Por Pe. Hermes A. Fernandes
1. Introdução: quando a humanidade deixa de reconhecer a humanidade do outro
Vivemos um período histórico profundamente contraditório. A humanidade alcançou avanços extraordinários na ciência, na tecnologia, na medicina, na comunicação e na produção de riquezas. Entretanto, esses avanços não têm sido acompanhados, na mesma proporção, pelo desenvolvimento da consciência ética, da solidariedade, da justiça social e da capacidade de convivência.
Assistimos à expansão de discursos de ódio, à normalização da violência, à intolerância religiosa, à radicalização política, à discriminação de minorias e à crescente disposição de determinados grupos para eliminar simbolicamente — e, em situações extremas, fisicamente — aqueles que consideram adversários.
A pergunta que precisamos fazer não é apenas por que algumas pessoas se tornam extremistas. É também: que tipo de sociedade estamos construindo quando a intolerância passa a ser considerada virtude, a agressividade é confundida com coragem e a solidariedade é tratada como fraqueza?
Há algo ainda mais preocupante: determinados projetos políticos, econômicos e religiosos apresentam a exclusão como se fosse uma consequência natural da organização social. A desigualdade passa a ser interpretada como resultado inevitável das diferenças individuais; a pobreza, como falta de mérito; a concentração de riqueza, como reconhecimento da competência; e a violência contra os mais vulneráveis, como instrumento necessário para preservar a ordem.
Nesse contexto, proponho uma hipótese de interpretação: estamos diante de uma crise que ultrapassa as instituições políticas e religiosas. Trata-se de uma crise de civilidade e de reconhecimento da dignidade humana.
A questão central é a desumanização progressiva das relações sociais.
A Teologia Latino-americana oferece instrumentos importantes para compreender esse fenômeno, sobretudo porque sempre procurou interpretar a realidade histórica a partir da vida concreta dos pobres, dos excluídos e daqueles cuja dignidade é sistematicamente negada.
2. Os extremismos contemporâneos e a crise da democracia
O extremismo não se manifesta somente pela violência física ou pela defesa explícita de regimes autoritários. Ele também aparece em processos cotidianos de deterioração da convivência democrática.
Podemos identificar algumas manifestações particularmente preocupantes:
- A transformação do adversário em inimigo: quem pensa diferente deixa de ser alguém com quem se pode dialogar e passa a ser considerado uma ameaça que precisa ser combatida.
- A naturalização da violência: discursos agressivos, ameaças e manifestações de intolerância passam a ser justificados em nome da defesa da pátria, da família, da religião ou da liberdade.
- A deslegitimação das instituições: quando instituições democráticas deixam de atender aos interesses de determinado grupo, são apresentadas como ilegítimas, mesmo quando funcionam dentro das regras constitucionais.
- A manipulação religiosa: elementos da fé são utilizados para legitimar projetos de poder, construir inimigos e estabelecer divisões entre pessoas consideradas moralmente aceitáveis e aquelas tratadas como inferiores.
- A rejeição da pluralidade: a diversidade cultural, religiosa, política, étnica e sexual deixa de ser compreendida como característica da humanidade e passa a ser apresentada como ameaça à sociedade.
- A substituição do debate pela intimidação: a argumentação cede espaço à humilhação pública, às ameaças e à disseminação de informações falsas.
O relatório Democracy Report 2026, do Instituto V-Dem, apresenta dados particularmente preocupantes: ao final de 2025, contabilizava 92 autocracias e 87 democracias no mundo. Segundo sua análise, 74% da população mundial vivia em regimes classificados como autocráticos. O estudo também identificou deterioração da liberdade de expressão em 44 países durante 2025.
Esses números não significam que todas as sociedades estejam seguindo o mesmo caminho ou que todos os movimentos conservadores sejam autoritários. Revelam, entretanto, uma tendência internacional que merece atenção: a democracia pode continuar existindo formalmente enquanto suas condições fundamentais — liberdade, participação, pluralismo e respeito aos direitos — são progressivamente enfraquecidas.
No Brasil, essa discussão possui particular relevância. O relatório BTI 2026, dedicado à situação política do país, aponta a intensificação da polarização, o crescimento da influência política de grupos religiosos e a presença de setores que demonstram ambivalência diante de princípios democráticos. Também registra a importância da rejeição social à violência contra as instituições democráticas ocorrida em janeiro de 2023.
É importante compreender que o problema não está na participação política dos cidadãos religiosos, que constitui um direito democrático, mas na tentativa de transformar uma determinada interpretação religiosa em critério obrigatório de pertencimento nacional e de legitimidade política.
A fé não pode ser convertida em instrumento de dominação.
3. A instrumentalização da religião: quando Deus é colocado a serviço do poder
Um dos fenômenos mais preocupantes de nosso tempo é a utilização da religião para legitimar projetos políticos excludentes.
A religião, em sua dimensão mais profunda, deveria favorecer a abertura ao Mistério, o reconhecimento da dignidade humana, a solidariedade e a responsabilidade pelo próximo. Entretanto, quando instrumentalizada, pode transformar-se em mecanismo de identificação coletiva, controle social e legitimação de determinadas estruturas de poder.
Surge, então, uma contradição profundamente perturbadora: pessoas que professam a fé em Jesus Cristo podem defender práticas incompatíveis com o Evangelho.
Como compreender que alguém proclame o amor de Deus e, simultaneamente, manifeste desprezo pelos pobres? Como justificar a defesa da família quando se demonstra indiferença diante das famílias que passam fome, não possuem moradia ou são vítimas da violência? Como falar de valores cristãos enquanto se estimula a perseguição de pessoas que professam outra religião?
É necessário distinguir a experiência religiosa autêntica de sua utilização ideológica.
A chamada instrumentalização religiosa ocorre quando:
- Deus é apresentado como legitimador de um determinado projeto partidário.
- A liderança política passa a ser interpretada como alguém investido de uma missão divina incontestável.
- A crítica política é confundida com perseguição religiosa.
- O adversário ideológico é transformado em inimigo de Deus.
- A defesa de privilégios econômicos e sociais é revestida de linguagem moral e religiosa.
- A misericórdia, a justiça social e a solidariedade são substituídas pela condenação e pela exclusão.
Uma pesquisa do Pew Research Center, publicada em março de 2026, revelou que 66% dos brasileiros entrevistados consideravam importante que a religião tivesse participação na liderança nacional, na identidade do país e em suas leis, conforme a pergunta específica da pesquisa. Entre os protestantes brasileiros, essa proporção chegava a 74%. São dados de uma pesquisa realizada em 2024, publicados em 2026, e não devem ser confundidos com uma medição de extremismo religioso. Revelam, contudo, a relevância social da relação entre religião e política no continente.
O problema não é a presença da religião na vida pública. O problema surge quando a religião deixa de contribuir para o bem comum e passa a reivindicar exclusividade sobre a verdade, a cidadania e o próprio destino da sociedade.
Nesse sentido, precisamos recordar uma advertência fundamental: Jesus não estabeleceu uma religião para proteger privilégios, mas anunciou o Reino de Deus, cuja realização histórica exige justiça, misericórdia, acolhimento e compromisso com os últimos.
O Evangelho não pode ser utilizado para justificar aquilo que o próprio Evangelho denuncia.
4. Plutocracia e meritocracia: a transformação da riqueza em medida do valor humano
Para compreender a desumanização contemporânea, precisamos analisar duas ideias que ganharam força na organização econômica e na cultura política: a plutocracia e a meritocracia.
Embora sejam conceitos diferentes, podem se articular de maneira bastante significativa.
Plutocracia é uma forma de organização do poder na qual a riqueza econômica proporciona influência política desproporcional. Em outras palavras, quem possui mais recursos financeiros dispõe também de maiores possibilidades de interferir nas decisões coletivas.
Meritocracia, por sua vez, é um princípio segundo o qual posições, oportunidades e recompensas devem ser distribuídas conforme o mérito individual, entendido geralmente a partir da capacidade, do esforço e dos resultados alcançados.
Em princípio, reconhecer capacidades, dedicação e responsabilidade não representa um problema. A questão começa quando a meritocracia é transformada em explicação absoluta das desigualdades sociais.
Nesse raciocínio, quem enriqueceu teria necessariamente demonstrado maior competência, enquanto quem permanece pobre seria responsável pela própria condição. Desaparecem da análise as desigualdades históricas, a concentração fundiária, a herança patrimonial, o racismo estrutural, a precarização do trabalho, a ausência de oportunidades e as diferenças de acesso à educação.
A sociedade passa a interpretar privilégios como conquistas individuais e necessidades sociais como fracassos pessoais.
É uma operação ideológica bastante eficiente: transforma problemas estruturais em responsabilidades individuais.
O resultado é uma sociedade que deixa de perguntar por que existem pessoas submetidas à fome, à exploração e à exclusão e passa a perguntar o que essas pessoas fizeram para merecer sua condição.
A pobreza, então, deixa de provocar indignação e passa a produzir julgamento moral.
A riqueza, por sua vez, deixa de ser submetida à responsabilidade social e passa a ser apresentada como sinal de superioridade.
É nesse ponto que a meritocracia, quando absolutizada, pode servir à plutocracia: oferece uma justificativa moral para a concentração econômica e para a reprodução dos privilégios.
A concentração da riqueza e a captura do poder
O relatório Resisting the Rule of the Rich, publicado pela Oxfam Internacional em janeiro de 2026, denuncia o crescimento extraordinário das fortunas dos bilionários e os riscos decorrentes da transformação da riqueza econômica em poder político. O documento registra que o número de bilionários ultrapassou três mil e que sua riqueza atingiu níveis historicamente elevados, enquanto uma em cada quatro pessoas no mundo enfrenta a fome.
No Brasil, um relatório divulgado pela Oxfam Brasil [5] em agosto de 2026, intitulado Um Retrato das Desigualdades Brasileiras: Poder, Privilégio e a Captura da Democracia, analisa como a concentração patrimonial amplia a capacidade de determinados grupos influenciarem eleições, políticas públicas, regulamentações e decisões estatais.
Esses dados permitem uma reflexão fundamental: quando o dinheiro proporciona acesso privilegiado às decisões políticas, a igualdade formal entre os cidadãos pode conviver com uma profunda desigualdade de influência.
A democracia corre o risco de se transformar em uma estrutura na qual todos possuem formalmente direitos iguais, mas alguns possuem muito mais condições de determinar os rumos da sociedade.
A pergunta que emerge é: podemos considerar verdadeiramente livre uma sociedade na qual a riqueza de poucos condiciona as possibilidades de existência de muitos?
A partir da Teologia Latino-americana, a resposta precisa considerar a opção preferencial pelos pobres.
Não se trata de condenar a riqueza em si, nem de negar a importância do trabalho, da iniciativa ou da capacidade individual. Trata-se de questionar a acumulação que se realiza à custa da dignidade de outros seres humanos.
A economia deve estar a serviço da vida. Quando a vida passa a servir à acumulação econômica, invertem-se os fundamentos éticos da civilização.
5. A contribuição da psicologia: medo, pertencimento e fabricação de inimigos
A psicologia social oferece elementos importantes para compreender por que indivíduos e grupos podem aderir a discursos extremistas.
Não podemos reduzir o extremismo a uma questão de ignorância ou ausência de inteligência. Pessoas com diferentes níveis de escolaridade, experiências profissionais e condições econômicas podem aderir a movimentos radicalizados.
É necessário observar alguns mecanismos psicológicos e sociais.
a) A necessidade de pertencimento
O ser humano precisa sentir-se reconhecido, protegido e integrado a uma comunidade. Em períodos de instabilidade, insegurança econômica e transformações culturais, essa necessidade pode tornar-se particularmente intensa.
Movimentos extremistas oferecem identidades aparentemente simples e seguras: nós somos os verdadeiros representantes da nação, da religião, da família ou da moralidade; os outros representam a ameaça.
A pessoa encontra pertencimento, mas esse pertencimento pode ser construído pela rejeição de alguém.
b) O medo e a necessidade de segurança
O medo é uma experiência humana legítima. Entretanto, pode ser manipulado politicamente.
Quando uma população é constantemente exposta a discursos que anunciam a destruição da família, da religião, da pátria ou da ordem social, pode desenvolver uma percepção permanente de ameaça.
Nesse ambiente, propostas autoritárias podem ser apresentadas como soluções protetoras.
A liberdade passa a ser considerada menos importante do que a promessa de segurança.
c) A desumanização do adversário
Um dos mecanismos mais perigosos da radicalização é retirar do outro sua condição de sujeito humano.
O adversário deixa de ser uma pessoa com direitos, sentimentos, história e dignidade. Passa a ser identificado por rótulos: comunista, inimigo da pátria, herege, invasor, degenerado ou ameaça à sociedade.
Essa linguagem diminui as barreiras morais que normalmente impediriam a violência.
d) A necessidade de superioridade
A busca pelo reconhecimento e pelo status também pode favorecer relações agressivas.
Um estudo publicado em abril de 2026 na revista científica Nature Human Behaviour, envolvendo 15.202 participantes de 30 países, encontrou associação entre maior hostilidade política nas redes sociais, menor igualdade econômica e menor qualidade democrática. O estudo também identificou uma relação entre motivações de busca de status e comportamentos hostis, tanto no ambiente digital quanto fora dele.
Os autores ressaltam que os resultados são observacionais e não demonstram, por si mesmos, causalidade.
Essa contribuição é importante porque demonstra que a hostilidade política não deve ser analisada exclusivamente como um problema de comportamento individual. Ela também está relacionada às condições sociais e econômicas nas quais as pessoas vivem.
e) A necessidade de confirmar aquilo em que já acreditamos
Outro fenômeno relevante é o chamado viés de confirmação: a tendência de privilegiar informações que reforçam nossas convicções e rejeitar aquelas que as contradizem.
Nas redes sociais, esse mecanismo pode ser intensificado pela circulação de conteúdos que provocam indignação, medo e sensação de pertencimento.
A pessoa deixa de procurar informações para compreender a realidade e passa a procurar argumentos para defender sua identidade ideológica.
Assim, o diálogo perde espaço para a competição pela superioridade moral.
A psicologia nos ajuda a perceber que o extremismo não nasce apenas de ideias equivocadas. Ele também pode ser alimentado por inseguranças, ressentimentos, necessidades de reconhecimento e estruturas sociais que premiam a agressividade.
Isso não significa retirar a responsabilidade moral de quem pratica violência ou dissemina o ódio. Significa compreender os mecanismos que tornam tais comportamentos possíveis.
6. A contribuição da antropologia: a perda da alteridade e a construção dos excluídos
A antropologia permite aprofundar uma questão fundamental: o que acontece com uma sociedade quando ela deixa de reconhecer a diversidade humana como um valor?
A humanidade sempre construiu identidades coletivas. Pertencemos a famílias, comunidades, povos, culturas, religiões e nações. Essas identidades são importantes para nossa existência.
O problema começa quando a identidade é construída pela negação da identidade alheia.
A diferença passa a ser interpretada como ameaça. O desconhecido é tratado como inimigo. A cultura diferente é considerada inferior. A religião do outro é vista como perigo.
É possível estabelecer aqui um diálogo com a reflexão antropológica de René Girard sobre o mecanismo do bode expiatório.
Em determinadas situações, grupos sociais projetam suas angústias, tensões e conflitos sobre indivíduos ou comunidades consideradas responsáveis por seus problemas. A eliminação ou perseguição desses supostos culpados pode produzir uma sensação temporária de unidade coletiva.
O mecanismo é particularmente perigoso porque oferece uma resposta aparentemente simples para problemas complexos: se estamos em crise, basta identificar e combater os responsáveis.
Imigrantes, indígenas, negros, pobres, pessoas LGBTQIA+, minorias religiosas e adversários políticos podem ser transformados em alvos dessa lógica, dependendo do contexto histórico.
A desumanização começa quando o outro deixa de ser reconhecido como alguém que compartilha conosco a mesma condição humana.
A contribuição de Frantz Fanon também é indispensável. Ao analisar as estruturas coloniais, Fanon demonstrou como a dominação não se limita à exploração econômica: ela também produz hierarquias culturais, raciais e simbólicas, fazendo com que determinados grupos sejam considerados menos humanos ou menos dignos.
Essa reflexão continua atual na América Latina.
Quando povos indígenas são tratados como obstáculos ao desenvolvimento econômico, quando comunidades quilombolas precisam justificar permanentemente seu direito à terra, quando trabalhadores rurais são submetidos à violência e quando moradores das periferias são vistos apenas como ameaças à segurança, encontramos manifestações de uma mesma estrutura de desumanização.
A questão não é apenas econômica. É civilizatória.
Uma sociedade verdadeiramente humana não é aquela na qual todos são iguais culturalmente, religiosamente ou ideologicamente. É aquela na qual ninguém precisa deixar de ser quem é para ter reconhecida sua dignidade.
7. A Teologia Latino-americana: Deus não está do lado dos privilégios, mas da vida ameaçada
A Teologia Latino-americana oferece uma chave fundamental para interpretar essa realidade: a opção preferencial pelos pobres.
A partir da experiência das comunidades cristãs latino-americanas, da leitura popular da Bíblia e da reflexão teológica de Medellín, Puebla, Santo Domingo e Aparecida, compreendemos que a fé não pode permanecer indiferente diante das estruturas que produzem sofrimento e exclusão.
A pergunta teológica não pode ser apenas se determinada pessoa acredita em Deus. É necessário perguntar também que consequências essa fé produz na maneira como ela trata os outros seres humanos.
Uma espiritualidade que não se traduz em compromisso com a vida corre o risco de transformar-se em experiência religiosa alienada.
7.1. O Deus do Êxodo e a libertação dos oprimidos
No livro do Êxodo, encontramos uma das afirmações mais importantes da tradição bíblica:
“Eu vi, eu vi a aflição do meu povo que está no Egito, e ouvi os seus clamores por causa dos seus opressores. Sim, eu conheço os seus sofrimentos.” (Ex 3,7).
O Deus bíblico não permanece indiferente diante da exploração.
Ele vê, escuta, conhece e age.
Essa revelação possui consequências profundamente políticas e sociais. O sofrimento humano não é uma realidade naturalizada por Deus. A opressão não é uma ordem divina. A escravidão não é uma condição que deva ser aceita em nome da obediência.
O Êxodo apresenta um Deus que se coloca ao lado de um povo submetido à exploração e o conduz em direção à liberdade.
Por isso, qualquer projeto religioso que legitime a escravidão contemporânea, a exploração do trabalho, a fome ou a negação de direitos precisa ser confrontado com a memória libertadora do Êxodo.
7.2. Os profetas e a denúncia da religião sem justiça
Os profetas bíblicos não tiveram receio de confrontar as instituições religiosas e políticas quando estas se afastavam da justiça.
Amós apresenta uma das denúncias mais contundentes: “Eu quero, isto sim, é o direito correndo como água e a justiça como um rio caudaloso!” (Am 5,24).
O profeta não está defendendo uma religião sem culto. Está denunciando um culto que perdeu sua correspondência ética.
A celebração religiosa torna-se contraditória quando convive tranquilamente com a exploração dos trabalhadores, a corrupção, a violência e a indiferença diante dos pobres.
Essa crítica permanece absolutamente necessária.
Não basta multiplicar templos, celebrações, manifestações religiosas e discursos sobre Deus. É preciso verificar se essas experiências contribuem para a construção de uma sociedade mais justa.
7.3. Jesus e a desconstrução das hierarquias desumanizadoras
Jesus de Nazaré questionou profundamente as estruturas sociais e religiosas que estabeleciam fronteiras entre pessoas dignas e indignas.
Seu relacionamento com mulheres, estrangeiros, doentes, pecadores, pobres e marginalizados revela uma prática de aproximação e reconhecimento.
Na parábola do bom samaritano (Lc 10,25-37), Jesus apresenta como referência ética justamente alguém que pertencia a um grupo desprezado pelos interlocutores judeus da época.
A pergunta deixa de ser quem merece receber meu amor e passa a ser como posso tornar-me próximo daquele que necessita de mim.
Essa inversão é profundamente revolucionária.
Em Mateus 25,31-46, a identificação de Jesus com os famintos, sedentos, estrangeiros, nus, enfermos e encarcerados estabelece um critério fundamental para compreender a autenticidade da vida religiosa.
O encontro com Deus passa pelo encontro com o ser humano concretamente necessitado.
Portanto, não é possível separar o amor a Deus do compromisso com a dignidade humana.
Uma religião que ensina a desprezar o próximo, alimentar o ódio e justificar a violência contradiz o núcleo da experiência evangélica.
7.4. A contribuição de Medellín, Puebla e Aparecida
A Conferência de Medellín, em 1968, representou um marco na recepção do Concílio Vaticano II na América Latina. Sua reflexão sobre a justiça, a paz e a transformação das estruturas sociais ajudou a Igreja a reconhecer que a pobreza e a exclusão não são apenas problemas individuais, mas também realidades estruturais.
Puebla, em 1979, aprofundou a opção preferencial pelos pobres e a necessidade de uma evangelização comprometida com a dignidade humana.
Aparecida, em 2007, reafirmou a necessidade de uma Igreja discípula e missionária, capaz de reconhecer Cristo nos rostos concretos daqueles que sofrem.
Essa tradição teológica nos oferece uma compreensão muito importante: a Igreja não pode confundir sua fidelidade ao Evangelho com a defesa de privilégios institucionais, interesses partidários ou projetos de dominação cultural.
A missão cristã não consiste em conquistar hegemonia sobre a sociedade, mas em testemunhar o Reino de Deus.
E o Reino não pode ser construído sobre a humilhação dos pequenos.
8. O conservadorismo e a desumanização: uma distinção necessária
É importante fazer uma distinção conceitual.
Nem toda posição conservadora representa extremismo. Existem pessoas e tradições conservadoras que valorizam a memória histórica, a continuidade cultural, a família, a espiritualidade, a responsabilidade individual e a preservação de instituições. Esses elementos podem participar legitimamente do debate democrático.
O problema aparece quando o conservadorismo se transforma em um projeto de restauração de hierarquias sociais, políticas, culturais e religiosas, considerando a pluralidade uma ameaça e os direitos conquistados por grupos historicamente marginalizados uma espécie de desordem social.
Nesse momento, não estamos mais diante apenas de uma preferência ideológica. Estamos diante de um projeto de sociedade que precisa ser examinado por suas consequências humanas.
Podemos identificar algumas contradições:
| Discurso apresentado | Contradição que precisa ser examinada |
|---|---|
| Defesa da família | Indiferença diante da fome, da violência doméstica e da falta de moradia. |
| Defesa da liberdade | Restrição dos direitos de quem pensa, crê ou vive diferentemente. |
| Defesa da vida | Tolerância diante da violência, da miséria e da morte de populações vulneráveis. |
| Defesa da ordem | Naturalização de privilégios e desigualdades estruturais. |
| Defesa da religião | Utilização da fé para legitimar perseguições e disputas de poder. |
| Defesa do mérito | Desconsideração das desigualdades históricas e das oportunidades desiguais. |
| Defesa da pátria | Desprezo por povos originários, minorias e grupos considerados diferentes. |
A questão fundamental é que determinados movimentos não pretendem simplesmente preservar valores. Pretendem estabelecer quem tem o direito de definir os valores da sociedade e quem deve submeter-se a eles.
A religião pode ser particularmente vulnerável a esse processo quando abandona sua dimensão profética e se associa à manutenção de privilégios.
O cristianismo, entretanto, não pode ser reduzido à conservação de uma ordem social. Jesus não veio para sacralizar as estruturas existentes, mas para anunciar a possibilidade de uma humanidade reconciliada.
A misericórdia não é concessão feita aos fracos. É uma exigência da própria experiência de Deus.
9. A crise da civilidade: estamos perdendo aquilo que nos torna humanos?
Civilidade não significa apenas educação formal, boas maneiras ou respeito às convenções sociais.
Civilidade é a capacidade de reconhecer que a existência do outro impõe limites éticos à nossa própria liberdade.
É compreender que ninguém possui o direito de humilhar, perseguir ou eliminar alguém simplesmente porque discorda de suas ideias.
É reconhecer que a dignidade humana não depende da renda, da escolaridade, da religião, da cor da pele, da nacionalidade ou da posição política.
A civilização se constrói quando os indivíduos compreendem que não vivem isoladamente e que o bem-estar coletivo é condição para a realização pessoal.
Entretanto, determinados discursos contemporâneos parecem caminhar em direção contrária.
A competição substitui a cooperação. A acumulação substitui a partilha. A suspeita substitui a confiança. A agressividade substitui o diálogo. A superioridade individual substitui a responsabilidade coletiva.
Aparece uma espécie de darwinismo social, segundo o qual somente os mais fortes, competitivos e economicamente bem-sucedidos mereceriam ocupar os melhores lugares da sociedade.
Essa concepção é particularmente cruel porque transforma a vulnerabilidade humana em motivo de desprezo.
Mas a humanidade não se construiu porque os indivíduos mais fortes eliminaram os mais frágeis. Nossa sobrevivência coletiva dependeu também da cooperação, do cuidado, da transmissão de conhecimentos e da proteção daqueles que necessitavam de ajuda.
A capacidade de cuidar é tão constitutiva da humanidade quanto a capacidade de produzir.
Uma civilização que perde a capacidade de cuidar começa a perder também sua razão ética de existir.
10. O desafio das Comunidades Eclesiais de Base, da CPT e do CIMI
Diante desse cenário, a Igreja precisa recuperar sua dimensão profética.
As Comunidades Eclesiais de Base possuem uma contribuição histórica importante porque representam uma experiência de fé construída na convivência, na participação, na leitura comunitária da Palavra e no compromisso com as realidades concretas do povo.
Nas CEBs, a fé não pode ser reduzida à adesão a uma liderança ou à repetição de discursos religiosos. Ela se realiza na capacidade de construir fraternidade, solidariedade e participação.
A Comissão Pastoral da Terra, por sua vez, ajuda a Igreja a compreender que a defesa da dignidade humana passa necessariamente pela justiça agrária, pelos direitos dos trabalhadores rurais, pelo enfrentamento da violência no campo e pela defesa da Casa Comum.
O Conselho Indigenista Missionário recorda que a dignidade humana não pode ser separada do respeito aos povos originários, às suas culturas, aos seus territórios e ao direito de viverem conforme suas próprias tradições.
Essas experiências demonstram que a evangelização possui consequências sociais.
Não basta anunciar que Deus ama a humanidade. É necessário participar da construção de condições históricas para que as pessoas possam viver com dignidade.
Algumas atitudes pastorais tornam-se particularmente necessárias:
1. Recuperar a dimensão formativa da fé. Promover uma educação bíblica, teológica e política que ajude as comunidades a identificar manipulações religiosas, discursos de ódio e projetos autoritários.
2. Reafirmar a dignidade de todas as pessoas. Combater o racismo, a xenofobia, a intolerância religiosa, o machismo e todas as formas de discriminação.
3. Desenvolver uma espiritualidade da fraternidade. Recuperar a centralidade da misericórdia, do perdão, do acolhimento e da responsabilidade pelo próximo.
4. Fortalecer a democracia participativa. Incentivar o protagonismo popular, a organização comunitária, os conselhos de direitos e a participação cidadã.
5. Defender os povos e territórios ameaçados. Manter o compromisso com os indígenas, quilombolas, trabalhadores rurais, populações periféricas e demais grupos vulnerabilizados.
6. Combater a instrumentalização da religião. Não permitir que o nome de Deus seja utilizado para justificar perseguições, privilégios econômicos ou projetos de dominação.
7. Recuperar a dimensão pública do Evangelho. Compreender que a defesa da justiça, da paz, dos direitos humanos e da Casa Comum faz parte da missão evangelizadora.
É importante também que a Igreja não reproduza a lógica que pretende combater. Não se enfrenta o extremismo com outro extremismo, nem a desumanização com a desumanização de quem pensa diferentemente.
A firmeza profética precisa caminhar junto com a capacidade de diálogo, a verdade, a misericórdia e a defesa incondicional da dignidade humana.
11. Considerações finais: precisamos reconstruir uma humanidade que aprendeu a competir, mas desaprendeu a cuidar
Talvez uma das maiores tragédias do nosso tempo seja perceber que estamos desenvolvendo extraordinária capacidade de produzir riquezas, mas não conseguimos distribuí-las com justiça; ampliamos os meios de comunicação, mas temos dificuldade de dialogar; multiplicamos manifestações religiosas, mas nem sempre conseguimos produzir fraternidade.
A humanidade parece estar diante de uma escolha civilizatória.
De um lado, uma sociedade organizada em torno da acumulação, da competição permanente, da concentração de poder, da superioridade individual e da exclusão daqueles que não conseguem acompanhar o ritmo imposto pelo sistema.
De outro, uma sociedade que reconhece a interdependência humana, valoriza a solidariedade, respeita a diversidade, protege os vulneráveis e compreende que a economia, a política, a ciência e a religião devem estar a serviço da vida.
A primeira perspectiva encontra justificativas na absolutização da meritocracia e na concentração plutocrática do poder. A segunda exige uma profunda reconstrução ética das relações humanas.
A Teologia Latino-americana nos recorda que não existe verdadeira experiência de Deus quando a vida dos pobres é considerada descartável.
O papa Francisco, na encíclica Fratelli Tutti, ofereceu uma contribuição especialmente importante ao denunciar a cultura do descarte e ao propor a fraternidade e a amizade social como fundamentos para reconstruir a convivência humana.
Não se trata de abolir as diferenças, mas de aprender a conviver com elas. Não se trata de eliminar os conflitos, mas de impedir que sejam transformados em instrumentos de destruição. Não se trata de abandonar convicções, mas de reconhecer que nenhuma convicção nos autoriza a retirar do outro sua dignidade.
É preciso recuperar uma verdade fundamental: ninguém se torna verdadeiramente humano diminuindo a humanidade de outra pessoa.
Talvez seja justamente aqui que a Igreja precise reencontrar sua missão mais profunda. Não a missão de conquistar espaços de poder, impor comportamentos ou disputar hegemonias religiosas, mas a missão de testemunhar uma humanidade reconciliada, na qual os últimos sejam reconhecidos, os pobres tenham lugar à mesa e a dignidade de cada pessoa seja respeitada.
A sociedade precisa compreender que o valor de uma civilização não pode ser medido pela quantidade de bilionários que produz, pelo poder de seus armamentos, pelo crescimento de seus mercados ou pela influência de suas lideranças religiosas.
Deve ser medido, sobretudo, pela maneira como trata aqueles que possuem menos possibilidades de defender a própria existência.
E aqui encontramos uma síntese profundamente evangélica: a grandeza de uma sociedade não está na quantidade de poder que consegue acumular, mas na capacidade de cuidar daqueles que mais necessitam.
Uma humanidade que transforma a riqueza em virtude absoluta, a pobreza em culpa, a diferença em ameaça e a religião em instrumento de dominação está comprometendo os próprios fundamentos da civilização.
A resposta a essa realidade não pode ser simplesmente política, econômica ou religiosa. Precisa ser humana.
Precisamos reaprender a ser humanidade.
Referências
- ARENDT, Hannah. Origens do Totalitarismo. São Paulo: Companhia de Bolso, 2013.
- BOFF, Leonardo. Jesus Cristo Libertador. 21ª ed. Petrópolis: Vozes, 2012.
- Bor et al. Social media users experience more political hostility in less economically equal and less democratic societies. Nature Human Behaviour (2026). Consultar estudo.
- CELAM. Documento de Aparecida. 1ª ed. São Paulo: Paulus.
- CELAM. Conclusões da 3ª Conferência Geral do Episcopado Latino Americano. In: https://dehoniana.edu.br/wp-content/uploads/2019/08/Documento-de-Puebla.pdf. Acesso em 02/11/2026.
- CELAM. Conclusões da Conferência de Medellin. Texto oficial e comentários. São Paulo: Paulinas, 1998.
- DUSSEL, Enrique. Ética da Libertação na Idade da Globalização e da Exclusão. 4ª ed. Petrópolis: Vozes, 2012.
- FANON, Frantz. Os Condenados da Terra. São Paulo: Zahar, 2022.
- FRANCISCO. Fratelli Tutti. São Paulo: Paulus, 2020.
- FREIRE, Paulo. Pedagogia do Oprimido. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2019.
- FROMM, Erich. O Medo à Liberdade. Coimbra: Edições 70, 2023.
- GIRARD, René. O Bode Expiatório. São Paulo: Paulus, 2004.
- Oxfam International. Resisting the Rule of the Rich (2026). Consultar relatório.
- Oxfam Brasil. Um Retrato das Desigualdades Brasileiras: Poder, Privilégio e a Captura da Democracia (2026). Consultar estudo.
- Pew Research Center. Many Latin Americans see a role for religion in government (2026). Consultar pesquisa.
- SOBRINO, Jon. Jesus, o Libertador. [Jesucristo liberador: Lectura histórico-teológica de Jesús de Nazaret]. Madrid: Editorial Trotta, S.A., 2020.
- V-Dem Institute. Democracy Report 2026. Consultar relatório.
Deixe um comentário