Mateus 14,22-36: Caminhar sobre as águas em meio às tempestades da história
Por Pe. Hermes A. Fernandes
Introdução
O relato de Mateus 14,22-36 é um dos textos mais conhecidos do Evangelho. Tradicionalmente, ele foi interpretado como um episódio extraordinário que demonstra o poder divino de Jesus sobre a natureza e a fragilidade da fé de Pedro. Embora essa leitura não seja incorreta, ela se torna insuficiente quando o texto é lido apenas como um milagre destinado a confirmar a divindade de Cristo ou como uma exortação individual para que cada pessoa “tenha mais fé”.
A Teologia Latino-Americana e a Leitura Popular da Bíblia propõem uma abordagem diferente. Perguntam: qual era a experiência histórica da comunidade de Mateus? Quais tempestades ela enfrentava? Que esperança este texto alimentava? Como essa Palavra ilumina as tempestades vividas pelos pobres, pelos trabalhadores, pelos povos indígenas, pelos negros, pelas mulheres, pelos migrantes e por todos os descartados da sociedade contemporânea?
Essas perguntas deslocam o foco do espetáculo do milagre para o processo de discipulado, de organização comunitária e de resistência diante das forças da morte.
1. Contexto literário
Este episódio encontra-se logo após a multiplicação dos pães (Mt 14,13-21). A sequência não é casual. Primeiro, Jesus alimenta a multidão. Depois, envia os discípulos ao outro lado do mar. Em seguida, aparece a tempestade.
Essa organização revela uma profunda catequese da comunidade de Mateus.
O Reino anunciado por Jesus produz partilha. A partilha provoca conflitos. Quem escolhe o caminho do Reino inevitavelmente enfrentará tempestades. A narrativa não trata apenas de um barco no mar. O barco representa a comunidade cristã. O mar representa as forças do caos. O vento contrário simboliza tudo aquilo que tenta impedir a realização do Reino.
2. O contexto histórico da comunidade de Mateus
O Evangelho foi escrito aproximadamente entre os anos 80 e 90 d.C. Jerusalém havia sido destruída. O Templo não existia mais. As comunidades cristãs sofriam perseguições. Viviam conflitos internos. Enfrentavam o crescimento do Império Romano.
Além disso, ocorria a separação definitiva entre o judaísmo rabínico e os seguidores de Jesus.
A comunidade experimentava medo, incerteza, crises de identidade. Nesse contexto, o evangelista afirma:
Jesus continua presente, mesmo quando parece ausente.
3. Exegese do texto
Jesus obriga os discípulos a entrarem no barco (v.22)
Mateus usa um verbo forte: “Jesus obrigou os discípulos.” O verbo grego (anankázō) significa literalmente: “forçar”, “impelir”, “pressionar”. Não é um convite. É uma necessidade. Os discípulos precisam atravessar.
Não podem permanecer acomodados depois da multiplicação dos pães. A experiência do Reino exige missão. Toda comunidade que permanece parada acaba perdendo sua identidade.
A montanha da oração (v.23)
Jesus sobe sozinho ao monte. Na tradição bíblica, o monte é o lugar do encontro com Deus. Moisés sobe ao Sinai. Elias encontra Deus no Horeb. Jesus sobe ao monte antes dos grandes acontecimentos. A oração aparece como fonte da missão. Não é fuga do mundo. É lugar onde se fortalece a esperança para enfrentar o mundo.
O mar
Na mentalidade bíblica, o mar representa o caos. Não era visto como espaço turístico. Era símbolo das forças da morte. Por isso, a travessia do mar representa o enfrentamento do caos histórico.
O vento contrário
Mateus afirma: “O barco era atormentado pelas ondas.” O verbo usado (basanizó) significa: ser torturado. A comunidade encontra-se torturada pelas forças do mundo.
Hoje poderíamos identificar esses ventos: fome; desemprego; violência; racismo; patriarcado; destruição ambiental; intolerância religiosa; exclusão social; migração forçada; concentração de renda. A tempestade nunca é apenas natural. Ela possui dimensões históricas.
A quarta vigília da noite (v.25)
A quarta vigília da noite está entre três e seis horas da manhã. É o momento mais escuro da noite. Na Bíblia, é justamente quando Deus costuma agir. O Êxodo acontece durante a noite. A Ressurreição acontece antes do amanhecer.
Mateus sugere: quando tudo parece perdido, Deus está chegando.
Jesus caminha sobre as águas
No Antigo Testamento, apenas Deus domina o mar. Salmo 77. Jó 9. Isaías. Mateus afirma que Jesus realiza aquilo que pertence ao próprio Deus. Mas o objetivo não é provar um superpoder. É afirmar: Jesus é Senhor sobre todas as forças que ameaçam a vida. Nenhum império possui a última palavra.
“Coragem! Sou Eu!”
Em grego: Egó eimi. É a expressão utilizada por Deus em Êxodo 3: “Eu Sou.” Não é apenas uma identificação. É uma revelação. Tal qual Iahweh o fez no Êxodo a Moisés, Jesus se manifesta como presença libertadora.
Pedro
Pedro representa a comunidade. Ele deseja caminhar. Mas olha para o vento. Não olha para Jesus. O medo produz afundamento. A dúvida não nasce da falta de fé religiosa. Nasce quando o discípulo acredita mais na força da tempestade do que na presença do Reino.
“Homem de pouca fé”
Mateus usa várias vezes a expressão “oligópistos”. Não significa ausência de fé. Significa fé pequena. Fé insuficiente para enfrentar as estruturas da morte.
O vento cessa
Quando Jesus entra no barco, a tempestade desaparece. A comunidade reencontra sua direção. Não porque todos os problemas acabaram. Mas porque recuperou a certeza da presença do Ressuscitado.
4. A chegada em Genesaré (Mt 14,34-36)
Ao chegar à outra margem, Jesus é imediatamente reconhecido. Os doentes são trazidos. Todos desejam tocar ao menos a borda de sua veste. É interessante notar que, depois da travessia, não aparece nenhum discurso.
A primeira ação é cuidar dos feridos. A comunidade que atravessa as tempestades torna-se lugar de cura. O Reino sempre desemboca na restauração da vida.
5. Leitura à luz da Teologia Latino-Americana
A Teologia Latino-Americana parte da convicção de que Deus continua caminhando sobre as águas turbulentas da história dos povos.
O mar continua agitado. As águas possuem novos nomes. São as águas do capitalismo neoliberal que transforma pessoas em mercadorias. As águas da mineração predatória. Do agronegócio concentrador. Da financeirização da economia. Das guerras. Da destruição ambiental. Da fome. Das migrações forçadas. Da criminalização dos movimentos populares. Da violência contra os povos indígenas Da exclusão das periferias urbanas.
Mateus não convida os discípulos a fugir dessas águas. Convida-os a atravessá-las.
Pedro simboliza toda comunidade que deseja seguir Jesus. Seu erro não foi sair do barco. Seu erro foi acreditar que o vento era maior que o Reino.
A comunidade cristã também corre esse risco quando perde a esperança diante das estruturas do pecado. A fé bíblica nunca é alienação. É compromisso histórico.
Como recorda Gustavo Gutiérrez, a fé torna-se autêntica quando assume a libertação integral da pessoa humana, articulando a comunhão com Deus e a transformação das condições injustas de vida. Da mesma forma, a teologia Latino-americana insiste que seguir Jesus significa enfrentar as estruturas de morte e cuidar da Casa Comum, pois a salvação alcança toda a Criação. Frei Carlos Mesters, por sua vez, ao desenvolver a Leitura Popular da Bíblia, mostra que o texto bíblico ganha novo vigor quando lido a partir da experiência concreta do povo, especialmente dos pobres que reconhecem na Escritura um espelho de sua própria caminhada.
6. A Leitura Popular da Bíblia
A Leitura Popular pergunta: Quem somos nós nesta narrativa? Somos o barco. Somos Pedro. Somos aqueles que enfrentam ventos contrários. Somos também aqueles que esperam a madrugada.
As comunidades populares conhecem muito bem essas tempestades. A mãe que espera atendimento no hospital. O trabalhador desempregado. O agricultor expulso de sua terra. A população em situação de rua. Os migrantes. Os povos indígenas. As comunidades quilombolas. As vítimas da violência policial. Todos experimentam mares revoltos.
A Palavra anuncia que Jesus não contempla a tempestade de longe. Ele entra nela.
7. Atualização pastoral e sociotransformadora
A pastoral inspirada neste texto precisa abandonar qualquer espiritualidade intimista que reduza a caminhada sobre as águas a uma metáfora de sucesso pessoal ou de prosperidade religiosa.
O discipulado acontece dentro da história.
As comunidades são chamadas a enfrentar os ventos do desemprego, da desigualdade social, da violência estrutural, do racismo, da misoginia, da destruição ambiental e da negação de direitos fundamentais.
Isso exige uma Igreja profundamente encarnada. Uma Igreja que fortaleça as Comunidades Eclesiais de Base. Que caminhe junto aos movimentos populares. Que defenda os direitos humanos. Que acolha migrantes e refugiados. Que esteja presente nas periferias urbanas e rurais. Que participe das lutas por moradia, terra, trabalho, educação, saúde e preservação ambiental.
O medo jamais poderá ser o critério da ação pastoral. A comunidade de Mateus aprende que Jesus continua dizendo: “Coragem! Sou Eu! Não tenhais medo.” Essa coragem nasce da memória da Páscoa. Cristo Ressuscitado continua caminhando sobre as águas da história. Por isso, a esperança cristã não é ingenuidade.
É resistência organizada. É solidariedade concreta. É compromisso político no sentido mais nobre da palavra: a construção do bem comum.
Conclusão
Mateus 14,22-36 permanece extraordinariamente atual. As tempestades mudaram de forma, mas continuam ameaçando a vida dos povos. O barco continua sendo a comunidade chamada a atravessar mares revoltos sem abandonar sua missão. O vento contrário manifesta-se nas estruturas de injustiça que produzem exclusão, fome, violência e devastação ambiental.
À luz da Teologia Latino-Americana e da Leitura Popular da Bíblia, este texto proclama que a presença de Jesus não elimina automaticamente as tempestades, mas transforma a maneira como a comunidade as enfrenta. O Ressuscitado caminha sobre as águas do caos porque o projeto do Reino é mais forte do que qualquer poder de morte. Assim, a Igreja é convocada a não permanecer paralisada pelo medo, mas a lançar-se, com esperança e organização, na construção de relações mais justas, solidárias e fraternas.
A verdadeira profissão de fé dos discípulos — “Verdadeiramente tu és o Filho de Deus” (Mt 14,33) — não se reduz a uma fórmula doutrinal. Ela se concretiza quando a comunidade assume a travessia da história ao lado dos pobres, marginalizados e excluídos, testemunhando que o Deus revelado em Jesus continua sustentando aqueles que lutam pela vida, pela dignidade e pela justiça. Dessa forma, a travessia do mar torna-se símbolo permanente da missão da Igreja: caminhar com os crucificados da história até que as águas da opressão cedam lugar aos horizontes da vida plena anunciada pelo Reino de Deus.
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