Deus nos chama a partir da história – Parte 39: Matias, o chamado que nasceu de uma ausência

Por Karina Moreti

Nós terminamos a história dos Doze lembrando que eles nunca foram os únicos discípulos de Jesus. Havia mulheres e homens que caminhavam com ele, pessoas que escutaram seus ensinamentos, testemunharam seus gestos, acompanharam seus passos e fizeram parte daquela comunidade que se formava ao redor do Mestre. Os Doze possuíam uma função própria dentro desse grupo, uma missão específica que estava ligada à identidade do novo povo de Deus. Agora chegou o momento de provar essa afirmação. E talvez nenhum personagem seja tão adequado para isso quanto Matias.

A história de Matias começa justamente quando uma ausência precisa ser enfrentada. Judas havia deixado o grupo dos Doze, e a comunidade reunida em Jerusalém compreendeu que aquela ausência não poderia simplesmente permanecer como um vazio. Pedro toma a palavra diante de aproximadamente cento e vinte pessoas e apresenta a necessidade de recompor o número dos Doze (cf. At 1,15-26). A cena é importante porque revela algo que muitas vezes passa despercebido: os Doze estavam inseridos em uma comunidade muito maior. Quando Pedro fala, não está diante de apenas onze apóstolos. Está diante de uma assembleia de discípulos e discípulas, testemunhas da caminhada de Jesus e membros da primeira comunidade cristã.

A narrativa de Atos nos oferece, assim, uma imagem muito diferente daquela que poderíamos construir se imaginássemos Jesus caminhando apenas com os Doze. O próprio Evangelho de Lucas já havia estabelecido essa distinção. Antes de escolher os apóstolos, Jesus reúne seus discípulos e, depois de uma noite de oração, escolhe dentre eles doze, aos quais dá o nome de apóstolos (cf. Lc 6,12-16). A sequência da narrativa é significativa: primeiro estão os discípulos; dentre eles, são escolhidos os Doze. O grupo dos apóstolos, portanto, não se confundia com a totalidade daqueles que seguiam Jesus. Os Doze constituíam um grupo específico, chamado para uma missão particular dentro de uma comunidade de discípulos muito mais ampla.

É justamente essa distinção que a escolha de Matias torna ainda mais evidente. Quando a comunidade se reúne depois da ascensão de Jesus para enfrentar a ausência deixada por Judas, Pedro não procura simplesmente alguém entre os onze que haviam permanecido. Ele apresenta à comunidade critérios muito precisos: o novo apóstolo deveria ser alguém que tivesse acompanhado Jesus desde o batismo de João até a ascensão e que pudesse, juntamente com os demais, tornar-se testemunha de sua ressurreição (cf. At 1,21-22). A exigência revela que havia, entre os discípulos que acompanhavam Jesus, pessoas que não pertenciam aos Doze, mas que haviam percorrido com ele todo o caminho e eram reconhecidas pela comunidade como testemunhas de sua vida e de sua ressurreição. Matias surge justamente desse círculo mais amplo de discípulos e, por sua fidelidade ao caminho percorrido, é chamado a assumir uma responsabilidade que até então pertencia aos Doze.

A história de Matias, portanto, não apenas preenche a ausência deixada por Judas; ela confirma algo que a narrativa dos Evangelhos já havia apresentado: os Doze eram um grupo específico dentro de uma comunidade muito maior de discípulos, e ser escolhido entre eles não significava ser maior do que os demais, mas assumir uma responsabilidade maior diante de todos.

Pedro não propõe uma escolha baseada em prestígio, riqueza, posição social ou capacidade de liderança. Não procura alguém que tenha construído uma reputação religiosa. O critério apresentado é outro: “É necessário, pois, que, dentre os homens que nos acompanharam durante todo o tempo em que o Senhor Jesus viveu entre nós, a começar pelo batismo de João até o dia em que foi levado para o céu, um deles se torne conosco testemunha da sua ressurreição” (cf. At 1,21-22). Matias, portanto, precisava apresentar um verdadeiro “curriculum” de discipulado. Não bastava querer ocupar o lugar deixado por Judas. Era necessário ter estado no caminho.

A exigência é reveladora. Para participar do grupo dos Doze, era necessário ter acompanhado Jesus desde o início de sua vida pública até sua ascensão. O candidato deveria conhecer a história por experiência própria. Precisava ter ouvido Jesus, visto seus gestos, atravessado os caminhos da Galileia e da Judeia e permanecido próximo até os acontecimentos pascais. A escolha não nasce simplesmente de uma votação sobre quem seria mais capaz. Ela nasce da necessidade de preservar uma memória viva. O novo apóstolo deveria ser, antes de tudo, uma testemunha.

E aqui encontramos uma das provas mais bonitas de que os Doze não eram os únicos discípulos de Jesus. Pedro apresenta dois nomes: José, chamado Barsabás, também conhecido como Justo, e Matias. Os dois são considerados aptos. Isso significa que existiam pessoas fora do grupo original dos Doze que haviam acompanhado Jesus durante todo o seu ministério e que eram reconhecidas pela comunidade como testemunhas qualificadas de sua vida e ressurreição. A história de Matias, portanto, revela aquilo que havíamos afirmado anteriormente: o discipulado de Jesus era muito maior do que os Doze.

A escolha de Matias acontece dentro dessa comunidade ampla. Depois de apresentarem os dois candidatos, os discípulos rezam: “Senhor, tu conheces o coração de todos. Mostra-nos qual destes dois tu escolheste” (At 1,24). O detalhe é fundamental. A comunidade não pede simplesmente que Deus confirme a preferência de seus membros. Pede que Deus revele quem deve assumir aquela responsabilidade. Em seguida, lançam sortes, e Matias é associado aos onze apóstolos (cf. At 1,26).

Talvez seja justamente aqui que precisemos corrigir uma ideia que atravessou séculos de interpretação cristã. Ser escolhido entre os Doze não significava ser colocado acima dos demais discípulos. Não significava possuir uma dignidade espiritual superior, tornar-se dono da comunidade ou receber um lugar de honra para ser admirado. A escolha significava receber uma missão. O chamado não criava superioridade; criava responsabilidade.

Na lógica do Evangelho, ocupar um lugar de maior responsabilidade deveria significar assumir uma disposição ainda maior para o serviço. Jesus havia ensinado aos seus discípulos que, entre eles, não deveria funcionar a lógica dos governantes que dominam os povos. “Vocês sabem: aqueles que se dizem governadores das nações têm poder sobre elas, e os seus dirigentes têm autoridade sobre elas. Mas entre vocês não deverá ser assim: quem de vocês quiser ser grande, deve tornar-se o servidor de vocês, e quem de vocês quiser ser o primeiro, deverá tornar-se o servo de todos. Porque o Filho do Homem não veio para ser servido.” ensinara o Mestre (Mc 10,42-45). A autoridade cristã, portanto, não deveria reproduzir as estruturas de poder conhecidas no mundo. Quanto maior a responsabilidade recebida, maior deveria ser a disposição para servir.

Matias não é escolhido para receber privilégios. É escolhido para carregar uma memória. Ele deverá testemunhar aquilo que viu e viveu, ajudando a comunidade a manter viva a história de Jesus. Seu lugar entre os Doze não representa uma promoção pessoal; representa uma responsabilidade comunitária. Ele passa a fazer parte de um grupo cuja função é testemunhar que aquilo que Deus realizou em Jesus não terminou com a morte na cruz.

Existe algo profundamente bonito no modo como Matias entra na história. Ele não aparece procurando um lugar entre os Doze, não encontramos discursos seus reivindicando reconhecimento e tampouco conhecemos detalhes de sua vida anterior ou de seus feitos posteriores. Sabemos apenas que ele estava entre aqueles que haviam acompanhado Jesus desde o início de sua missão e que, quando chegou o momento de recompor o grupo dos Doze, sua caminhada foi reconhecida pela comunidade como testemunho suficiente para uma nova responsabilidade. Depois de Atos 1, porém, o texto bíblico praticamente silencia sobre ele. Seu nome permanece ligado àquele único momento em que uma comunidade ferida pela ausência de Judas precisou discernir quem poderia continuar uma missão que não deveria ser interrompida. E talvez seja justamente nesse silêncio que esteja uma das maiores riquezas de sua história, porque Matias nos recorda que nem toda vocação precisa ser acompanhada de visibilidade, grandes discursos ou feitos extraordinários para ser verdadeira; há chamados que encontram sua grandeza justamente na fidelidade de quem permanece disponível quando a história precisa de alguém para servir.

Vivemos em uma cultura que frequentemente associa vocação a visibilidade. Parece necessário aparecer, falar, produzir, ser reconhecido, construir uma imagem e deixar marcas que possam ser vistas por todos. Matias nos apresenta outra possibilidade. Há chamados que não nos colocam no centro da narrativa. Há pessoas cuja missão é indispensável mesmo quando seus nomes quase não aparecem. Há serviços que sustentam uma comunidade sem jamais receber aplausos.

Matias nos lembra que o tamanho da missão não pode ser medido pelo tamanho da fama. A comunidade precisava de alguém que tivesse acompanhado Jesus desde o começo, e Matias estava ali. Talvez nunca saibamos quantas vezes falou, quantas pessoas conheceu ou quantos acontecimentos protagonizou, porque a narrativa bíblica não se preocupa em registrar esses detalhes. O que sabemos é que ele permaneceu no caminho e, quando chegou o momento em que sua presença se tornou necessária, estava preparado para assumir uma nova responsabilidade. Ele não foi escolhido porque apareceu de repente na história; sua escolha foi precedida por uma longa caminhada de discipulado. Ele havia seguido Jesus, compartilhado os caminhos do Mestre e permanecido entre aqueles que testemunharam sua missão. Quando a comunidade precisou discernir quem poderia assumir o lugar deixado por Judas, essa trajetória silenciosa adquiriu um novo significado: aquilo que durante tanto tempo parecia apenas uma caminhada de discípulo tornou-se preparação para uma responsabilidade maior.

Essa perspectiva transforma nossa compreensão de vocação. Deus não chama apenas aqueles que parecem extraordinários aos olhos humanos, nem reserva sua missão para quem já ocupa lugares de destaque. Muitas vezes, chama justamente aqueles que permaneceram fiéis quando ninguém os observava, pessoas que caminharam durante anos sem imaginar que aquilo que estavam vivendo um dia poderia se tornar necessário para uma missão maior. Matias talvez jamais tenha pensado que seria escolhido para ocupar um lugar entre os Doze, mas sua fidelidade cotidiana o havia preparado para aquele momento. O chamado, portanto, não começa necessariamente quando alguém é nomeado; muitas vezes, começa muito antes, no silêncio de uma caminhada que ninguém vê, mas que Deus conhece.

A história de Matias também nos obriga a olhar novamente para os Doze. Eles eram importantes, sim. Sua escolha por Jesus possuía um significado profundo. O número doze remetia às doze tribos de Israel e expressava a esperança de uma renovação do povo de Deus. Eles receberam uma missão particular e foram enviados como testemunhas. Entretanto, sua importância não os transformava em uma elite separada da comunidade. Pelo contrário: quanto mais específica era sua missão, maior era a responsabilidade de colocar a própria vida a serviço do povo.

O Evangelho não apresenta o chamado como uma escada na qual alguns sobem enquanto outros permanecem abaixo. Apresenta-o como uma responsabilidade que se amplia. Quem recebe mais deve servir mais. Quem é colocado à frente deve estar disposto a caminhar com os outros. Quem recebe autoridade precisa lembrar que a autoridade, no seguimento de Jesus, encontra seu sentido no serviço.

Matias entra, portanto, não para ocupar um trono, mas para assumir uma tarefa. Não para ser maior do que os demais discípulos, mas para servir à missão que Jesus havia confiado àquela comunidade. Seu chamado não lhe entrega um privilégio; coloca sobre seus ombros uma responsabilidade. Talvez seja justamente por isso que sua história seja tão importante para nós, porque muitas vezes imaginamos que o chamado de Deus deveria vir acompanhado de reconhecimento, visibilidade ou algum lugar de destaque. Matias aparece na história para nos lembrar de outra possibilidade: há vocações que nascem da necessidade, que surgem quando alguém precisa assumir uma responsabilidade deixada em aberto, preencher uma ausência e ajudar uma comunidade a seguir adiante. Nem todo chamado conduz ao centro. Alguns nos colocam exatamente onde a missão precisa de nós.

A comunidade dos cento e vinte revela ainda algo fundamental sobre a Igreja nascente. Ela era muito maior do que os Doze. Ali estavam homens e mulheres que haviam acompanhado Jesus, testemunhado sua vida, sua morte e sua ressurreição e, de diferentes maneiras, guardavam a memória do Mestre. Os Doze possuíam uma função específica, ligada à continuidade do testemunho apostólico, mas a missão de anunciar Cristo nunca esteve confinada àquele pequeno grupo. A memória de Jesus era sustentada por uma comunidade inteira. Por isso, a escolha de Matias não representa a criação de uma elite espiritual. A comunidade não está procurando alguém para ocupar uma posição de prestígio, mas alguém capaz de assumir uma responsabilidade concreta diante de uma ruptura que havia atingido o próprio coração daquele grupo. Judas havia partido, um lugar permanecia vazio e era preciso discernir como aquela ausência seria enfrentada para que a missão pudesse continuar.

É nesse espaço que Matias aparece. Sua importância não está em alguma qualidade extraordinária que o texto bíblico faça questão de destacar, nem em uma trajetória pública conhecida por todos. Ao contrário, quase nada sabemos sobre ele. Sabemos, porém, que havia acompanhado Jesus desde o início e que permanecera entre aqueles que testemunharam sua caminhada até a ressurreição. Antes de ser escolhido, já era testemunha; antes de receber uma função, já fazia parte daquela história. Sua vocação, portanto, não começa quando seu nome é colocado entre os Doze. A escolha apenas torna visível uma caminhada que já vinha acontecendo em silêncio. Não foi chamado porque fosse mais importante, mais famoso ou mais poderoso do que os outros, mas porque sua história o havia preparado para servir naquele momento concreto da comunidade.

Talvez esteja aí a grande beleza da vocação de Matias: ele não foi chamado para ser maior; foi chamado para continuar. Continuar a memória de Jesus, o testemunho apostólico e a missão de uma comunidade que precisava seguir depois de uma perda. Aquilo que parecia ameaçado pela traição e pela ausência encontraria nele uma resposta de fidelidade. Sua presença mostra que existem vocações cuja grandeza está justamente em sustentar uma história que já começou, acolher uma missão que precisa permanecer viva e oferecer os próprios passos para que o caminho siga aberto. Há momentos em que Deus nos chama a sustentar o que foi construído, a permanecer quando outros caminhos chegam ao fim e a cuidar dos frutos que nasceram antes de nós. A missão também se realiza assim: por meio de pessoas que aceitam continuar uma obra maior do que seu próprio nome e colocam sua vida a serviço daquilo que precisa permanecer vivo.

Essa dimensão da vocação talvez seja especialmente importante para nós porque vivemos em uma cultura que frequentemente associa chamado, sucesso e visibilidade. Esperamos que aquilo que fazemos seja reconhecido, que nossa presença seja percebida e que nossa contribuição tenha nosso nome associado. A história de Matias aponta para uma lógica diferente. Seu nome aparece quando outro nome já não podia permanecer entre os Doze, e sua missão não consiste em apagar a história de Judas nem em ocupar um espaço de honra, mas em responder à necessidade concreta de uma comunidade que precisava continuar caminhando. Sua vocação nasce de uma ausência, mas não fica aprisionada nela. O que define Matias não é o lugar que ficou vazio, e sim a disponibilidade de colocar a própria vida a serviço daquilo que precisava prosseguir.

É assim que sua história deixa de ser apenas uma pequena passagem dos Atos dos Apóstolos e se transforma em uma imagem de tantas vocações silenciosas que sustentam a vida da Igreja. Existem pessoas que iniciam caminhos e são lembradas por isso; existem outras que chegam quando o caminho já foi aberto e recebem a tarefa de fazê-lo continuar. Existem pessoas cujo nome permanece na memória de todos e outras cuja contribuição quase desaparece atrás da missão que ajudaram a sustentar. Matias pertence a esse segundo grupo. Sua grandeza não está naquilo que conquistou para si, mas naquilo que aceitou carregar em favor da comunidade. Ele nos recorda que uma vocação não se mede pela quantidade de pessoas que conhecerão nosso nome, mas pela fidelidade com que respondemos àquilo que Deus coloca diante de nós.

Por isso, nenhuma ausência precisa significar o fim de uma missão. Quando uma história parece ter chegado ao vazio, Deus pode chamar alguém que já estava caminhando em silêncio; alguém que talvez nunca tenha imaginado ocupar aquele lugar, mas que estava preparado para servir quando a comunidade precisasse. Matias foi chamado quando uma ausência precisava ser enfrentada, e sua história nos ensina que a vocação nem sempre consiste em ocupar um lugar de honra. Às vezes, Deus nos chama para assumir um lugar de serviço, justamente porque alguma coisa precisa continuar depois, através ou apesar de nós. Matias não entrou para ocupar o lugar de alguém. Entrou para que a missão não parasse.


Karina Moreti: é bacharel em Teologia pela Universidade Católica Dom Bosco (2022) e em Comunicação Social – Jornalismo, pelo Centro Universitário Sagrado Coração (2007). Atualmente é jornalista do Blog Eclesialidade & Missão, e assessora movimentos eclesiais. Tem experiência na área de jornalismo impresso, jornalismo televisivo, jornalismo radiofônico e em jornalismo nas redes sociais e blogs. Em teologia, dedica-se ao estudo das Sagradas Escrituras.


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