24º Domingo do Tempo Comum
Por Pe. Hermes A. Fernandes
Introdução
Neste XXIV Domingo do Tempo Comum, os textos de Eclesiástico 27,33–28,9, Romanos 14,7-9 e Mateus 18,21-35 convergem em torno de uma questão profundamente humana e social: como romper os ciclos de ressentimento, vingança, violência e exclusão que destroem a convivência? A resposta bíblica não consiste numa simples recomendação moral para que cada indivíduo “seja bonzinho”. Trata-se de uma proposta de transformação das relações humanas a partir da experiência da misericórdia de Deus.
Lidos à luz da Teologia Latino-Americana e da caminhada das Comunidades Eclesiais de Base (CEBs), esses textos adquirem uma dimensão social e política. O perdão cristão não significa ignorar injustiças, silenciar vítimas ou legitimar estruturas opressoras. Ao contrário, significa recusar a lógica da vingança e construir caminhos de justiça, reconciliação, solidariedade e defesa da vida.
1. Eclesiástico 27,33–28,9: abandonar a vingança para reconstruir a fraternidade
O livro do Eclesiástico, atribuído a Jesus Ben Sirac, apresenta uma tradição sapiencial profundamente vinculada à vida cotidiana. O trecho denuncia a ira, o rancor e a vingança como atitudes incompatíveis com a fidelidade a Deus. A exortação central é direta: “Perdoa a injustiça cometida por teu próximo” (Eclo 28,2). O texto pergunta ainda como alguém pode esperar o perdão de Deus se permanece alimentando ódio contra outra pessoa.
A lógica é teologicamente profunda: quem experimenta a misericórdia divina é chamado a reproduzi-la nas relações humanas. A passagem estabelece uma relação inseparável entre oração, perdão e convivência social. Não é possível buscar a reconciliação com Deus mantendo relações fundamentadas no ressentimento e na vingança.
O contexto sapiencial revela uma sociedade na qual conflitos pessoais poderiam facilmente transformar-se em rupturas familiares e comunitárias. Por isso, Ben Sirac insiste na necessidade de interromper a cadeia da retaliação. O recurso à memória da morte — “Lembra-te do teu fim e deixa de odiar”(Eclo 28,6) — relativiza o orgulho, a posse e o desejo de vingança.
Na perspectiva Latino-americana, essa palavra precisa ser ampliada. Em nossas periferias, comunidades rurais, territórios indígenas, comunidades quilombolas e espaços urbanos marcados pela violência, muitos conflitos são alimentados por estruturas históricas de desigualdade. O perdão, portanto, não pode ser reduzido a uma espiritualidade intimista.
Para as CEBs, perdoar significa não permitir que a violência tenha a última palavra. Significa transformar o conflito em oportunidade de diálogo, reconstrução comunitária e defesa da vida. A comunidade cristã é chamada a criar espaços onde vítimas possam ser ouvidas, ofensores possam assumir responsabilidades e relações possam ser reconstruídas.
2. Romanos 14,7-9: ninguém vive para si mesmo
Paulo afirma: “Ninguém dentre nós vive para si mesmo ou morre para si mesmo”. A razão apresentada é cristológica: “Se estamos vivos, é para o Senhor que vivemos; se morremos, é para o Senhor que morremos. Portanto, vivos ou mortos, pertencemos ao Senhor”. O centro da existência cristã, portanto, não é o individualismo, mas a pertença a Cristo. Paulo fundamenta essa afirmação na morte e ressurreição de Jesus, que se tornou Senhor dos vivos e dos mortos.
O capítulo 14 de Romanos está inserido numa comunidade marcada por diferenças de costumes e sensibilidades religiosas. Paulo procura impedir que questões secundárias — especialmente relacionadas a alimentos e dias considerados sagrados — produzam julgamento e divisão entre os membros da comunidade. O princípio é que a liberdade cristã deve ser vivida em responsabilidade diante do outro.
Essa perspectiva possui grande força para a realidade Latino-americana. Uma Igreja que afirma que ninguém vive para si mesmo não pode permanecer indiferente diante da fome, do desemprego, da violência, do racismo, da expulsão de comunidades trdicionais de seus territórios ou da condição degradante de pessoas em situação de rua.
Nas Comunidades Eclesiais de Base, essa afirmação paulina pode ser traduzida em uma pergunta concreta: se pertencemos ao Senhor, como podemos viver tranquilamente enquanto nossos irmãos e irmãs são excluídos?
A fé deixa de ser propriedade individual e torna-se compromisso comunitário. O cristão não pode dizer: “isso não é problema meu”. A vida do outro também me diz respeito. É precisamente aqui que a fé se torna prática de solidariedade.
3. Mateus 18,21-35: a economia do perdão contra a economia da dívida
O Evangelho apresenta Pedro perguntando a Jesus quantas vezes deveria perdoar o irmão que pecasse contra ele. Ao propor “sete vezes”, Pedro já imagina uma medida generosa. Jesus, porém, responde: “Não te digo até sete vezes, mas até setenta vezes sete” (Mt 18,22).
A expressão não pretende estabelecer uma nova matemática do perdão. Jesus elimina qualquer tentativa de estabelecer um limite. Há uma possível alusão à linguagem de vingança de Gn 4,24, associada a Lamec. Jesus inverte a lógica da violência: onde a tradição da vingança multiplicava a violência, o discipulado multiplica o perdão.
A parábola seguinte radicaliza a mensagem. Um servo possui uma dívida extraordinariamente grande, de dez mil talentos (cf. Mt 18,24). A quantia é deliberadamente exagerada: trata-se de uma dívida praticamente impagável. O senhor, movido pela compaixão, perdoa a dívida. Entretanto, o mesmo servo encontra um companheiro que lhe deve cem denários — uma dívida consideravelmente menor — e exige o pagamento, chegando a mandá-lo para a prisão.
A parábola denuncia uma contradição: quem recebeu misericórdia passa a agir segundo a lógica da cobrança e da punição.
Aqui encontramos uma chave especialmente fecunda para a Teologia Latino-Americana. A parábola utiliza a linguagem econômica da dívida, da cobrança, da prisão e da submissão. Jesus coloca diante de seus ouvintes duas economias: uma baseada na acumulação, cobrança e punição, e outra fundada na compaixão, gratuidade e restauração.
Essa leitura permite atualizar o texto para um continente marcado pela concentração de renda, endividamento das famílias, precarização do trabalho e exclusão social. O Evangelho questiona uma sociedade que frequentemente considera mais importante cobrar uma dívida do que preservar a dignidade de uma pessoa.
Entretanto, é necessário evitar uma interpretação ingênua do perdão. Perdoar não significa pedir às vítimas que esqueçam a violência sofrida. Tampouco significa manter pessoas violentas em posições que lhes permitam continuar ferindo. O próprio contexto de Mateus 18 associa perdão, correção fraterna, responsabilidade e cuidado comunitário. A misericórdia cristã não elimina a justiça; ela procura uma justiça capaz de restaurar a pessoa e reconstruir relações.
4. Uma leitura a partir das Comunidades Eclesiais de Base
Quando esses três textos são colocados em diálogo, aparece uma proposta profundamente transformadora: romper os ciclos de violência por meio de relações novas.
Eclesiástico denuncia a vingança. Paulo combate o individualismo. Mateus desmonta a lógica da cobrança sem misericórdia. Juntos, eles afirmam que a comunidade dos seguidores e seguidoras de Jesus deve construir uma forma alternativa de convivência.
É justamente nesse horizonte que se encontra a vocação das CEBs. A comunidade não é simplesmente um grupo reunido para rezar. É espaço de fraternidade, escuta, organização popular, partilha da vida e discernimento diante dos problemas concretos do território.
O perdão vivido comunitariamente pode tornar-se instrumento de reconciliação social. Isso exige enfrentar as causas dos conflitos: pobreza, desigualdade, preconceito, racismo, violência doméstica, intolerância religiosa, disputas territoriais, exploração do trabalho e abandono das populações vulnerabilizadas.
A comunidade cristã não pode anunciar “perdoa” sem trabalhar também para que as condições que produzem violência sejam transformadas. Do contrário, o perdão poderia ser utilizado para acomodar os pobres diante da injustiça.
5. Dimensão sociotransformadora e ação pastoral
À luz desses textos, uma pastoral inspirada pela Teologia Latino-Americana poderia assumir algumas atitudes concretas:
1. Criar círculos comunitários de reconciliação, nos quais conflitos possam ser tratados com escuta, verdade, responsabilidade e compromisso de mudança.
2. Acompanhar vítimas da injustiça e da violência, especialmente mulheres, crianças, idosos, pessoas negras, indígenas, quilombolas, migrantes, pessoas em situação de rua e demais grupos socialmente vulnerabilizados.
3. Unir perdão e justiça, deixando claro que reconciliar não significa encobrir crimes, silenciar vítimas ou perpetuar relações abusivas.
4. Trabalhar a cultura da solidariedade, promovendo mutirões, fundos comunitários, economia solidária, partilha de alimentos e apoio às famílias endividadas e desempregadas.
5. Formar consciência crítica, ajudando as comunidades a perceber que muitas situações apresentadas como fracassos individuais possuem causas econômicas, sociais e políticas.
6. Transformar a liturgia em compromisso com a vida, fazendo com que a celebração da Eucaristia conduza à solidariedade concreta com os pobres e excluídos.
Assim, o perdão deixa de ser apenas uma virtude privada e passa a ser uma força capaz de reconstruir relações e comunidades.
Conclusão
Eclo 27,33–28,9, Rm 14,7-9 e Mt 18,21-35 apresentam uma mesma exigência: não reproduzir a lógica da violência recebida. O discípulo de Jesus é chamado a interromper a cadeia de vingança, individualismo e cobrança que transforma o outro em inimigo ou em simples devedor.
Na perspectiva da Teologia Latino-Americana, essa mensagem ganha uma dimensão sociotransformadora. O perdão cristão não é fuga da realidade, mas uma forma de enfrentá-la sem reproduzir suas violências. É necessário perdoar, mas também transformar as estruturas que produzem exclusão; reconciliar, mas também fazer justiça; acolher o pecador, mas proteger a vítima; anunciar a misericórdia, mas combater aquilo que destrói a dignidade humana.
As CEBs podem ser lugares privilegiados dessa experiência: comunidades onde ninguém vive para si mesmo, onde a dívida não vale mais que a pessoa, onde a vingança não tem a última palavra e onde a misericórdia se transforma em solidariedade organizada.
Desse modo, o Evangelho torna-se aquilo que sempre deve ser: Boa-Nova para os pobres, esperança para os excluídos e força de transformação da realidade.
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