Por Pe. Hermes A. Fernandes
A missão da Igreja nasce do coração do Evangelho e encontra sua razão de ser na pessoa e na prática de Jesus de Nazaré. Enviada pelo Pai e conduzida pelo Espírito Santo, a Igreja é chamada a anunciar a Boa-Nova do Reino de Deus, testemunhando, por palavras e ações, que a vida humana possui uma dignidade inviolável e que nenhuma pessoa pode ser reduzida à pobreza, à exclusão, à exploração ou à indiferença. Por isso, anunciar o Evangelho não significa apenas proclamar verdades religiosas, celebrar os sacramentos ou transmitir ensinamentos doutrinais. Significa, sobretudo, assumir o projeto de Jesus, que veio para que todos tenham vida e a tenham em abundância (Jo 10,10).
Na sinagoga de Nazaré, Jesus apresenta o programa de sua missão: anunciar a Boa-Nova aos pobres, proclamar a libertação aos presos, recuperar a vista aos cegos e colocar em liberdade os oprimidos (Lc 4,16-21). Esse texto não constitui apenas uma recordação do início de seu ministério. Ele revela o horizonte permanente da missão cristã. Uma Igreja fiel a Jesus não pode permanecer indiferente diante da fome, da falta de moradia, do desemprego, do racismo, da violência contra as mulheres, da exploração dos trabalhadores, da perseguição aos povos indígenas, da destruição dos territórios e de tantas outras situações que ferem a dignidade humana.
A Igreja não anuncia integralmente o Evangelho quando se silencia diante daquilo que destrói a vida. A defesa da dignidade humana não é um apêndice da evangelização, nem uma opção secundária reservada a determinados grupos. Ela pertence ao próprio coração da fé cristã, porque o Filho de Deus se fez humano, assumiu nossa história e se identificou de maneira especial com os pequenos e sofredores: “Todas as vezes que fizestes isso a um dos menores de meus irmãos, foi a mim que o fizestes” (Mt 25,40).
1. Uma Igreja que toma posição diante do sofrimento humano
A fidelidade ao Evangelho exige que a Igreja reconheça as situações concretas em que a vida está ameaçada e assuma uma posição profética em sua defesa. Não basta lamentar a pobreza; é necessário perguntar por que tantas pessoas são privadas dos bens indispensáveis à existência digna. Não basta distribuir alimentos; é preciso também enfrentar as estruturas que produzem a fome. Não basta acolher as vítimas da violência; é necessário denunciar as práticas, os sistemas e as mentalidades que perpetuam a opressão.
A opção preferencial pelos pobres, reafirmada pela Igreja latino-americana em Medellín, Puebla e Aparecida, expressa uma exigência fundamental da missão cristã. Não se trata de excluir outras pessoas do amor de Deus, mas de reconhecer que os pobres, justamente por serem os mais vulneráveis, devem ocupar um lugar privilegiado na atenção pastoral, na organização das comunidades e nas decisões eclesiais.
A Constituição pastoral Gaudium et Spes, do Concílio Vaticano II, recorda a profunda solidariedade da Igreja com as alegrias e esperanças, as tristezas e angústias da humanidade, especialmente dos pobres e de todos os que sofrem. Essa perspectiva impede que a Igreja se transforme em uma instituição preocupada apenas com sua conservação, seus privilégios ou sua influência social. Sua credibilidade não depende do poder que consegue acumular, mas da fidelidade com que testemunha o amor de Cristo.
Por isso, a missão evangelizadora requer proximidade com as periferias geográficas e existenciais, participação nas lutas pela justiça, defesa dos Direitos Humanos e compromisso com políticas e iniciativas que assegurem alimentação, saúde, educação, trabalho digno, moradia e participação social. A Igreja não substitui a responsabilidade do Estado nem pretende monopolizar a ação social, mas, iluminada pelo Evangelho, tem o dever de formar consciências, acompanhar os que sofrem, mobilizar a solidariedade e denunciar tudo aquilo que atenta contra a dignidade das pessoas.
2. Testemunhas de uma fé que não se cala
A história da Igreja é marcada por homens e mulheres que compreenderam que seguir Jesus pode exigir a entrega da própria vida. Os mártires testemunham que a fé não pode ser reduzida a uma experiência intimista, desligada dos conflitos da história. Muitos foram perseguidos porque permaneceram ao lado dos pobres, denunciaram a violência, defenderam os Direitos Humanos e se recusaram a pactuar com a injustiça.
Entre eles, destaca-se S. Oscar Romero, arcebispo de San Salvador, assassinado em 24 de março de 1980 enquanto celebrava a Eucaristia. Sua voz profética denunciou a repressão, os assassinatos e a violência contra o povo salvadorenho. Romero compreendeu que a Igreja não poderia permanecer em silêncio diante da morte de pessoas inocentes. Sua vida e seu martírio recordam que a celebração da Eucaristia exige compromisso com a vida daqueles que são crucificados pela injustiça.
No Brasil, o operário, agente de pastoral e militante sindical Santo Dias da Silva foi assassinado em 1979 durante uma manifestação de trabalhadores em São Paulo. Seu testemunho recorda que a dignidade do trabalho, a organização popular e a luta por direitos fazem parte dos desafios concretos da construção de uma sociedade justa.
Diante das ameaças que os povos indígenas sofrem, uma das figuras de maior destaque de resistência foi Marçal de Souza, liderança indígena Guarani Ñandeva, covardemente assassinado, em 1983, por um latifundiário que não admitia a mobilização de um povo na reivindicação de seus direitos inerentes.
Também devemos recordar a Irmã Dorothy Stang, missionária assassinada em 2005, no Pará, por seu compromisso com os trabalhadores rurais, a defesa da floresta e a promoção de alternativas de desenvolvimento que respeitassem as comunidades locais. Sua vida tornou visível a relação inseparável entre a defesa dos pobres e o cuidado com a Criação.
O elenco de mártires que tiveram o sangue derramado em razão da defesa dos Direitos Humanos é imenso. Não podemos esquecer Pe. Josimo, Pe. João Bosco Penido Burnier, Margarida Maria Alves, Pe. Ezequiel Ramin, entre outros e outras, companheiros e companheiras da caminhada, que não se curvaram diante dos poderes da opressão na cidade e no campo.
Dom Pedro Casaldáliga, bispo e profeta da justiça, enfrentou ameaças por defender os povos indígenas, os posseiros e os trabalhadores submetidos à violência do latifúndio. Embora tenha morrido de causas naturais, seu testemunho permanece como referência de uma Igreja que não se acomoda diante das estruturas de opressão.
A memória desses homens e mulheres não pode ser transformada em simples homenagem. Recordá-los significa acolher a interpelação que suas vidas nos dirigem. Uma Igreja que celebra seus mártires, mas abandona as causas pelas quais eles entregaram a vida, corre o risco de conservar seus nomes e perder sua profecia.
O sangue dos mártires e a dedicação de tantas testemunhas da justiça nos lembram que a missão cristã não consiste em buscar segurança a qualquer preço, mas em permanecer fiel ao Evangelho, mesmo quando essa fidelidade provoca incompreensões, perseguições ou conflitos com interesses poderosos.
3. Os pobres no centro da missão evangelizadora
A opção preferencial pelos pobres não é uma invenção recente nem uma concessão da Igreja às demandas sociais de nosso tempo. Ela encontra suas raízes nas Escrituras, na atuação de Jesus e na tradição cristã. Deus escuta o clamor de seu povo escravizado (Ex 3,7-10), os profetas denunciam a exploração dos fracos (Am 2,6-7; 5,11-15) e Jesus proclama felizes os pobres, os que têm fome e os que choram (Lc 6,20-21).
Na América Latina, essa compreensão encontrou expressão particular na caminhada das Comunidades Eclesiais de Base (CEBs), nas pastorais sociais e nos movimentos comprometidos com a transformação da sociedade. As CEBs, ao reunir comunidades para escutar a Palavra, celebrar a fé e discernir a realidade, ajudam a compreender que a Bíblia não pode ser separada da vida do povo. A Palavra de Deus ilumina a história e, ao mesmo tempo, convoca os cristãos a transformá-la segundo os valores do Reino.
A atuação da Comissão Pastoral da Terra (CPT), do Conselho Indigenista Missionário (CIMI), da Pastoral da Criança e de tantas outras iniciativas eclesiais demonstra que a evangelização também se concretiza na defesa dos territórios, na proteção da infância, no enfrentamento da violência e na promoção da vida em sua integralidade.
O papa Francisco, na exortação apostólica Evangelii Gaudium, recorda que a comunidade evangelizadora se envolve na vida cotidiana das pessoas, acompanha, frutifica e festeja. Na mesma exortação, insiste que ninguém pode exigir que a religião se limite à esfera privada quando estão em jogo a justiça, a dignidade humana e o bem comum.
Evangelizar, portanto, é caminhar com os pobres, e não apenas falar sobre eles. É reconhecer sua dignidade, escutar sua sabedoria, respeitar sua organização e fortalecer seu protagonismo. Os pobres não são objetos passivos da caridade cristã: são sujeitos de sua história, portadores de direitos e participantes da construção de uma sociedade mais fraterna.
A caridade continua sendo indispensável, mas não pode ser confundida com assistencialismo que conserva a dependência ou encobre as causas da desigualdade. A solidariedade cristã deve unir o cuidado imediato de quem passa necessidade à busca de mudanças sociais que tornem possível uma vida digna para todos.
4. Defender a Casa Comum é defender a vida
A missão da Igreja não se limita à defesa da dignidade humana compreendida de maneira isolada. A vida das pessoas está profundamente ligada à terra, à água, ao ar, às florestas e aos demais seres que compartilham conosco a Criação. A destruição ambiental atinge toda a humanidade, mas seus efeitos recaem com maior intensidade sobre as populações pobres, os povos indígenas, as comunidades tradicionais e aqueles que dependem diretamente dos territórios para sobreviver.
Na encíclica Laudato Si’, o Papa Francisco propõe uma ecologia integral, capaz de compreender que a crise ambiental e a crise social são inseparáveis. Não podemos cuidar verdadeiramente da natureza sem enfrentar a pobreza, a desigualdade e os modelos de desenvolvimento que transformam os bens da Criação em instrumentos de lucro a qualquer custo.
A exploração predatória dos recursos naturais, o desmatamento, a contaminação das águas, a mineração irresponsável e a expulsão de comunidades de seus territórios não representam apenas problemas técnicos ou econômicos. São questões éticas, sociais e espirituais que exigem discernimento e posicionamento pastoral. Quando uma comunidade perde sua terra, sua água ou suas condições de subsistência, não é somente o ambiente que sofre: sua cultura, sua memória, sua saúde e seu futuro também ficam ameaçados.
A encíclica Laudate Deum retoma esse apelo diante do agravamento da crise climática e da insuficiência das respostas humanas. A Igreja é chamada a educar para uma conversão ecológica, rever hábitos de consumo, fortalecer iniciativas sustentáveis e apoiar as populações que protegem os ecossistemas. Isso significa reconhecer que a Criação não é propriedade absoluta de uma geração, mas um dom que recebemos e temos a responsabilidade de transmitir às gerações futuras.
Defender a Casa Comum é, assim, uma dimensão concreta do amor ao próximo. Não existe justiça social duradoura em um planeta devastado, nem ecologia integral que ignore a fome, a desigualdade e os direitos dos povos.
5. Uma Igreja profética, sinodal e comprometida com o Reino
A missão da Igreja exige coragem para anunciar a esperança e denunciar o que contradiz o projeto de Deus. Essa coragem não deve ser confundida com agressividade, intolerância ou desejo de domínio. A profecia cristã nasce da fidelidade à Palavra, da compaixão pelos que sofrem e da busca da verdade na caridade.
Uma Igreja sinodal é aquela que aprende a escutar: escuta o clamor dos pobres, a voz das mulheres, as inquietações da juventude, a experiência dos povos indígenas, a sabedoria das comunidades tradicionais e também o grito da terra ferida. Essa escuta não pode ser apenas simbólica. Deve produzir mudanças nas prioridades pastorais, nas formas de participação e nas decisões comunitárias.
O Papa Leão XIV, ao dar continuidade à missão evangelizadora da Igreja, recorda-nos a importância de testemunhar Cristo em um mundo marcado por conflitos, desigualdades e divisões. O anúncio cristão precisa ser feito com clareza, humildade e espírito de serviço, sem transformar a fé em instrumento de manipulação ou de legitimação de projetos de poder incompatíveis com a dignidade humana.
A Igreja não existe para abençoar indistintamente todos os interesses estabelecidos, nem para se acomodar às ideologias que desprezam os pobres, alimentam o ódio ou naturalizam a exclusão. Sua fidelidade ao Evangelho exige discernimento crítico diante de qualquer projeto político, econômico ou cultural que desumanize as pessoas, destrua a Casa Comum ou negue a fraternidade. Esse discernimento deve ser exercido com responsabilidade, fundamentação e coerência.
A missão cristã também não se esgota na denúncia. É preciso anunciar a esperança, construir pontes, promover a reconciliação, educar para a paz e colaborar com todas as pessoas de boa vontade na construção de uma sociedade justa. A Igreja deve ser sinal de que outro modo de viver é possível: uma sociedade em que a economia esteja a serviço da vida, a política promova o bem comum, a diversidade seja respeitada e ninguém seja descartado.
Conclusão: uma Igreja fiel a Jesus e próxima dos crucificados da história
A missão da Igreja será tanto mais fecunda quanto mais sua palavra estiver acompanhada de gestos concretos de solidariedade, justiça e misericórdia. O anúncio do Evangelho exige comunidades capazes de reconhecer Jesus nos rostos dos pobres, defender os direitos dos que não têm voz, proteger a Casa Comum e testemunhar que a vida vale mais do que o lucro, o poder ou os privilégios.
Os mártires, as testemunhas da justiça, as Comunidades Eclesiais de Base e as pastorais sociais nos recordam que a fé cristã não pode ser indiferente à história. A cruz de Cristo continua presente nos corpos feridos pela fome, pelo racismo, pela violência, pela exploração do trabalho e pela destruição ambiental. Por isso, celebrar a Ressurreição é comprometer-se com a passagem da morte para a vida, da opressão para a liberdade e da exclusão para a fraternidade.
Que a Igreja não deixe morrer a profecia! Que não tenha medo de anunciar o Evangelho em sua integralidade, de defender a dignidade humana quando ela estiver ameaçada, de permanecer ao lado dos pobres e de erguer sua voz em favor da Casa Comum. Que nossas comunidades sejam lugares de acolhida, participação, resistência e esperança, nos quais a Palavra de Deus ilumine a realidade e a Eucaristia nos impulsione à partilha.
A missão da Igreja não é simplesmente falar de Jesus, mas testemunhar Jesus com a própria vida. E testemunhar Jesus significa amar como Ele amou, acolher como Ele acolheu, denunciar aquilo que oprime e trabalhar para que todos tenham vida em abundância. Afinal, a fidelidade ao Evangelho se torna visível quando os últimos são reconhecidos como irmãos, os pobres encontram lugar à mesa, a justiça vence a indiferença e a Casa Comum é cuidada como Dom de Deus confiado à responsabilidade de toda a humanidade.
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