Por Seny Giannini*
Em minha última partilha aqui no blog Eclesialidade e Missão, cruzamos o limiar da teologia da libertação ao reconhecer no corpo silenciado de Sara uma chave hermenêutica de antecipação do Êxodo. Compreendemos que a violência contra o corpo feminino, a injustiça social e a devastação da criação bebem da mesma fonte envenenada de opressão. Hoje, aprofundo essa caminhada descendo ao solo sagrado do segundo relato da criação (Gn 2,4b-25). Sob a condução exegética e pedagógica do professor Edmilson Schinelo, somos convidados a resgatar uma verdade que o sistema tecnocrático tenta sufocar: a profecia em defesa da criação não nasce de uma ideologia humana, mas brota das entranhas de uma espiritualidade encarnada no húmus.
Há um equívoco perigoso que assombra os nossos altares e as nossas bases: a falsa dicotomia entre a contemplação e a ação. Contemplar a criação sem se mover contra as suas chagas é pura alienação estética; agir freneticamente na militância sem a profundidade do Sopro Divino é mero ativismo esvaziado, que adoece e queima as forças da resistência. O texto javista nos ensina que o cuidado com a Casa Comum é, a um só tempo, um ato litúrgico e uma urgência política.
1. O Clamor da Terra Seca: A Vulnerabilidade que Convoca ao Serviço
O itinerário proposto por Schinelo nos obriga a olhar, em primeiro lugar, para o cenário inicial de Gênesis 2,5: uma terra onde “nenhum arbusto do campo existia ainda […] e nenhuma erva do campo tinha ainda brotado”. A criação ali não desponta num cenário de abundância triunfalista, mas na nudez de uma terra sedenta, exposta à escassez pela ausência da chuva e pela falta do trabalhador que cultive o solo (CORDEIRO; SCHINELO, 2023).
Essa aridez inicial possui uma força espiritual tremenda. A terra vulnerável clama pelo dinamismo da vida, revelando que a vulnerabilidade é o lugar teológico onde o Criador escolhe agir. Profeticamente, esse texto denuncia o nosso tempo de desertificação induzida, onde a terra não seca por falta do cuidado divino, mas pela ganância do agronegócio predatório e pela contaminação dos agrotóxicos. O Deus que escuta o clamor do povo no Êxodo é o mesmo que, em Gênesis, se inclina sobre a fragilidade da terra sedenta. A nossa militância ambientalista começa quando os nossos olhos, purificados pela oração, conseguem chorar o pranto da terra devastada.
2. O Deus com as Mãos no Barro: A Sacralidade Ontológica do “Adam”
O ápice da mística javista se revela na plasticidade do verso 7: YHWH Deus modela (yatsar) o ser humano (Adam) do pó da terra (Adamá) e sopra em suas narinas o fôlego de vida (nishmat chayim). Deus não cria a humanidade à distância, por meio de um decreto imperial. Ele se ajoelha na poeira. Suas mãos divinas se sujam de barro.
Esta exegese, destacada por Cordeiro e Schinelo (2023), destrói qualquer ilusão de superioridade humana sobre o ecossistema. Nós não temos uma ligação com a terra; nós somos a terra que respira o Sopro de Deus. Cada ecossistema destruído é um pedaço do nosso próprio corpo que é dilacerado. Como profetiza o Papa Francisco na encíclica Laudato Si’:
“O nosso próprio corpo é composto pelos elementos do planeta; o seu ar permite-nos respirar, e a sua água vivifica-nos e restaura-nos. […] Por isso, entre os pobres mais abandonados e maltratados, conta-se a nossa terra oprimida e devastada, que ‘geme e sofre as dores do parto’ (Rm 8, 22)” (FRANCISCO, 2015, n. 2).
A espiritualidade que nos sustenta na luta nasce desse mistério: tocar na terra é tocar na matéria que Deus acariciou e consagrou. Defender as florestas, as águas e os biomas não é um passatempo ecológico; é a guarda de um sacramento cósmico. O ativismo sem essa mística torna-se cego para a presença do Ressuscitado na criação; a mística sem esse ativismo torna-se cúmplice do ecocídio.
3. Da Solidão à Parceria Simétrica: A Profecia contra a Dominação
O terceiro nó teológico do relato nos confronta com a alteridade (Gn 2,18-23). Diante da constatação divina de que “não é bom que o homem esteja só”, Deus inicia um processo pedagógico de busca por uma parceria equivalente (ezer kenegdo). Após demonstrar que a criação não humana, embora sagrada e nomeada pelo ser humano, não preenche a necessidade de reciprocidade, Deus tece a mulher a partir do próprio “lado” (tsela) do Adam.
O grito lírico do ser humano — “Esta sim é osso dos meus ossos e carne da minha carne!” (Gn 2,23) — não é um poema de posse, mas um manifesto de igualdade radical. O termo ezer, longe de significar subordinação colonial ou patriarcal, evoca uma força de socorro mútuo e face a face. Aqui, a espiritualidade se desdobra em profecia social de gênero: o jardim original de Deus recusa as hierarquias de dominação que o patriarcado e o clericalismo estruturaram ao longo dos séculos. O projeto criador exige relações simétricas. Não há ecologia integral sem equidade de gênero. A cura da nossa Casa Comum passa obrigatoriamente pela libertação dos corpos femininos historicamente colonizados e silenciados.
Conclusão: O Mandato como Liturgia da Libertação
O encargo divino de “cultivar e guardar” (abad e shamar) o jardim (Gn 2,15) sintetiza essa espiritualidade político-profética. Na tradição bíblica, o verbo abad carrega também o sentido de “prestar culto”, “servir liturgicamente”. Cuidar da terra é celebrar a liturgia da vida. Guardar o jardim é um ato de resistência contra as forças da morte.
A eclesialidade que defendemos e vivemos no blog Eclesialidade e Missão não se fecha no comodismo dos templos enquanto o mundo arde. Alimentados pela contemplação do Deus Oleiro, nossas comunidades devem se transformar em trincheiras de esperança ativa. Que a nossa teologia seja sempre terrosa, enraizada na mística do húmus e impulsionada pela profecia do Reino, até que a justiça e a paz floresçam em toda a criação.
Referências
BÍBLIA SAGRADA. Tradução da CNBB. 3. ed. São Paulo: Paulinas, 2023.
CORDEIRO, Ana Luisa Alves; SCHINELO, José Edmilson. Pentateuco e Livros Históricos. Campo Grande: UCDB, 2023.
FRANCISCO. Carta Encíclica Laudato Si’: sobre o cuidado da casa comum. Roma: Vaticano, 2015. Disponível em: https://www.vatican.va/content/francesco/pt/encyclicals/documents/papa-francesco_20150524_enciclica-laudato-si.html. Acesso em: 30 mai. 2026.
GIANNINI, Seny. Corpo, Terra e Libertação: Sara como chave teológica para uma leitura do Êxodo. Blog Eclesialidade & Missão, 24 abr. 2026. Disponível em https://eclesialidade.org/2026/05/26/entre-algoritmos-e-o-reino-de-deus-religiao-pos-moderna-inteligencia-artificial-e-o-desafio-de-uma-fe-adulta/ Acessada em 30 de mai. 2026.
*Seny Giannini é Bacharelanda em Teologia pela Universidade Católica Dom Bosco (UCDB).
Deixe um comentário