Deus nos chama a partir da história – Parte 28: André, o discípulo que ouviu o chamado no meio das redes e se tornou pescador de homens e mulheres

Por Karina Moreti

Entre as pessoas chamadas por Jesus às margens do mar da Galileia, poucas representam tão profundamente as dores e esperanças do povo galileu quanto André. Seu nome aparece discretamente nos Evangelhos, quase sempre associado ao irmão, Simão Pedro, mas sua história revela a grandeza silenciosa dos trabalhadores esquecidos pela história: homens e mulheres que sustentavam a vida com as mãos marcadas pelo trabalho, os ombros curvados pelas redes e o coração esmagado pelas injustiças do mundo.

André era pescador. No primeiro século, isso não significava viver em paz diante das águas da Galileia. A pesca estava submetida ao controle político e econômico de Roma. Os pescadores pagavam impostos sobre os barcos, sobre as redes, sobre o peixe e até sobre sua própria sobrevivência. Herodes Antipas administrava a região em favor do império, enquanto cobradores de impostos enriqueciam às custas do sofrimento do povo. Muitas famílias atravessavam noites inteiras de trabalho apenas para garantir o pão cotidiano.

Além disso, a própria vida religiosa exigia dos pescadores a observância do sábado, dia em que não podiam exercer seu trabalho. O sábado era sinal da aliança com Deus e expressão do descanso sagrado do povo judeu. Contudo, para famílias pobres e frequentemente endividadas, cada dia sem pesca podia significar menos alimento sobre a mesa. Entre os impostos de Roma, o peso da sobrevivência e as exigências da vida religiosa, os pescadores da Galileia carregavam sobre os ombros uma existência marcada pela luta diária.

Naquele tempo, a pesca não era símbolo de romantismo ou liberdade. Era sobrevivência. Era luta contra a fome, contra a exploração e contra um sistema que esmagava os pobres enquanto sustentava os palácios do império. As redes lançadas ao mar carregavam também o peso do medo, das dívidas e da insegurança. Uma noite sem peixe podia significar fome dentro de casa.

No entanto, não eram apenas os homens que sofriam sob aquele sistema. As mulheres da Galileia também viviam marcadas pela pobreza e pela invisibilidade. Muitas trabalhavam silenciosamente na preparação dos alimentos, no cuidado da casa, na restauração das redes e na sustentação cotidiana das famílias, enquanto o império acumulava riquezas às custas do sofrimento do povo. Em uma sociedade profundamente patriarcal, eram frequentemente silenciadas, esquecidas pelas estruturas religiosas e afastadas dos espaços de decisão.

É nesse cenário que o Evangelho apresenta André: “Jesus andava à beira do mar da Galileia, quando viu dois irmãos: Simão, também chamado Pedro, e seu irmão André. Estavam jogando a rede no mar, pois eram pescadores” (Mt 4,18).

Jesus não vai aos centros do poder procurar seus discípulos. Não sobe aos palácios de Jerusalém, não se senta entre os poderosos do Templo e nem busca homens ricos aliados ao império romano. O Nazareno caminha pelas margens esquecidas da Galileia e encontra-se com trabalhadores cansados, pescadores pobres, homens e mulheres esmagados pelo peso da sobrevivência.

A escolha da Galileia não é acidental. Aquela região periférica, frequentemente desprezada pelas elites religiosas da Judeia, torna-se o primeiro chão do Reino de Deus. Jesus inicia sua missão distante dos palácios, das riquezas e dos mecanismos de poder que dominavam o povo.

O Reino anunciado por Cristo nasce entre os pobres. Nasce onde existem redes vazias, fome, dívidas e esperança. Enquanto Roma sustentava seu poder pela violência e pela exploração, Jesus começa uma revolução silenciosa fundada na dignidade humana, na partilha e na misericórdia.

Antes mesmo de seguir Jesus, André já demonstrava possuir um coração inquieto e sedento de esperança. O Evangelho da comunidade joanina revela que ele havia sido discípulo de João Batista: “André, irmão de Simão Pedro, era um dos dois que ouviram as palavras de João e seguiram a Jesus” (Jo 1,40).

Isso mostra que André não havia permitido que o sofrimento endurecesse completamente sua alma. Em meio à opressão romana, à pobreza e às injustiças sociais, ele ainda procurava sinais de Deus. Enquanto muitos já haviam perdido a esperança em meio à violência do império e ao peso da sobrevivência cotidiana, André permanecia atento à possibilidade de que Deus ainda estivesse agindo na história. Havia nele uma espera silenciosa pelo Messias.

O encontro com Jesus transforma profundamente sua vida. Mas há um detalhe belíssimo no Evangelho: André não guarda essa descoberta apenas para si. Sua primeira atitude é procurar o irmão. “Ele encontrou primeiro o seu próprio irmão Simão, e lhe disse: “Nós encontramos o Messias” (que quer dizer Cristo). Então André apresentou Simão a Jesus. Jesus olhou bem para Simão e disse: “Você é Simão, o filho de João. Você vai se chamar Cefas” (que quer dizer Pedra)” (Jo 1,41-42).

Esse gesto possui uma força espiritual profunda. André conhece a dureza da vida dos pescadores. Conhece o peso das noites sem peixe, das redes vazias, das dívidas e da humilhação sofrida pelos pobres da Galileia. E talvez, justamente por isso, compreenda que a esperança não pode permanecer fechada dentro do coração humano.

Ao encontrar Jesus, André imediatamente procura o irmão. Antes mesmo de se tornar pescador de homens e mulheres, torna-se ponte. O homem simples das margens conduz outros ao encontro daquele que transforma a história.

Há uma beleza silenciosa nesse gesto. Deus escolhe um pescador pobre da Galileia para abrir caminhos ao Reino. O Reino de Deus nasce assim: não pela força dos impérios, mas pela simplicidade daqueles que conduzem outras pessoas ao encontro da vida.

André aparece nos Evangelhos como um discípulo silencioso. Não disputa poder, não busca reconhecimento e não ocupa o centro das narrativas. Sua missão é conduzir pessoas ao encontro de Jesus. Seu discipulado não é marcado pela grandeza humana, mas pela humildade daqueles que compreendem que o Reino de Deus não nasce do prestígio, e sim da capacidade de servir.

Mais tarde, o próprio Jesus chama André e Simão Pedro às margens do mar: “Sigam-me, e eu farei de vocês pescadores de homens” (Mt 4,19-20). O Evangelho afirma que eles deixaram imediatamente as redes e seguiram.

Deixar as redes significava abandonar a única segurança conhecida. Era romper com a lógica da sobrevivência para confiar inteiramente em Deus. Para homens pobres da Galileia, esse era um gesto radical. As redes não eram apenas instrumentos de pesca. Eram o símbolo da sobrevivência possível em um mundo marcado pela desigualdade. Abandoná-las significava entregar o futuro nas mãos de Deus.

Ao seguir Jesus, André deixa para trás não apenas uma profissão, mas toda uma existência marcada pela instabilidade, pelo medo, pelas dívidas e pela exploração. O pescador das margens torna-se discípulo de um Reino que nasce entre os pobres e anuncia dignidade aos esquecidos da história.

Mas o chamado também ampliava a maneira como os discípulos enxergavam o mundo e as pessoas ao seu redor. Ao caminhar com Jesus, André testemunha algo profundamente revolucionário para aquela sociedade: mulheres sendo acolhidas, ouvidas e tratadas com dignidade. Jesus conversa com mulheres em público, aproxima-se das que eram marginalizadas, cura suas dores e as transforma em testemunhas do Reino de Deus.

Em uma sociedade marcada pelo patriarcalismo e pela exclusão, Jesus devolve às mulheres a dignidade que lhes havia sido negada pelas estruturas humanas. As coloca novamente no centro da vida. O discipulado deixa de ser espaço de privilégio masculino e torna-se comunidade de vida para todos os que carregam as marcas do sofrimento.

Por isso, André não se torna apenas pescador de homens. O Evangelho que ele passa a anunciar alcança também mulheres marcadas pela dor, pela exclusão e pelo esquecimento. As redes do Reino tornam-se maiores que as redes lançadas no mar da Galileia.

O discípulo das margens aprende com Jesus a enxergar aqueles que o mundo frequentemente ignora. André aparece no Evangelho atento justamente ao pequeno, ao simples e ao aparentemente insignificante. Em meio à multidão faminta, enquanto muitos enxergavam apenas a escassez, André percebe um menino carregando alimento: “Aqui há um rapaz que tem cinco pães de cevada e dois peixes. Mas o que é isso para tanta gente?” (Jo 6,9).

André conhece a lógica da escassez. Como pescador, sabe o valor do alimento. Conhece a fome, o cansaço e a angústia de quem não possui o suficiente para sobreviver. Cinco pães parecem insignificantes diante da necessidade do povo. Mas Jesus transforma a pequena oferta dos pobres em alimento abundante para todos.

Em um mundo sustentado pela concentração de riquezas e pela exploração dos pequenos, Jesus transforma a partilha em sinal do Reino de Deus.

Esse sinal possui também uma profunda dimensão social. Enquanto Roma acumulava riquezas e construía monumentos para glorificar o império, o povo simples lutava diariamente pelo pão cotidiano. Em meio a uma sociedade marcada pela desigualdade, Cristo revela um Reino diferente: um Reino onde o pouco partilhado se torna suficiente, onde os pobres recuperam sua dignidade e onde ninguém deveria passar fome.

A história de André nos recorda que Deus não chama os poderosos da história, mas aqueles que carregam as marcas dela. O Evangelho nasce entre redes molhadas, barcos desgastados e mãos feridas pelo trabalho. Cristo entra no mundo concreto dos pobres e ali inaugura um novo tempo.

Talvez por isso André continue tão atual. Ainda hoje existem multidões lançando redes ao mar da sobrevivência: trabalhadores explorados, famílias endividadas, mulheres invisibilizadas, pessoas esmagadas pelas injustiças econômicas e pela indiferença social. E, ainda hoje, Jesus continua caminhando pelas margens da história.

O chamado de Deus ainda ecoa no meio do cansaço humano: “Sigam-me, e eu farei de vocês pescadores de homens” (Mt 4,19).

Porque o Reino de Deus não começa nos palácios. Começa nas margens. Começa entre os pobres. Começa no coração daqueles que, como André, ainda têm coragem de deixar as redes para seguir a esperança.


Karina Moretié bacharel em Teologia pela Universidade Católica Dom Bosco (2022) e em Comunicação Social – Jornalismo, pelo Centro Universitário Sagrado Coração (2007). Atualmente é jornalista do Blog Eclesialidade & Missão, e assessora movimentos eclesiais. Tem experiência na área de jornalismo impresso, jornalismo televisivo, jornalismo radiofônico e em jornalismo nas redes sociais e blogs. Em teologia, dedica-se ao estudo das Sagradas Escrituras.

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