Reflexão para Sábado da 28ª Semana do Tempo Comum

A esperança que ilumina os olhos e a coragem de testemunhar o Evangelho

Por Pe. Hermes A. Fernandes

As leituras da Liturgia Eucarística do sábado da 28ª Semana do Tempo Comum nos convidam a aprofundar duas dimensões inseparáveis da vida cristã: a esperança que nasce do conhecimento de Deus e a coragem de testemunhar Jesus Cristo diante das adversidades. Na Carta aos Efésios, Paulo — ou o autor que escreve em sua tradição — pede que os olhos do coração dos fiéis sejam iluminados para reconhecer a esperança à qual foram chamados. No Evangelho de Lucas, Jesus encoraja seus discípulos a não se envergonharem dele e promete a assistência do Espírito Santo nos momentos de perseguição e julgamento.

À luz da Teologia Latino-americana e da caminhada das Comunidades Eclesiais de Base (CEBs), esses textos nos recordam que a fé não pode ser reduzida a uma experiência individual, intimista ou desligada da história. Conhecer a Deus significa aprender a enxergar a realidade com o olhar de Jesus, reconhecendo a dignidade dos pobres, denunciando as estruturas que produzem exclusão e construindo sinais concretos do Reino de Deus.

A esperança cristã não é fuga do mundo, mas força para transformá-lo segundo o projeto de vida, justiça, fraternidade e paz revelado em Jesus.

1. Efésios 1,15-23: os olhos do coração iluminados pela esperança

A Carta aos Efésios apresenta uma comunidade que precisa aprofundar sua compreensão do mistério de Cristo e da vocação recebida de Deus. O autor agradece pela fé dos cristãos e pelo amor que demonstram a todos os santos. Em seguida, pede que recebam o espírito de sabedoria e revelação, para conhecerem verdadeiramente o Senhor e compreenderem a esperança de seu chamado.

A expressão “olhos do coração” (Ef 1,18) pertence a uma linguagem simbólica na qual o coração representa o centro da inteligência, da vontade e das decisões humanas. Não basta possuir informações religiosas: é necessário deixar que a luz de Deus transforme nossa maneira de pensar, sentir e agir.

O texto destaca três realidades: a esperança do chamado, a riqueza da herança de Deus entre os santos e a extraordinária grandeza de seu poder em favor dos que creem. Essa força se manifesta na ressurreição de Jesus e em sua exaltação acima de todo poder e autoridade.

Quando o autor afirma que Cristo está acima de todo principado, autoridade, poder e domínio (Ef 1,21), utiliza categorias conhecidas no mundo antigo para designar poderes e hierarquias. A afirmação possui uma dimensão teológica e política: nenhuma autoridade humana, estrutura econômica ou sistema de dominação pode reivindicar para si um poder absoluto. Cristo é o Senhor, e todo poder deve ser julgado à luz de sua vida, de sua cruz e de sua ressurreição.

A Igreja é apresentada como corpo de Cristo, aquele que enche todas as coisas (Ef 1,22-23). Essa imagem não legitima uma comunidade fechada sobre si mesma, mas convoca os cristãos a manifestarem, na história, a presença daquele que veio para servir e dar a vida.

Na realidade latino-americana, iluminar os olhos do coração significa enxergar aquilo que a sociedade frequentemente procura esconder: famílias sem moradia digna, pessoas submetidas à fome, trabalhadores explorados, povos indígenas ameaçados, comunidades quilombolas desrespeitadas, migrantes vulneráveis e mulheres vítimas da violência.

A opção preferencial pelos pobres, reafirmada na caminhada da Igreja latino-americana, não é simples gesto de generosidade. É uma maneira evangélica de compreender a missão e discernir se nossas estruturas, prioridades e práticas correspondem ao projeto de Jesus.

As CEBs tornam essa iluminação concreta quando reúnem o povo para escutar a Palavra, partilhar a vida e organizar ações solidárias. A esperança cristã cresce quando a comunidade acompanha famílias em situação de vulnerabilidade, defende os direitos humanos, fortalece a participação popular e se compromete com a justiça socioambiental.

Se a Igreja é corpo de Cristo, o sofrimento de seus membros não pode ser tratado como realidade distante. Uma comunidade que celebra a ressurreição, mas permanece indiferente à fome, à violência e à exclusão, ainda precisa permitir que seus olhos sejam iluminados pelo Evangelho.

2. Lucas 12,8-12: testemunhar Jesus sem medo

No Evangelho, Jesus declara que aquele que o reconhecer diante dos seres humanos também será reconhecido diante dos anjos de Deus (Lc 12,8). Em seguida, adverte sobre a gravidade de renegá-lo e fala da blasfêmia contra o Espírito Santo. Finalmente, assegura aos discípulos que, quando forem conduzidos às sinagogas, diante das autoridades e dos poderes, não deverão viver angustiados sobre como se defender, pois o Espírito Santo lhes ensinará o que dizer.

O contexto de Lucas 12 é marcado pela oposição entre a autenticidade do discipulado e a hipocrisia, pelo anúncio da confiança em Deus e pela necessidade de não se deixar dominar pelo medo. Jesus prepara seus seguidores para os conflitos que poderão enfrentar ao permanecerem fiéis à missão.

Reconhecer Jesus publicamente significa assumir seu projeto, seus ensinamentos e sua maneira de se relacionar com as pessoas. Não se trata apenas de professar verbalmente uma crença, mas de tornar visível, por atitudes e escolhas, a fidelidade ao Evangelho. Por isso, a confissão de fé possui consequências concretas na vida social.

A advertência sobre a blasfêmia contra o Espírito Santo (Lc 12,10) exige cuidado. O texto não deve ser utilizado para amedrontar pessoas, alimentar escrúpulos religiosos ou declarar precipitadamente que alguém está condenado. No contexto, Jesus fala da seriedade da resposta humana diante da ação de Deus. Fechar-se deliberadamente à verdade e resistir à ação libertadora do Espírito constitui uma recusa radical da graça. O Espírito é aquele que conduz à verdade, suscita a conversão e torna possível o reconhecimento da obra de Deus.

A promessa dos versículos 11-12 também não significa que os cristãos devam dispensar a preparação, o estudo ou o discernimento. Jesus oferece confiança aos discípulos diante das situações de perseguição e julgamento: o Espírito Santo os assistirá quando sua fidelidade for colocada à prova. A coragem cristã não nasce da autossuficiência, mas da confiança em Deus.

Na história da América Latina, numerosos cristãos testemunharam Jesus ao defender os direitos dos pobres, dos povos indígenas, dos trabalhadores rurais e das populações marginalizadas. Muitos foram perseguidos, ameaçados ou assassinados porque sua fidelidade ao Evangelho os levou a denunciar injustiças e a permanecer ao lado das vítimas.

A memória de Dom Oscar Romero, de Santa Dulce dos Pobres, de Dorothy Stang e de tantos mártires e testemunhas da caminhada cristã recorda que o discipulado não pode ser separado da defesa da vida. Essas trajetórias, diferentes entre si, revelam que a fé se torna credível quando se traduz em serviço, solidariedade e compromisso com a dignidade humana.

As CEBs são chamadas a formar discípulos e discípulas que não tenham vergonha de anunciar Jesus por meio da acolhida, da partilha e da defesa dos que não possuem voz nos espaços de decisão. Isso inclui denunciar a violência contra as mulheres, o racismo, a exploração do trabalho, a destruição dos territórios e a criminalização dos movimentos populares.

É igualmente necessário discernir a presença do Espírito Santo na vida cotidiana. O Espírito não atua somente em manifestações extraordinárias ou em experiências religiosas individuais. Ele também fortalece uma comunidade para enfrentar o medo, sustentar a esperança, defender os injustiçados e permanecer fiel à verdade mesmo quando isso provoca incompreensão ou oposição.

3. Pistas para a ação pastoral nas Comunidades Eclesiais de Base

A união entre Efésios 1,15-23 e Lucas 12,8-12 oferece caminhos concretos para uma pastoral comprometida com a transformação da realidade.

– Iluminar a realidade pela Palavra: promover círculos bíblicos e Leitura Orante que relacionem o texto sagrado com as condições de vida do povo, ajudando a identificar as causas da pobreza e da exclusão.

– Transformar a solidariedade em organização comunitária: fortalecer redes de apoio às famílias em situação de vulnerabilidade, iniciativas de segurança alimentar, cooperativas, grupos de economia solidária e ações em defesa da moradia digna.

– Formar testemunhas corajosas do Evangelho: preparar lideranças leigas, jovens, mulheres e agentes pastorais para a defesa dos direitos humanos, o diálogo social e a participação cidadã, sem confundir a missão da Igreja com a submissão a projetos de poder.

– Defender a Casa Comum: unir espiritualidade e compromisso socioambiental, apoiando comunidades atingidas pela mineração predatória, pelo desmatamento, pela contaminação das águas e por outras formas de violência contra os territórios.

– Celebrar uma liturgia comprometida com a vida: fazer da Eucaristia fonte de comunhão e serviço, para que a partilha do Pão fortaleça a partilha dos bens, a reconciliação e a construção de relações mais justas.

Essas práticas devem nascer da escuta das próprias comunidades, especialmente daqueles que vivenciam a pobreza e a exclusão. Não basta fazer algo pelos pobres; é indispensável caminhar com eles, reconhecer seus saberes, respeitar sua autonomia e favorecer sua participação nas decisões eclesiais e sociais.

4. Conclusão: uma Igreja iluminada e sem medo

As leituras deste sábado da 28ª Semana do Tempo Comum apresentam uma Igreja chamada a viver da esperança e a testemunhar sua fé com coragem. Efésios recorda que o poder de Deus se manifesta na ressurreição de Cristo, Senhor acima de toda dominação. Lucas ensina que o Espírito Santo sustenta os discípulos quando sua fidelidade ao Evangelho é colocada à prova.

Para as Comunidades Eclesiais de Base, esses textos constituem um convite à conversão pastoral: abrir os olhos para os sofrimentos humanos, superar uma religiosidade indiferente à realidade e assumir, com esperança perseverante, a defesa da vida em todas as suas dimensões.

A Igreja não testemunha plenamente Jesus quando se limita a proclamar seu nome; ela o testemunha quando sua presença se torna boa notícia para os pobres, acolhida para os excluídos, esperança para os que sofrem e coragem para os que lutam por justiça.

Uma comunidade com os olhos iluminados pela esperança e conduzida pelo Espírito Santo não se cala diante da injustiça nem abandona os pequenos. Ela reconhece em Cristo ressuscitado a força para continuar caminhando e, na vida dos pobres, um apelo permanente à fidelidade ao Evangelho.


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