Por Pe. Hermes A. Fernandes
Neste 11º. Domingo do Tempo Comum, entramos em sintonia com a dimensão mais profunda do discipulado: a missão. A tarefa de anunciar o Reino de Deus e sua Justiça ultrapassa, em muito, a capacidade de uma única pessoa. Aconteceu com Jesus naquele tempo e acontece ainda hoje. A Ação Evangelizadora não é lugar ou oportunidade para a autorreferencialidade. O discipulado é uma resposta positiva ao chamado de Jesus, que nos impele sempre para a vida comunitária. Destarte, evangelizar é um esforço comum, de todos e todas que se dispõem a viver e anunciar o Evangelho. Para tanto, precisamos edificar comunidades fraternas que se reúnam a partir de Jesus Cristo, em plena comunhão, alimentadas pela Palavra e pela Eucaristia, anunciando o Reino, à luz da evangélica opção preferencial pelos pobres, na esperança do Reino Definitivo. Como nos ensinou o Papa Francisco, de quem guardamos saudosa memória, devemos ser Igreja Profética, Missionária e Samaritana.
Neste ínterim, somos convidados a resgatar estes valores e nossas vocações a partir da liturgia que nos convida a contemplar o Evangelho de Mateus, na perícope de 9,36 a 10,8. Vamos juntos, no seguimento de Jesus, iluminados pelas memórias e testemunho da comunidade mateana e seu Evangelho.
Contextualizando o Evangelho de Mateus
Desde os tempos do Exílio da Babilônia (de 586 a 538 a.C.), os profetas anunciavam a vinda de um messias justo, que iria restaurar a dignidade de seu povo. A princípio pensava-se em um messias que restaurasse a glória da dinastia davídica. Todavia, o messias galileu revelou uma ousadia maior nos planos de Deus, restaurando a dignidade de toda humanidade. Somos convidados a participar do banquete da vida, sentando-nos à mesa com ele, em condição filial, enquanto família de Jesus. Para resgatar a esperança em tempos de sofrimento pela ocupação romana, a comunidade de Mateus escreve seu Evangelho, resgatando o esperançar que brotava no coração do povo, desde os tempos do Segundo Isaías.
Como dissemos na premissa inicial de nossa contextualização, assim como no tempo do Exílio da Babilônia, nos tempos de Jesus fazia-se imperativo restaurar a esperança. Por este motivo, a comunidade mateana reúne as memórias das palavras e ações de Jesus, organizando-as em um texto que deve sempre ser entendido a partir da perspectiva em que viviam estes seguidores e seguidoras de Jesus. Em 70 d.C. o Império Romano invadiu a Palestina, que já era sua colônia e lhe pagava tributos. Sufocou o movimento judaico revolucionário, tomou Jerusalém e destruiu o Templo. Os judeus tiveram que se dispersar e se reorganizar. As comunidades cristãs, que viviam nas imediações de Jerusalém, já haviam se dispersado. Algumas foram para Pela, no lado oriental do Rio Jordão, outras se espalharam pela Síria e Fenícia. De forma especial, se refugiaram junto à comunidade de Antioquia, na Síria. E foi em Antioquia, por volta do ano 80 d.C., que Mateus escreveu seu Evangelho para essas comunidades que haviam nascido nos recôncavos da Palestina. Diante destas referências históricas, se explicam as preocupações de Mateus e sua comunidade. Ele é um judeu convertido aos ensinamentos de Jesus e se dirige ao mesmo tipo de pessoas. Os destinatários primeiros de seu Evangelho são judeus que aceitaram a Palavra e a Ação de Jesus como caminho para suas vidas.
Neste sentido, a teologia mateana percorre um caminho criativo e profícuo. Primeiro quer mostrar que Jesus e sua ação realizam tudo que o Primeiro Testamento anunciava, pedia e prometia. Depois, que o cristianismo também é ruptura com a religião judaica oficial, cristalizada em formas de vivência religiosa que já estavam muito distantes do projeto de Deus revelado e realizado em Jesus. Finalmente, quer mostrar que as comunidades de seguidores e seguidoras de Jesus não devem ficar fechadas em si mesmas, mas se abrir para todos e todas, levando em todos os tempos e lugares a Palavra e a Ação de Jesus que liberta para a Vida Nova.
Isto posto, compreendendo o contexto e objetivos do Evangelho de Mateus, fica-nos mais fácil entender a perícope mateana presente na liturgia do 11º. Domingo do Tempo Comum, Mt 9,36 – 10,8.
Aprofundando Mt 9,36 – 10,8
É fato que o Evangelho de Mateus tem como palavra chave de entendimento a Justiça. Somente uma comunidade organizada e solidária pode levar à frente a luta pela justiça. Na perícope do Evangelho de Mateus da liturgia deste domingo, Jesus continua formando sua comunidade e três coisas são necessárias:
- O Ensinamento: pelo qual Jesus ajuda seus discípulos a ler a Palavra de Deus na perspectiva da justiça;
- O Anúncio: o Reino de Deus é a boa-notícia de que a libertação vem pela prática da justiça;
- A Cura: a justiça liberta de tudo o que diminui ou impede a libertade e a vida (cf. Mt 9,35-38).
Diante do contexto em que viviam Mateus e sua comunidade, é fato que o anúncio do Reino foi um árduo trabalho. Como reflexo da situação em que viviam sob o braço forte da ocupação romana e os mandos e desmandos das lideranças religiosas de seu tempo; a comunidade mateana externa os sentimentos do povo ao afirmar: “vendo Jesus as multidões, compadeceu-se delas, porque estavam cansadas e abatidas, como ovelhas que não têm pastor” (Mt 9,36). Palavra importante, porque nela está a raiz da missão: compaixão significa sofrer junto, sentir em si mesmo as dores e os problemas do povo. Quando sentimos dor, temos que fazer alguma coisa para resolvê-la. Não somente amortizá-la, por meio de uma espiritualidade alienada e alienante. Jesus sentiu isso, tomou sobre si as dores do povo, e espera que nós o façamos igualmente. A falta de pastor alude aos políticos, religiosos ou intelectuais que, em vez de servir ao povo, servem-se do povo para satisfazer seus caprichos pessoais ou das corporações que representam; sempre em perspectiva da sede de poder e fama, além da ganância por lucro. Em vez de promover a justiça ao serviço da liberdade e da vida, promovem a injustiça, roubando o que o povo tem e o que o povo é. Devoram os recursos e direitos dos pobres, além de corromper e alienar suas consciências.
Diante dos sofrimentos do povo, de ontem e hoje, a tarefa é grande, como uma grande colheita que, se não for colhida a tempo, poderá se perder. O que fazer? Sozinho não há como corresponder a tão grande necessidade! É preciso muita gente para realizar a colheita do Reino, ou seja, a ressignificação dos valores da vida, viabilizando a dignidade humana e a proteção da Casa Comum, à luz da solidariedade e da partilha, sempre na perspectiva de uma fraternidade universal.
Diante da urgência de uma transformação da realidade, Jesus chama os que o acompanham mais de perto e compartilham suas preocupações (cf. Mt 10,1-4). Os seguidores e seguidoras de Jesus precisam participar de sua missão: anunciar o Reino de Deus e sua Justiça (cf. Mt 6,33). A alusão ao número doze, enquanto totalidade de seus apóstolos (cf. Mt 10,1), é uma referência às tribos de Israel enumeradas no Primeiro Testamento. Isso deseja significar que a comunidade de Jesus é o Novo Povo de Deus, restaurando a Antiga Aliança, ressignificando-a pela Boa-Nova, um novo tempo de Justiça e Paz, possíveis por amor fraterno vivido de forma radical, pela solidariedade e a partilha. Em seguida, a comunidade mateana apresenta uma lista dos nomes dos apóstolos enviados em missão (cf. Mt 10, 2-5). Na lista dos que trabalham pela edificação do Novo Povo de Deus, é preciso que escrevamos também o nosso nome. Se há uma relação entre o Povo de Deus do Primeiro Testamento e do Tempo de Jesus, o Segundo Testamento; considerando o que nos é apresentado no finzinho do Evangelho de Mateus (cf. Mt 28,16-20), somos nós – as comunidades de seguidores e seguidoras de Jesus – que devemos ser continuadores do anúncio do Reino de Deus e do Tempo da Libertação. O Evangelho continua a ser escrito por nossas vidas.
Mt 9,36 – 10,8 sob o olhar da Leitura Popular da Bíblia
O texto de Mateus 9,36–10,8 nasce do olhar de Jesus sobre o povo. Antes de chamar os discípulos e enviá-los em missão, Jesus contempla a realidade. O evangelista afirma que ele viu as multidões “cansadas e abatidas, como ovelhas sem pastor”. A missão não começa com uma doutrina, uma estratégia ou uma estrutura. Ela começa com um olhar atento sobre a vida sofrida do povo.
A Leitura Popular da Bíblia nos ensina que a Palavra de Deus deve ser lida a partir da vida. Por isso, a primeira pergunta que este texto nos faz é: quem são hoje as multidões cansadas e abatidas? São os pobres das periferias urbanas, os povos indígenas ameaçados em seus territórios, os trabalhadores explorados, os desempregados, as mulheres vítimas de violência, os jovens sem perspectivas, os idosos abandonados, os migrantes e refugiados. São todos aqueles e aquelas cuja dignidade é ferida pelos mecanismos de exclusão presentes na sociedade.
Jesus não vê uma massa anônima. Ele vê pessoas concretas. E seu olhar não é de julgamento, mas de compaixão. A palavra utilizada no texto indica uma profunda comoção interior. Deus não é indiferente ao sofrimento humano. O coração de Jesus se move diante da dor do povo. Esta é uma das grandes revelações do Evangelho: Deus toma partido da vida dos pequenos. Ele sempre escolhe os oprimidos e denuncia a opressão!
Em seguida, Jesus afirma: “A messe é grande, mas os trabalhadores são poucos”. Na perspectiva da Leitura Popular da Bíblia, a messe não é apenas um campo religioso. Trata-se da imensa realidade humana que clama por justiça, solidariedade e esperança. O Reino de Deus já está germinando na história, mas necessita de homens e mulheres dispostos a colaborar com ele.
Por isso, Jesus pede oração. Entretanto, logo depois de pedir que rezassem para que houvesse mais trabalhadores, ele transforma os próprios discípulos em resposta à oração. Aqueles que rezam, tornam-se enviados. Não basta pedir mudanças; é preciso comprometer-se com elas.
No capítulo 10, Jesus chama os doze e lhes confere autoridade para libertar e curar. É significativo que a missão recebida pelos discípulos esteja ligada a ações concretas: curar os doentes, ressuscitar os mortos, purificar os leprosos e expulsar os demônios. Não se trata de uma missão voltada apenas para o culto ou para a transmissão de ideias religiosas. O anúncio do Reino manifesta-se através da promoção da vida e da restauração da dignidade humana.
A Leitura Popular da Bíblia reconhece nesses gestos os sinais do projeto de Deus. Curar os doentes significa lutar contra tudo o que produz sofrimento. Purificar os leprosos significa reintegrar os excluídos. Expulsar os demônios significa enfrentar as forças que desumanizam as pessoas e os povos. Ressuscitar os mortos significa devolver esperança onde parece haver apenas desespero.
Outro aspecto importante é que Jesus envia uma comunidade. Os doze representam o novo povo de Deus. A missão não é individualista. Ela acontece na experiência comunitária. Aqui encontramos uma inspiração profunda para as Comunidades Eclesiais de Base: ser presença solidária junto aos empobrecidos, ler a realidade à luz da Palavra e construir relações fraternas que antecipem o Reino.
Por fim, Jesus afirma: “De graça recebestes, de graça deveis dar”. A missão cristã não é mercadoria nem privilégio. Tudo é dom. Quem experimentou a graça de Deus torna-se servidor dos irmãos e irmãs, especialmente dos mais pobres.
Atualizando
Este Evangelho tem um convite especial para as Comunidades Eclesiais de nossos tempos: cultivar um olhar atento sobre o sofrimento do povo; deixar-se mover pela compaixão de Jesus; reconhecer que a missão nasce da realidade concreta dos pobres. Para tanto, é preciso formar comunidades missionárias e não apenas comunidades de conservação do sagrado. Com isso, podemos anunciar o Reino através de gestos concretos de libertação e cuidado, testemunhando Jesus sendo uma Igreja simples, gratuita e próxima dos pequenos.
Assim, ao contemplar as multidões cansadas e abatidas de nosso tempo, nossas Comunidades Eclesiais podem ouvir novamente o chamado de Jesus: tornar-se presença de esperança, sinal do Reino e instrumento da compaixão de Deus no meio do povo.
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