“Eu sou a porta” (Jo 10,7)
Por Pe. Hermes A. Fernandes
Estamos no 4º Domingo da Páscoa. A Liturgia nos oferece o Evangelho de João 10,1-10. O capítulo 10 de João nos revela Jesus como o Bom Pastor. Esta perícope enfatiza a relação íntima do Mestre com seus seguidores e seguidoras, diferenciando-o de falsos líderes (“ladrões” e “mercenários”) e oferecendo segurança espiritual, liberdade e vida em abundância.
Na história de Israel, a figura do pastor sempre se relaciona como referência de liderança. Preferencialmente, de líderes em sintonia com a vontade de Deus. Em Jr 3,15 Deus promete líderes ao povo que irão guiá-lo com inteligência e justiça. Tais líderes são chamados de pastores. Irão conduzir o povo pelo caminho da paz, da liberdade e da vida. Em Ez 34,1-16 Deus condena os falsos pastores de Israel que cuidavam de si mesmos, ocupando-se de seus privilégios em vez do povo, e promete pastorear ele próprio as ovelhas. O que prefigura a liderança pastoral baseada no serviço, no cuidado, na defesa da justiça e da paz.
Na realidade de Jesus, aqueles que se outorgavam funções de liderança, estavam corrompidos pelos sonhos de poder, ganância por riquezas e autorreferencialidade, buscando promover a si mesmos, aos seus interesses e mordomias. Assim se comportavam as lideranças religiosas, oprimindo o povo, marginalizando e excluindo os pequeninos. A estes Jesus exorta com certa veemência para que se comportem de acordo com a vontade de Deus, promovendo vida, e vida em abundância (cf. Jo 10,10).
Na perícope que nos apresenta a Liturgia do 4º Domingo da Páscoa, temos uma gradação quase poética que nos aprofunda na espiritualidade do Bom Pastor. Sob o gênero literário de parábola, Jesus inicia sua mensagem definindo as diferenças entre o pastor conforme a pedagogia de seu Pai e os falsos pastores que se comportam de forma antônima, que promovem injustiças, exploração dos pobres e marginalização das minorias. Jesus os chama de “ladrões e assaltantes” (Jo 10,1). A metáfora é profunda. Remete-se aos ancestrais de Israel, o povo hebreu que, quando pastores seminômades, eram confrontados pelos perigos de seu ofício. Muitas eram as dificuldades que viviam aqueles e aquelas que se ocupavam de apascentar as ovelhas. Feras que devoravam a vida do rebanho, ladrões, saltimbancos etc. Ademais, eram desafios as dificuldades climáticas, a aridez do solo. Não podemos esquecer das marginalizações excludentes que afetavam povos seminômades, os quais – não possuindo suas próprias terras – eram obrigados a viver “sem eira, nem beira”. Muitas vezes, precisavam de acolhida, mas eram alvos de hostilidade dos donos da terra, onde alocavam seus rebanhos, em busca de pastagem e água. Em verdade, não era fácil a vida dos pastores, antepassados do povo de Israel.
Jesus adentra na memória afetiva de seu povo para definir quem seria de fato aquele e aquela que os guiaria por caminhos seguros e com amor. O verdadeiro líder é aquele e aquela que se preocupa com a segurança e a dignidade de seu povo, dedicando-se com amor sem medida. Esta relação entre pastor e ovelhas se solidifica por intimidade e confiança, conforme nos informa Jo 10, 2-4: “Quem entra pela porta é o pastor das ovelhas. A esse o porteiro abre, e as ovelhas escutam a sua voz; ele chama as ovelhas pelo nome e as conduz para fora. E depois de fazer sair as que são suas, caminha a sua frente e as ovelhas os seguem, porque conhecem a sua voz”.
Em seguida, de forma catequética, a comunidade do discípulo amado aprofunda o ensinamento de Jesus, à guisa de explicar sua parábola apresentada antes, em Jo 10,1-5. Ele se identifica como “a porta” (Jo 10,7). Com isso afirma ser ele o caminho pelo qual se adentra na realidade do Reino de seu Pai, onde justiça, paz, fraternidade e partilha são valores inerentes e inalienáveis. O contrário disso é viver sob as garras dos “ladrões e assaltantes”, analogia aos líderes que oprimem o povo. Jesus é o novo modelo de liderança, pelo qual a comunidade constrói relações fraternas e justas (cf. Jo 10, 8). Jo 10,9 nos informa que nele, o Bom Pastor, encontramos salvação e vida. Precisamos compreender salvação de forma abrangente. Não somente por uma dimensão penitencial, a libertação de nossos pecados. Salvação aqui também pode ser entendida como a segurança necessária para se bem viver, considerando as muitas inseguranças que vivia o Povo de Deus antes de Jesus. Viviam sob o braço opressor da ocupação romana e da religião do Templo, que excluía e marginalizava os pequeninos. E ainda: pastagem vem nos significar a garantia de dignidade que o projeto do Reino de Deus nos oferece. Ao fim, a perícope do evangelho da comunidade joanina termina dizendo: “Eu vim para que tenham vida e tenham em abundância” (Jo 10,10). Em Jesus, experimentamos a plenitude de Deus nesta vida e na futura.
O Evangelho da Liturgia do 4º Domingo da Páscoa nos provoca de forma profunda. Somos levados a nos perguntar quando nos tornamos líderes em nossas comunidades eclesiais que se assemelham aos ladrões e assaltantes mencionados por Jesus. E ainda: quando fomos vítimas desses modelos de liderança. Quando isso acontece? Toda vez que os ministérios na Igreja são confundidos com dinâmicas de poder, motivo e oportunidade para a exploração do povo pela ganância de seus líderes, quando a autopromoção se torna comum em nossas comunidades eclesiais. Esses modelos de liderança eclesial destoam da proposta do Evangelho. Em Jesus, o Bom Pastor, somos introduzidos em dinâmicas de cuidado e serviço. Nossos lideres devem se preocupar com a dignidade e a vida de seu povo, preferencialmente os mais pobres. A ação evangelizadora da Igreja deve promover a vida em sua plenitude (cf. Jo 10,10), tendo como missão promover a pessoa humana e a própria dignidade que lhe foi dada por Deus, defendendo os Direitos Humanos, a saúde, a justiça e a paz, ocupando-se principalmente das questões relativas à economia e ao trabalho, ao cuidado da Criação e da Terra como «Casa Comum», às questões relacionadas a mobilidade humana, migrações e às emergências humanitárias. O que difere disso, nos assemelha aos falsos pastores denunciados pela Palavra de Deus que vêm somente para roubar, matar e destruir (cf. Jo 10,10a).
Além disso, podemos abrir o leque de nossa reflexão para toda a sociedade. Os falsos pastores, os assaltantes e ladrões, são todos e todas, aqueles e aquelas que oprimem, exploram, marginalizam os pequeninos. Na política, assistimos a isso com lamentável reincidência. As dinâmicas vividas nos espaços de poder estão – quase sempre – motivadas pela promoção e manutenção dos privilégios e mordomias dos ricos. Não é incomum, na atualidade, ver referências ao Congresso Nacional como inimigos do povo. É obscena a constante tentativa de se privilegiar o poder financeiro dos ricos, as políticas de devastação da Casa Comum para o privilégio do lucro, além da promoção da ambição dos grandes latifúndios e empresários. Para que estes enriqueçam, promovem políticas que exploram o povo simples e pobre. Estes, os líderes de nossa política que privilegiam os poderosos, são os ladrões e assaltantes da pequena parábola de Jesus em nossa reflexão (cf. Jo 10,1-5).
Neste dia em que, mais uma vez, celebramos Jesus Ressuscitado; precisamos renovar nosso compromisso com a vida, vivendo relações eclesiais que promovam o serviço aos irmãos e irmãs, especialmente os mais pobres. Além disso, é imperativo que mantenhamos acesa em nossas comunidades a chama profética, denunciando todas as situações – nas quais – a vida se faz ameaçada. Afinal, Jesus veio para que todos e todas tenham vida, e vida em abundância (cf. Jo 10,10).
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