Vigiar, Amar e Reconciliar: a missão profética das Comunidades Cristãs em defesa da Vida

Por Pe. Hermes A. Fernandes

Introdução

Estamos no XXIII Domingo do Tempo Comum. A Liturgia da Palavra nos apresenta provocações de suma importância. Os textos de Ezequiel 33,7-9, Romanos 13,8-10 e Mateus 18,15-20 convergem em uma questão fundamental: qual é a responsabilidade da comunidade diante do mal que atinge a vida humana? O profeta é constituído como sentinela; Paulo apresenta o amor como síntese da Lei; Jesus ensina uma pedagogia comunitária para enfrentar o pecado e recuperar o irmão.

Lidos a partir da Teologia Latino-Americana e da experiência das Comunidades Eclesiais de Base (CEBs), esses textos revelam que a fé não pode ser indiferente diante da injustiça. A espiritualidade bíblica conduz ao discernimento, à denúncia profética, à correção fraterna, à reconciliação e à defesa concreta dos pobres, marginalizados e excluídos. A missão da Igreja consiste, portanto, em tornar-se uma comunidade que vigia, ama, denuncia, acolhe e transforma.

1. Ezequiel 33,7-9: a comunidade como sentinela da vida

O capítulo 33 de Ezequiel marca uma importante transição no livro profético. Depois dos anúncios de julgamento contra Jerusalém e contra as nações, aparece novamente a imagem da sentinela. Deus diz ao profeta: eu te estabeleci como vigia para a casa de Israel.

A imagem possui forte significado social. A sentinela permanecia atenta ao perigo e tinha a responsabilidade de advertir a comunidade. O problema não era apenas perceber o perigo, mas não permanecer em silêncio diante dele. Se a sentinela não advertisse, seria responsabilizada; se advertisse e o povo não mudasse de comportamento, a responsabilidade passaria aos que recusaram a advertência.

O contexto histórico é o de uma comunidade profundamente ferida pela catástrofe nacional e pelo exílio. Ezequiel interpreta essa situação à luz da responsabilidade ética do povo. Deus não deseja a morte, mas a conversão. A profecia procura despertar uma comunidade para que reconheça suas responsabilidades diante da crise.

A partir da perspectiva latino-americana, a figura da sentinela possui grande força pastoral. A Igreja não pode fechar os olhos diante da fome, da violência, do racismo, da exploração dos trabalhadores, da destruição ambiental, da violência contra mulheres, crianças e idosos, da situação dos migrantes, dos povos indígenas e das populações que vivem nas periferias.

A profecia bíblica exige ver, discernir e falar.

As Comunidades Eclesiais de Base podem assumir essa vocação de sentinelas dos territórios onde estão inseridas. Uma comunidade que conhece as famílias, acompanha suas dores e celebra suas esperanças está em condições privilegiadas para perceber situações de injustiça que muitas vezes permanecem invisíveis. O silêncio diante da morte produzida socialmente não é neutralidade: pode transformar-se em cumplicidade.

Ser sentinela, entretanto, não significa condenar pessoas. Significa alertar para aquilo que ameaça a vida e convocar à mudança.

2. Romanos 13,8-10: o amor como critério de toda ação cristã

Paulo afirma: “Não fiqueis devendo nada a ninguém, a não ser o amor mútuo”. A passagem encontra-se na parte prática da Carta aos Romanos, depois de Paulo tratar da vida cristã em sociedade. O apóstolo apresenta o amor ao próximo como síntese da Lei: “Amarás o teu próximo como a ti mesmo” (Rm 13,9; Mt 22,37-30; Mc 12,31).

O verbo utilizado por Paulo para “cumprir” a Lei não significa simplesmente obedecer mecanicamente a normas. O amor revela a finalidade profunda dos mandamentos. Por isso, Paulo cita preceitos relacionados ao respeito à vida, à fidelidade, aos bens e à dignidade do outro. Quem ama não pratica o mal contra o próximo; consequentemente, “o amor é o cumprimento perfeito da Lei”.

Essa afirmação possui uma dimensão profundamente social. O amor cristão não é apenas sentimento ou afeto privado. Se amar significa não causar dano ao próximo, então o amor precisa confrontar tudo aquilo que produz dano, sofrimento e morte.

Nesse sentido, a Teologia Latino-Americana ajuda a recuperar a dimensão histórica do mandamento. Amar o pobre significa não apenas oferecer-lhe uma ajuda ocasional, mas perguntar por que ele é pobre, quem é excluído, quais mecanismos produzem a desigualdade e como a comunidade pode contribuir para transformar essa realidade.

O amor cristão torna-se, portanto, solidariedade organizada em defesa da vida.

Nas Comunidades Eclesiais de Base, isso pode concretizar-se na criação de redes de solidariedade, na defesa dos direitos sociais, na participação cidadã, na luta contra a fome e a violência, na defesa da Casa Comum e na articulação com pastorais sociais e movimentos populares. O amor deixa de ser apenas palavra e transforma-se em prática histórica.

3. Mateus 18,15-20: corrigir para recuperar, não para excluir

Mateus 18 constitui o chamado Discurso sobre a Comunidade. O capítulo apresenta uma comunidade que deve colocar os pequenos no centro, evitar escândalos, procurar a ovelha perdida e exercer o perdão. É nesse contexto que aparecem os versículos 15-20.

Jesus estabelece uma pedagogia para enfrentar situações de conflito: primeiro, conversar “a sós” com quem errou; se não houver escuta, chamar uma ou duas pessoas; finalmente, levar a questão à comunidade. A sequência possui caráter progressivo e comunitário.

É importante perceber que a finalidade inicial não é punir, humilhar ou destruir a pessoa. O objetivo é “ganhar o irmão” (Mt 18,15). A correção nasce, portanto, do desejo de recuperar relações e proteger a comunidade.

A exigência de testemunhas também revela preocupação com a justiça: uma acusação não deve ser transformada imediatamente em condenação pública. A comunidade precisa discernir, ouvir e buscar a verdade. O processo culmina na assembleia, onde a responsabilidade não pertence simplesmente a uma autoridade individual, mas à comunidade reunida.

Quando Jesus fala em “ligar e desligar”, apresenta à comunidade uma responsabilidade de discernimento. Não se trata de autorização para arbitrariedades, mas de uma autoridade exercida em nome da comunhão e submetida à vontade de Deus. A sequência é inseparável do contexto de cuidado dos vulneráveis, busca da ovelha perdida e perdão.

O texto, portanto, não legitima uma Igreja que exclui facilmente. Pelo contrário: apresenta uma comunidade que procura recuperar antes de condenar.

Essa perspectiva é especialmente importante diante das realidades atuais. As comunidades cristãs precisam enfrentar conflitos, abusos, injustiças e comportamentos que ferem a dignidade humana. Mas devem fazê-lo sem transformar a correção fraterna em fofoca, humilhação, perseguição ou linchamento moral.

Ao mesmo tempo, a misericórdia não pode ser utilizada para encobrir injustiças. Há situações em que proteger as vítimas, interromper abusos e estabelecer limites é indispensável. A reconciliação cristã não significa silenciar quem sofreu. Ela exige verdade, responsabilidade, proteção dos vulneráveis e transformação das relações.

4. Da sentinela à comunidade: uma pastoral sociotransformadora

Os três textos podem ser articulados em um verdadeiro itinerário pastoral:

Ezequiel ensina a ver e denunciar.
A comunidade não pode permanecer indiferente diante das ameaças à vida. É chamada a ser sentinela dos pobres e das vítimas da injustiça.

Paulo ensina o critério fundamental: amar.
Toda ação pastoral deve ser avaliada pela pergunta: esta prática protege ou ameaça a vida do próximo?

Jesus ensina como agir comunitariamente.
Diante do conflito e do pecado, é necessário dialogar, escutar, discernir, responsabilizar e procurar a restauração.

Essa síntese pode ser traduzida na dinâmica das CEBs: ver a realidade, iluminar a realidade com a Palavra, discernir comunitariamente e agir para transformá-la.

A ação pastoral daí decorrente precisa ultrapassar uma religiosidade exclusivamente sacramental ou individualista. A comunidade cristã deve estar presente onde a vida está ameaçada: junto aos pobres, desempregados, moradores das periferias, trabalhadores explorados, pessoas em situação de rua, migrantes, povos indígenas, comunidades negras, mulheres vítimas de violência, crianças vulneráveis e todos aqueles que são descartados pela sociedade.

Ser comunidade cristã significa criar espaços onde os excluídos recuperem voz, dignidade, participação e esperança.

Conclusão

Ez 33,7-9; Rm 13,8-10 e Mt 18,15-20 apresentam três dimensões inseparáveis da missão cristã: vigilância profética, amor concreto e responsabilidade comunitária.

A sentinela de Ezequiel recorda que não podemos permanecer calados diante da injustiça. Paulo ensina que o amor é o critério que dá sentido à Lei e à vida cristã. Jesus, em Mateus, mostra que a comunidade deve enfrentar os conflitos com verdade, responsabilidade, diálogo e busca da recuperação do irmão.

À luz da Teologia Latino-Americana, esses textos convidam as CEBs a serem comunidades proféticas, solidárias e reconciliadoras. Proféticas, porque denunciam aquilo que produz morte; solidárias, porque colocam os pobres e excluídos no centro da missão; reconciliadoras, porque procuram reconstruir relações feridas sem abandonar a verdade e a justiça.

A pergunta decisiva para a Igreja de hoje é, portanto: de que lado estamos quando a vida é ameaçada?

A resposta do Evangelho é clara: estar do lado da vida significa assumir a missão da sentinela, viver o amor como compromisso concreto e construir comunidades capazes de corrigir sem humilhar, denunciar sem odiar, perdoar sem encobrir a injustiça e acolher sem abandonar a verdade.

É assim que as CEBs podem tornar presente, no meio das periferias e dos lugares onde a vida é ameaçada, uma Igreja que não se fecha sobre si mesma, mas escuta o clamor dos pobres, discerne os sinais dos tempos e participa ativamente da construção do Reino de Deus na história.


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