Por Pe. Hermes A. Fernandes
Estamos no XII Domingo do Tempo Comum e a Liturgia nos oferece uma continuidade da perícope do Evangelho de Mateus que nos foi apresentada no domingo anterior. O texto faz parte do Discurso Missionário de Jesus, pelo qual são apresentadas instruções para o anúncio do Evangelho enquanto missionários e missionárias do Reino. A comunidade de Mateus atualiza os ensinamentos recebidos pelo Mestre, a partir dos pés com os quais caminham, ou seja: a realidade em que viviam quando da redação do Evangelho. Vejamos um pouco sobre como viviam os discípulos e discípulas de Jesus, na comunidade de Mateus.
Contextualizando o Evangelho de Mateus
Desde os tempos do Exílio da Babilônia (de 586 a 538 a.C.), os profetas anunciavam a vinda de um messias justo, que iria restaurar a dignidade de seu povo. A princípio pensava-se em um messias que restaurasse a glória da dinastia davídica. Todavia, o messias galileu revelou uma ousadia maior nos planos de Deus, restaurando a dignidade de toda humanidade. Somos convidados a participar do banquete da vida, sentando-nos à mesa com ele, em condição filial, enquanto família de Jesus. Para resgatar a esperança em tempos de sofrimento pela ocupação romana, a comunidade de Mateus escreve seu Evangelho, resgatando o esperançar que brotava no coração do povo, desde os tempos do Segundo Isaías.
Como dissemos na premissa inicial de nossa contextualização, assim como no tempo do Exílio da Babilônia, nos tempos de Jesus fazia-se imperativo restaurar a esperança. Por este motivo, a comunidade mateana reúne as memórias das palavras e ações de Jesus, organizando-as em um texto que deve sempre ser entendido a partir da perspectiva em que viviam estes seguidores e seguidoras de Jesus. Em 70 d.C. o Império Romano invadiu a Palestina, que já era sua colônia e lhe pagava tributos. Sufocou o movimento judaico revolucionário, tomou Jerusalém e destruiu o Templo. Os judeus tiveram que se dispersar e se reorganizar. As comunidades cristãs, que viviam nas imediações de Jerusalém, já haviam se dispersado. Algumas foram para Pela, no lado oriental do Rio Jordão, outras se espalharam pela Síria e Fenícia. De forma especial, se refugiaram junto à comunidade de Antioquia, na Síria. E foi em Antioquia, por volta do ano 80 d.C., que Mateus escreveu seu Evangelho para essas comunidades que haviam nascido nos recôncavos da Palestina. Diante destas referências históricas, se explicam as preocupações de Mateus e sua comunidade. Ele é um judeu convertido aos ensinamentos de Jesus e se dirige ao mesmo tipo de pessoas. Os destinatários primeiros de seu Evangelho são judeus que aceitaram a Palavra e a Ação de Jesus como caminho para suas vidas.
Neste sentido, a teologia mateana percorre um caminho criativo e profícuo. Primeiro quer mostrar que Jesus e sua ação realizam tudo que o Primeiro Testamento anunciava, pedia e prometia. Depois, que o cristianismo também é ruptura com a religião judaica oficial, cristalizada em formas de vivência religiosa que já estavam muito distantes do projeto de Deus revelado e realizado em Jesus. Finalmente, quer mostrar que as comunidades de seguidores e seguidoras de Jesus não devem ficar fechadas em si mesmas, mas se abrir para todos e todas, levando em todos os tempos e lugares a Palavra e a Ação de Jesus que liberta para a Vida Nova.
Isto posto, compreendendo o contexto e objetivos do Evangelho de Mateus, fica-nos mais fácil entender a perícope mateana presente na liturgia do 12º Domingo do Tempo Comum, Mateus 10,26-33.
Um olhar sobre Mateus 10,26-33, a partir da Leitura Popular da Bíblia
O texto de Mt 10,26-33 faz parte do discurso missionário de Jesus. Os discípulos são enviados para anunciar o Reino de Deus em um contexto marcado por conflitos, perseguições e rejeições. Jesus sabe que a fidelidade ao Evangelho pode trazer sofrimento, mas convida seus seguidores e seguidoras a não se deixarem dominar pelo medo.
A Leitura Popular da Bíblia procura ler este texto a partir da vida do povo, especialmente dos pobres, dos excluídos e daqueles que lutam por justiça. Nessa perspectiva, a pergunta fundamental é: o que esta Palavra diz às comunidades que enfrentam desafios e perseguições hoje?
1. “Não tenhais medo” (Mt 10,26)
A expressão “não tenhais medo” aparece diversas vezes na perícope do Evangelho que estamos a refletir. O medo é uma das principais armas dos sistemas de opressão. Quem domina procura silenciar as vozes que denunciam as injustiças. Assim aconteceu com os profetas, com Jesus e continua acontecendo com lideranças populares, defensores dos Direitos Humanos, indígenas, trabalhadores e agentes de pastoral comprometidos com os pobres.
A Palavra de Jesus fortalece as comunidades para que não se deixem paralisar. O medo não pode impedir o anúncio da verdade. A esperança cristã nasce da confiança de que Deus caminha com seu povo.
2. “O que vos digo na escuridão, dizei-o à luz do dia” (Mt 10,27)
Jesus pede que a Boa-Nova seja proclamada publicamente. A fé cristã não pode ficar restrita ao âmbito privado. A mensagem do Reino possui consequências sociais e históricas.
Na perspectiva da Leitura Popular da Bíblia, este versículo recorda a missão das Comunidades Eclesiais de Base, das pastorais sociais e de todos os grupos que procuram transformar a realidade à luz do Evangelho. Aquilo que se descobre na oração, na reflexão bíblica e na vida comunitária; deve tornar-se anúncio, denúncia e compromisso concreto.
3. “Não tenhais medo dos que matam o corpo” (Mt 10,28)
Jesus não está incentivando a busca do sofrimento, mas afirmando que a vida possui uma dimensão maior do que o poder dos opressores pode alcançar.
Ao longo da história latino-americana, muitos cristãos deram testemunho dessa verdade: bispos, padres, religiosas, catequistas, lideranças indígenas e camponesas que permaneceram fiéis ao Evangelho mesmo diante de ameaças e perseguições. Seu exemplo revela que a força do Reino é maior que a violência.
A comunidade é chamada a discernir quem realmente merece sua confiança: não os poderes deste mundo, mas Deus, que sustenta a vida.
4. Deus cuida dos pequenos (Mt 10,29-31)
Jesus fala dos pardais e de fios de cabelos para mostrar que ninguém é insignificante diante de Deus.
Para os pobres, frequentemente tratados como descartáveis pela sociedade, esta é uma mensagem profundamente libertadora. Deus conhece o sofrimento do seu povo e acompanha suas lutas. Os esquecidos pelos poderosos são lembrados por Deus.
A Leitura Popular percebe aqui uma forte afirmação da dignidade humana. Cada pessoa possui valor infinito. Por isso, toda forma de exclusão, racismo, exploração ou violência contradiz o projeto divino.
5. “Todo aquele que se declarar a meu favor diante dos homens” (Mt 10,32-33)
Confessar Jesus não significa apenas repetir fórmulas de fé. Significa assumir seu projeto de vida. Reconhecer Jesus diante das pessoas implica comprometer-se com a justiça, a solidariedade, a fraternidade e a defesa da vida.
Nas comunidades populares, a profissão de fé se torna concreta quando se promove a partilha, quando se luta pela dignidade dos trabalhadores, quando se acolhem os excluídos e quando se defende a vida ameaçada.
Pistas para a reflexão comunitária
- Quais são os medos que hoje dificultam nossa missão cristã?
- Quem são as pessoas e grupos perseguidos por defender a vida e a justiça em nossa realidade?
- Como nossas comunidades podem anunciar o Evangelho “à luz do dia”, sem se esconder diante das injustiças?
- De que forma podemos testemunhar publicamente nossa fé em Jesus através de ações concretas?
Conclusão
Mt 10,26-33 é um chamado à coragem. Jesus convida seus discípulos e discípulas a vencer o medo e a confiar plenamente no cuidado de Deus. Para a Leitura Popular da Bíblia, este texto fortalece as comunidades que enfrentam dificuldades por causa de sua fidelidade ao Evangelho. A certeza de que Deus está ao lado dos pequenos e dos que lutam pela vida; torna possível continuar anunciando o Reino, mesmo em meio às ameaças e perseguições. Assim, a Palavra se transforma em fonte de esperança, resistência e compromisso libertador.
Deixe um comentário