Reflexão para Sexta-feira da 28ª Semana do Tempo Comum

A VERDADE QUE LIBERTA E A CORAGEM DE TESTEMUNHAR

Por Pe. Hermes A. Fernandes

A Liturgia Eucarística da sexta-feira da 28ª Semana do Tempo Comum nos convida a contemplar a fidelidade de Deus, que nos escolhe em Cristo e nos concede o Espírito Santo como garantia da herança prometida, e a acolher o chamado de Jesus à autenticidade, à coragem e à confiança no Pai. À luz da Teologia Latino-americana e da caminhada das Comunidades Eclesiais de Base (CEBs), esses textos nos desafiam a construir uma Igreja que não se acomode diante das injustiças, mas testemunhe o Evangelho com a vida, defendendo a dignidade dos pobres, marginalizados e excluídos.

1. Efésios 1,11-14: selados pelo Espírito, comprometidos com a esperança

A Carta aos Efésios apresenta uma profunda reflexão sobre o projeto de Deus realizado em Jesus Cristo. O trecho proclamado na liturgia afirma que fomos destinados a participar da herança divina e que, tendo acolhido a Palavra da Verdade e acreditado no Evangelho da salvação, fomos marcados com o selo do Espírito Santo prometido.

A imagem da herança recorda a participação do povo na promessa de Deus. No Antigo Testamento, a herança estava relacionada à terra, à pertença comunitária e à fidelidade do Senhor à sua aliança. Em Efésios, essa perspectiva é ampliada em Cristo: somos chamados a participar de uma vida nova, reconciliada com Deus e orientada para a plenitude de seu projeto. Não se trata de um privilégio reservado a alguns, mas de uma graça que reúne os que acolhem o Evangelho e os incorpora a uma comunidade de fé.

O texto também destaca o selo do Espírito Santo. No mundo antigo, o selo identificava a pertença, confirmava a autenticidade e expressava a garantia de um compromisso. Para a comunidade cristã, ser selado pelo Espírito significa pertencer a Deus e viver sob a ação daquele que transforma os corações e renova as relações humanas. O Espírito é a garantia da herança futura, mas também a força que nos impulsiona, desde agora, a testemunhar os sinais do Reino.

Essa esperança não pode ser confundida com uma fuga espiritual dos problemas históricos. Na perspectiva da Teologia Latino-americana, a salvação alcança a pessoa em sua integralidade: sua relação com Deus, com os outros, com a sociedade e com toda a criação. A esperança cristã não legitima a fome, o racismo, a violência, o desemprego, a falta de moradia ou a exploração do trabalho. Pelo contrário, anuncia que nenhuma dessas realidades corresponde à vontade de Deus para seus filhos e filhas.

As CEBs, ao reunir o povo em torno da Palavra, da oração e da vida comunitária, tornam-se sinais dessa herança quando promovem a solidariedade, a participação popular, a defesa dos direitos humanos e o cuidado com a Casa Comum. O Espírito Santo não nos sela para o isolamento, mas nos envia à missão. Uma comunidade verdadeiramente conduzida por Ele não pergunta apenas quantas pessoas participam de suas celebrações, mas também quem está sendo acolhido, quem permanece invisível e quais sofrimentos exigem sua presença profética.

2. Lucas 12,1-7: rejeitar a hipocrisia e não ter medo de testemunhar

No Evangelho, Jesus adverte seus discípulos contra o fermento dos fariseus, identificado com a hipocrisia. A imagem do fermento é significativa: assim como uma pequena quantidade pode influenciar toda a massa, a falsidade, quando tolerada, pode contaminar a vida religiosa e as relações comunitárias.

Jesus denuncia uma religiosidade marcada pelas aparências, na qual o discurso não corresponde à prática. Suas palavras não constituem uma condenação indiscriminada de todos os fariseus, mas uma crítica à incoerência daqueles que colocam a observância exterior acima da verdade e da justiça. O discipulado exige transparência, conversão e coerência entre aquilo que se anuncia e aquilo que se vive.

Ao afirmar que nada há de escondido que não venha a ser revelado, Jesus recorda que a verdade de Deus desmascara a falsidade humana. Essa afirmação possui grande força pastoral: a Igreja não pode proclamar a justiça enquanto silencia diante de abusos; não pode anunciar a fraternidade enquanto alimenta discriminações; nem pode defender a vida apenas em palavras enquanto ignora a fome, a violência e o abandono dos mais vulneráveis.

Na sequência, Jesus convida os discípulos a não temerem aqueles que podem matar o corpo, mas não conseguem destruir a vida em sua dimensão definitiva diante de Deus. Essa palavra foi pronunciada em um contexto de oposição à missão de Jesus e prepara seus seguidores para as perseguições que poderão enfrentar por causa do testemunho do Evangelho. Não é um convite à imprudência, tampouco uma negação do valor da vida corporal. É uma exortação à liberdade interior diante das ameaças que procuram impedir a fidelidade a Deus.

A referência aos pardais e à contagem dos cabelos da cabeça revela a ternura da providência divina. Se nenhum desses pequenos pássaros é esquecido por Deus, muito menos o são os seres humanos, especialmente aqueles que a sociedade considera descartáveis. Jesus apresenta um Pai que conhece cada pessoa e lhe atribui um valor que não depende de sua riqueza, origem étnica, posição social ou reconhecimento público.

Na realidade latino-americana, essa mensagem interpela uma sociedade na qual povos indígenas, comunidades quilombolas, população negra, trabalhadores rurais, pessoas em situação de rua, migrantes e moradores das periferias frequentemente enfrentam a invisibilidade e a negação de direitos. Deus não os esquece. A Igreja tampouco pode esquecê-los.

A coragem evangélica não consiste em buscar conflitos, mas em permanecer fiel à verdade e à justiça, mesmo quando isso provoca incompreensões. Os mártires latino-americanos, como S. Óscar Romero, assassinado em 1980 enquanto celebrava a Eucaristia, e a missionária Dorothy Stang, assassinada em 2005 por seu compromisso com os trabalhadores rurais e a defesa da floresta, testemunham, de maneiras distintas, o preço que pode acompanhar a fidelidade ao Evangelho. Suas vidas recordam que a fé cristã não pode ser separada da defesa dos ameaçados e da denúncia das estruturas que produzem morte.

A confiança no Pai, portanto, não nos dispensa da responsabilidade histórica. Pelo contrário, liberta-nos do medo que paralisa e nos fortalece para agir em favor da vida.

3. As CEBs: uma Igreja que não se cala diante da injustiça

A leitura conjunta desses textos ilumina a missão das Comunidades Eclesiais de Base. Efésios anuncia a esperança sustentada pelo Espírito; Lucas mostra que essa esperança exige autenticidade e coragem. Não basta professar a fé: é necessário permitir que ela transforme nossas escolhas, nossas relações e nossas estruturas sociais.

A primeira tarefa pastoral consiste em fortalecer a formação bíblica e a consciência crítica do povo de Deus. A Leitura Orante da Bíblia, realizada em comunidade, deve relacionar o texto sagrado com a realidade vivida, ajudando os participantes a reconhecer as formas de opressão que contradizem o projeto divino. A Palavra não pode ser utilizada para justificar a resignação dos pobres, mas deve alimentar sua esperança, sua organização e sua participação na construção de uma sociedade justa.

A segunda tarefa é assumir concretamente a defesa da dignidade humana. Isso implica acompanhar famílias em situação de vulnerabilidade, apoiar iniciativas de combate à fome, defender o direito à moradia e ao trabalho digno, acolher migrantes, combater o racismo e denunciar a violência contra mulheres, crianças e populações tradicionais. A articulação com a Comissão Pastoral da Terra (CPT), o Conselho Indigenista Missionário (CIMI) e outras pastorais e organizações sociais pode tornar mais eficaz esse compromisso.

A terceira tarefa é cultivar uma espiritualidade que una oração, celebração e compromisso social. A Eucaristia, centro da vida cristã, convoca-nos à comunhão com Cristo e com os irmãos e irmãs. Não seria coerente aproximar-nos da mesa do Senhor e permanecer indiferentes àqueles que não têm pão, terra, teto ou acesso aos direitos fundamentais. A celebração deve fortalecer uma comunidade que reconhece Cristo nos pequenos e se deixa evangelizar pelos pobres.

Por fim, as CEBs são chamadas a testemunhar a verdade sem hipocrisia e sem medo. Isso exige transparência na vida eclesial, participação dos leigos e leigas, valorização das mulheres e dos jovens e liberdade para denunciar injustiças, inclusive quando praticadas por pessoas ou instituições que se apresentam como religiosas. A fidelidade ao Evangelho não se mede pela proximidade com os poderosos, mas pela coerência com Jesus Cristo e com o Reino de Deus.

Conclusão: o Espírito nos fortalece para testemunhar

Efésios 1,11-14 e Lucas 12,1-7 nos recordam que pertencemos a Deus e somos chamados a viver na verdade. O Espírito Santo, que nos sela e sustenta nossa esperança, não nos afasta dos conflitos da história: capacita-nos a enfrentá-los com discernimento, misericórdia e coragem.

Em uma sociedade marcada por desigualdades, discursos de ódio e tentativas de silenciar as vozes proféticas, a Igreja precisa renovar sua opção preferencial pelos pobres e sua disposição de defender toda vida ameaçada. Como ensina a caminhada da Teologia Latino-americana, a fé deve ser vivida a partir da realidade concreta do povo, iluminada pela Palavra e traduzida em práticas de libertação.

Que nossas Comunidades Eclesiais de Base sejam espaços nos quais ninguém se sinta esquecido por Deus; comunidades que não escondam a verdade, não se acomodem diante da injustiça e não tenham medo de testemunhar o Evangelho. Afinal, ser selado pelo Espírito é assumir a missão de tornar visível, no mundo de hoje, a esperança de Deus e sua predileção pelos pequenos.


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