Reflexão para Quinta-feira da 28ª Semana do Tempo Comum | Santa Teresa de Jesus ou Santa Teresa d’Ávila, virgem e doutora da Igreja

A graça que nos reúne e a profecia que nos compromete

Por Pe. Hermes A. Fernandes

A Palavra de Deus proclamada nesta celebração nos convida a contemplar o projeto de amor que o Pai realiza em Jesus Cristo e, ao mesmo tempo, a reconhecer a responsabilidade daqueles que recebem essa Palavra. De um lado, a Carta aos Efésios anuncia que Deus nos escolheu para sermos seus filhos e filhas, reunindo todas as coisas em Cristo. De outro, o Evangelho de Lucas denuncia uma religiosidade que honra os profetas do passado, mas rejeita a voz profética quando ela questiona os privilégios e as injustiças do presente.

À luz da Teologia Latino-americana e da caminhada das Comunidades Eclesiais de Base (CEBs), esses textos nos ajudam a compreender que a fé cristã não pode permanecer reduzida a palavras, ritos ou devoções desligadas da vida. A experiência de Deus deve produzir comunhão, justiça, fraternidade e compromisso concreto com os pobres, marginalizados e excluídos de ontem e de hoje.

1. Efésios 1,1-10: o projeto de Deus é reunir todas as coisas em Cristo

A Carta aos Efésios começa com uma saudação e um hino de louvor que apresenta a iniciativa amorosa de Deus na história da salvação. Embora tradicionalmente atribuída a Paulo, a carta é frequentemente compreendida pelos estudiosos como pertencente à tradição paulina, elaborada para aprofundar a herança apostólica e a identidade das comunidades cristãs.

O texto destaca que Deus nos abençoou em Cristo, nos escolheu antes da criação do mundo e nos destinou à adoção filial. Essa eleição não deve ser interpretada como privilégio de um grupo fechado, superior aos demais, mas como expressão de uma graça que chama a humanidade à comunhão com Deus. A santidade desejada pelo Senhor não é aparência religiosa, mas uma vida transformada pelo amor.

O centro desse projeto aparece em Ef 1,10: “recapitular em Cristo todas as coisas, as que estão no céu e as que estão na terra”. O verbo grego relacionado à ideia de recapitular expressa a ação de reunir, colocar sob uma mesma cabeça e conduzir à unidade. Em Cristo, Deus manifesta seu propósito de reconciliar a criação, superando tudo aquilo que divide, oprime e destrói a vida.

Essa afirmação tem grande relevância para a realidade latino-americana. Em sociedades marcadas pela desigualdade, pela concentração da riqueza, pelo racismo, pela violência contra os povos indígenas, pela exploração do trabalho e pela destruição da Casa Comum, o projeto de Deus confronta toda estrutura que transforma pessoas em objetos descartáveis.

A salvação anunciada pela carta não se limita à vida depois da morte. Sem reduzir o mistério da salvação à transformação social, reconhecemos que a graça recebida em Cristo começa a produzir frutos na história. Não é possível proclamar que somos filhos e filhas do mesmo Pai e aceitar tranquilamente que tantos irmãos e irmãs sejam privados de moradia, alimentação, saúde, terra, trabalho digno e participação social.

A opção preferencial pelos pobres, assumida pela Igreja latino-americana, encontra aqui uma profunda fundamentação evangélica. Deus não exclui ninguém de seu amor; contudo, diante das vítimas da injustiça, a fidelidade a esse amor exige proximidade, defesa da dignidade humana e transformação das relações que produzem exclusão.

Nas CEBs, essa vocação se concretiza quando a Bíblia é lida em comunidade, a realidade é iluminada pela fé e a oração se transforma em solidariedade organizada. A unidade em Cristo não significa uniformidade, mas comunhão que acolhe as diferenças, combate as discriminações e reconhece nos pequenos e vulneráveis a dignidade de filhos e filhas de Deus.

2. Lucas 11,47-54: honrar os profetas exige escutar sua voz

O Evangelho situa Jesus em conflito com setores da liderança religiosa de seu tempo. Depois de denunciar atitudes que privilegiam as aparências em detrimento da justiça e do amor de Deus, Jesus dirige palavras severas aos intérpretes da Lei. Suas críticas não são uma condenação do judaísmo, do qual ele próprio faz parte, mas uma denúncia profética do uso da religião quando ela se distancia da vontade de Deus.

Jesus afirma: “Ai de vós, porque construís os túmulos dos profetas; no entanto, foram vossos pais que os mataram” (Lc 11,47). A contradição é evidente: homenageiam-se os profetas depois de mortos, mas rejeita-se a palavra profética quando ela incomoda os interesses estabelecidos. A construção de monumentos não substitui a conversão nem apaga a responsabilidade diante das injustiças cometidas.

Ao mencionar Abel e Zacarias (vv. 50-51), Jesus evoca simbolicamente a história da violência contra os justos, desde o primeiro inocente assassinado até uma das últimas figuras proféticas mencionadas na organização das Escrituras hebraicas. A denúncia mostra que a infidelidade se perpetua quando uma geração não rompe com os mecanismos de violência herdados do passado.

Essa advertência continua atual. É possível homenagear mártires, organizar celebrações em sua memória e pronunciar discursos sobre justiça, sem assumir os compromissos pelos quais eles entregaram a vida. Recordar profeticamente pessoas como S. Oscar Romero, Santa Dulce dos Pobres, Dorothy Stang, Pe. Josimo Tavares e tantos homens e mulheres que defenderam a dignidade humana significa dar continuidade à sua missão, e não apenas conservar suas imagens em altares ou paredes.

O segundo aspecto da denúncia aparece no versículo 52: “Tomastes a chave da ciência; vós mesmos não entrastes e impedistes os que estavam entrando”. Os especialistas, que deveriam ajudar o povo a compreender a Palavra, transformam o conhecimento religioso em instrumento de controle. Em vez de abrir caminhos para Deus, levantam obstáculos àqueles que procuram a vida.

A advertência interpela também nossas comunidades cristãs. Quando a doutrina é utilizada para humilhar os pobres, quando a pastoral exclui pessoas feridas pela vida, quando se condena sem escutar ou quando se impede a participação dos leigos e das mulheres, a religião corre o risco de se tornar uma porta fechada. A autoridade pastoral só é fiel ao Evangelho quando serve à vida e à libertação.

O texto termina mostrando que escribas e fariseus passam a hostilizar Jesus e a procurar motivos para acusá-lo (vv. 53-54). A resistência à profecia revela o que acontece quando a verdade ameaça interesses consolidados. Jesus não procura o conflito por si mesmo; sua fidelidade ao Reino, porém, não lhe permite silenciar diante da opressão.

3. Santa Teresa d’Ávila: oração, verdade e compromisso com a vida

A memória litúrgica de Santa Teresa de Jesus, conhecida como Teresa d’Ávila (1515-1582), enriquece a reflexão. Mestra de oração e doutora da Igreja, ela compreendeu a vida espiritual como um caminho de amizade com Deus que transforma profundamente a pessoa. Sua experiência de oração não se reduz a sentimentos religiosos: conduz ao amadurecimento humano, à liberdade interior e à fidelidade à missão.

Teresa ajuda-nos a perceber que a verdadeira contemplação não nos afasta da realidade. Quanto mais profunda é a relação com Deus, maior deve ser nossa disponibilidade para amar e servir. A oração cristã não pode ser usada como fuga diante do sofrimento dos irmãos, nem como justificativa para a passividade diante das injustiças.

Em diálogo com a espiritualidade teresiana e a Teologia Latino-americana, podemos afirmar que contemplar Cristo implica reconhecer sua presença nos crucificados da história. A oração diante do Santíssimo Sacramento deve fortalecer a disposição de servir, defender os direitos humanos, acolher os sofredores e cuidar da Casa Comum. O encontro com o Senhor celebrado no altar precisa prolongar-se no encontro com aqueles que têm sua dignidade negada.

4. Das celebrações à prática pastoral: uma Igreja que abre portas

A articulação entre Efésios e Lucas oferece às Comunidades Eclesiais de Base um caminho concreto de conversão e missão. Se Deus deseja reunir todas as coisas em Cristo, não podemos alimentar divisões, indiferença ou estruturas de exclusão. Se Jesus denuncia aqueles que honram os profetas mortos e perseguem os vivos, precisamos discernir se nossa prática eclesial acolhe ou silencia as vozes que denunciam a injustiça.

Essa conversão pode concretizar-se em algumas iniciativas pastorais:

  • Escutar os pobres e caminhar com eles: realizar encontros comunitários nos quais moradores das periferias, trabalhadores desempregados, mulheres vítimas de violência, pessoas em situação de rua, migrantes, indígenas e quilombolas possam expressar suas necessidades e participar das decisões.
  • Transformar a Palavra em compromisso: promover a Leitura Popular da Bíblia, relacionando os textos sagrados às situações concretas do território e organizando ações de solidariedade, defesa de direitos e enfrentamento da fome.
  • Assumir a profecia no presente: apoiar as pastorais sociais, a Comissão Pastoral da Terra (CPT), a defesa dos povos originários e as iniciativas de proteção ambiental, denunciando situações de exploração e violência sem abandonar o diálogo e a busca do bem comum.
  • Construir comunidades de portas abertas: rever práticas pastorais que discriminam ou afastam pessoas, ampliar a participação das mulheres e dos jovens e cultivar uma Igreja sinodal, na qual a autoridade seja exercida como serviço.
  • Integrar liturgia e vida: fazer da Eucaristia fonte de comunhão e envio missionário, para que a partilha do pão consagrado inspire a partilha do pão cotidiano e o compromisso com condições dignas de vida para todos.

Conclusão: a memória profética se torna missão

A Liturgia Eucarística desta quinta-feira da 28ª Semana do Tempo Comum nos coloca diante de duas exigências inseparáveis: acolher a graça que nos reúne em Cristo e converter-nos para que a Palavra não seja impedida de alcançar aqueles que mais necessitam dela.

Efésios anuncia o sonho de Deus: uma humanidade reconciliada em Cristo. Lucas denuncia a contradição de uma religião que honra os profetas, mas rejeita suas interpelações. Santa Teresa d’Ávila recorda-nos que a oração autêntica transforma a vida e amadurece o amor.

Para as CEBs, o desafio é permanecer uma Igreja que escuta a Palavra a partir da realidade do povo, reconhece a presença de Deus nos pobres e transforma a fé em compromisso. Não basta recordar os profetas de ontem: é necessário acolher os profetas de hoje, proteger os perseguidos, defender os injustiçados e abrir caminhos para que todos tenham vida digna.

A fidelidade ao Evangelho não se mede apenas pela beleza de nossas celebrações ou pela reverência com que recordamos os santos e mártires, mas também pela disposição de caminhar com os pobres, escutar os que não têm voz e transformar a realidade à luz do Reino de Deus. Assim, nossa oração se torna profecia, nossa memória se torna compromisso e nossa Eucaristia se prolonga na partilha, na justiça e na fraternidade.


Deixe um comentário

Crie um site ou blog no WordPress.com

Acima ↑