Ieshuah caminha em Nossa América

Chamam teu nome pelas montanhas,
Pelos rios feridos e pelas florestas ameaçadas.
Chamam teu nome nas periferias,
Onde o pão é pequeno,
Mas a partilha ainda insiste em ser milagre.

Ieshuah…

Não te encontramos nos palácios,
Nem onde o ouro silencia a verdade.
Tu continuas sentado à mesa dos esquecidos,
Escutando o choro das mães,
Acolhendo a infância sem futuro,
Abençoando mãos calejadas
Que semeiam esperança na terra.

Teus pés continuam cobertos
Pela poeira das estradas latino-americanas.
Pisam o barro das comunidades,
As vielas das cidades,
As aldeias indígenas,
Os quilombos,
Os acampamentos de trabalhadores e trabalhadoras,
Onde teu Evangelho ainda floresce
Como semente teimosa.

Tu nos perguntas, ainda hoje:
“Quem caminhará comigo?”

E respondemos, muitas vezes,
Com palavras bonitas,
Mas com mãos vazias de compromisso.

Perdoa-nos, Ieshuah.

Ensina-nos novamente
Que teu Reino não nasce da força,
Mas da ternura organizada;
Não cresce pela violência,
Mas pela justiça;
Não conquista pela espada,
Mas pela solidariedade.

Faz-nos Igreja de portas abertas,
Capaz de ouvir antes de ensinar,
De servir antes de mandar,
De repartir antes de acumular.

Que nossas comunidades
Tenham cheiro de povo,
Som de crianças brincando,
Rostos enrugados de sabedoria,
Jovens sonhando novos caminhos,
Mulheres ocupando o lugar
Que sempre lhes pertenceu em tua missão.

Que ninguém seja estrangeiro
Na mesa do teu Reino.

Que a cor da pele
Não determine o valor da pessoa.

Que nenhuma religião
Alimente o ódio.

Que nenhuma cruz
Justifique a opressão.

Que nenhuma autoridade
Esqueça os pequenos.

Ieshuah…

Queremos reconhecer teu rosto
No povo indígena que resiste,
Na população negra que continua lutando,
Nos migrantes que atravessam fronteiras,
Nas famílias sem teto,
Nos camponeses que defendem a terra,
Nas mulheres que enfrentam a violência,
Nos idosos esquecidos,
Na juventude que sonha com um mundo diferente.

Queremos seguir teus passos
Sem medo das críticas,
Sem medo das cruzes,
Sem medo das noites.

Porque sabemos
Que a manhã da ressurreição
Sempre encontra quem não desistiu de amar.

Que nossa fé não seja apenas oração,
Mas também abraço.

Que nossa liturgia
Continue depois da missa,
Nas cozinhas solidárias,
Nas escolas populares,
Nos mutirões,
Nas pastorais sociais,
Na defesa da Casa Comum,
Na promoção da dignidade humana.

Que teu Evangelho
Não permaneça preso às páginas,
Mas caminhe conosco pelas ruas.

Que sejamos discípulos e discípulas
De pés descalços,
Coração livre,
Mãos abertas,
Olhos atentos ao sofrimento do povo.

Então, quando alguém perguntar:
“Quem é Ieshuah?”

Não responderemos apenas com palavras.
Responderemos com nossa vida.
Porque onde houver justiça,
Tu estarás presente.
Onde houver misericórdia,
Ali estará teu Reino.

Onde houver uma comunidade
Que reparte o pão e a esperança,
Ali teu nome continuará vivo.

E nossa América Latina,
Marcada por tantas cruzes,
Descobrirá novamente
Que nenhuma noite é eterna
Quando homens e mulheres
Decidem caminhar contigo.

Ieshuah,
Faz de nós
Evangelho vivo,
Esperança organizada,
Profecia que consola,
E sementes do Reino
Até que toda lágrima seja enxugada
E toda pessoa possa chamar a outra
De irmã,
De irmão,
Como Tu sempre sonhaste.

(Pe. Hermes A. Fernamdes)


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