Reflexão para Segunda-feira da 17ª Semana do Tempo Comum – (Mateus 13,31-35)

O Reino que cresce a partir dos pequenos: uma leitura exegética e latino-americana de Mateus 13,31-35

Por Pe. Hermes A. Fernandes

Introdução

O capítulo 13 do Evangelho de Mateus reúne um conjunto de parábolas destinadas a explicar a natureza do Reino dos Céus. Depois da parábola do semeador, Jesus apresenta duas pequenas narrativas que, embora breves, sintetizam uma profunda compreensão da ação divina na história.

Mateus 13,31-35 descreve o Reino por meio de duas imagens cotidianas: uma pequena semente e um pouco de fermento. Aos olhos humanos, ambas parecem insignificantes. Entretanto, escondem uma extraordinária capacidade de transformação.

A tradição da Teologia Latino-americana reconhece nessas parábolas uma crítica às formas de dominação que valorizam apenas o poder visível, as grandes instituições e os privilégios sociais. Deus inicia sua obra precisamente entre aqueles que o mundo considera pequenos.

1. O contexto histórico de Mateus

O Evangelho de Mateus foi escrito entre os anos 80 e 90 d.C., provavelmente para comunidades cristãs compostas por judeus seguidores de Jesus e por cristãos provenientes do paganismo.

Viviam um momento delicado. O Templo de Jerusalém havia sido destruído pelos romanos em 70 d.C., provocando profunda crise religiosa. Ao mesmo tempo, aumentavam os conflitos entre as sinagogas e os seguidores de Jesus.

Nesse contexto, surgia uma pergunta fundamental: onde está Deus agora?

Mateus responde afirmando que Deus continua agindo na história através do Reino anunciado por Jesus. Não depende do Templo nem do poder imperial. O Reino cresce silenciosamente nas comunidades que vivem o Evangelho.

2. Exegese de Mateus 13,31-35

2.1 A parábola do grão de mostarda (Mt 13,31-32)

Jesus afirma:

“O Reino dos Céus é semelhante a um grão de mostarda…”

A mostarda era conhecida na Palestina como uma planta comum, praticamente considerada erva daninha por muitos agricultores. Sua semente era extremamente pequena.

O contraste é evidente. Da menor das sementes nasce uma planta suficientemente grande para acolher as aves.

Não se trata propriamente de uma árvore majestosa, como os cedros do Líbano utilizados nas imagens imperiais do Antigo Testamento (cf. Ez 17; Dn 4). Jesus modifica essa expectativa.

Enquanto os impérios sonham com árvores monumentais que simbolizam poder e dominação, Deus escolhe uma simples planta do campo.

Esse detalhe possui profundo significado político. O Reino não nasce nos palácios. Não surge entre os poderosos. Não depende das estruturas religiosas dominantes. Ele cresce nas periferias.

2.2 As aves do céu

As aves que encontram abrigo evocam diversas passagens veterotestamentárias (Antigo ou Primeiro Testamento) nas quais as nações encontram proteção junto ao povo de Deus.

Mateus reaproveita essa tradição. O Reino torna-se casa para todos. Não apenas Israel. Não apenas os puros. Não apenas os religiosos. Todos encontram lugar. Essa universalidade rompe os mecanismos de exclusão presentes tanto no judaísmo do século I quanto nas sociedades contemporâneas.

2.3 A parábola do fermento (Mt 13,33)

Uma mulher mistura fermento em três medidas de farinha. Essa imagem possui enorme riqueza simbólica. Primeiramente, o protagonista agora é uma mulher. Num contexto profundamente patriarcal, Jesus faz de uma mulher a imagem da ação de Deus. Não é um detalhe secundário. É uma ruptura cultural.

Além disso, “três medidas de farinha” correspondem aproximadamente a quarenta quilos de farinha. Trata-se de uma quantidade gigantesca. O contraste é novamente central. Pouquíssimo fermento transforma enorme quantidade de massa.

A transformação acontece invisivelmente: sem espetáculo, sem violência, sem propaganda.

É exatamente assim que atua o Reino!

2.4 O cumprimento das Escrituras (Mt 13,34-35)

Mateus cita o Salmo 78,2:

“Abrirei minha boca em parábolas…”

Jesus aparece como o verdadeiro intérprete da história da salvação. As parábolas não escondem a verdade. Ao contrário! Revelam aquilo que permanece oculto aos poderosos. Somente quem assume a lógica do Reino consegue compreender sua mensagem.

3. A leitura da Teologia Latino-americana

A Teologia da Latino-americana compreende que Deus atua preferencialmente na história dos pobres. Não porque estes sejam moralmente superiores. Mas porque são as principais vítimas das estruturas injustas. As parábolas da mostarda e do fermento desmontam toda concepção triunfalista da Igreja. O Reino não se identifica automaticamente com grandes instituições. Nem com prestígio social. Nem com influência política.

Sua presença manifesta-se nas pequenas comunidades, nas pastorais sociais, nos movimentos populares e nas experiências de solidariedade que defendem a vida.

Como afirmava Gustavo Gutiérrez, Deus faz história junto daqueles cuja dignidade foi negada.

Jon Sobrino recorda que o Reino possui como primeiros destinatários os pobres porque estes revelam as maiores urgências do amor de Deus.

A Teologia Latino-americana insiste que a vida brota precisamente onde o sistema apenas enxerga descartáveis.

4. A Leitura Popular da Bíblia

A Leitura Popular da Bíblia pergunta: Quem são hoje as pequenas sementes? Quem é o fermento escondido? Quem produz transformação sem reconhecimento público?

Na realidade latino-americana, podemos reconhecer:

  • as comunidades eclesiais de base;
  • as pastorais sociais;
  • a Comissão Pastoral da Terra;
  • os movimentos indígenas;
  • os movimentos quilombolas;
  • os grupos de economia solidária;
  • as mulheres organizadas nas periferias;
  • as juventudes populares;
  • as lideranças comunitárias anônimas.

Quase nunca aparecem nos grandes meios de comunicação. Mas sustentam diariamente a esperança dos pobres. O Reino cresce exatamente nesses espaços.

5. Dimensão sociotransformadora

As parábolas rejeitam a lógica da eficiência imediata. O capitalismo contemporâneo valoriza resultados rápidos, produtividade constante e concentração de riqueza.

Jesus apresenta outro caminho. A transformação começa discretamente. Mas torna-se irreversível. Essa perspectiva alimenta o compromisso pastoral junto às populações empobrecidas.

A evangelização não consiste apenas na transmissão de doutrinas. Consiste em colaborar para que a vida floresça onde ela foi ameaçada.

Isso implica defender:

  • a reforma agrária;
  • os direitos dos povos indígenas;
  • a proteção ambiental;
  • a dignidade dos trabalhadores;
  • o combate ao racismo;
  • a promoção das mulheres;
  • a defesa das crianças;
  • a acolhida dos migrantes;
  • a economia solidária;
  • a paz fundada na justiça.

O Reino anunciado por Jesus não legitima privilégios. Produz fraternidade.

6. Perspectivas pastorais

A ação pastoral inspirada por Mateus 13,31-35 pode assumir alguns caminhos concretos:

  1. fortalecer pequenas comunidades missionárias como espaços privilegiados do Reino;
  2. incentivar ministérios leigos, especialmente a liderança feminina;
  3. apoiar pastorais sociais comprometidas com os direitos humanos;
  4. promover leitura comunitária da Bíblia ligada à realidade social;
  5. defender políticas públicas que garantam dignidade aos pobres;
  6. desenvolver uma espiritualidade da esperança, capaz de perceber os pequenos sinais do Reino presentes na história.

Conclusão

Mateus 13,31-35 apresenta um Reino profundamente diferente dos projetos humanos de poder. Enquanto os impérios crescem pela força, Deus inicia sua obra através da fragilidade. Enquanto o mundo valoriza grandeza, Jesus celebra a pequena semente. Enquanto os sistemas econômicos produzem exclusão, o Reino torna-se abrigo para todos.

A Teologia Latino-americana reconhece nessas parábolas um permanente chamado à conversão pastoral. O Reino continua crescendo nas periferias urbanas, nos assentamentos rurais, nas comunidades indígenas, entre os migrantes, nas pastorais sociais e em todas as iniciativas que colocam a vida acima do lucro.

A Leitura Popular da Bíblia recorda que Deus continua agindo na história através dos pequenos. A missão da Igreja consiste em reconhecer esses sinais, fortalecê-los e colocar-se ao lado daqueles que permanecem invisíveis aos olhos dos poderes deste mundo. Assim, a comunidade cristã torna-se fermento de justiça, árvore de acolhida e testemunha viva do Reino de Deus.


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