Mateus 9,1-8: Quando Deus levanta os caídos – uma Leitura Popular da Bíblia
Por Pe. Hermes A. Fernandes
O relato de Mateus 9,1-8 ocupa um lugar importante na primeira parte do Evangelho de Mateus. Depois de revelar seu poder sobre a natureza (Mt 8,23-27), sobre as forças do mal (Mt 8,28-34) e sobre diversas enfermidades (Mt 8–9), Jesus retorna “à sua cidade”, não exatamente Nazaré, mas provavelmente Cafarnaum, onde realiza um dos sinais mais profundos de seu ministério: a cura de um homem paralítico. Entretanto, mais do que uma narrativa sobre uma cura física, este texto apresenta um confronto entre dois projetos religiosos: de um lado, uma religião que exclui e condena; de outro, o Reino de Deus, que restitui a dignidade, reintegra as pessoas à comunidade e devolve-lhes a esperança.
O contexto do paralítico
Na Palestina do século I, a deficiência física frequentemente era interpretada como consequência direta do pecado. Embora essa compreensão não fosse unânime dentro do judaísmo, ela estava profundamente presente no imaginário popular e era reforçada por muitos grupos religiosos. Assim, um paralítico carregava um duplo sofrimento: o corpo debilitado e a exclusão religiosa.
Além da limitação física, havia também consequências sociais. Uma pessoa impossibilitada de trabalhar tornava-se dependente da solidariedade familiar ou da esmola. Muitas vezes era considerada impura, incapaz de participar plenamente da vida religiosa e frequentemente invisibilizada pela sociedade.
É justamente esse homem que é colocado diante de Jesus. Mateus resume a narrativa de maneira bastante breve, diferentemente de Marcos (Mc 2,1-12), que descreve os amigos descendo o paralítico pelo teto. Entretanto, Mateus conserva um detalhe fundamental:
“Jesus, vendo a fé deles…”
A fé aqui nunca aparece como experiência individualista. Ela é comunitária. O paralítico chega até Jesus porque outras pessoas acreditam que sua vida pode ser transformada. A salvação acontece dentro de uma rede de solidariedade.
A Leitura Popular da Bíblia sempre insiste nesse aspecto: ninguém se salva sozinho. A caminhada da fé acontece em comunidade, especialmente quando a comunidade assume a dor daqueles que já não conseguem caminhar por si mesmos.
“Coragem, filho!”
As primeiras palavras de Jesus são surpreendentes:
“Coragem, filho!”
Antes de curar, Jesus acolhe.
Antes de discutir doutrinas, ele oferece proximidade.
Antes de transformar o corpo, ele restaura a dignidade.
A expressão “filho” rompe imediatamente qualquer lógica de exclusão. O homem que talvez fosse considerado amaldiçoado pela religião agora é tratado como membro da família de Deus.
Depois vem a frase que escandaliza os escribas:
“Os teus pecados estão perdoados.”
Do ponto de vista exegético, não significa necessariamente que a paralisia fosse causada pelo pecado. O que Jesus faz é muito mais profundo: rompe a associação automática entre sofrimento e culpa.
Na mentalidade dominante, aquele homem carregava o peso da condenação religiosa. Jesus remove esse peso antes mesmo de remover sua enfermidade.
A libertação começa por dentro.
O conflito com os escribas
Os escribas pensam consigo mesmos:
“Este homem blasfema.”
Para eles, somente Deus pode perdoar pecados. O problema não é apenas teológico. Na prática, o perdão dos pecados estava profundamente ligado ao sistema do Templo, aos sacrifícios e ao controle religioso exercido pelas autoridades.
Quando Jesus oferece gratuitamente o perdão, ele desloca o centro da experiência religiosa. O acesso a Deus deixa de depender das instituições de poder religioso e passa pela misericórdia. É exatamente isso que provoca o conflito.
Mateus mostra que Jesus não veio abolir a Lei, mas denunciar sua utilização como instrumento de exclusão.
Levanta-te!
Depois do diálogo com os escribas, Jesus diz:
“Levanta-te, pega tua cama e vai para tua casa.”
O verbo “levantar” (egeirein, em grego) possui enorme riqueza teológica. É o mesmo verbo utilizado para falar da ressurreição. Assim, o paralítico não apenas volta a andar. Ele ressuscita para uma vida nova. A cama, símbolo de sua antiga condição de dependência, deixa de carregá-lo. Agora ele próprio a carrega.
Aquele que era sustentado torna-se sujeito de sua própria história.
Na Bíblia, os milagres nunca são demonstrações de poder. São sinais da chegada do Reino de Deus.
A reação do povo
O texto termina dizendo que as multidões glorificaram a Deus por ter concedido tal autoridade aos seres humanos. Mateus amplia a perspectiva. Não é apenas Jesus quem recebe essa autoridade. A comunidade dos discípulos será chamada a continuar realizando gestos que devolvem vida, esperança e dignidade. O Reino não pertence exclusivamente ao Cristo histórico. Ele continua presente na missão da Igreja.
Uma leitura latino-americana
Na América Latina, milhões de pessoas continuam vivendo formas diversas de paralisia. Há quem seja paralisado pela fome. Outros pelo desemprego. Outros pelo racismo estrutural. Outros pela violência urbana. Outros pela exploração econômica. Outros ainda pela falta de acesso à saúde, à educação ou à moradia.
Existem também as paralisias produzidas pelo medo, pela discriminação, pela dependência química, pelo abandono e pela perda da esperança.
A Leitura Popular da Bíblia nos ajuda a perceber que Jesus continua perguntando quem são hoje os homens e mulheres colocados sobre uma “cama” da exclusão social. Os pobres frequentemente carregam culpas que não lhes pertencem.
São responsabilizados por sua pobreza.
São acusados de falta de esforço.
São tratados como invisíveis.
Jesus rompe exatamente essa lógica. Ele não pergunta por que o homem ficou paralítico. Ele pergunta, na prática, como devolvê-lo à vida. Essa continua sendo a pergunta central da missão da Igreja.
O papel da comunidade
Outro aspecto profundamente atual é a presença dos amigos. Sem eles, o paralítico jamais chegaria até Jesus.
Isso recorda o papel das Comunidades Eclesiais de Base, das pastorais sociais, das pastorais da criança, da saúde, carcerária, da população em situação de rua, da juventude e de tantas outras iniciativas que carregam até Jesus aqueles que a sociedade abandonou.
A comunidade cristã não existe apenas para celebrar sacramentos. Ela existe para carregar os caídos.
Sempre que uma comunidade organiza mutirões de solidariedade, acompanha famílias enlutadas, visita enfermos, acolhe migrantes, luta por políticas públicas, combate a fome ou denuncia estruturas de injustiça, está repetindo o gesto daqueles amigos que levaram o paralítico até Jesus.
Desafios pastorais
Mateus 9,1-8 desafia a ação evangelizadora da Igreja a assumir um compromisso concreto com a libertação integral da pessoa humana. Isso implica superar toda espiritualidade que reduz o Evangelho à esfera privada ou individual. A missão da Igreja consiste em restaurar vidas, promover relações fraternas e denunciar as estruturas que continuam produzindo exclusão. A comunidade cristã é chamada a ser espaço onde ninguém seja identificado apenas por sua limitação, pobreza ou sofrimento, mas reconhecido como filho e filha de Deus.
Essa missão também exige combater formas de clericalismo e legalismo que dificultam o acesso dos mais vulneráveis à experiência da misericórdia. O perdão, o acolhimento e a inclusão precedem qualquer julgamento. Como Jesus, a Igreja é chamada a aproximar-se primeiro das pessoas feridas para devolver-lhes coragem e esperança.
Por fim, a pastoral inspirada neste Evangelho precisa caminhar junto aos pobres em sua luta por dignidade. Não basta aliviar as consequências da exclusão; é necessário colaborar para transformar as causas que mantêm tantos “paralíticos sociais” presos à miséria, à violência e à negação de seus direitos. Cada gesto de solidariedade, cada ação em defesa da justiça e cada iniciativa comunitária que devolve autonomia aos excluídos torna visível o Reino inaugurado por Jesus.
Conclusão
Mateus 9,1-8 revela que o maior milagre realizado por Jesus não é simplesmente fazer um paralítico caminhar, mas devolver-lhe sua condição de filho de Deus e reinseri-lo plenamente na comunidade. O Reino rompe os mecanismos religiosos e sociais que transformam pessoas em culpadas por seu sofrimento.
Lida a partir da realidade latino-americana, esta passagem convida a Igreja a reconhecer os muitos homens e mulheres ainda imobilizados pelas estruturas de injustiça. Inspirada pela Leitura Popular da Bíblia, a comunidade cristã é chamada a tornar-se aquela rede de amigos que sustenta os caídos, anuncia a misericórdia antes da condenação e ajuda cada pessoa a levantar-se para caminhar com dignidade. Assim, a missão da Igreja continua o gesto libertador de Jesus, tornando presente, entre os pobres e excluídos de hoje, a força transformadora do Reino de Deus.
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