“A DEUS O QUE É DE DEUS E AO POVO A DIGNIDADE QUE LHE PERTENCE” | 29º Domingo do Tempo Comum — Ano A

Por Pe. Hermes A. Fernandes

A Liturgia Eucarística do 29º Domingo do Tempo Comum nos convida a refletir sobre a relação entre fé, poder político e compromisso com a justiça. À luz da Teologia Latino-americana e da caminhada das Comunidades Eclesiais de Base (CEBs), as leituras bíblicas deste domingo nos ajudam a compreender que Deus não legitima a opressão, não se deixa aprisionar pelos interesses dos poderosos e não aceita uma religiosidade indiferente ao sofrimento humano. A fé cristã, quando enraizada no Evangelho, torna-se força de libertação, consciência crítica e compromisso com os pobres, marginalizados e excluídos de ontem e de hoje.

1. Isaías 45,1.4-6: Deus age na história para libertar seu povo

O texto de Isaías apresenta uma afirmação surpreendente: Deus chama Ciro, rei da Pérsia, de seu ungido. Historicamente, estamos no contexto do século VI a.C., quando o Império Babilônico dominava diversos povos, entre eles os judeus deportados de Jerusalém. Ciro, ao conquistar a Babilônia, em 539 a.C., favoreceu o retorno de populações exiladas às suas terras. Nesse contexto, o profeta interpreta os acontecimentos políticos como possibilidade concreta de libertação para Israel.

A designação de Ciro como ungido não significa que ele pertencesse ao povo de Israel ou professasse sua fé. O aspecto teológico decisivo é justamente este: Deus pode agir para além das fronteiras religiosas e utilizar instrumentos inesperados para realizar seus desígnios. O Senhor não está submetido aos limites de uma instituição, de uma nação ou de um governante. Ele é o Deus da história, cuja ação visa à realização de seu projeto de vida e liberdade.

A afirmação de que Deus chama Israel pelo nome e o conduz, mesmo quando Ciro não o conhece, revela a fidelidade divina ao povo. A iniciativa de Deus não nasce dos méritos dos poderosos, mas de seu compromisso com a história de um povo submetido à dominação.

Para a Teologia Latino-americana, essa leitura nos ajuda a reconhecer a presença de Deus nos processos históricos que favorecem a libertação dos oprimidos. Ele pode suscitar caminhos de transformação por meio de pessoas, organizações e movimentos que nem sempre pertencem às comunidades religiosas. Por isso, as CEBs são chamadas a discernir os sinais de libertação onde a dignidade humana é defendida, os direitos são promovidos e a vida dos pobres deixa de ser sacrificada aos interesses econômicos e políticos.

O texto também nos previne contra a sacralização de governantes. Nenhum líder político é proprietário da vontade de Deus, nem pode reivindicar autoridade divina para justificar violência, exclusão ou concentração de riquezas. O critério do discernimento cristão é o projeto de Deus, que liberta e restitui a dignidade aos povos.

2. 1 Tessalonicenses 1,1-5b: uma comunidade que testemunha a fé pelo amor e pela esperança

A Primeira Carta aos Tessalonicenses, provavelmente o escrito mais antigo do Novo Testamento, foi redigida por Paulo por volta do ano 50 d.C. A comunidade cristã de Tessalônica vivia em uma cidade importante do Império Romano, marcada pelo comércio, pelas hierarquias sociais e pela presença de diferentes tradições religiosas. Ser cristão naquele contexto significava assumir uma identidade comunitária que podia entrar em tensão com os valores dominantes.

Paulo agradece a Deus pela fé ativa, pelo amor dedicado e pela firme esperança dos cristãos. Essas três dimensões não são virtudes abstratas, restritas à interioridade individual. Elas expressam uma experiência comunitária concreta: a fé se manifesta em obras; o amor exige dedicação aos irmãos e irmãs; e a esperança sustenta a perseverança diante das dificuldades.

O apóstolo recorda também que o Evangelho chegou à comunidade não somente por palavras, mas com a força do Espírito Santo e com profunda convicção. A credibilidade da evangelização depende, portanto, da coerência entre o anúncio e a vida daqueles que anunciam. Uma Igreja que proclama o amor de Deus, mas se mostra indiferente à fome, ao racismo, à violência e à exclusão, contradiz o próprio Evangelho que anuncia.

Na perspectiva latino-americana, as CEBs são chamadas a ser comunidades de fé comprometida, nas quais a Palavra de Deus ilumina a realidade e mobiliza a solidariedade. A oração, a celebração e a formação bíblica devem alimentar a organização popular, a defesa dos direitos humanos e a construção de relações sociais mais justas.

A esperança cristã não significa esperar passivamente por uma solução sobrenatural para os problemas do mundo. É a confiança em Deus que nos fortalece para agir no presente, enfrentando as estruturas que produzem sofrimento e colaborando para que a vida digna seja possível para todas as pessoas.

3. Mateus 22,15-21: a Deus o que é de Deus

No Evangelho, os fariseus e os herodianos procuram colocar Jesus em uma armadilha por meio de uma pergunta sobre o pagamento do imposto ao imperador romano. A questão era politicamente delicada. A tributação expressava a dominação de Roma, sustentava o aparelho imperial e pesava sobre populações já submetidas a desigualdades econômicas. Responder afirmativamente poderia comprometer Jesus diante dos que rejeitavam a dominação romana; responder negativamente poderia ser usado como acusação de rebeldia contra o poder imperial.

Jesus percebe a hipocrisia de seus interlocutores e pede que lhe mostrem a moeda do tributo. Nela estava a imagem do imperador, acompanhada de inscrições que proclamavam sua autoridade. A moeda torna visível a presença do poder romano até mesmo na vida cotidiana. Jesus, então, declara: “Dai, pois, a César o que é de César e a Deus o que é de Deus”.

Essa resposta não deve ser interpretada como uma separação absoluta entre religião e política, muito menos como autorização para que os poderes políticos façam o que desejarem. Jesus desmascara a armadilha e desloca a discussão para uma questão mais profunda: quais são os limites do poder humano e a quem pertence, em última instância, a vida?

Se a moeda traz a imagem de César, a tradição bíblica afirma que o ser humano foi criado à imagem de Deus (Gn 1,26-27). Por isso, nenhuma autoridade pode reivindicar domínio absoluto sobre as pessoas. O Estado pode organizar a vida social, estabelecer leis e cobrar tributos, mas sua legitimidade deve ser avaliada à luz da justiça, do bem comum e da dignidade humana. Quando o poder se torna instrumento de exploração, violência ou privilégio, ele precisa ser questionado.

Para as CEBs, esse Evangelho exige uma fé que não se refugia na sacristia nem se submete aos interesses de partidos, governos ou grupos econômicos. A comunidade cristã não deve transformar o altar em palanque, mas também não pode silenciar diante das injustiças que ferem os filhos e as filhas de Deus. Sua missão profética consiste em anunciar o Evangelho, formar consciências críticas e defender a vida, sem confundir a fidelidade a Cristo com a obediência cega a qualquer poder.

Dar a Deus o que é de Deus significa reconhecer que a vida, a dignidade, a liberdade e os direitos fundamentais das pessoas não são mercadorias nem concessões dos governantes. Pertencem à ordem da criação e devem ser respeitados por toda organização política, econômica e social.

4. Ação Pastoral: uma Igreja comprometida com a vida do povo

As três leituras convergem em um chamado pastoral: discernir a ação de Deus na história, construir comunidades sustentadas pela fé, pelo amor e pela esperança e exercer uma presença profética diante dos poderes que ameaçam a dignidade humana.

As CEBs podem traduzir esse compromisso em iniciativas concretas:

  • Leitura Popular da Bíblia: relacionar os textos bíblicos com a realidade dos bairros, das periferias, do campo e dos territórios indígenas e quilombolas, escutando as experiências e os clamores do povo.
  • Defesa dos direitos e da democracia: promover a participação cidadã, o controle social das políticas públicas e a formação crítica, sem subordinar a comunidade eclesial a interesses partidários.
  • Solidariedade organizada: fortalecer iniciativas de combate à fome, apoio às famílias sem moradia, defesa dos trabalhadores, acolhida dos migrantes e proteção das pessoas vítimas de racismo, violência e discriminação.
  • Cuidado com a Casa Comum: apoiar os povos e comunidades atingidos pela mineração predatória, pelo desmatamento, pela contaminação das águas e por outros processos que ameaçam a vida.
  • Espiritualidade encarnada: celebrar a Eucaristia como fonte de comunhão e missão, fazendo da partilha do pão um compromisso efetivo com quem não tem o necessário para viver.

Essas ações não substituem a evangelização; expressam sua autenticidade. O anúncio do Reino de Deus se torna visível quando a comunidade acolhe quem foi descartado, denuncia aquilo que desumaniza e participa da construção de uma sociedade em que todas as pessoas possam viver com dignidade.

Conclusão

Neste 29º Domingo do Tempo Comum, a Palavra de Deus nos recorda que nenhum poder humano é absoluto. Isaías anuncia um Deus que conduz a história para além das fronteiras estabelecidas pelos poderosos; Paulo apresenta uma comunidade cuja fé se traduz em obras, amor e esperança; e Jesus questiona a pretensão de César de ocupar o lugar que pertence a Deus.

À luz da Teologia Latino-americana, somos convidados a reconhecer que a fidelidade ao Senhor exige compromisso com os pobres, os marginalizados e os excluídos. Não basta oferecer a Deus palavras, orações e celebrações se permanecemos indiferentes aos sofrimentos de nossos irmãos e irmãs.

A Eucaristia nos reúne em torno da mesa do Senhor para que, alimentados por sua Palavra e por seu Corpo, nos tornemos uma Igreja em saída, profética, misericordiosa e solidária. Uma Igreja que não absolutiza o poder, não negocia a dignidade humana e não abandona os pobres.

Dar a Deus o que é de Deus é devolver à vida humana a dignidade que lhe pertence e assumir, com coragem evangélica, a construção de um mundo no qual a justiça, a fraternidade e a esperança sejam sinais concretos do Reino de Deus.


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