Por Pe. Hermes A. Fernandes
Todos os anos, no dia 7 de setembro, enquanto o Brasil celebra oficialmente sua Independência, milhares de pessoas ocupam ruas e praças para lembrar que uma nação não pode ser considerada verdadeiramente independente enquanto milhões de seus filhos e filhas permanecem excluídos do direito à terra, à moradia, ao trabalho digno, à alimentação, à saúde, à educação, à segurança, à paz e à participação cidadã.
É nesse contexto que acontece o Grito dos Excluídos e Excluídas, uma das mais significativas experiências de mobilização popular surgidas no interior da Igreja Católica no Brasil e que, ao longo de três décadas, ultrapassou os limites eclesiais para tornar-se uma expressão plural da sociedade civil, reunindo pastorais sociais, comunidades cristãs, movimentos populares, sindicatos, organizações sociais, povos tradicionais e diferentes Igrejas Cristas e outras expressões religiosas igualmente importantes.
O Grito não é simplesmente uma manifestação realizada em determinada data. É um processo de conscientização, organização popular, denúncia das injustiças e anúncio de outro projeto de sociedade. Como registra a própria CNBB, trata-se de uma construção coletiva que possui um “antes”, um “durante” e um “depois”, envolvendo formação, mobilização, denúncia e compromisso.
Seu princípio fundamental pode ser resumido em uma afirmação que atravessa sua história: “Vida em Primeiro Lugar!”
1. Como nasceu o Grito dos Excluídos?
O Grito dos Excluídos nasceu no contexto das transformações políticas e sociais do Brasil após a redemocratização. A experiência está diretamente relacionada à 2ª Semana Social Brasileira, realizada entre 1993 e 1994, cujo tema foi “Brasil: alternativas e protagonistas”.
A Semana Social procurava estimular a participação popular na construção de alternativas para o país e superar uma visão segundo a qual apenas os grupos economicamente poderosos e os agentes políticos tradicionais poderiam decidir os rumos da sociedade.
Nesse processo, amadureceu a proposta de ocupar a Semana da Pátria com uma manifestação que colocasse no centro aqueles que normalmente permaneciam à margem das comemorações oficiais.
A iniciativa também estava profundamente relacionada à Campanha da Fraternidade de 1995, cujo tema era “A fraternidade e os excluídos” e cujo lema, inspirado em Mateus 25, era “Eras tu, Senhor?”. Assim, a pergunta evangélica sobre reconhecer Cristo no faminto, no sedento, no estrangeiro, no doente e no encarcerado transformou-se em uma pergunta dirigida à própria sociedade brasileira: quem são hoje os excluídos e por que continuam excluídos?
O primeiro Grito aconteceu em 7 de setembro de 1995, tendo como lema “A vida em primeiro lugar”. A partir de 1996, a iniciativa passou a ser assumida pela CNBB e consolidou-se progressivamente como uma articulação nacional.
Portanto, o Grito nasceu de uma convergência entre fé cristã, pastoral social, educação popular, participação cidadã e organização dos movimentos populares.
2. Um contraponto ao significado oficial da Independência
Existe uma dimensão profundamente simbólica na escolha do dia 7 de setembro.
A Independência do Brasil é tradicionalmente associada ao grito de Dom Pedro às margens do Ipiranga. O Grito dos Excluídos, porém, pergunta: Independência para quem?
A proclamação da Independência não significou automaticamente liberdade para a população escravizada, para os povos indígenas, para os pobres, para os trabalhadores sem direitos e para aqueles que continuaram submetidos a estruturas de exploração.
Por isso, o Grito dos Excluídos representa uma espécie de “outro grito de independência”: o grito daqueles que ainda esperam que a independência política se transforme em independência social, econômica, cultural e cidadã.
A pergunta é particularmente atual. Ainda existem brasileiros que não possuem casa, terra, emprego digno, acesso adequado à saúde e educação ou segurança. Há povos indígenas e comunidades tradicionais lutando pela preservação de seus territórios; trabalhadores submetidos à precarização; mulheres vítimas de violência; população negra atingida de maneira desproporcional pela desigualdade; pessoas em situação de rua; migrantes e refugiados; comunidades periféricas submetidas à violência.
Assim, o Grito pergunta à sociedade: que independência é esta quando tantos ainda não conseguem viver com dignidade?
3. Uma expressão da Igreja em saída
A importância eclesial do Grito dos Excluídos não está simplesmente no fato de ter nascido dentro da Igreja. Sua importância maior está na compreensão de que a fé cristã não pode permanecer indiferente diante do sofrimento humano.
O Grito encontra uma fundamentação muito forte no Evangelho de Mateus: “Eu estava com fome, e me destes de comer; eu estava com sede, e me destes de beber…” (Mt 25,35). O Cristo que a Igreja anuncia é encontrado concretamente na história dos pobres.
Por isso, uma Igreja que participa do Grito não está fazendo uma opção partidária. Está procurando tornar concreta a opção evangélica pelos pobres e pelos vulnerabilizados.
A CNBB reconhece o Grito como uma mobilização construída por comunidades cristãs, pastorais sociais, movimentos e organizações da sociedade civil.
Essa dimensão corresponde profundamente à tradição da Teologia Latino-Americana: Deus não é indiferente à história dos pobres. O clamor dos oprimidos torna-se lugar teológico, porque nele se manifesta uma exigência de justiça, dignidade e vida.
O Grito, nesse sentido, transforma a celebração da Pátria em uma oportunidade de perguntar se o projeto nacional está efetivamente colocando a vida humana e a Casa Comum acima dos interesses econômicos e dos privilégios.
4. O Grito como expressão da democracia participativa
Um dos grandes méritos do Grito dos Excluídos é recordar que democracia não significa apenas votar a cada quatro anos.
Democracia significa também participar, organizar-se, reivindicar, fiscalizar, propor, protestar pacificamente e construir coletivamente políticas públicas.
Por isso, o Grito coloca no espaço público aqueles que muitas vezes não possuem acesso aos grandes centros de decisão.
A rua torna-se espaço de cidadania.
A praça torna-se espaço de diálogo.
A manifestação torna-se espaço de educação popular.
E a voz dos pobres deixa de ser tratada como mero problema social para tornar-se sujeito político da transformação da sociedade.
A própria história do Grito demonstra essa preocupação. Desde suas primeiras edições, suas atividades incluem caminhadas, celebrações, seminários, rodas de conversa, audiências públicas, vigílias, atividades culturais, feiras de economia solidária e outras formas de participação.
5. O Grito e as Comunidades Eclesiais de Base
Para as Comunidades Eclesiais de Base, o Grito possui uma afinidade especial.
As CEBs aprenderam historicamente a ler a Bíblia a partir da vida e a interpretar a vida à luz da Palavra de Deus. Nessa perspectiva, o Grito é uma forma de fazer aquilo que a tradição da Leitura Popular da Bíblia sempre procurou realizar: escutar o clamor do povo, iluminar esse clamor com a Palavra e transformar a escuta em compromisso comunitário.
O método poderia ser resumido em três movimentos:
escutar – discernir – agir.
Escutar os gritos existentes nas comunidades. Discernir suas causas à luz do Evangelho. Agir coletivamente para transformar as estruturas que produzem exclusão.
Assim, o Grito não deveria ser apenas uma caminhada anual. Ele pode tornar-se um processo permanente de pastoral social.
A comunidade que participa do Grito precisa perguntar, durante todo o ano:
- Quem são os excluídos de nosso território?
- Quem não possui moradia digna?
- Quem está desempregado ou submetido ao trabalho precário?
- Quem sofre violência?
- Quais famílias passam fome?
- Quais povos têm seus territórios ameaçados?
- Quais mulheres estão sendo vítimas de violência?
- Quem não tem acesso adequado aos serviços públicos?
- Quais interesses econômicos estão produzindo destruição ambiental?
- Que ações concretas podemos desenvolver?
É dessa maneira que o Grito deixa de ser apenas um evento e transforma-se em processo pastoral e sociotransformador.
6. O 32º Grito dos Excluídos e Excluídas – 2026
Em 2026, realiza-se a 32ª edição do Grito dos Excluídos e Excluídas. O tema permanente continua sendo: “Vida em Primeiro Lugar!” E o lema específico deste ano é: “Na defesa da Terra, da Paz e da Moradia, erguemos a voz: Mulheres Vivas e Soberania!”
A mobilização acontece de 1º a 12 de setembro, com concentração especial durante a Semana da Pátria e, sobretudo, no dia 7 de setembro.
O lema de 2026 articula várias dimensões fundamentais da realidade brasileira: terra, paz, moradia, vida das mulheres e soberania.
Não são questões isoladas. Elas estão profundamente relacionadas.
7. Terra: quem tem direito ao chão?
Defender a terra significa perguntar quem pode ter acesso aos bens necessários à vida. No Brasil, a questão da terra continua marcada por conflitos, concentração fundiária, violência e ameaças aos povos indígenas, comunidades quilombolas, camponeses e demais comunidades tradicionais. A terra não pode ser vista apenas como mercadoria. Para muitos povos, ela é território, memória, cultura, espiritualidade, identidade e condição de sobrevivência. Por isso, defender a Terra significa também defender os povos que nela vivem.
O Grito de 2026 coloca essa questão no centro da mobilização e denuncia a violência no campo, os conflitos territoriais e as situações de trabalho escravo.
8. Paz: não existe paz sem justiça
- A paz proposta pelo Grito não pode ser reduzida à ausência de conflitos.
- Uma sociedade profundamente desigual não pode ser verdadeiramente pacífica.
- Não existe paz quando mulheres vivem sob ameaça permanente de feminicídio.
- Não existe paz quando comunidades periféricas convivem com violência.
- Não existe paz quando trabalhadores são submetidos à exploração.
- Não existe paz quando povos indígenas e comunidades tradicionais têm seus territórios ameaçados.
- Não existe paz quando a fome convive com a concentração de riquezas.
- A paz cristã está associada à justiça.
Por isso, a defesa da paz precisa estar vinculada à construção de condições concretas para uma vida digna.
9. Moradia: direito, não privilégio
O lema de 2026 também coloca a moradia no centro do Grito. Ter uma casa significa muito mais do que possuir quatro paredes. Significa possuir um lugar seguro para viver, criar os filhos, descansar, construir relações e participar da sociedade.
A organização do Grito chama atenção para a crise habitacional brasileira e para a situação de milhões de famílias afetadas pelo déficit habitacional, destacando ainda a dimensão racial e de gênero dessa realidade.
A questão habitacional também precisa ser relacionada à especulação imobiliária, aos aluguéis elevados, à ausência de políticas públicas suficientes e à expulsão das populações pobres das regiões mais valorizadas das cidades.
Para uma pastoral comprometida com o Evangelho, defender moradia digna significa defender a própria vida.
10. “Mulheres Vivas”: um grito contra o feminicídio e a violência
Uma das dimensões mais fortes do lema de 2026 está na expressão: “Mulheres Vivas!”
Não se trata apenas de afirmar que as mulheres têm direitos. Trata-se de reconhecer que muitas mulheres brasileiras continuam sendo vítimas de violência, agressão, abuso, exploração e feminicídio.
O Grito denuncia, portanto, uma sociedade que ainda permite que mulheres sejam assassinadas simplesmente por serem mulheres.
A defesa da vida das mulheres exige políticas públicas, educação, prevenção, proteção às vítimas, responsabilização dos agressores e transformação de uma cultura patriarcal que naturaliza diferentes formas de violência.
Para as comunidades cristãs, essa realidade precisa ser assumida como questão pastoral. Não basta rezar pelas mulheres assassinadas. É necessário construir comunidades onde as mulheres sejam respeitadas, ouvidas, protegidas e reconhecidas como protagonistas da missão eclesial e da transformação social.
11. Soberania: para quem devem servir as riquezas do Brasil?
O lema de 2026 também fala de soberania. Essa palavra precisa ser compreendida em sentido amplo. Soberania significa que os recursos naturais, a biodiversidade, a água, os minerais, as florestas, as riquezas produzidas pelo trabalho e os conhecimentos desenvolvidos pelo povo brasileiro devem estar a serviço do bem comum.
Não se trata de nacionalismo fechado ou de hostilidade aos outros povos. A verdadeira soberania é aquela que permite ao povo decidir democraticamente seu futuro e utilizar suas riquezas para promover vida digna. A própria tradição das Semanas Sociais Brasileiras relaciona soberania à defesa dos bens naturais e socialmente produzidos em benefício da população, especialmente dos pobres.
Por isso, soberania e justiça social são inseparáveis.
12. O Grito como espiritualidade da esperança
O Grito dos Excluídos não é um movimento construído sobre o desespero. É um movimento de esperança ativa. A esperança cristã não significa esperar passivamente que Deus resolva os problemas humanos. Esperar, na tradição bíblica, significa também levantar-se, organizar-se, caminhar e lutar pela vida.
O Êxodo bíblico começa quando Deus escuta o clamor de um povo escravizado: “Eu ouvi o seu clamor” (Ex 3,7). Deus ouve o grito. Mas o grito também desperta o povo.
Por isso, o Grito dos Excluídos pode ser compreendido como uma verdadeira espiritualidade do clamor e da esperança.
A fé não silencia os pobres.
A fé ajuda os pobres a descobrir que sua voz possui dignidade.
A Igreja não deveria falar no lugar dos pobres.
Deveria caminhar com eles para que possam ser sujeitos de sua própria história.
13. O verdadeiro significado do 7 de setembro
O 7 de setembro pode ser mais do que uma celebração militar ou cívica. Pode tornar-se uma ocasião para perguntarmos: Que Brasil queremos construir?
Um Brasil no qual poucos concentram riquezas enquanto milhões sobrevivem com dificuldades? Ou um Brasil no qual a economia esteja subordinada à dignidade humana?
Um Brasil que destrói seus territórios naturais? Ou um Brasil que cuida da Casa Comum?
Um Brasil que permite violência contra mulheres? Ou um Brasil no qual toda mulher possa viver sem medo?
Um Brasil no qual milhões não têm moradia adequada? Ou um Brasil que reconhece a habitação como direito?
Um Brasil no qual os pobres sejam apenas objetos de assistência? Ou um Brasil no qual os pobres sejam protagonistas da construção nacional?
É justamente nesse ponto que o Grito dos Excluídos adquire sua força profética. Ele transforma o 7 de setembro em uma pergunta sobre o presente e o futuro do país.
Conclusão: que o Brasil aprenda a ouvir seus gritos
Depois de mais de três décadas, o Grito dos Excluídos continua atual porque as razões que o fizeram nascer ainda não desapareceram.
Mudaram os governos, as conjunturas políticas e econômicas, as tecnologias e as formas de comunicação. Mas continuam existindo pobreza, desigualdade, concentração de renda, violência, racismo, exclusão, conflitos pela terra, déficit habitacional e destruição ambiental.
Por isso, o Grito continua necessário.
Em 2026, ele nos convoca a levantar a voz “na defesa da Terra, da Paz e da Moradia”, afirmando que precisamos de “Mulheres Vivas e Soberania!”.
Para a Igreja, especialmente para as Pastorais Sociais, as Comunidades Eclesiais de Base e todos os que assumem a opção pelos pobres, esse Grito deve ser compreendido como uma expressão concreta da fé que se compromete com a história.
Não basta ouvir.
É preciso responder.
Não basta denunciar.
É preciso transformar.
Não basta celebrar a Independência.
É necessário construir uma sociedade na qual todos possam experimentar a verdadeira liberdade.
O Grito dos Excluídos nos recorda, enfim, que uma Pátria verdadeiramente independente é aquela em que nenhum ser humano é considerado descartável.
E enquanto houver pessoas sem terra, sem teto, sem trabalho digno, sem segurança, sem direitos e sem voz, o grito continuará sendo necessário.
Porque, para os cristãos, a pergunta permanece: Onde está o teu irmão? E a resposta do Evangelho continua sendo: Onde a vida está ameaçada, ali Deus nos chama a estar.
Vida em primeiro lugar!
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