Por Karina Moreti
Ao longo desta série, contemplamos um mesmo movimento que atravessa toda a Escritura: Deus nos chama a partir da história. Não fora dela, não à margem dos acontecimentos humanos, mas no interior concreto das realidades vividas, marcadas por limites, conflitos e promessas. Desde os patriarcas até os reis, passando pelos juízes e pelos profetas, o chamado divino não se apresenta como ideia abstrata, mas como iniciativa que irrompe no tempo e transforma a existência.
Em Samuel, o chamado se manifesta como escuta que nasce no silêncio e se firma na obediência; em Davi, revela-se como eleição que não se apoia nas aparências, mas no olhar divino que vê o coração; nos profetas, torna-se palavra que atravessa a história, denuncia, corrige e reconduz. Em todos esses momentos, Deus chama a partir da história — servindo-se de mediações, conduzindo processos, formando um povo.
Com a vinda de Jesus, esse movimento atinge sua plenitude. O chamado permanece enraizado na história, mas já não se dá somente por mediações ou funções. Ele se torna encontro. Aquele que chama está presente. O Reino não é apenas anunciado: é vivido. E o chamado alcança a pessoa em sua singularidade, não simplesmente para uma tarefa, mas se dá enquanto relação.
É nesse horizonte que se compreende Maria Madalena. Nela, aquilo que percorre toda a história da salvação se concentra e se revela de modo singular: Deus continua a chamar a partir da história, mas agora chama pelo nome. O que antes se manifestava em etapas, sinais e mediações, aqui se realiza no encontro direto, no reconhecimento pessoal, na resposta que nasce da fraternidade e sororidade.
Por isso, sua presença nos Evangelhos não exige longa apresentação, pois o essencial já está contido no modo como Deus age em sua história.
A figura de Maria Madalena surge nos Evangelhos sem adornos. Não há introdução longa nem passado narrado em detalhes. O texto sagrado conserva o essencial. O Evangelho segundo Lucas afirma: “Maria, chamada Madalena, da qual haviam saído sete demônios” (Lc 8,2). A afirmação é breve. Isto basta. Houve um antes marcado pela opressão. Houve um encontro que libertou. Na linguagem bíblica, o número sete indica totalidade, de modo que nada permaneceu fora do alcance da ação de Deus. Não se trata de melhora parcial, mas de restauração.
A partir desse ponto, Maria Madalena aparece entre os que seguem Jesus. O mesmo texto continua: “…várias outras mulheres, que ajudavam a Jesus e aos discípulos com os bens que possuíam” (Lc 8,3). Sua presença não é ocasional, mas constante. Maria caminha com o Mestre, sustenta a missão, escuta e serve. No contexto do século I, essa realidade possui peso histórico, pois o discipulado feminino em forma itinerante não era comum. O Evangelho, porém, não se detém em justificar; apenas mostra. Quando Deus chama, a história se reorganiza.
A fidelidade de Maria Madalena se revela com maior nitidez na hora da dor. A Paixão expõe os limites humanos, o medo dispersa e a cruz impõe silêncio. Muitos recuam, mas Maria Madalena permanece. O Evangelho segundo João declara: “A mãe de Jesus, a irmã da mãe dele, Maria de Cléofas, e Maria Madalena estavam junto à cruz” (Jo 19,25). Não há explicação, apenas presença. Outros relatos confirmam essa permanência: “Grande número de mulheres estavam aí, olhando de longe” (Mt 27,55), e ainda: “Maria Madalena e Maria, mãe de Joset, ficaram olhando onde Jesus tinha sido colocado.” (Mc 15,47). A discípula não abandona o caminho quando ele se obscurece, mas permanece até o limite do que os olhos podem alcançar.
E permanece além. Após o sepultamento, quando tudo parece encerrado, Maria Madalena continua ligada ao Senhor. “No primeiro dia da semana, Maria Madalena foi ao túmulo de Jesus bem de madrugada, quando ainda estava escuro” (Jo 20,1). Ela se dirige ao túmulo. O dado não é secundário: ainda estava escuro fora e dentro. Maria não caminha sustentada por uma fé já esclarecida pela ressurreição, mas pela fidelidade que persiste mesmo na ausência. Procura o Senhor quando tudo parece perdido. Diante do sepulcro vazio, não há triunfo imediato, mas dor: “Tiraram do túmulo o Senhor, e não sabemos onde o colocaram” (Jo 20,2). A ausência é sentida como perda.
Ainda assim, Maria Madalena não se afasta. Permanece, chora, espera. E é nesse lugar — entre a ausência e a fidelidade — que Deus se revela. O Ressuscitado está presente, mas não é reconhecido. Até que Ele pronuncia uma única palavra: “Maria!” (Jo 20,16). Nesse instante, tudo se ilumina. A resposta é imediata: “Rabboni!” Não há raciocínio elaborado, mas reconhecimento. Não há teorias e sim, mistagogia. O Senhor chama, e a discípula responde. Assim nasce a fé pascal: não de uma ideia, mas de uma voz que chama pelo nome.
E aquele que chama, envia, “vá dizer aos meus irmãos…” (Jo 20,17). O envio de Maria Madalena como Apostola da ressurreição se dá pela confiança inalienável do Ressuscitado. Não há uma preparação longa nem mediações. Ele escolhe e envia. Confia porque ama. Maria Madalena escutou e faz voz do Ressuscitado: Eu vi o Senhor” (Jo 20,18). O testemunho é direto, sem construção retórica, pois brota do encontro. Esta mulher de improvável apostolado, conforme as tradições e costumes patriarcais daquele tempo, é quem testemunha a ressurreição. Ela anuncia que aquele que morreu de morte injusta derrotou os impérios e suas perfídias e ali com eles se fará presente partilhando a vida, ressuscitou. No contexto do século I, em que o testemunho feminino possuía pouco reconhecimento jurídico, o Evangelho preserva esse fato sem hesitação. A verdade não se ajusta às convenções humanas; Deus escolhe, Deus envia, Deus confirma.
A leitura fiel das Escrituras exige precisão. Os Evangelhos não identificam Maria Madalena como prostituta, não a confundem com a mulher pecadora de Lc 7,36-50, nem a apresentam como Maria de Betânia. Essas associações surgem posteriormente na tradição ocidental. O texto bíblico, porém, mantém distinções claras, e respeitá-las é necessário. Maria Madalena não precisa de acréscimos; precisa ser reconhecida à luz do que o próprio Evangelho revela.
Sua trajetória manifesta um caminho espiritual coerente: libertação, seguimento, fidelidade, perseverança, encontro e missão. Cada etapa nasce da anterior, e nada é isolado. A ação de Deus inicia, e a resposta humana se desenvolve. No centro de tudo permanece um dado simples e absoluto: Deus chama pelo nome. Não chama multidões de forma genérica, mas pessoas concretas, em sua história e em sua realidade. E aquele que escuta reconhece, aquele que reconhece responde, e aquele que responde é enviado.
Na economia da salvação, o nome pronunciado por Deus não é apenas identificação, mas vocação, criação e envio. Assim se manifesta o caminho da fé, não como construção humana, mas como resposta a uma voz que precede. Maria Madalena escutou, reconheceu e respondeu, e por isso foi enviada, tornando-se a primeira testemunha, a primeira anunciadora, aquela que leva aos próprios enviados o anúncio da vida que venceu a morte. Não por mérito humano, mas pela graça que chama, pela fidelidade que permanece e pela voz que não se impõe, mas se revela àquele e àquela que permanece buscando.
Por isso, desde aquela manhã, ainda envolta em escuridão, essa mesma voz continua a atravessar a história, chamando os que choram, os que procuram, os que permanecem, chamando cada um pelo nome, porque Deus continua a chamar, continua a enviar e continua a suscitar testemunhas. Assim, a história de Maria Madalena não permanece apenas como memória de um encontro passado, mas como revelação permanente do modo como Deus age: Ele entra na história, atravessa a dor, sustenta na ausência e se deixa reconhecer por aqueles que permanecem.
O chamado não se impõe, mas se dirige pessoalmente; não se esgota no encontro, mas se cumpre no envio. Também hoje, no interior das histórias marcadas por perdas, buscas e silêncios, a voz do Ressuscitado continua a ressoar, não de forma genérica, mas pessoal, atingindo o coração e despertando o reconhecimento. E aquele que reconhece não permanece no mesmo lugar, pois o encontro verdadeiro sempre conduz à missão.
Desse modo, Maria de Madalena permanece como testemunho vivo de que Deus não apenas chama a partir da história, mas chama cada um e cada uma dentro da própria história, no ponto exato onde a fidelidade resiste mesmo sem compreender. E é precisamente aí, onde a noite ainda parece persistir, que a luz se manifesta, não como evidência imediata, mas como presença viva que se revela àquele e àquela que escuta. Por isso, o chamado continua, a voz permanece e a história segue sendo atravessada por esse encontro. Porque aquele que chama pelo nome, vive! Todo aquele que escuta e responde torna-se, também, testemunha da vida. Vida que não pode mais ser vencida pela morte.

Karina Moreti: é bacharel em Teologia pela Universidade Católica Dom Bosco (2022) e em Comunicação Social – Jornalismo, pelo Centro Universitário Sagrado Coração (2007). Atualmente é jornalista do Blog Eclesialidade & Missão, e assessora movimentos eclesiais. Tem experiência na área de jornalismo impresso, jornalismo televisivo, jornalismo radiofônico e em jornalismo nas redes sociais e blogs. Em teologia, dedica-se ao estudo das Sagradas Escrituras.
Deixe um comentário