos concretos de fidelidade ao Evangelho.
As Comunidades Eclesiais de Base são chamadas a manter viva essa experiência: reunir o povo, partilhar a Palavra, celebrar a vida, acolher as dores, fortalecer a esperança e organizar a solidariedade. A oração torna-se fecunda quando abre os olhos para os sofrimentos silenciados, fortalece a coragem de denunciar as injustiças e sustenta o compromisso com a transformação da realidade.
Rezar o Salmo 72 é pedir justiça para os pobres; rezar o Salmo 146 é recordar que Deus ampara os famintos, os estrangeiros e os vulneráveis; rezar o Salmo 104 é reconhecer a criação como dom e responsabilidade; rezar os salmos de lamentação é oferecer espaço à dor e recusar explicações religiosas que culpabilizam as vítimas.
O Saltério nos ensina, finalmente, que o louvor verdadeiro não se separa da vida. A comunidade que canta a bondade de Deus deve tornar-se sinal dessa bondade no mundo, defendendo a dignidade humana, cuidando da Casa Comum e caminhando ao lado daqueles que a sociedade insiste em deixar para trás.
Que a oração dos Salmos continue alimentando uma Igreja discípula, missionária, profética e sinodal, comprometida com o Reino de Deus, no qual a justiça floresce, os pequenos encontram acolhida e a vida de todos é reconhecida como dom sagrado.
“Defendei o fraco e o órfão, fazei justiça ao humilde e ao necessitado. Libertai o fraco e o pobre, livrai-os das mãos dos ímpios.” (Sl 82,3-4)
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