Por Pe. Hermes A. Fernandes
Introdução
Poucas experiências eclesiais marcaram tão profundamente a história da Igreja na América Latina quanto as Comunidades Eclesiais de Base (CEBs). Nascidas do encontro entre a Palavra de Deus, a realidade dos pobres e a renovação proposta pelo Concílio Vaticano II, as CEBs tornaram-se uma das mais fecundas expressões da recepção latino-americana do Evangelho. Durante décadas, foram espaço privilegiado de evangelização, formação bíblica, participação dos leigos, organização popular e compromisso com a transformação da sociedade.
Entretanto, desde a década de 1990, muitos passaram a perguntar: as Comunidades Eclesiais de Base desapareceram? A Igreja as abandonou? Ainda fazem sentido no século XXI?
Responder a essas perguntas exige ir além das aparências. É necessário compreender sua história, reconhecer os fatores que provocaram seu enfraquecimento institucional e, sobretudo, perceber que a inspiração que lhes deu origem continua profundamente atual.
O nascimento das Comunidades Eclesiais de Base
As CEBs não surgiram por acaso. Elas são fruto de um longo processo de renovação eclesial.
O Concílio Vaticano II (1962-1965) recuperou a imagem da Igreja como Povo de Deus, insistindo na participação de todos os batizados na missão evangelizadora. A Igreja deixou de compreender-se exclusivamente como uma instituição hierárquica para reconhecer-se como comunidade missionária.
Na América Latina, essa renovação encontrou um continente marcado por profundas desigualdades sociais, concentração de terras, regimes autoritários, exclusão econômica e enorme pobreza.
A II Conferência Geral do Episcopado Latino-Americano, realizada em Medellín (1968), assumiu criativamente o Concílio e propôs uma Igreja comprometida com a libertação integral dos povos. Foi nesse contexto que as Comunidades Eclesiais de Base começaram a multiplicar-se.
Em Medellín, os bispos afirmavam:
“A comunidade eclesial de base é o primeiro e fundamental núcleo eclesial.”
Essa afirmação representava uma verdadeira mudança pastoral. A Igreja deixava de organizar-se apenas em torno das grandes paróquias para valorizar pequenas comunidades inseridas na vida cotidiana do povo.
A Bíblia nas mãos do povo
Talvez a maior revolução promovida pelas CEBs tenha sido devolver a Bíblia ao povo.
Durante séculos, muitos cristãos participaram da liturgia sem acesso direto às Escrituras. As comunidades de base passaram a reunir agricultores, operários, donas de casa, jovens e idosos para ler o Evangelho a partir de suas próprias experiências.
Nascia aquilo que posteriormente ficou conhecido como Leitura Popular da Bíblia. Essa metodologia parte de uma convicção simples: a Palavra de Deus ilumina a vida do povo, e a vida do povo ajuda a compreender melhor a Palavra.
Não se trata apenas de estudar o texto bíblico, mas de perguntar continuamente:
- O que Deus está dizendo ao nosso povo hoje?
- Quem são os pobres deste texto?
- Onde encontramos os sinais do Reino em nossa realidade?
- Como transformar as estruturas que produzem sofrimento?
Essa dinâmica aproximou milhares de pessoas da Escritura e despertou inúmeras lideranças leigas.
Uma Igreja ministerial
As CEBs também favoreceram uma profunda descentralização da vida eclesial. Em muitos lugares onde o padre chegava apenas algumas vezes por ano, eram os próprios leigos que organizavam:
- celebrações da Palavra;
- catequese;
- círculos bíblicos;
- visitas aos enfermos;
- mutirões solidários;
- campanhas sociais;
- formação política;
- defesa dos direitos humanos.
Homens e mulheres assumiam ministérios concretos na comunidade.
A Igreja deixava de ser apenas uma instituição que oferece sacramentos para tornar-se uma comunidade viva de discípulos missionários.
Puebla e a confirmação das CEBs
A Conferência de Puebla (1979) confirmou a importância das Comunidades Eclesiais de Base.
Os bispos afirmaram que elas eram:
“centros de evangelização e motores de libertação.”
Ao mesmo tempo, recordaram que sua missão não poderia restringir-se à ação política nem reduzir-se a pequenos grupos fechados.
Sua identidade fundamental permanecia sendo a comunhão com Cristo e com toda a Igreja.
As décadas de dificuldades
A partir dos anos 1980, diversos fatores contribuíram para o enfraquecimento das CEBs.
Entre eles podem ser destacados:
- mudanças na política eclesial;
- crescimento dos movimentos eclesiais internacionais;
- diminuição da formação bíblica;
- urbanização acelerada;
- individualismo crescente;
- expansão do neopentecostalismo;
- transformação das relações comunitárias;
- envelhecimento de muitas lideranças;
- redução do apoio institucional em diversas dioceses.
Em muitos lugares, comunidades deixaram de receber acompanhamento pastoral. Não poucas lideranças sentiram que sua experiência havia perdido espaço dentro da estrutura eclesial. Daí nasceu a impressão de que a Igreja teria abandonado as Comunidades Eclesiais de Base.
A Igreja realmente abandonou as CEBs?
A resposta não é simples.
Em alguns contextos locais, houve efetivamente uma diminuição do incentivo pastoral às CEBs.
Contudo, afirmar que a Igreja universal abandonou essa experiência não corresponde aos fatos.
O Documento de Aparecida (2007) reconhece explicitamente o valor das Comunidades Eclesiais de Base e afirma que elas continuam sendo um sinal da vitalidade missionária da Igreja quando permanecem em comunhão com a pastoral diocesana e abertas à missão.
O Papa Francisco, profundamente influenciado pela recepção latino-americana do Concílio, retomou muitos dos elementos que deram origem às CEBs.
Sua insistência numa:
- Igreja em saída;
- Igreja pobre para os pobres;
- sinodalidade;
- protagonismo dos leigos;
- cuidado da Casa Comum;
- fraternidade universal;
- escuta das periferias
recupera, sob nova linguagem, grande parte da espiritualidade que marcou as Comunidades Eclesiais de Base.
Não é exagero afirmar que muitas intuições fundamentais das CEBs reaparecem hoje no pontificado de Francisco.
As novas periferias
Entretanto, as periferias mudaram. As comunidades rurais continuam importantes, mas surgiram novos espaços de exclusão:
- periferias urbanas;
- condomínios populares;
- população em situação de rua;
- migrantes;
- refugiados;
- trabalhadores precarizados;
- juventudes sem perspectivas;
- povos indígenas;
- comunidades quilombolas;
- vítimas do racismo;
- idosos abandonados;
- dependentes químicos;
- pessoas atingidas pelas mudanças climáticas.
Se as CEBs nasceram para evangelizar onde a vida estava ameaçada, sua missão permanece profundamente atual. Talvez precisem assumir novas formas organizativas, mas continuam necessárias.
A sinodalidade: novo nome para uma antiga intuição?
O atual processo sinodal convocado pela Igreja recupera uma convicção presente desde o nascimento das CEBs:
- Toda a Igreja deve caminhar junta.
- Escutar.
- Discernir.
- Participar.
- Corresponsabilizar-se pela missão.
Essa dinâmica sempre esteve presente nas pequenas comunidades. Ali aprendia-se que todos podiam falar, rezar, interpretar a Bíblia e participar das decisões comunitárias.
Nesse sentido, pode-se afirmar que a sinodalidade representa uma oportunidade histórica para revitalizar a experiência comunitária das CEBs.
O desafio da cultura digital
Outro grande desafio consiste em evangelizar numa sociedade profundamente marcada pelas redes sociais. As relações tornaram-se mais rápidas, mas também mais superficiais. As pessoas comunicam-se constantemente, porém experimentam crescente solidão.
Nesse contexto, pequenas comunidades de convivência tornam-se ainda mais necessárias.
As CEBs podem oferecer aquilo que nenhuma tecnologia substitui:
- escuta;
- amizade;
- solidariedade;
- oração partilhada;
- cuidado mútuo;
- compromisso concreto com a realidade.
Uma espiritualidade da encarnação
As Comunidades Eclesiais de Base sempre insistiram numa espiritualidade profundamente encarnada. Não basta rezar. É necessário transformar. Não basta anunciar o Reino. É preciso construir sinais concretos dele.
A fé manifesta-se:
- na defesa da vida,
- na justiça,
- na solidariedade,
- na promoção da paz,
- na proteção da criação,
- na defesa dos direitos humanos,
- na dignidade dos pobres.
Essa perspectiva continua plenamente coerente com o Evangelho e com a Doutrina Social da Igreja.
Perspectivas para o futuro
As Comunidades Eclesiais de Base dificilmente voltarão a reproduzir exatamente o modelo vivido nas décadas de 1970 e 1980. O contexto histórico mudou. Mas seus princípios continuam extraordinariamente atuais.
O futuro talvez passe por comunidades menores, missionárias, sinodais e profundamente inseridas nas periferias existenciais. Mais do que preservar estruturas, trata-se de recuperar sua inspiração original.
- Uma Igreja que conhece seus vizinhos.
- Que escuta antes de falar.
- Que lê a Bíblia com o povo.
- Que celebra a vida.
- Que organiza a solidariedade.
- Que forma lideranças.
- Que promove justiça.
- Que anuncia Jesus Cristo a partir da realidade concreta dos pobres.
Essa é precisamente a vocação permanente das Comunidades Eclesiais de Base.
Conclusão
Perguntar se a Igreja abandonou as Comunidades Eclesiais de Base talvez não seja a questão mais importante.
A pergunta decisiva é outra:
A Igreja continuará acreditando que o Evangelho deve ser vivido em pequenas comunidades missionárias, participativas, inseridas entre os pobres e comprometidas com a transformação da realidade?
Se a resposta for afirmativa — e tudo indica que o caminho sinodal aponta nessa direção —, então as CEBs permanecem vivas, ainda que sob novas formas.
Sua maior herança não é uma estrutura organizacional, mas uma espiritualidade e uma eclesiologia que continuam inspirando a missão da Igreja no século XXI. Em tempos de individualismo, polarização e fragmentação social, as Comunidades Eclesiais de Base seguem oferecendo um testemunho de fraternidade, corresponsabilidade e esperança. Onde a Palavra é partilhada, os pobres são sujeitos da evangelização, os ministérios são valorizados e a comunidade se compromete com a justiça e a paz, ali o espírito das CEBs continua fecundando a vida da Igreja.
Bibliografia básica
BOFF, Leonardo. Eclesiogênese: as Comunidades Eclesiais de Base reinventam a Igreja. Petrópolis: Vozes, 1977.
COMBLIN, José. O Povo de Deus. São Paulo: Paulus, 2002.
CONFERÊNCIA GERAL DO EPISCOPADO LATINO-AMERICANO. Documento de Medellín. 1968.
CONFERÊNCIA GERAL DO EPISCOPADO LATINO-AMERICANO. Documento de Puebla. 1979.
CONFERÊNCIA GERAL DO EPISCOPADO LATINO-AMERICANO E DO CARIBE. Documento de Aparecida. 2007.
FREI BETTO. O que é Comunidade Eclesial de Base. São Paulo: Editora Brasiliense, 1981.
LIBÂNIO, João Batista. As Comunidades Eclesiais de Base em questão. São Paulo: Loyola, 1986.
SEGUNDO, Juan Luis. Teologia da Libertação: resposta ao desafio de nosso tempo. São Paulo: Paulinas, 1978.
VATICANO II. Constituição Lumen Gentium. São Paulo: Paulinas, 1998.
VATICANO II. Apostolicam Actuositatem: https://www.vatican.va/archive/hist_councils/ii_vatican_council/documents/vat-ii_decree_19651118_apostolicam-actuositatem_en.html, acesso em 22/07/2026, às 14h28.
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