Por Pe. Hermes A. Fernandes
Há uma parte da história da Igreja que raramente ocupa os livros oficiais, mas que está gravada na memória dos povos, especialmente na América Latina. É a história das mulheres que, durante décadas, mantiveram viva a chama da fé onde os padres chegavam apenas algumas vezes por ano — ou sequer chegavam.
Foram elas as catequistas, ministras da Palavra, animadoras das Comunidades Eclesiais de Base, coordenadoras das celebrações dominicais na ausência de presbítero, responsáveis pela preparação dos sacramentos, visitadoras dos enfermos, missionárias populares, líderes das pastorais, educadoras da fé, defensoras da vida e da dignidade humana. Foram elas que abriram as portas das capelas antes do nascer do sol, prepararam o altar, organizaram as festas dos padroeiros, conduziram novenas, círculos bíblicos, grupos de reflexão e mutirões solidários.
Enquanto muitos olham a história da Igreja apenas pelos nomes dos bispos e padres, a história vivida pelas comunidades é também a história de incontáveis mulheres anônimas. Sem elas, muitas comunidades simplesmente teriam desaparecido.
Nas regiões mais distantes, nos rincões da Amazônia, do sertão nordestino, das periferias urbanas e das pequenas comunidades rurais, a presença sacramental era esporádica. Entretanto, a vida da Igreja não cessava. A comunidade reunia-se ao redor da Palavra de Deus, da oração, da solidariedade e do compromisso com os pobres. Ali, a autoridade não se media pelo poder, mas pelo serviço; não pela instituição do Sacramento da Ordem, mas pelo testemunho.
Essa experiência foi profundamente iluminada pela renovação conciliar inaugurada pelo Concílio Vaticano II e assumida na América Latina pelas Conferências Episcopais de Conferência de Medellín, Conferência de Puebla, Conferência de Santo Domingo e Conferência de Aparecida. Nelas amadureceu a compreensão da Igreja como Povo de Deus, onde todos os batizados e batizadas participam da missão de Cristo e recebem dons do Espírito para a edificação da comunidade.
Foi nesse horizonte que floresceram as Comunidades Eclesiais de Base. Ali, mulheres simples tornaram-se grandes lideranças. Muitas aprenderam a ler tendo a Bíblia nas mãos. Descobriram, na Leitura Popular da Bíblia, que Deus escuta o clamor dos pobres, que a libertação faz parte do projeto divino e que a fé não pode ser separada da justiça.
Não por acaso, muitas dessas mulheres também participaram dos movimentos sociais, dos sindicatos, das associações de moradores, da luta pela terra, pela moradia, pela educação e pela saúde. Para elas, evangelizar significava anunciar o Reino de Deus na vida concreta do povo. A oração conduzia ao compromisso, e o compromisso fortalecia a oração.
Entretanto, é doloroso perceber que, justamente em um tempo em que tanto se fala de participação e sinodalidade, muitas dessas lideranças têm experimentado o silêncio imposto. Em diversas comunidades, mulheres e homens, leigos e leigas, que durante anos sustentaram a missão da Igreja veem seus espaços diminuídos por uma compreensão excessivamente clerical do ministério ordenado.
O clericalismo é uma deformação da própria natureza da Igreja. Quando toda iniciativa precisa passar pelo controle absoluto do ministro ordenado; quando os carismas dos leigos e leigas são recebidos com suspeita; quando a participação é substituída pela obediência passiva; quando a comunidade deixa de ser sujeito para tornar-se apenas destinatária de ordens; perde-se algo essencial do Evangelho.
A autoridade na Igreja nasce do serviço. O próprio Cristo ensinou que “quem quiser ser o maior, seja aquele que serve”. O ministério ordenado existe para promover a comunhão, discernir os carismas, fortalecer a missão e confirmar os irmãos na fé; jamais para monopolizar a ação evangelizadora ou sufocar os dons que o Espírito Santo distribui livremente ao Povo de Deus.
É evidente que muitos padres e bispos vivem seu ministério com espírito evangélico, em profunda comunhão com as comunidades e com sincero respeito ao laicato. Graças a eles, inúmeras experiências de participação continuam florescendo. Contudo, onde prevalece uma lógica autoritária, centralizadora e personalista, as comunidades enfraquecem, os ministérios leigos são desestimulados e muitos acabam afastando-se da vida eclesial.
As mulheres conhecem profundamente essa realidade. Depois de décadas dedicando suas vidas à evangelização, algumas passaram a ser vistas apenas como executoras de tarefas, e não como verdadeiras protagonistas da missão. Seus conhecimentos, sua experiência pastoral e sua autoridade moral, conquistada pelo serviço, muitas vezes são ignorados por estruturas que ainda confundem autoridade com poder.
Fazer memória dessas mulheres é um ato de justiça. Elas são verdadeiras colunas da Igreja latino-americana. São evangelizadoras que, sem buscar reconhecimento, ensinaram gerações inteiras a rezar, a celebrar, a partilhar o pão e a resistir diante das injustiças. Em seus rostos encontramos a continuidade da missão das mulheres que acompanharam Jesus até a cruz, permaneceram junto ao túmulo e foram as primeiras testemunhas da ressurreição.
A Igreja do futuro não nascerá do fortalecimento do clericalismo, mas da conversão pastoral que reconhece cada pessoa batizada como discípula missionária. Quanto mais espaço houver para os carismas, para a corresponsabilidade e para a participação efetiva dos leigos e leigas, mais fiel a Igreja será ao Evangelho.
Que a memória dessas mulheres nos ajude a construir comunidades onde ninguém seja silenciado por exercer os dons que Deus lhe concedeu. Que os ministros ordenados sejam reconhecidos como servidores da comunhão, e que os leigos e leigas possam exercer plenamente sua vocação batismal, sem medo, sem tutela excessiva e sem a permanente necessidade de justificar sua presença.
Afinal, a Igreja não começou com o clericalismo; começou com o Espírito Santo. E o Espírito continua soprando onde quer, chamando homens e mulheres para anunciar o Reino de Deus, servir aos pobres e manter acesa a esperança nas comunidades, mesmo nos lugares mais esquecidos da história.
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