Reflexão para Quarta-feira da 14ª Semana do Tempo Comum – (Mateus 10,1-7)

Mateus 10,1-7: O chamado para uma missão libertadora: uma leitura à luz da Teologia Latino-americana e da Leitura Popular da Bíblia

Por Pe. Hermes A. Fernandes

Introdução

O Evangelho de Mateus 10,1-7 marca um momento decisivo na narrativa mateana. Depois de contemplar as multidões “cansadas e abatidas, como ovelhas sem pastor” (Mt 9,36), Jesus deixa de ser o único protagonista da missão e chama outros para continuarem sua obra. O Reino de Deus não depende exclusivamente da ação de um líder extraordinário, mas nasce da organização de uma comunidade de discípulos enviados para transformar a realidade.

Na perspectiva da Teologia Latino-americana, este texto revela uma profunda dimensão eclesiológica. A missão nasce da compaixão diante do sofrimento humano e não da busca de prestígio religioso. O discipulado não consiste em ocupar espaços de poder, mas em colocar-se ao lado dos pobres, dos marginalizados e dos excluídos.

A Leitura Popular da Bíblia, inspirada por biblistas como Carlos Mesters, Pablo Richard e tantos agentes das Comunidades Eclesiais de Base, ensina que a Palavra de Deus só encontra sua plena realização quando ilumina a vida concreta do povo e fortalece sua caminhada histórica.

O contexto histórico do Evangelho de Mateus

O Evangelho de Mateus foi escrito entre os anos 80 e 90 d.C., provavelmente na região da Síria, quando as comunidades cristãs enfrentavam profundas tensões após a destruição de Jerusalém no ano 70.

A queda do Templo provocou uma grande reorganização do judaísmo. Os fariseus passaram a reconstruir a identidade religiosa do povo judeu, enquanto os cristãos eram progressivamente expulsos das sinagogas.

Ao mesmo tempo, o Império Romano consolidava sua dominação política, econômica e militar sobre a Palestina. Os impostos aumentavam, os camponeses perdiam suas terras e crescia o número de pessoas vivendo na miséria.

É neste cenário que Mateus apresenta Jesus organizando uma nova comunidade. Não se trata apenas de uma reforma religiosa, mas do surgimento de um novo povo cuja identidade é construída pela prática da justiça, da misericórdia e da solidariedade.

“Chamou os seus doze discípulos”

O número doze não aparece por acaso. Na tradição bíblica, as doze tribos representavam todo o povo de Israel. Ao escolher doze discípulos, Jesus anuncia simbolicamente a restauração do povo de Deus. Não é uma restauração baseada no poder político nem na pureza ritual, mas na comunhão entre pessoas muito diferentes.

Entre os Doze encontramos:

  • pescadores;
  • um cobrador de impostos;
  • um zelota (ligado aos movimentos nacionalistas);
  • homens simples da Galileia.

São pessoas provenientes de mundos políticos e sociais distintos. A missão do Reino começa justamente reunindo aqueles que normalmente estariam divididos.

Aqui já encontramos uma crítica muito atual.

Nossa sociedade vive profundamente polarizada. Também dentro da Igreja surgem divisões ideológicas, políticas e pastorais. Jesus não escolhe pessoas iguais. Escolhe pessoas capazes de aprender a viver como irmãos.

A unidade do Reino nasce da comunhão e não da uniformidade!

“Deu-lhes autoridade”

O texto afirma que Jesus lhes concede autoridade sobre os espíritos impuros e sobre todas as doenças. A palavra grega utilizada é exousía. Ela significa autoridade legítima. Não é poder de dominação.

Na cultura romana, autoridade era exercer controle. Em Jesus, autoridade significa devolver dignidade às pessoas.

Expulsar espíritos impuros não se reduz a fenômenos individuais. Na linguagem bíblica, os espíritos representam também todas as forças que desumanizam:

  • injustiça;
  • violência;
  • exclusão;
  • fome;
  • exploração econômica;
  • opressão religiosa.

Curar significa restaurar integralmente a vida. Por isso, José Comblin insistia que evangelizar é libertar o ser humano das estruturas que produzem morte.

A missão da Igreja não pode limitar-se ao culto. Ela deve tornar-se presença libertadora na história.

A lista dos doze

Mateus faz questão de nomear cada discípulo. Na Bíblia, conhecer o nome significa reconhecer a dignidade da pessoa. Nenhum discípulo é anônimo. Nenhum é descartável.

Entre eles aparece Judas Iscariotes. Mesmo aquele que irá trair faz parte da comunidade. Mateus não idealiza a Igreja. A comunidade dos discípulos é santa porque Deus nela atua. Mas continua profundamente humana. Isso impede qualquer visão triunfalista da Igreja.

A missão não é realizada por pessoas perfeitas. É realizada por pessoas disponíveis.

“Não tomeis o caminho dos pagãos”

Este trecho frequentemente gera dificuldades. Por que Jesus limita inicialmente a missão? A resposta está no próprio desenvolvimento do Evangelho. Após a Ressurreição, Jesus enviará os discípulos “a todas as nações” (Mt 28,19). Aqui, porém, a missão começa por Israel.

Do ponto de vista histórico, Jesus inicia sua ação entre seu próprio povo. Do ponto de vista teológico, Deus parte sempre da realidade concreta. A evangelização nunca acontece no abstrato. Ela começa onde a vida está ameaçada.

Hoje isso significa começar pelas periferias.
Começar pelas comunidades esquecidas.
Começar pelos pobres.
Começar onde o sofrimento humano é maior.

É exatamente isso que recorda a Conferência de Aparecida ao afirmar que os pobres não são apenas destinatários da missão, mas sujeitos da evangelização.

“Ide às ovelhas perdidas”

As ovelhas perdidas representam aqueles abandonados pelos dirigentes religiosos. Não são pessoas moralmente perdidas. São pessoas socialmente excluídas.

Jesus não culpabiliza os pobres. Ele denuncia o abandono produzido pelas lideranças. Esta é uma das maiores contribuições da Teologia Latino-americana.

A pobreza não é vontade de Deus.
Ela possui causas históricas.
Ela nasce de estruturas injustas.

Como afirmava José Comblin, Deus não quer a pobreza; quer os pobres vivendo plenamente.

Da mesma forma, Gustavo Gutiérrez lembrava que a opção preferencial pelos pobres nasce do próprio Evangelho.

Não se trata de ideologia. Trata-se da lógica da Encarnação. Deus fez sua morada entre os pequenos.

“O Reino dos Céus está próximo”

Este é o centro da missão.

O Reino não significa fuga para o céu. Na linguagem judaica, Reino significa o governo de Deus acontecendo na história. Uma tradução melhor seria governança. Quando essa governança de Deus acontece?

Quando um doente recupera sua dignidade…
Quando um pobre conquista seus direitos…
Quando uma mulher deixa de sofrer violência…
Quando um povo conquista liberdade…
Quando uma criança pode crescer com dignidade…
O Reino torna-se visível.

Por isso, anunciar o Reino implica denunciar tudo aquilo que contradiz o projeto de Deus. A neutralidade diante da injustiça jamais foi uma característica da missão de Jesus.

Atualização de Mt 10,1-7 para a América Latina

Nossa realidade continua marcada por profundas desigualdades. Milhões de pessoas vivem sem acesso adequado:

  • à terra;
  • à educação;
  • à saúde;
  • ao trabalho digno;
  • à moradia;
  • à segurança alimentar.

Ao mesmo tempo, cresce uma religiosidade individualista, frequentemente preocupada apenas com prosperidade pessoal.

Mateus apresenta outra lógica. A missão nasce do encontro com o sofrimento coletivo.

O discípulo não pergunta:
“Como posso salvar minha alma?”

Pergunta:
“Como posso colaborar para que o Reino transforme esta realidade?”

É exatamente essa espiritualidade que inspira tantas pastorais sociais, comunidades de base, movimentos populares e iniciativas missionárias espalhadas pela América Latina.

Pistas pastorais

Este Evangelho desafia nossas comunidades a assumirem algumas atitudes concretas.

Primeiro, formar discípulos missionários comprometidos com a realidade social.

Segundo, compreender que evangelização e promoção da dignidade humana caminham juntas.

Terceiro, fazer das paróquias verdadeiros espaços de acolhida dos pobres.

Quarto, fortalecer pequenas comunidades onde a Palavra seja lida a partir da vida.

Quinto, reconhecer que os pobres não são objeto de caridade, mas protagonistas da evangelização.

Por fim, cultivar uma espiritualidade profundamente encarnada.

Rezar sem compromisso com a justiça torna-se alienação.

Agir sem oração perde a fonte da esperança.

A missão exige ambas.

Conclusão

Mateus 10,1-7 continua sendo um chamado profundamente atual. Jesus reúne pessoas comuns e lhes confia uma tarefa extraordinária: tornar visível o Reino de Deus na história. A autoridade recebida não é para dominar, mas para servir. A missão não busca privilégios, mas proximidade. O anúncio não consiste apenas em palavras, mas na reconstrução da vida onde ela foi ferida.

Na perspectiva da Teologia Latino-americana, este Evangelho recorda que a Igreja é autenticamente missionária quando caminha ao lado dos pobres, escuta seu clamor e participa da construção de uma sociedade mais justa, fraterna e solidária.

A Leitura Popular da Bíblia nos ensina que este texto continua acontecendo hoje. Sempre que uma comunidade se organiza para defender os direitos dos excluídos, visitar os enfermos, acolher os migrantes, lutar pela paz, enfrentar as estruturas de morte e anunciar a esperança do Evangelho, o mandato de Jesus permanece vivo.

O Reino dos Céus continua próximo, não porque o mundo esteja pronto, mas porque Deus continua enviando homens e mulheres dispostos a fazer da própria vida um sinal de sua presença libertadora.


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