Da opressão à esperança: o Deus que escuta o clamor dos povos e faz nascer a libertação

Uma leitura bíblico-pastoral da violência na história do Povo de Deus e no Brasil, à luz da Teologia Latino-americana, das Comunidades Eclesiais de Base e da missão profética da Igreja.

Por Pe. Hermes A. Fernandes

1. Introdução: a História da Salvação atravessada pelo clamor dos oprimidos

A Bíblia não é um livro distante da realidade dos povos. Suas páginas guardam a memória de comunidades que conheceram a escravidão, a exploração do trabalho, a violência dos impérios, a destruição de suas cidades, o exílio e a perseguição religiosa. Mas guardam também a memória de um Deus que escuta o clamor dos sofredores, denuncia a injustiça e suscita caminhos de libertação.

Lida a partir da Teologia Latino-americana e da Leitura Popular da Bíblia, essa história nos convida a reconhecer que a fé não pode ser separada da vida concreta dos pobres, dos trabalhadores, dos povos indígenas, da população negra e daqueles que vivem nas periferias. O Deus revelado nas Escrituras não permanece indiferente diante da opressão. Ele toma partido da vida e convoca seu povo a fazer o mesmo.

Essa perspectiva não significa afirmar que todas as situações históricas sejam idênticas, mas reconhecer que existem mecanismos de dominação que atravessam diferentes épocas: a concentração do poder, a exploração dos trabalhadores, o racismo, a expulsão de populações de suas terras, a repressão dos que resistem e a utilização da religião para legitimar privilégios.

É nesse horizonte que podemos estabelecer um paralelo entre as violências sofridas pelo Povo de Deus na Antiguidade e aquelas que marcaram a história brasileira, desde a Ditadura Militar até as formas contemporâneas de violência institucional. As Comunidades Eclesiais de Base (CEBs), a Comissão Pastoral da Terra (CPT), a Pastoral Operária e o Conselho Indigenista Missionário (CIMI) oferecem importantes referências para essa leitura: uma Igreja que escuta os clamores do povo, ilumina a realidade com a Palavra e transforma a fé em compromisso com a justiça.

2. O Primeiro Testamento: a memória de um povo ferido pelos impérios

O Egito: a escravidão e o Deus que escuta o clamor

A narrativa do Êxodo apresenta uma das experiências fundantes da fé de Israel: a opressão de um povo submetido a trabalhos forçados por um poder que temia seu crescimento. O Faraó impõe tarefas pesadas, transforma os trabalhadores em instrumentos de produção e ordena a morte dos meninos hebreus (Ex 1,8-22).

A violência não é apenas física. Ela atinge a dignidade humana, controla os corpos, explora o trabalho e tenta impedir o futuro de uma comunidade. A escravidão torna-se um projeto de dominação que pretende convencer os oprimidos de que nasceram para servir aos poderosos.

Entretanto, o texto bíblico apresenta uma afirmação decisiva: “Eu vi a opressão do meu povo no Egito, ouvi o seu clamor” (Ex 3,7). Iahweh não ignora a dor dos escravizados. A libertação começa quando o sofrimento deixa de ser tratado como algo natural e passa a ser reconhecido como uma injustiça que exige transformação.

A memória do Êxodo permanece como critério ético para o povo da Aliança. Israel não poderá esquecer que também foi estrangeiro e escravizado (Dt 5,15; 10,19). A experiência da libertação deverá gerar uma sociedade diferente daquela que o oprimiu.

Para nós, brasileiros, essa narrativa questiona toda estrutura que transforma seres humanos em mão de obra descartável, naturaliza o trabalho análogo à escravidão e considera a pobreza uma culpa individual. O Deus do Êxodo continua convocando a Igreja a escutar o clamor dos trabalhadores explorados, das famílias sem moradia e daqueles cuja dignidade é negada.

A Assíria: a queda do Reino do Norte e a violência imperial

No século VIII a.C., o Império Assírio expandiu seu domínio sobre os povos da região. O Reino de Israel, no Norte, foi conquistado, e Samaria caiu em 722/721 a.C. Parte da população foi deportada, enquanto outras populações foram deslocadas para a região, conforme a política imperial de reorganização dos territórios (2Rs 17,3-6.24).

A conquista representou mais do que uma derrota militar. Significou a perda de autonomia política, a desestruturação de comunidades e a ruptura de vínculos sociais e culturais. A deportação era um instrumento de controle: enfraquecia resistências e submetia os povos aos interesses do império.

Os profetas já denunciavam, dentro de Israel, as injustiças praticadas pelas elites, a corrupção dos tribunais e a exploração dos pobres. Amós condena aqueles que vendem o justo por dinheiro e esmagam os necessitados (Am 2,6-7; 5,11-15). A mensagem profética impede uma leitura simplista da história: a dominação estrangeira não elimina a responsabilidade das elites locais por suas próprias injustiças.

A memória da invasão assírica nos ajuda a compreender a violência que acompanha a perda da terra, a expulsão de comunidades e a imposição de interesses econômicos e políticos sobre populações vulneráveis. É uma questão particularmente importante para a Comissão Pastoral da Terra (CPT), que acompanha conflitos fundiários, ameaças a camponeses e comunidades tradicionais, e para o Conselho Indigenista Missionário (CIMI), que denuncia a violência contra os povos indígenas e a negação de seus territórios.

A Babilônia: a destruição de Jerusalém e a experiência do exílio

Em 586 a.C., depois de sucessivas intervenções babilônicas, Jerusalém foi conquistada, o Templo foi destruído e parte significativa da população de Judá foi deportada para a Babilônia (2Rs 25,1-21; 2Cr 36,17-21).

O exílio atingiu o coração da identidade do povo. A cidade, o Templo, a monarquia e as referências tradicionais pareciam ter desmoronado. Como celebrar a fé longe da terra? Como continuar esperando quando os símbolos da segurança coletiva haviam sido destruídos?

O Salmo 137 expressa a dor de quem se encontra distante de sua terra e se pergunta como cantar os cânticos do Senhor em terra estrangeira. O exílio é uma experiência de desenraizamento, luto e humilhação, mas também se torna ocasião de reflexão teológica, reconstrução da memória e renovação da esperança.

Os profetas não oferecem uma esperança superficial. Ezequiel anuncia a possibilidade de um povo renovado, enquanto o Segundo Isaías proclama consolo e um novo êxodo (Ez 36,24-28; Is 40,1-11; 43,18-21). A violência imperial não recebe a última palavra sobre a história.

O exílio nos ajuda a reconhecer a dor dos refugiados, dos migrantes, das comunidades expulsas de suas terras e das populações obrigadas a abandonar suas casas pela violência, pela especulação imobiliária ou pela destruição ambiental. Para uma Igreja comprometida com a Casa Comum, não existe reconstrução verdadeira quando os pobres são novamente expulsos para que outros acumulem riqueza.

A dominação helênica: quando a cultura e a religião se tornam campos de conflito

Após as conquistas de Alexandre Magno, a cultura helênica exerceu crescente influência sobre a Palestina. No século II a.C., sob o governo de Antíoco IV Epífanes, ocorreram perseguições contra práticas religiosas judaicas, intervenções no Templo e tentativas de impor costumes incompatíveis com a fidelidade à Lei (1Mc 1,20-64).

A resistência dos Macabeus, apesar de suas ambiguidades históricas, expressa a luta de uma comunidade para preservar sua identidade religiosa diante de um poder que pretendia controlar também sua consciência. O livro de Daniel, ambientado literariamente no tempo babilônico, mas profundamente relacionado às perseguições do período helênico, encoraja os fiéis a permanecerem firmes mesmo diante da morte (Dn 7–12).

Nesse contexto, surge com força a esperança na ressurreição dos mortos (Dn 12,1-3). Quando a injustiça parece triunfar e os mártires são privados da vida, a fé começa a afirmar que a fidelidade a Deus não termina no túmulo.

A experiência helênica ensina que a dominação pode atingir não somente o território e o corpo, mas também a memória, a cultura e a liberdade religiosa. Essa questão continua relevante para os povos indígenas, cujas línguas, espiritualidades e modos de vida foram historicamente perseguidos, e para todas as comunidades cuja identidade é desprezada em nome de uma suposta superioridade cultural.

3. A ocupação romana: a violência política no tempo de Jesus

Quando Jesus nasceu, viveu e exerceu seu ministério, a Palestina encontrava-se submetida ao poder romano. A dominação manifestava-se por meio da presença militar, da cobrança de tributos, da dependência das autoridades locais e da repressão aos movimentos considerados ameaçadores à ordem imperial.

A população camponesa enfrentava condições difíceis. Tributos, dívidas, perda de terras e relações econômicas desiguais contribuíam para o empobrecimento de muitas famílias. Não se pode afirmar que todos viviam a mesma realidade, mas é evidente que a organização social e política favorecia os grupos que concentravam poder e recursos.

A crucificação, pena romana destinada especialmente a escravizados, rebeldes e pessoas consideradas perigosas para a ordem estabelecida, revela a dimensão política da violência imperial. Jesus foi executado sob a acusação inscrita na cruz: “Jesus Nazareno, Rei dos Judeus” (Jo 19,19). O título expõe o conflito entre o anúncio do Reino de Deus e os poderes que pretendiam determinar quem poderia viver, governar e exercer autoridade.

É importante, porém, não reduzir a morte de Jesus a um único fator. Os Evangelhos narram conflitos com autoridades religiosas e políticas, a atuação de setores dirigentes e a decisão do poder romano de executar a condenação. Historicamente, a crucificação foi uma pena romana, aplicada sob a autoridade de Pôncio Pilatos.

A mensagem de Jesus confronta as estruturas que sacrificam vidas em nome da estabilidade dos poderosos. Ao proclamar a Boa-Nova aos pobres, a liberdade aos cativos e a recuperação da vista aos cegos (Lc 4,16-21), Jesus apresenta sua missão como sinal da ação libertadora de Deus.

Quando acolhe os doentes, aproxima-se dos marginalizados, senta-se à mesa com publicanos e pecadores e denuncia a exploração do Templo, Jesus rompe barreiras que sustentavam a exclusão. Sua crítica àqueles que devoram as casas das viúvas (Mc 12,38-40) e sua denúncia da transformação do Templo em espaço de exploração (Mc 11,15-17) mostram que a espiritualidade não pode servir de cobertura para a injustiça.

O Reino de Deus não é simplesmente uma mudança de governantes. É a transformação das relações humanas segundo a justiça, a misericórdia, a fraternidade e a defesa da vida.

Na perspectiva da Teologia Latino-americana, Jesus revela o rosto de um Deus que se aproxima dos crucificados da história. A cruz, instrumento de terror imperial, torna-se o lugar em que se manifesta a solidariedade divina com as vítimas da violência. A ressurreição, por sua vez, proclama que o poder que mata não possui a palavra definitiva.

4. Do Egito à Babilônia, de Roma ao Brasil: a violência que atravessa a história

A história bíblica não deve ser utilizada para afirmar que os acontecimentos antigos e modernos são exatamente iguais. Cada sociedade possui suas próprias estruturas, e uma interpretação responsável precisa respeitar as diferenças históricas. Entretanto, as Escrituras oferecem critérios para reconhecer práticas de opressão que continuam presentes em diferentes contextos.

O Egito representa a exploração do trabalho e a tentativa de controlar o futuro dos pobres. A Assíria e a Babilônia representam a conquista territorial, a deportação e a destruição de comunidades. A perseguição helênica recorda a violência contra a identidade cultural e religiosa. Roma revela o uso da força estatal para preservar uma ordem política, inclusive por meio da execução pública.

No Brasil, essas questões aparecem sob formas históricas próprias: escravidão, racismo, concentração fundiária, repressão política, violência contra trabalhadores, expulsão de povos de seus territórios e práticas policiais abusivas.

A Ditadura Militar: repressão, tortura e silenciamento

O golpe de 1964 instaurou uma ditadura que restringiu direitos, perseguiu opositores e utilizou a estrutura estatal para reprimir trabalhadores, estudantes, sindicalistas, camponeses, religiosos, religiosas e militantes políticos.

A Comissão Nacional da Verdade, cujo relatório final foi entregue em dezembro de 2014, documentou graves violações de Direitos Humanos, incluindo prisões ilegais, torturas, execuções e desaparecimentos forçados. O relatório identificou 434 mortos e desaparecidos políticos no período investigado, sem pretender esgotar todas as vítimas da repressão.

A violência não atingiu apenas pessoas envolvidas diretamente na oposição política. A repressão também alcançou organizações populares, movimentos sindicais, comunidades rurais e povos indígenas. O controle da palavra, a censura e a perseguição procuravam impedir que a sociedade se organizasse e reivindicasse direitos.

Nesse período, a Igreja Católica no Brasil conheceu experiências importantes de resistência. Setores eclesiais denunciaram torturas, acolheram perseguidos e contribuíram para a defesa dos Direitos Humanos. A memória de Dom Paulo Evaristo Arns e de tantas comunidades cristãs comprometidas com as vítimas recorda que a fidelidade ao Evangelho pode exigir coragem diante do próprio poder estatal.

O paralelo com a Bíblia não consiste em chamar todo governo de Faraó ou toda autoridade de imperador romano. Consiste em reconhecer que o Estado perde sua legitimidade moral quando utiliza seus instrumentos para torturar, eliminar opositores, silenciar denúncias ou tratar determinadas vidas como descartáveis.

A memória histórica, portanto, não é vingança. É compromisso com a verdade, a reparação das vítimas e a garantia de que tais violações não se repitam.

A violência policial e a seletividade racial

A redemocratização não eliminou todas as práticas autoritárias. Em diferentes regiões brasileiras, persistem denúncias de execuções extrajudiciais, tortura, abordagens abusivas, prisões arbitrárias e operações policiais que atingem duramente comunidades pobres.

É necessário reconhecer a importância da segurança pública e o trabalho de muitos profissionais que protegem a população em condições difíceis. Entretanto, a segurança não pode ser confundida com licença para a violência. A atuação policial deve obedecer à lei, respeitar a dignidade humana e estar sujeita à investigação independente e à responsabilização quando houver abuso.

Os dados ajudam a dimensionar o problema. O relatório Pele Alvo, divulgado em julho de 2026 pela Rede de Observatórios de Segurança, registrou 4.330 mortes decorrentes de ações policiais em nove estados brasileiros durante 2025. Entre as vítimas cuja referência étnica foi identificada, 86,3% eram pessoas negras. Esses números dizem respeito aos estados monitorados, e não ao total nacional.

Por trás de cada número existe uma história interrompida: uma mãe que perde o filho, uma criança que cresce sem o pai, uma comunidade submetida ao medo e uma família que busca respostas. Quando a cor da pele e o endereço da pessoa influenciam a maneira como ela é tratada, a violência deixa de ser apenas um problema de conduta individual e revela a necessidade de enfrentar o racismo estrutural.

É aqui que a memória do Êxodo ganha atualidade. Os jovens negros das periferias não podem ser tratados como inimigos por antecipação. Morar em uma favela não torna ninguém suspeito. Ser pobre não retira de ninguém o direito à vida, à defesa, à integridade física e ao devido processo legal.

A pergunta que a Bíblia dirige aos poderosos continua incômoda: quem são aqueles que a sociedade considera dignos de proteção e aqueles cuja morte parece não causar indignação?

O Evangelho exige que a Igreja não se cale diante dessa seletividade. A defesa da vida inclui tanto a proteção das vítimas da criminalidade quanto a denúncia dos abusos cometidos por agentes públicos. Não existe contradição entre combater o crime e exigir uma polícia legal, responsável, preparada e que respeite os Direitos Humanos.

A violência no campo: terra, trabalho e Casa Comum

A história brasileira também é atravessada pela concentração da terra, pela expulsão de famílias camponesas, pelo trabalho escravo contemporâneo, pelas ameaças contra lideranças populares e pelos conflitos que envolvem grandes empreendimentos econômicos.

A CPT acompanha e denuncia conflitos agrários e violências contra trabalhadores e comunidades rurais. Sua missão recorda que a terra não é somente mercadoria: é espaço de vida, trabalho, cultura, alimentação e relação com a natureza.

A experiência bíblica oferece uma referência fundamental. A terra é dom de Deus, e sua utilização não pode justificar a exploração ilimitada dos pobres. Os profetas condenam aqueles que acumulam propriedades e expulsam os pequenos de seus espaços de vida: “Ai dos que juntam casa a casa, dos que acrescentam campo a campo” (Is 5,8).

Essa denúncia dialoga com as lutas de agricultores familiares, povos tradicionais, comunidades quilombolas e indígenas ameaçados por invasões, grilagem, mineração predatória e destruição ambiental.

O CIMI, por sua vez, acompanha a luta dos povos indígenas pela vida, pela terra, pela autodeterminação e pelo respeito às suas culturas. O paralelo com as experiências bíblicas de conquista e exílio é especialmente significativo: perder o território significa, muitas vezes, sofrer a destruição de vínculos comunitários, espirituais e ancestrais.

A Pastoral Operária também nos ajuda a enxergar a continuidade do problema. Quando trabalhadores são submetidos a condições degradantes, recebem remuneração insuficiente ou são impedidos de se organizar, reaparece a pergunta do Êxodo sobre a dignidade do trabalho e a liberdade daqueles que produzem a riqueza da sociedade.

A ecologia integral amplia essa reflexão: não é possível defender a natureza abandonando as populações que dela dependem, assim como não é possível falar em desenvolvimento quando comunidades são sacrificadas em nome do lucro.

5. As CEBs e a missão profética da Igreja: escutar, interpretar e transformar

Diante dessa realidade, as Comunidades Eclesiais de Base são chamadas a recuperar a dinâmica libertadora da experiência bíblica. Seu método pastoral pode ser resumido em três movimentos inseparáveis: escutar o clamor do povo, iluminar a realidade com a Palavra de Deus e organizar ações concretas em favor da vida.

A Bíblia não deve ser utilizada para pedir resignação aos que sofrem, como se a pobreza e a violência fossem destinos estabelecidos por Deus. Tampouco pode servir para justificar a vingança. Ela nos convoca a interromper os ciclos de opressão, buscar justiça e construir relações reconciliadas.

Uma comunidade que lê o Êxodo precisa perguntar quem está submetido a trabalhos degradantes em seu território. Uma comunidade que medita os profetas precisa observar quem está sendo expulso da terra, quem não consegue acesso à moradia e quais interesses controlam os recursos comuns. Uma comunidade que contempla Jesus crucificado precisa olhar para as vítimas da violência policial, para as famílias enlutadas e para os trabalhadores cuja dignidade é negada.

Essa espiritualidade se traduz em compromissos pastorais:

  • Nas CEBs: promover círculos bíblicos, escuta das vítimas, formação cidadã e organização comunitária, sem substituir a voz dos próprios atingidos.
  • Na CPT: apoiar a defesa dos territórios, a agricultura familiar, a reforma agrária, a soberania alimentar e a proteção dos defensores dos Direitos Humanos.
  • Na Pastoral Operária: fortalecer a dignidade do trabalho, a organização sindical, a prevenção de acidentes, o combate ao trabalho escravo e a defesa dos direitos trabalhistas.
  • No CIMI: acompanhar os povos indígenas em suas reivindicações territoriais e culturais, respeitando seu protagonismo e reconhecendo sua contribuição para o cuidado da Casa Comum.
  • Na pastoral urbana: articular iniciativas de prevenção da violência, apoio às famílias, defesa das juventudes periféricas, acesso à educação e à saúde, e controle democrático das instituições de segurança pública.

A Igreja também precisa examinar suas próprias práticas. Não basta denunciar a violência externa se, dentro de nossas comunidades, reproduzimos autoritarismo, racismo, machismo ou silenciamento dos pobres. A sinodalidade, compreendida como caminhar juntos, exige escuta verdadeira, participação e corresponsabilidade.

A opção preferencial pelos pobres não é uma concessão ideológica, mas uma exigência evangélica. Não significa excluir os demais, e sim reconhecer que uma sociedade justa deve começar por aqueles cuja dignidade é mais frequentemente negada.

6. Da cruz à ressurreição: a esperança escatológica diante da violência

A esperança cristã não nasce da negação do sofrimento. Nasce da fé em um Deus que entra na história humana, assume a condição dos vulneráveis em Jesus Cristo e vence a morte por meio da ressurreição.

A cruz revela até onde pode chegar a violência dos poderes humanos. O Crucificado não é um símbolo abstrato: é aquele que experimentou a humilhação pública, a condenação injusta e a execução pelo poder imperial. Ao identificarmos os crucificados de hoje — jovens negros assassinados, povos indígenas ameaçados, trabalhadores explorados, famílias expulsas de suas casas —, reconhecemos que a paixão de Cristo continua interpelando a consciência cristã.

Mas o centro da fé não é a cruz isolada. É a Páscoa.

A ressurreição proclama que a morte não possui a última palavra e que a violência não pode definir definitivamente o destino da humanidade. Deus faz justiça ao Crucificado e inaugura uma esperança que ultrapassa os limites da história sem abandonar a história.

O livro de Daniel já anunciava que aqueles que dormem no pó despertarão (Dn 12,2-3). No Segundo Testamento, essa esperança alcança sua expressão decisiva na ressurreição de Jesus (1Cor 15,12-28). A vida eterna não é uma recompensa que autoriza a indiferença diante do sofrimento presente. É a promessa de que a fidelidade de Deus é maior do que o poder dos opressores.

O Apocalipse oferece uma das imagens mais consoladoras dessa esperança: Deus enxugará as lágrimas dos olhos, e já não haverá morte, luto, choro ou dor (Ap 21,1-5). A visão escatológica não legitima a permanência das injustiças; anuncia sua superação definitiva.

Por isso, a esperança cristã possui uma dimensão histórica e uma dimensão transcendente. A primeira nos compromete com a construção de condições dignas de vida, com a defesa dos Direitos Humanos, com a justiça social e com a reconciliação. A segunda nos recorda que a plenitude do Reino de Deus é dom divino e não se reduz a nenhum projeto político, econômico ou institucional.

Não construiremos o Reino em sua plenitude por nossas próprias forças. Entretanto, somos chamados a antecipar seus sinais. Cada vida preservada, cada família acolhida, cada trabalhador libertado da exploração, cada território protegido e cada vítima cuja voz é finalmente escutada tornam-se sinais dessa esperança.

A escatologia cristã não é fuga do mundo. É perseverança na luta pela vida, sustentada pela certeza de que Deus não abandona suas criaturas.

7. Conclusão: que a memória das vítimas se transforme em sementes de libertação

Do Egito à Babilônia, da perseguição helenística à cruz romana, a Bíblia conserva a memória de povos feridos pela violência e pela arrogância dos poderes. Em cada uma dessas experiências, a fé bíblica se pergunta como permanecer fiel a Deus quando a dignidade humana é destruída.

A história brasileira nos coloca diante da mesma exigência ética, embora em contextos diferentes. A Ditadura Militar, as práticas policiais abusivas, o racismo, a violência contra os povos indígenas, os conflitos agrários e a exploração do trabalho não podem ser tratados como acontecimentos sem relação com a responsabilidade coletiva. Eles exigem memória, investigação, justiça, reparação e transformação das estruturas que permitem sua continuidade.

As CEBs, a CPT, a Pastoral Operária e o CIMI testemunham que a missão da Igreja não se esgota no culto. A celebração da Palavra e da Eucaristia precisa conduzir à defesa da vida, à solidariedade com as vítimas e à construção de uma sociedade em que os pobres sejam reconhecidos como sujeitos de direitos e protagonistas de sua própria história.

O Deus que ouviu o clamor dos escravizados no Egito continua escutando o grito das mães que perderam seus filhos, dos povos expulsos de suas terras, dos trabalhadores explorados e daqueles que vivem sob a ameaça cotidiana da violência. A Igreja será fiel ao Evangelho na medida em que não transforme esse clamor em ruído distante, mas o acolha como interpelação divina.

A esperança pascal nos impede de aceitar a injustiça como destino. O Ressuscitado precede seus discípulos na construção de uma humanidade reconciliada, e o Espírito Santo suscita comunidades capazes de resistir à violência sem reproduzir o ódio, de buscar justiça sem abandonar a misericórdia e de lutar por mudanças sem perder a esperança.

Que nossas comunidades sejam lugares em que os crucificados de hoje encontrem acolhida, voz e companheiros de caminhada. Que a memória dos mártires e das vítimas não seja esquecida. E que a fé no Reino definitivo nos torne perseverantes na construção de uma sociedade em que nenhuma pessoa seja considerada descartável.

Porque a última palavra não pertence ao Faraó, aos impérios, aos poderes que perseguem nem aos instrumentos de morte. A última palavra pertence ao Deus da vida, que liberta, ressuscita e faz novas todas as coisas.

“Eu vi a opressão do meu povo no Egito, ouvi o seu clamor […] Conheço seus sofrimentos. Desci para libertá-lo.” (Ex 3,7-8)

“Eis que faço novas todas as coisas.” (Ap 21,5)


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