Reflexão para Segunda-feira da 20ª Semana do Tempo Comum – (Mateus 19,16-22)

Quando a riqueza impede o seguimento: uma leitura latino-americana de Mateus 19,16-22

Por Pe. Hermes A. Fernandes

Introdução

O encontro de Jesus com o homem rico, narrado em Mateus 19,16-22, é uma das passagens mais provocadoras do Evangelho. O texto não apresenta simplesmente uma discussão sobre a vida eterna ou sobre a moral individual. Ele coloca em questão a relação entre fé, riqueza, justiça, partilha e seguimento de Jesus. Na perspectiva da Teologia Latino-Americana e da Leitura Popular da Bíblia, a pergunta fundamental deixa de ser apenas “o que devo fazer para ser salvo?” e passa a ser: que lugar ocupam os pobres e os bens materiais no projeto de Deus?

A narrativa está situada depois do acolhimento das crianças (Mt 19,13-15) e imediatamente antes das palavras de Jesus sobre a dificuldade de os ricos entrarem no Reino dos Céus (Mt 19,23-26). Assim, o episódio deve ser compreendido dentro de uma unidade literária e teológica na qual Jesus confronta os critérios de uma sociedade marcada por poder, propriedade e status.

1. “Que devo fazer de bom para possuir a vida eterna?” — Mt 19,16

O personagem aproxima-se de Jesus com uma pergunta profundamente religiosa: “Mestre, que devo fazer de bom para possuir a vida eterna?”. Mateus começa identificando-o simplesmente como “alguém”; somente depois saberemos que é jovem e que possui muitos bens. Essa apresentação progressiva permite que o leitor se reconheça nele: é alguém que busca sinceramente a Deus, mas carrega consigo uma determinada concepção de vida e de salvação.

A expressão “vida eterna” não deve ser reduzida a uma recompensa depois da morte. No horizonte bíblico, ela aponta para a participação na vida que Deus oferece e, portanto, para uma existência reorganizada segundo os valores do Reino. O homem pergunta o que precisa fazer para alcançar essa vida. Sua lógica é a da acumulação de méritos: cumprir determinadas exigências para garantir diante de Deus aquilo que deseja.

A Leitura Popular da Bíblia começa justamente por colocar essa pergunta em diálogo com a realidade. Quantas vezes também hoje a religião é apresentada como um conjunto de práticas individuais destinadas a garantir a salvação, enquanto permanecem intocadas as estruturas de desigualdade, exploração e exclusão? O Evangelho desloca a questão: não basta perguntar se estou em paz com Deus; é necessário perguntar como minha maneira de viver afeta a vida dos outros, especialmente dos pobres.

2. “Guarda os mandamentos” — Mt 19,17-19

Jesus inicialmente responde indicando os mandamentos. O interessante é que Mateus destaca sobretudo aqueles relacionados ao relacionamento com o próximo: não matar, não adulterar, não roubar, não prestar falso testemunho, honrar pai e mãe e amar o próximo como a si mesmo. A resposta retoma elementos do Decálogo e de Levítico 19,18.

Há aqui uma chave fundamental para a Teologia Latino-Americana: a relação com Deus passa pela relação com o outro. A fé não pode ser separada da justiça. A observância religiosa perde seu sentido quando não produz uma vida marcada pela fraternidade, pela solidariedade e pelo respeito à dignidade humana.

Jesus não está abolindo a Lei; está levando-a ao seu núcleo. A verdadeira fidelidade a Deus não se mede pela quantidade de práticas religiosas realizadas, mas pela capacidade de construir relações que gerem vida. Por isso, a pergunta sobre a vida eterna conduz inevitavelmente à realidade concreta do próximo.

Na perspectiva da Leitura Popular, é necessário perguntar: quem é o próximo em nossa sociedade? É a pessoa que vive na periferia? O trabalhador precarizado? A população em situação de rua? O migrante? O indígena ameaçado em seu território? A mulher vítima da violência? A criança abandonada? O idoso esquecido? O Evangelho transforma o próximo abstrato em rostos concretos.

3. “Tenho observado todas essas coisas. Que ainda me falta?” — Mt 19,20

A resposta do jovem revela sua segurança religiosa: “Tenho observado todas essas coisas”. Ele considera ter cumprido suas obrigações. Mas Jesus não encerra o diálogo. O jovem pergunta: “Que ainda me falta?”

Essa pergunta abre o verdadeiro núcleo da narrativa. Existe uma diferença entre cumprir normas e assumir o projeto do Reino. O homem aparentemente não é um transgressor; seu problema está em outro lugar. Ele deseja seguir Jesus sem permitir que o encontro com Jesus transforme radicalmente sua relação com os bens.

A narrativa, portanto, denuncia uma forma de religiosidade que pode conviver tranquilamente com a concentração de riqueza. É possível cumprir determinadas obrigações religiosas e, ao mesmo tempo, permanecer indiferente diante da pobreza.

Aqui emerge uma das grandes contribuições da Teologia Latino-Americana: a fé precisa ser lida a partir da realidade dos pobres. A pergunta não é apenas “o que eu devo fazer para estar bem com Deus?”, mas “o que Deus espera de mim diante daqueles cuja vida está ameaçada?”

4. “Vai, vende os teus bens, dá aos pobres e segue-me” — Mt 19,21

Jesus chega ao centro de sua proposta: “Vai, vende os teus bens, dá aos pobres e terás um tesouro no céu. Depois, vem e segue-me”.

É importante evitar uma interpretação superficial segundo a qual Jesus estaria simplesmente estabelecendo uma regra universal de que todos devem possuir absolutamente nada. O próprio conjunto dos Evangelhos mostra pessoas que continuam utilizando seus bens para servir à comunidade. O problema central do texto é o poder que a riqueza exerce sobre o coração e sobre as relações humanas. No caso daquele homem, a riqueza havia se tornado um obstáculo ao discipulado.

A ordem de Jesus possui três movimentos: desapegar-se, partilhar e seguir. Não se trata apenas de abandonar propriedades, mas de transformar a relação com os bens em favor dos pobres. A riqueza deixa de ser instrumento de segurança individual e torna-se possibilidade de solidariedade.

É precisamente aqui que a Leitura Popular da Bíblia encontra sua força sociotransformadora. O texto não pergunta somente “o que significa vender os bens?”, mas: por que alguns acumulam tanto enquanto outros não têm o necessário para viver? A questão evangélica alcança as estruturas econômicas, políticas e sociais que produzem concentração, exclusão e pobreza.

A opção pelos pobres, portanto, não é um apêndice da fé cristã. Ela nasce do próprio movimento do texto: Jesus manda olhar para os pobres como destinatários concretos da partilha. O Reino de Deus não pode ser anunciado enquanto a vida dos pobres é tratada como problema secundário.

5. “Ele foi embora triste, porque possuía muitos bens” — Mt 19,22

O desfecho é dramático. O homem não rejeita Jesus com agressividade; simplesmente vai embora triste. Ele desejava a vida eterna, mas não conseguiu abrir mão daquilo que ocupava o centro de sua existência. O texto afirma que ele possuía “muitas propriedades”.

Sua tristeza revela a contradição de uma vida dividida: quer o Reino, mas não quer abandonar aquilo que impede sua plena adesão ao Reino. A riqueza, que deveria ser instrumento para a vida, transforma-se em obstáculo à vida.

A narrativa é especialmente atual em uma sociedade na qual o valor das pessoas é frequentemente medido pelo patrimônio, pelo consumo, pelo poder econômico e pela capacidade de acumular. O Evangelho questiona a lógica segundo a qual “ter mais” significa necessariamente “viver melhor”.

Para a Teologia Latino-Americana, a pergunta é ainda mais incisiva: pode uma sociedade produzir riqueza e, simultaneamente, negar condições dignas de vida a milhões de pessoas? A resposta evangélica é negativa. A vida cristã exige uma economia que esteja a serviço da pessoa, da comunidade e da criação, e não uma sociedade na qual pessoas sejam sacrificadas em nome da acumulação.

6. Da leitura do texto à transformação da realidade

A Leitura Popular da Bíblia não termina na compreensão do texto. Ela conduz ao discernimento da realidade e à ação. Por isso, Mateus 19,16-22 pode inspirar uma pastoral que faça da partilha, da justiça e da defesa dos pobres dimensões concretas do seguimento de Jesus.

As comunidades cristãs são chamadas a examinar suas próprias estruturas: como administram seus bens? Quais relações estabelecem com os pobres? A quem destinam seus recursos? Suas celebrações conduzem à solidariedade ou permanecem separadas dos dramas sociais?

Uma pastoral inspirada nesse Evangelho deve fortalecer as Pastorais Sociais, as Comunidades Eclesiais de Base, a defesa dos trabalhadores, a promoção da economia solidária, o cuidado com os migrantes, a defesa dos povos indígenas e tradicionais, o enfrentamento da fome, da violência e de todas as formas de exclusão. Deve também denunciar as estruturas que transformam a pobreza em destino inevitável.

O desafio é passar de uma Igreja que apenas fala sobre os pobres para uma Igreja que caminha com os pobres, reconhecendo neles sujeitos da evangelização, da história e da transformação social.

Conclusão

Mateus 19,16-22 não é simplesmente a história de um homem que não conseguiu abandonar sua riqueza. É um espelho diante do qual a comunidade cristã é convidada a se colocar. O jovem pergunta pela vida eterna, mas Jesus conduz sua pergunta para a relação com os pobres.

O texto revela que o discipulado exige mais do que cumprimento religioso: exige conversão da relação com os bens, solidariedade com os pobres e compromisso com a justiça. A vida eterna começa a ser experimentada quando a vida presente se torna mais humana, fraterna e solidária.

À luz da Teologia Latino-Americana e da Leitura Popular da Bíblia, o Evangelho pergunta à Igreja de hoje: o que ainda nos falta? Talvez nos falte exatamente aquilo que faltou ao jovem rico: transformar a fé em partilha, a religião em compromisso e o encontro com Jesus em uma prática concreta de defesa da vida.

Seguir Jesus significa, portanto, colocar os bens a serviço da vida e assumir a causa daqueles que o sistema social descarta. O verdadeiro “tesouro no céu” começa quando, na terra, ninguém é considerado descartável e os bens da criação deixam de ser privilégio de poucos para se tornarem dom partilhado por todos.


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