Por Pe. Hermes A. Fernandes
Introdução
O capítulo 13 do Evangelho de Mateus marca uma mudança significativa no ministério de Jesus. Depois de enfrentar crescente oposição das autoridades religiosas e incompreensão por parte de muitos, Jesus passa a ensinar por meio de parábolas. Entre elas, a Parábola do Semeador (Mt 13,1-23) ocupa lugar privilegiado, pois apresenta não apenas uma imagem do Reino de Deus, mas também uma reflexão sobre as condições históricas e sociais para que esse Reino produza frutos.
Durante muito tempo, essa parábola foi interpretada de maneira moralizante, concentrando-se na responsabilidade individual de “ser boa terra”. Embora essa dimensão tenha seu valor, a Leitura Popular da Bíblia e a Teologia Latino-americana convidam a uma compreensão mais ampla: a qualidade do terreno não depende apenas da disposição pessoal, mas também das estruturas sociais, econômicas, políticas e religiosas que condicionam a vida das pessoas.
A Palavra de Deus não encontra obstáculos apenas no coração humano, mas também nas formas de opressão que impedem a vida de florescer.
O contexto histórico de Mateus
O Evangelho de Mateus foi escrito provavelmente entre os anos 80 e 90 d.C., quando as comunidades cristãs enfrentavam profundas dificuldades. Jerusalém havia sido destruída pelos romanos em 70 d.C., o Templo estava em ruínas, e o judaísmo reorganizava sua identidade em torno das sinagogas.
As comunidades mateanas eram compostas principalmente por judeus que reconheceram Jesus como o Messias. Sofriam perseguições externas e conflitos internos. Além disso, viviam sob o peso do Império Romano, responsável por elevada tributação, concentração de terras e crescente empobrecimento da população camponesa.
É justamente nesse ambiente que Jesus conta uma história profundamente ligada ao cotidiano dos trabalhadores rurais.
O agricultor que semeia sem medo
Jesus descreve um agricultor lançando sementes em diferentes tipos de terreno. Para quem vive nas cidades modernas, pode parecer estranho lançar sementes antes da preparação completa do solo. Entretanto, na Palestina do século I era comum semear primeiro e arar depois. O agricultor espalhava abundantemente as sementes, confiando que parte delas encontraria condições favoráveis para germinar.
Esse detalhe revela um aspecto importante do Reino de Deus: Deus não distribui sua graça de maneira seletiva.
A Palavra é lançada sobre todos.
Ela alcança ricos e pobres.
Religiosos e pecadores.
Mulheres e homens.
Judeus e estrangeiros.
O Reino começa sempre como dom gratuito.
Os diferentes terrenos: uma leitura social
Na interpretação tradicional, os quatro terrenos representam quatro tipos de pessoas.
A Leitura Popular da Bíblia amplia essa compreensão.
A beira do caminho
O caminho endurecido representa pessoas cuja vida foi marcada pela exclusão.
São trabalhadores explorados, famílias expulsas de suas terras, populações indígenas, comunidades quilombolas, moradores das periferias urbanas e tantos outros cuja existência foi endurecida pela violência estrutural.
A Palavra chega, mas outras forças roubam rapidamente sua esperança.
O problema não é a falta de fé. É a dureza produzida pela injustiça.
O terreno pedregoso
As pedras simbolizam superficialidade, mas também falta de condições para criar raízes.
Quantas comunidades desejam viver o Evangelho, porém enfrentam desemprego, fome, violência policial, ausência de políticas públicas, intolerância religiosa e insegurança permanente?
Nessas circunstâncias, perseverar exige muito mais do que boa vontade. A missão pastoral não consiste apenas em pedir perseverança, mas em remover as pedras que impedem a vida.
Os espinhos
Jesus identifica claramente os espinhos:
“As preocupações do mundo e a sedução das riquezas.”
Na sociedade atual, os espinhos assumem muitas formas:
- o consumismo;
- o individualismo;
- a lógica neoliberal que transforma pessoas em mercadorias;
- a concentração de renda;
- a destruição ambiental;
- a idolatria do mercado;
- o racismo estrutural;
- o patriarcado;
- todas as formas de exclusão social.
Os espinhos crescem porque encontram apoio em estruturas injustas. Não basta condenar indivíduos gananciosos. É necessário questionar sistemas que produzem desigualdade.
A terra boa
A boa terra não representa pessoas perfeitas. Representa comunidades que conseguem organizar a vida segundo os valores do Reino.
São comunidades solidárias.
Pastorais sociais.
Comunidades Eclesiais de Base.
Movimentos populares.
Grupos que partilham alimentos.
Mutirões.
Economia solidária.
Organizações que defendem direitos humanos.
Onde existe partilha, ali a Palavra produz cem, sessenta e trinta por um.
A abundância da colheita
No contexto agrícola da Palestina, uma produção de dez por um já era considerada excelente. Jesus fala de trinta, sessenta e cem por um. Trata-se de uma colheita extraordinária. O Reino rompe completamente a lógica da escassez.
Enquanto o Império acumula riqueza para poucos, Deus produz abundância para todos. Essa é uma das grandes críticas implícitas da parábola.
O problema da fome nunca foi a falta de alimento. É a má distribuição.
A pedagogia das parábolas
Jesus não utiliza parábolas para esconder a verdade. Utiliza-as para provocar reflexão.
Quem vive comprometido com a justiça compreende seu significado.
Quem está preso aos privilégios frequentemente não consegue enxergar.
As parábolas desestabilizam certezas.
Obrigam o ouvinte a tomar posição.
Por isso continuam tão atuais.
A leitura Latino-americana
A Teologia Latino-americana, desde a Conferência de Medellín (1968), insiste que Deus possui uma opção preferencial pelos pobres. Essa opção não exclui ninguém. Mas começa por aqueles cuja dignidade foi negada.
Teólogos como José Comblin, Gustavo Gutiérrez, Leonardo Boff, Jon Sobrino, Pablo Richard, Elsa Tamez e Carlos Mesters ajudaram a compreender que a Palavra de Deus não pode ser separada da realidade histórica.
Quando Jesus fala dos terrenos, ele fala também das condições concretas da existência humana. Não existe evangelização verdadeira sem compromisso com a justiça. Não existe anúncio do Reino sem enfrentamento das estruturas que produzem morte.
A Leitura Popular da Bíblia
Nas Comunidades Eclesiais de Base, essa parábola costuma suscitar uma pergunta simples:
O que impede hoje que a Palavra produza frutos?
As respostas raramente permanecem no plano individual.
A comunidade identifica:
- a fome;
- o desemprego;
- a violência;
- o racismo;
- o machismo;
- a destruição ambiental;
- a concentração fundiária;
- o abandono das populações tradicionais;
- a criminalização dos movimentos sociais.
Ler a Bíblia torna-se um exercício de discernimento da realidade.
A Palavra ilumina a vida. E a vida ajuda a compreender a Palavra.
Compromissos pastorais
A Parábola do Semeador convida a Igreja a superar uma pastoral preocupada apenas com a transmissão de conhecimento religioso ou a promoção da devoção espiritual. A missão consiste também em preparar o terreno da vida.
Isso implica:
- fortalecer comunidades participativas;
- defender políticas públicas que promovam dignidade;
- apoiar iniciativas de economia solidária;
- incentivar a agroecologia e o cuidado com a Casa Comum;
- acolher migrantes, refugiados e pessoas em situação de rua;
- combater todas as formas de discriminação;
- formar cristãos comprometidos com a justiça social.
A boa terra nasce quando comunidades inteiras cultivam relações de fraternidade.
Conclusão
A Parábola do Semeador permanece como um dos textos mais revolucionários dos Evangelhos. Jesus não descreve um Deus distante que espera resultados individuais. Ele apresenta um Deus generoso que semeia abundantemente, acreditando na capacidade da humanidade de produzir vida nova.
Entretanto, essa vida exige a transformação dos terrenos da história. Não basta pedir conversão pessoal quando milhões continuam vivendo sob estruturas que geram pobreza, violência e exclusão. O Evangelho convida a remover as pedras da injustiça, arrancar os espinhos da opressão e abrir caminhos para que a Palavra frutifique em comunidades comprometidas com a vida.
Na perspectiva da Teologia Latino-americana e da Leitura Popular da Bíblia, a boa terra é aquela onde a fé se traduz em solidariedade, a espiritualidade se converte em compromisso histórico e a esperança se faz prática libertadora. A colheita abundante prometida por Jesus não é privilégio de alguns, mas sinal de um Reino que floresce quando os pobres recuperam sua dignidade, os excluídos encontram lugar à mesa e toda a criação pode participar da plenitude da vida que Deus sonhou para o mundo.
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