Por Pe. Hermes A. Fernandes
1. A sexta-feira: memória da Cruz e compromisso com a vida
A sexta-feira ocupa um lugar especial na espiritualidade cristã porque recorda a Paixão e a Morte de Jesus Cristo. Desde os primeiros séculos, a Igreja reservou esse dia para a oração, a penitência e a conversão, reconhecendo na entrega de Jesus até sua morte a manifestação suprema do amor de Deus pela humanidade.
O jejum e a abstinência fazem parte dessa tradição. Entretanto, não podem ser compreendidos como simples proibições alimentares, obrigações exteriores ou práticas destinadas a conquistar o favor divino. Seu sentido mais profundo consiste na conversão do coração, no domínio dos próprios desejos, na solidariedade com quem sofre e na renovação da vida conforme o Evangelho.
A tradição bíblica confirma essa compreensão. Os profetas denunciaram a incoerência de uma religiosidade que multiplica os gestos penitenciais, mas permanece indiferente à injustiça. Em Isaías 58,3-10, Deus questiona o jejum daqueles que continuam explorando os trabalhadores e desprezando os necessitados. O verdadeiro jejum implica romper as cadeias da opressão, repartir o pão com quem tem fome, acolher os pobres sem abrigo e não abandonar o semelhante.
Portanto, desde a perspectiva bíblica, a penitência não se limita à privação de alimentos. Ela deve produzir frutos concretos de conversão pessoal e transformação das relações sociais.
2. O Magistério da Igreja e a disciplina penitencial
A disciplina penitencial da Igreja desenvolveu-se ao longo dos séculos, assumindo diferentes formas conforme as circunstâncias históricas e pastorais. Entre suas expressões tradicionais encontram-se o jejum, a abstinência de carne, a oração, a esmola e as obras de misericórdia.
Um documento fundamental para compreender essa tradição é a Constituição Apostólica Paenitemini, publicada pelo Papa Paulo VI em 17 de fevereiro de 1966. Ao reorganizar a disciplina penitencial, o pontífice reafirmou que todos os fiéis são chamados à penitência, mas ressaltou a necessidade de adequar suas formas às realidades de cada época e região.
Paulo VI destacou a importância da tríade tradicional: oração, jejum e caridade. A penitência cristã não deve ficar restrita à renúncia individual, mas precisa manifestar-se na solidariedade com os que passam fome e vivem na pobreza. O documento reconhece, inclusive, a possibilidade de as conferências episcopais substituírem, total ou parcialmente, determinadas formas de jejum e abstinência por exercícios de piedade e obras de caridade.
Essa orientação é decisiva: a Igreja preserva a tradição penitencial, mas reconhece que sua finalidade não se esgota na observância de uma prática alimentar. A penitência deve conduzir à conversão e ao amor concreto ao próximo.
O Catecismo da Igreja Católica, no número 1438, reafirma que a Quaresma e as sextas-feiras, em memória da morte do Senhor, constituem momentos importantes da prática penitencial. Recomenda, nesse contexto, exercícios espirituais, privações voluntárias, esmola, partilha fraterna e obras caritativas e missionárias.
Também o Código de Direito Canônico, nos cânones 1249-1253, estabelece os fundamentos jurídicos dessa disciplina. O cânon 1249 afirma que todos os fiéis estão obrigados, por lei divina, a fazer penitência, cada qual conforme sua condição. O cânon 1250 determina que as sextas-feiras de todo o ano e o tempo da Quaresma são dias e tempos penitenciais na Igreja em todo mundo.
O cânon 1251 estabelece a abstinência de carne às sextas-feiras, salvo quando coincidem com uma solenidade, permitindo também a observância de outro alimento determinado pela conferência episcopal. O jejum e a abstinência são prescritos conjuntamente para a Quarta-feira de Cinzas e a Sexta-feira Santa. O cânon 1253, por sua vez, reconhece às conferências episcopais a faculdade de especificar as formas de observância e substituí-las, no todo ou em parte, por outras práticas penitenciais, especialmente obras de caridade e exercícios de piedade.
É importante, portanto, distinguir duas coisas: a sexta-feira é, por determinação da Igreja, um dia penitencial; a maneira concreta de cumprir essa penitência deve ser compreendida segundo a legislação e as orientações legítimas da Igreja local.
3. Como viver essa tradição no Brasil?
No Brasil, as orientações eclesiais permitem compreender a penitência das sextas-feiras de maneira que não se reduza à simples retirada da carne do cardápio. A tradição da abstinência pode ser vivida mediante a privação de carne ou de outro alimento, conforme as normas aplicáveis, ou por outras formas penitenciais reconhecidas, como a oração e a esmola.
A abstinência não significa necessariamente passar fome. Tampouco o jejum deve comprometer a saúde ou impedir o cumprimento responsável das obrigações profissionais e familiares. Pessoas doentes e aquelas cuja condição física torne a prática prejudicial devem respeitar seus limites e buscar orientação pastoral quando necessário.
A legislação universal estabelece a obrigação da abstinência a partir dos 14 anos completos e a do jejum para os fiéis que atingiram a maioridade canônica até o início dos 60 anos. No Brasil, as determinações publicadas juntamente com o Código de Direito Canônico especificam a obrigação do jejum dos 18 aos 59 anos completos, em condições normais de saúde, e apresentam formas alternativas de penitência para as sextas-feiras.
Assim, a prática penitencial deve ser realizada com consciência, responsabilidade e fidelidade à disciplina eclesial. Não se trata de estabelecer uma competição entre quem jejua mais e quem jejua menos, mas de cultivar uma disposição sincera de conversão.
A pergunta fundamental não é apenas: “De qual alimento vou me privar nesta sexta-feira?”. É também: “De quais atitudes, hábitos e estruturas de pecado preciso me libertar para viver mais fielmente o Evangelho?”.
4. A atualização da penitência à luz da Teologia Latino-americana
A Teologia Latino-americana, especialmente em sua articulação com a opção preferencial pelos pobres, a Leitura Popular da Bíblia e a prática das Comunidades Eclesiais de Base (CEBs), oferece uma contribuição fundamental para a compreensão pastoral da penitência.
Na realidade latino-americana, milhões de pessoas não escolhem comer menos: são obrigadas a conviver com a fome, a insegurança alimentar, o desemprego, os baixos salários e a falta de moradia digna. Para essas pessoas, a privação de alimentos não constitui necessariamente um exercício espiritual voluntário, mas uma violência cotidiana que ameaça a própria vida.
Por isso, uma espiritualidade penitencial comprometida com o Evangelho não pode ignorar as causas da fome nem transformar o sofrimento dos pobres em simples ocasião para exercícios devocionais. Ao contrário, deve conduzir os cristãos a reconhecer a dignidade dos empobrecidos e a agir para superar as condições que produzem sua exclusão.
Essa perspectiva não elimina o jejum e a abstinência. Ela os situa em seu horizonte evangélico mais profundo: a conversão que gera fraternidade, justiça e solidariedade. Quem se abstém de um alimento pode destinar o valor economizado à compra de cestas básicas, ao apoio a famílias vulneráveis ou à manutenção de iniciativas comunitárias. Quem pratica o jejum pode reservar tempo para visitar pessoas abandonadas, escutar os que sofrem ou participar de ações em defesa dos Direitos Humanos.
Nas CEBs, a sexta-feira pode tornar-se um momento privilegiado de oração, Leitura Popular da Bíblia, partilha de alimentos e reflexão sobre as realidades que ferem a vida. A comunidade pode perguntar-se por que há famílias sem comida enquanto alimentos são desperdiçados; por que trabalhadores permanecem na pobreza; por que tantas pessoas não têm acesso à terra, à moradia, à saúde e à educação.
Essas perguntas não desviam a penitência de seu sentido religioso. Elas ajudam a concretizar a conversão exigida pelo Evangelho, pois o pecado também se manifesta em relações econômicas injustas, na indiferença diante do sofrimento e em estruturas que negam a dignidade humana.
A tradição profética, retomada por Jesus, impede que se separe a relação com Deus da responsabilidade pelo próximo. Não basta observar uma prática penitencial e continuar explorando trabalhadores, discriminando pessoas, destruindo a natureza ou permanecendo indiferente à fome. A autenticidade da conversão manifesta-se nos frutos de justiça e misericórdia.
Essa compreensão também encontra ressonância na Evangelii Gaudium, do Papa Francisco, particularmente em sua insistência numa Igreja próxima dos pobres, e na encíclica Laudato Si’, que relaciona o cuidado da Casa Comum à defesa dos mais vulneráveis. A penitência pode incluir, portanto, a renúncia ao consumismo, ao desperdício, à exploração ambiental e a hábitos que alimentam uma cultura de descarte.
5. Uma proposta pastoral para as sextas-feiras
A tradição penitencial pode ganhar novo vigor nas paróquias e comunidades mediante práticas simples, constantes e comunitárias:
- Oração: reservar um tempo para a Palavra de Deus, especialmente Isaías 58,3-10, Mateus 6,1-18 e Mateus 25,31-46.
- Jejum e abstinência: realizar a renúncia alimentar de acordo com a disciplina da Igreja, respeitando a saúde e as condições pessoais.
- Partilha: transformar a economia obtida com uma renúncia voluntária em ajuda concreta às famílias empobrecidas.
- Solidariedade: visitar pessoas enfermas, idosas, encarceradas ou abandonadas e apoiar iniciativas de acolhida.
- Compromisso social: participar de ações comunitárias em defesa do direito à alimentação, à moradia, ao trabalho digno e à proteção da Casa Comum.
- Conversão pessoal e comunitária: examinar atitudes de egoísmo, preconceito, desperdício, violência e indiferença, assumindo compromissos concretos para superá-las.
Essas práticas não devem ser impostas como substituições arbitrárias das normas da Igreja, mas propostas e vividas em conformidade com a disciplina penitencial vigente. Sua finalidade é tornar visível a unidade entre oração, renúncia, caridade e compromisso com a transformação da realidade.
Conclusão: jejuar para que outros tenham vida
A Igreja conserva nas sextas-feiras uma memória sagrada: a entrega de Jesus Cristo na cruz. Essa memória, porém, não nos convida a contemplar passivamente o sofrimento, mas a reconhecer o amor que se doa para que a humanidade tenha vida.
O jejum e a abstinência permanecem sinais importantes da tradição cristã. Quando realizados com liberdade interior, discernimento e fidelidade eclesial, ajudam a educar os desejos, combater o consumismo e aprofundar a comunhão com Deus. Entretanto, perdem sua força testemunhal quando são reduzidos a formalidades ou separados da prática da caridade.
À luz da Teologia Latino-americana, a penitência das sextas-feiras pode ser compreendida como um caminho de conversão pessoal, comunitária e social. É renunciar não apenas a determinados alimentos, mas também à indiferença diante da fome, ao desperdício, à exploração dos trabalhadores, à violência contra os pobres e à destruição da Casa Comum.
O verdadeiro jejum não transforma os pobres em objetos de piedade: reconhece-os como irmãos e irmãs, sujeitos de direitos e protagonistas da construção de uma sociedade justa e fraterna.
Que cada sexta-feira nos ajude, portanto, a unir a memória da Cruz à defesa concreta da vida. Que nossa oração se converta em solidariedade, nossa abstinência em partilha e nossa penitência em compromisso com os últimos da sociedade. Assim, a tradição da Igreja permanecerá viva, não como um conjunto de proibições vazias, mas como expressão de uma fé que se faz misericórdia, justiça e esperança.
Porque jejuar segundo o Evangelho é aprender a viver de tal maneira que a vida, a dignidade e o pão de cada pessoa sejam respeitados e partilhados.
Deixe um comentário