Reflexão para Quarta-feira da 20ª Semana do Tempo Comum – (Ezequiel 34,1-11 e Mateus 20,1-16a)

Por Pe. Hermes A. Fernandes

1. Introdução: quando Deus toma partido dos vulneráveis

A leitura conjunta de Ez 34,1-11 e Mt 20,1-16a revela uma profunda convergência: Deus não permanece indiferente diante de estruturas que produzem abandono, exploração e exclusão. Em Ezequiel, Deus denuncia os pastores que se alimentam do rebanho em vez de cuidar dele. Em Mateus, Jesus apresenta uma parábola na qual trabalhadores submetidos à precariedade do trabalho são surpreendentemente alcançados por uma lógica que rompe com a simples equivalência entre produtividade e remuneração.

A Teologia Latino-Americana e a Leitura Popular da Bíblia nos convidam a perguntar não apenas “o que o texto significou?”, mas também “o que Deus está dizendo hoje aos pobres, aos trabalhadores, aos excluídos e àqueles que exercem responsabilidades na sociedade e na Igreja?”. A Bíblia, lida a partir da vida, torna-se Palavra que denuncia mecanismos de morte e convoca à construção de relações fundamentadas na justiça, na solidariedade e na misericórdia.

2. Ez 34,1-11: quando os pastores deixam de cuidar das ovelhas

Ezequiel profetiza no contexto dramático da crise de Judá e do exílio babilônico. Seu ministério está profundamente marcado pela experiência de um povo submetido à devastação política, social e religiosa. O capítulo 34 utiliza a imagem tradicional do pastor para falar das autoridades responsáveis pelo povo. O contexto histórico do livro está estreitamente relacionado à experiência dos exilados de Judá e às sucessivas crises políticas que culminaram na destruição de Jerusalém.

A acusação divina é contundente: “Ai dos pastores de Israel que se apascentam a si mesmos!”. O problema não é simplesmente a incompetência administrativa dos dirigentes. Trata-se de uma inversão radical da finalidade do poder. O pastor existe para cuidar das ovelhas; entretanto, aqueles que receberam uma missão de serviço transformaram-na em instrumento de benefício próprio.

A linguagem do profeta é extremamente concreta: os pastores comem a gordura, vestem-se com a lã e sacrificam os animais, mas não cuidam do rebanho. As ovelhas fracas não são fortalecidas, as doentes não são tratadas, as feridas não são curadas, as desgarradas não são reconduzidas e as perdidas não são procuradas. A crítica profética atinge, portanto, uma liderança que se alimenta da vulnerabilidade daqueles que deveria proteger.

Estudos sobre Ez 34 destacam justamente essa dimensão econômica da metáfora: os “pastores” fracassam em sua responsabilidade de cuidar do rebanho e apropriam-se indevidamente dos seus benefícios.

A Leitura Popular da Bíblia permite atualizar a pergunta: quem são hoje as ovelhas feridas, enfraquecidas, dispersas e abandonadas? São os moradores das periferias, os trabalhadores submetidos à precarização, os migrantes, os povos indígenas ameaçados, as pessoas em situação de rua, os desempregados, as vítimas da violência, aqueles que sofrem racismo e discriminação, os idosos abandonados e tantos outros que permanecem à margem dos sistemas de proteção.

E quem são os “pastores” de hoje? São todos aqueles que receberam responsabilidades sobre a vida coletiva: governantes, empresários, dirigentes sociais, religiosos, agentes públicos e também lideranças eclesiais. A Palavra de Deus recorda que toda autoridade somente encontra legitimidade quando se converte em serviço à vida.

O versículo 11 oferece a grande virada teológica: “Eu mesmo procurarei as minhas ovelhas e delas cuidarei.” Deus assume aquilo que os dirigentes abandonaram. A esperança bíblica nasce justamente da fidelidade de Deus aos pequenos. Não se trata de uma espiritualidade alienante, mas de uma revelação do rosto de um Deus que se compromete concretamente com aqueles que foram feridos pela ação ou omissão dos poderosos.

3. Mt 20,1-16a: a justiça de Deus diante dos trabalhadores

A parábola dos trabalhadores da vinha encontra-se numa seção do Evangelho de Mateus dedicada ao discipulado, à inversão dos valores e à chegada do Reino. Jesus descreve uma situação perfeitamente reconhecível no mundo rural do primeiro século: trabalhadores sem emprego aguardavam na praça a oportunidade de serem contratados para um dia de trabalho.

O proprietário sai sucessivamente para contratar trabalhadores: pela manhã, às nove horas, ao meio-dia, às três e, finalmente, às cinco da tarde. O primeiro grupo combina um denário, valor correspondente à remuneração diária de um trabalhador.

O detalhe decisivo está naqueles que permanecem na praça até o fim do dia. Quando o proprietário pergunta por que continuam ali, respondem: “Porque ninguém nos contratou”. Eles não estão simplesmente “ociosos”; estão sem trabalho, sem acesso ao meio de sobrevivência. A expressão utilizada por Mateus pode ser compreendida nesse sentido: pessoas que permanecem no mercado sem encontrar trabalho.

É precisamente a esses últimos que a parábola reserva sua surpresa. Na hora do pagamento, todos recebem o mesmo valor. A reação dos que trabalharam desde cedo é de indignação: “Estes últimos trabalharam somente uma hora e tu os igualaste a nós”.

Jesus não está oferecendo uma teoria econômica sobre salários. A parábola provoca uma ruptura com a lógica segundo a qual o valor de uma pessoa depende exclusivamente de sua produtividade. A discussão não é simplesmente sobre “igualdade de pagamento”, mas sobre que tipo de sociedade se pretende construir quando a vida humana é submetida exclusivamente à lógica do mérito, da competição e da rentabilidade.

Pesquisas contemporâneas sobre a parábola ressaltam que sua compreensão socioeconômica deve levar em conta as estruturas de trabalho e a realidade dos trabalhadores diaristas no mundo antigo.

A pergunta de Jesus continua atual: é justo deixar uma pessoa sem o necessário para viver apenas porque ela não conseguiu vender sua força de trabalho durante todo o dia?

A resposta do proprietário desestabiliza a lógica convencional: “Não posso fazer com os meus bens o que quero? Ou estás com inveja porque sou bom?”. A questão fundamental passa a ser a bondade que garante a vida do outro.

Na perspectiva da Teologia Latino-Americana, a parábola pode ser lida a partir da opção pelos pobres. Deus não olha a pessoa simplesmente segundo aquilo que ela produz. A dignidade humana precede a produtividade. O Reino de Deus questiona uma sociedade na qual alguns acumulam enquanto outros não conseguem sequer garantir o pão cotidiano.

4. Da denúncia profética à transformação social

Os dois textos convergem em uma poderosa crítica às estruturas que colocam o interesse dos poderosos acima da vida dos vulneráveis.

Em Ezequiel, os dirigentes são condenados porque exploram o rebanho. Em Mateus, a parábola coloca no centro aqueles que não conseguem encontrar trabalho e, portanto, estão ameaçados em sua própria sobrevivência.

Em ambos os textos, Deus se revela a partir dos que estão em situação de vulnerabilidade. Isso constitui um dos eixos fundamentais da Teologia Latino-Americana: Deus não é neutro diante da injustiça. A fé cristã não pode permanecer indiferente diante de sistemas que produzem pobreza, exclusão e morte.

A Igreja, por isso, não pode ser uma comunidade preocupada prioritariamente consigo mesma. Se quiser ser fiel ao Evangelho, deve assumir a condição de Igreja dos pobres e com os pobres, tornando-se espaço de acolhida, defesa de direitos, organização popular e promoção da dignidade humana.

A crítica de Ezequiel também deve alcançar a própria comunidade eclesial: toda liderança cristã precisa perguntar se está realmente cuidando das “ovelhas” ou se está utilizando o rebanho para alimentar projetos pessoais, privilégios institucionais ou interesses de grupos.

Do mesmo modo, Mateus questiona uma pastoral que transforma a fé numa competição de méritos. No Reino, ninguém pode ser descartado porque chegou “por último”. Os últimos são precisamente aqueles que Deus chama para o centro.

5. Compromisso pastoral: transformar a misericórdia em prática

A leitura destes textos exige uma pastoral concreta. Não basta proclamar que Deus ama os pobres; é necessário construir práticas que expressem esse amor.

A Igreja é chamada a:

  • fortalecer pastorais sociais comprometidas com trabalhadores, desempregados, migrantes, população em situação de rua, povos indígenas e comunidades periféricas;
  • defender o trabalho digno e combater toda forma de exploração e precarização;
  • promover iniciativas de economia solidária, cooperativismo e geração comunitária de renda;
  • acompanhar as vítimas de violência, exclusão e discriminação;
  • fortalecer a participação dos pobres nas decisões da própria comunidade eclesial;
  • denunciar estruturas políticas e econômicas que produzem concentração de riqueza e exclusão;
  • transformar paróquias e comunidades em espaços de acolhida, proteção e organização dos vulneráveis;
  • formar agentes pastorais para que leiam a Bíblia a partir da realidade concreta do povo.

A Leitura Popular da Bíblia ensina que a Palavra deve ser colocada em diálogo com a vida. Assim, depois de escutar Ez 34 e Mt 20, a comunidade precisa olhar para seu próprio território e perguntar: quem são as ovelhas abandonadas? Quem permanece todos os dias na “praça”, esperando uma oportunidade que nunca chega? Quem está sendo explorado? Quem está sendo silenciado? Quem precisa ser procurado, acolhido e defendido?

6. Conclusão: uma Igreja que procura, acolhe e partilha

Ez 34,1-11 e Mt 20,1-16a revelam um Deus que não aceita a indiferença diante do sofrimento humano. Em Ezequiel, Deus confronta os pastores que abandonaram as ovelhas. Em Mateus, Jesus anuncia uma lógica do Reino na qual a dignidade daqueles que chegaram por último não é inferior à daqueles que chegaram primeiro.

A mensagem é profundamente sociotransformadora: o Reino de Deus não legitima uma sociedade organizada para que poucos prosperem à custa de muitos. O Deus bíblico se aproxima dos feridos, procura os perdidos, acolhe os últimos e garante a possibilidade de vida digna.

Por isso, a Igreja latino-americana é chamada a ser uma Igreja que não se alimenta das ovelhas, mas cuida delas; que não contempla de longe os trabalhadores sem emprego, mas caminha com eles; que não transforma a pobreza em objeto de assistência, mas assume a luta pela justiça.

A verdadeira fidelidade ao Evangelho passa por uma conversão pastoral: sair de uma Igreja preocupada com seus próprios privilégios e tornar-se uma comunidade que procura os últimos, escuta suas vozes, defende seus direitos e participa da construção de uma sociedade na qual ninguém seja descartado.

Em última análise, os dois textos proclamam uma mesma Boa-Nova: Deus não abandona aqueles que a sociedade abandona. E a Igreja somente será fiel ao seu Senhor quando fizer dessa mesma opção uma prática cotidiana de misericórdia, justiça e transformação social.


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