João 20,24-29: A fé que nasce das feridas – uma leitura popular da Bíblia
Por Pe. Hermes A. Fernandes
O episódio de Tomé (Jo 20,24-29) costuma ser conhecido como a história da “incredulidade de Tomé”. Entretanto, uma leitura mais cuidadosa do texto revela que o evangelista João não pretende condenar a dúvida, mas mostrar o caminho pelo qual a comunidade cristã amadurece sua fé. A experiência de Tomé torna-se paradigma para todos aqueles que procuram encontrar o Ressuscitado em meio às feridas da história. Lido à luz da Leitura Popular da Bíblia, este texto deixa de ser apenas uma narrativa sobre um discípulo hesitante e transforma-se em um profundo convite para reconhecer Cristo vivo nas marcas da cruz que permanecem presentes nos pobres, marginalizados e crucificados de todos os tempos.
O contexto da comunidade joanina
O Evangelho de João foi escrito provavelmente entre os anos 90 e 100 d.C., quando a comunidade cristã vivia profundas tensões. Muitos discípulos enfrentavam perseguições, haviam sido expulsos das sinagogas (Jo 9,22; 16,2) e experimentavam conflitos internos acerca da identidade de Jesus.
Além disso, a primeira geração de testemunhas oculares estava desaparecendo. Os cristãos das décadas finais do primeiro século já não podiam ver Jesus fisicamente. Surgia então uma pergunta decisiva:
Como acreditar sem ter visto?
É exatamente essa a situação representada por Tomé. Sua experiência é também a experiência da Igreja nascente e, de certo modo, da Igreja de todos os tempos.
Tomé: o discípulo que representa a comunidade
Frequentemente Tomé é apresentado como símbolo da falta de fé. Contudo, João lhe confere um papel muito mais rico.
Tomé não rejeita Jesus. Ele deseja uma experiência autêntica. Não aceita uma fé construída apenas sobre relatos de terceiros. Quer encontrar pessoalmente o Ressuscitado. Sua exigência de tocar as feridas não nasce da arrogância, mas do desejo profundo de reconhecer que aquele que venceu a morte é o mesmo que foi crucificado.
Na perspectiva joanina, a Ressurreição não elimina a cruz. As chagas permanecem. O Ressuscitado conserva em seu corpo os sinais da violência sofrida.
Esse detalhe possui enorme significado teológico.
As feridas permanecem
Quando Jesus aparece novamente, oito dias depois, não repreende Tomé. Ao contrário. Convida-o:
“Põe aqui o teu dedo. Vê as minhas mãos. Estende tua mão e coloca-a no meu lado.”
O Ressuscitado não esconde suas feridas. A vitória da vida não apaga a memória da injustiça. As marcas dos cravos continuam presentes porque fazem parte da história da salvação.
Na Leitura Popular da Bíblia, essa imagem adquire enorme força. Cristo continua ressuscitado. Mas continua também marcado pelas feridas da humanidade.
Cada pessoa humilhada.
Cada vítima da fome.
Cada jovem assassinado pela violência.
Cada povo indígena ameaçado.
Cada comunidade negra vítima do racismo.
Cada mulher submetida à violência.
Cada migrante rejeitado.
Cada pessoa em situação de rua.
Cada trabalhador explorado.
São hoje as feridas do Cristo vivo.
Quem deseja encontrar o Ressuscitado precisa aproximar-se dessas chagas.
“Meu Senhor e meu Deus!”
A profissão de fé de Tomé constitui o ponto mais alto de todo o Evangelho de João. Até então ninguém havia chamado Jesus dessa maneira. Tomé não chega à fé apesar das feridas. Ele chega justamente por meio delas. É diante das marcas da cruz que reconhece plenamente quem é Jesus. Esse detalhe muda completamente a compreensão do texto. A verdadeira fé cristã não nasce de experiências espetaculares. Ela nasce quando reconhecemos Deus presente na humanidade ferida.
“Felizes os que acreditaram sem terem visto”
Essa frase não diminui Tomé. Ao contrário.Ela abre o horizonte para todas as gerações futuras.
João escreve para comunidades que nunca viram Jesus fisicamente. Sua fé dependerá do testemunho da comunidade. Mas existe um aspecto importante. Os cristãos continuam podendo “ver” Jesus. Não com os olhos da carne. Mas através dos sinais do Reino.
Jesus permanece presente:
- na Palavra proclamada;
- na comunidade reunida;
- na fração do pão;
- nos pequenos;
- nos pobres;
- nos que sofrem.
É exatamente aí que o Ressuscitado continua sendo encontrado.
Uma leitura latino-americana
Na América Latina convivemos diariamente com inúmeras formas de crucificação.
As periferias marcadas pela violência.
As crianças privadas da alimentação adequada.
Os povos indígenas expulsos de seus territórios.
As populações negras submetidas ao racismo estrutural.
Os trabalhadores explorados.
Os migrantes.
As vítimas do tráfico humano.
Os idosos abandonados.
Os dependentes químicos esquecidos.
As famílias desalojadas.
Todas essas realidades revelam que a cruz ainda permanece presente na história. A Leitura Popular da Bíblia convida-nos a reconhecer que essas feridas não são apenas problemas sociais. São também lugares teológicos. É nelas que Cristo continua esperando ser encontrado.
A fé cristã não pode limitar-se ao culto nem reduzir-se à repetição de fórmulas doutrinais. Ela se torna autêntica quando leva a comunidade a aproximar-se das dores concretas do povo e a comprometer-se com sua transformação. Assim como Tomé encontrou o Ressuscitado ao tocar suas chagas, também a Igreja reconhece a presença de Cristo quando se deixa tocar pelas feridas dos pobres e se coloca ao seu lado na defesa da vida, da dignidade e da justiça.
A dimensão comunitária da fé
Há um detalhe frequentemente esquecido. Tomé só encontra Jesus quando retorna à comunidade. Na semana anterior ele estava ausente. Agora volta. E justamente na comunidade faz sua experiência do Ressuscitado.
João ensina que a fé não é uma construção individual. O encontro com Cristo acontece no meio da Igreja reunida. É nas comunidades que a Palavra é partilhada, que o pão é repartido e que a esperança resiste às perseguições.
Essa realidade continua profundamente atual.
As Comunidades Eclesiais de Base, as pastorais sociais, os grupos bíblicos, os movimentos populares e tantas outras expressões da Igreja tornam-se espaços privilegiados onde o Ressuscitado continua manifestando sua presença através da solidariedade, da partilha e da organização do povo.
Desafios pastorais
João 20,24-29 desafia a Igreja a acolher aqueles que vivem momentos de dúvida, sofrimento ou busca sincera, sem transformá-los em objeto de condenação. A dúvida de Tomé é recebida por Jesus com paciência e proximidade, revelando que uma comunidade evangelizadora deve ser também um espaço de escuta, diálogo e acompanhamento.
Ao mesmo tempo, o texto recorda que a missão da Igreja não consiste apenas em anunciar que Cristo ressuscitou, mas em tornar visível essa Ressurreição através de gestos concretos de misericórdia e compromisso com a justiça. Cada pastoral que acolhe os esquecidos, cada comunidade que luta contra a fome, que promove a educação popular, defende os direitos humanos ou fortalece iniciativas de economia solidária manifesta, na prática, que o Ressuscitado continua agindo na história.
Finalmente, o Evangelho convida a superar uma espiritualidade alienante. A verdadeira experiência pascal não afasta os cristãos das dores do mundo; ao contrário, leva-os ao encontro das feridas da humanidade, onde Cristo continua presente. A pastoral inspirada por João deve formar discípulos capazes de unir contemplação e compromisso, oração e transformação social, fé e serviço aos mais vulneráveis.
Conclusão
João 20,24-29 apresenta Tomé não como exemplo de incredulidade, mas como símbolo de uma fé madura, que deseja encontrar o Ressuscitado sem ignorar a realidade da cruz. As feridas de Jesus permanecem abertas porque Deus não apaga a memória do sofrimento humano; Ele a assume e a transforma em fonte de vida nova.
À luz da Leitura Popular da Bíblia, este Evangelho convida a Igreja latino-americana a reconhecer as chagas de Cristo nos pobres, nos marginalizados e em todos os que têm sua dignidade ferida pelas estruturas de injustiça. Encontrar o Ressuscitado significa tocar essas feridas com compaixão, solidariedade e compromisso transformador. Assim, a profissão de fé de Tomé — “Meu Senhor e meu Deus!” — deixa de ser apenas uma declaração individual e torna-se uma confissão vivida na prática da justiça, da fraternidade e da esperança, onde a Ressurreição continua florescendo no meio do povo.
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