“Ai de vós, fariseus e mestres da Lei!” (Lc 11,47-50)
Frei Jacir de Freitas Faria [1]
O texto de Lucas 11,47-54 que vamos refletir faz parte do capítulo onze. Um fariseu convida Jesus para almoçar na casa dele. Jesus não segue o rito da ablução, isto é, o gesto de lavar as mãos antes da refeição. Estavam presentes ao banquete os fariseus, grupo religioso-político do tempo de Jesus, formado por legistas, isto é, mestres que interpretavam a Lei judaica (Torá), escribas, sacerdotes do terceiro escalão, dentre outros. Diante da reação de um deles, Jesus tece duras críticas ao comportamento religioso desses personagens.
O evangelista Lucas dedicou parte de seu escrito aos fariseus. Nas parábolas próprias, ele foge do esquema de Mateus (reino, juízo, escatologia), mas fala de julgamento, prudência e misericórdia. Nas suas parábolas do caminho para Jerusalém, o fariseu está no centro da narrativa. Ele está no início e no fim das parábolas próprias, aquelas que não estão nos evangelhos de Marcos e Mateus.
A primeira parábola própria de Lucas é da mulher pecadora que lava os pés de Jesus com perfume, o que leva um fariseu presente a ficar indignado com o gesto dela (Lc 7,36-50). A última parábola e a do fariseu e do publicano (Lc 18, 9-14) no templo de Jerusalém. O Fariseu louva a Deus pelo fato de ele ser um homem diferente do resto dos homens, os quais são ladrões, injustos, adúlteros… Já o pecador publicano nem ousa levantar os olhos para o céu, mas batia no peito e pedia perdão por ser pecador. O evangelista Lucas convida seu público a não seguir o fariseu, pois a porta da salvação está fechada para ele, diferentemente para a mulher pecadora, o publicano, o bom samaritano etc.
Portanto, o fariseu está no centro da narrativa lucana como exemplo negativo. O grupo ou partido religioso-político chamado de Fariseus nasceu no período do governo asmoneu de João Hircano (135-104 a.E.C.). A descendência dos asmoneus governou a Palestina do ano 167 a 63 a.E.C., após a revolta do Macabeus contra a dominação grega que havia imposto condições políticas, sociais e religiosas, as quais impediam os seguidores da lei mosaica de viver o judaísmo. Fariseu significa “separado” dos impuros. Portanto, esse grupo se sentia separado do povo a partir da pretensão de fazer de Israel um povo santo, isto é, puro, na observância radical da Lei.
O projeto religioso dos fariseus era interpretar para o povo os textos do Primeiro Testamento, discordando da interpretação dos sacerdotes do templo de Jerusalém. Por isso, eles eram populares, queridos pelo povo. Já o projeto político deles era combater a política profana dos sacerdotes-príncipes asmoneus, seus compatriotas, e fazer uma aparente oposição aos romanos.
Já o objetivo principal dos fariseus era preparar a vinda do Messias, o filho de Davi que viria para restaurar o poder político e levar a Palestina ao cumprimento da Torá. O Messias chegaria no momento definido por Deus. Até que isso acontecesse, o povo devia se preparar, não seguindo o caminho indicado pelos asmoneus. Ainda que alguns fariseus chegassem a ocupar cargos políticos, o poder maior que eles exerciam era na sinagoga. Os fariseus também acreditavam na ressurreição dos mortos.
Por serem fiéis observadores da Lei mosaica, os fariseus eram respeitados pelo povo. No entanto, foi esse mesmo rigorismo que os distanciou das classes populares, fazendo com que eles não percebessem as necessidades e os sofrimentos do povo diante do império romano. Os pobres não eram capazes de seguir o rigorismo proposto por eles e, por isso, foram deixados de lado. Com a guerra judaica (67-70 E.C.), o farisaísmo foi o único grupo judaico que permaneceu vivo e perpetuou o judaísmo como religião até os nossos dias, a partir do concílio de Jammia, por volta do ano 95 E.C., que definiu, dentre outras coisas, a lista dos livros inspirados do judaísmo, a Bíblia Judaica ou o Primeiro/Antigo Testamento que temos hoje.
Jesus fez duras críticas aos fariseus e mestres da lei por causa do modo como eles viviam a religião. Sabemos que uma religião precisa de símbolos, liturgias, doutrinas e vivência. Em outras palavras, os símbolos revelam o Sagrado. Para nós, uma vela acesa lembra Jesus ressuscitado. Os símbolos são utilizados nas liturgias. A doutrina é o conjunto de leis e ensinamentos de uma religião. Teólogos, mestres ou doutores formados em faculdades de Teologia, padres e fariseus e mestres da lei do tempo de Jesus todos têm a missão de ensinar. A vivência, a prática de uma religião exigem atitudes éticas de seu fiel.
Símbolos, doutrinas, liturgias e vivência são os pilares de uma religião. Se um se sobrepõe ao outro, a religião fica capenga. Há quem valoriza por demasia o litúrgico e não age profeticamente ao ensinar e viver. Há quem se apega ao rigor da lei de sua religião e esquece a liberdade, as relações éticas.
Os fariseus chegaram a criar 173 leis somente para garantir o cumprimento da lei de santificar o sábado. Muitos se perguntavam: como poderei ser santo? Não consigo seguir todos esses preceitos. A lei judaica havia se tornado uma canga, uma carga pesada sobre o ombro das pessoas. Jesus não podia concordar com isso. Daí a imagem usada por Jesus ao chamá-los de sepulcros caiados, pintados, que enfeitavam os túmulos dos profetas e justos, construídos por eles. Os judeus caiavam, pintavam os túmulos para evitar o contato com o falecido, com o morto, pois esse contato os impediria de participar de um rito litúrgico. Jesus usou o símbolo de túmulo para dizer que a prática desses fariseus não era condizente com a doutrina que eles ensinavam, pois eram desonestos, carregavam dentro de si a morte. Falavam bonito, criaram leis ótimas, mas não a vivenciavam. Qualquer semelhança com o nosso tempo político-religioso é mera coincidência!
Falar bonito, todos podemos, o importante é perguntar pela prática daqueles que ensinam doutrinas, daqueles que exercem a política como profissão, daqueles que celebram com pomposas liturgias, mas não agem de forma honesta, daqueles que votam em projetos políticos que não defendem a justiça social, mas sim o poder econômico. São sepulcros caiados! Matam os profetas. Continuam derramando sangue de Abeis e Zacarias. Estão longe da justiça, da misericórdia e fidelidade à opção pelos empobrecidos de nosso tempo.
Ai de nós, fariseus modernos de uma religião que mata a vida com as suas próprias leis e escolha de dirigentes desonestos. “Serão pedidas contas disso a esta geração!” (Lc 11,50). O tempo dará sua resposta! Reflita!

[1]Doutor em Teologia Bíblica pela FAJE (BH). Mestre em Ciências Bíblicas (Exegese) pelo Pontifício Instituto Bíblico de Roma (PIB). Professor de Exegese Bíblica há três décadas. Presidente da Associação Brasileira de Pesquisa Bíblica (ABIB). Sacerdote Franciscano. Professor de exegese bíblica EaD e no Seminário Sagrado Coração de Jesus. Referência no Brasil na pesquisa da literatura apócrifa do Segundo Testamento. Autor de treze livros e coautor de dezessete. Oferece curso on-line sobre a Bíblia Apócrifa. Disponível em: www.bibliaapocrifa.com Última publicação: Bíblia Apócrifa: Segundo Testamento (Vozes, 2025). São 784 páginas com a tradução de 67 apócrifos do Novo Testamento. Canal no Youtube: Frei Jacir Bíblia e Apócrifos. https://www.youtube.com/channel/UCwbSE97jnR6jQwHRigX1KlQ No Instagram e Tiktok @freijacir
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