Maria, Belém e a esperança dos pequenos
Por Pe. Hermes A. Fernandes
Introdução
A Festa da Natividade da Bem-aventurada Virgem Maria nos coloca diante de uma personagem que ocupa lugar singular na história da salvação. Entretanto, os textos bíblicos relacionados à sua festa não apresentam Maria a partir de privilégios, riqueza ou poder. Pelo contrário, conduzem-nos ao universo dos pequenos, dos lugares esquecidos e das pessoas que, aparentemente, não contam para os grandes projetos da história.
A liturgia nos propõe, neste contexto, Miqueias 5,1-4a e Mateus 1,1-16.18-23. O primeiro anuncia que de uma pequena localidade, Belém de Éfrata, surgirá aquele que governará Israel. O segundo apresenta a genealogia de Jesus e, posteriormente, seu nascimento, mostrando que a história da salvação passa por pessoas concretas, com suas histórias, contradições e sofrimentos.
Uma leitura latino-americana desses textos permite perceber que Deus não constrói sua história a partir dos centros de poder, mas a partir das periferias e dos pequenos. É nessa perspectiva que Maria pode ser contemplada pelas Comunidades Eclesiais de Base: mulher do povo, inserida na história concreta de Israel, cuja existência se torna sinal de que Deus continua levantando esperança a partir daqueles que o mundo costuma invisibilizar.
1. Miqueias 5,1-4a: de Belém, o pequeno, nascerá o pastor
O profeta Miqueias exerceu seu ministério em Judá, provavelmente no século VIII a.C., durante um período marcado pela expansão do Império Assírio, pela ameaça militar e pela concentração de riqueza e terras. O livro denuncia com vigor a opressão dos pobres, a corrupção das autoridades e a injustiça praticada pelos poderosos.
É nesse contexto que aparece a promessa: “Tu, Belém de Éfrata, pequenina entre os mil povoados de Judá, de ti há de sair aquele que dominará em Israel; sua origem vem de tempos remotos, desde os dias da eternidade” (Mq 5,1).
A escolha de Belém é teologicamente significativa. Jerusalém era o centro político e religioso. Belém, ao contrário, era uma pequena localidade. É justamente dela que Deus fará surgir um governante.
O texto estabelece, assim, uma inversão dos critérios humanos de poder. A esperança não nasce necessariamente dos palácios, das grandes cidades ou das estruturas dominantes. Deus escolhe o pequeno para realizar grandes coisas.
A promessa continua afirmando que esse governante “apascentará o povo com a força do Senhor” (Mq 5,3). Temos aqui uma imagem de liderança profundamente diferente daquela exercida pelos reis opressores. O verdadeiro governante não existe para dominar o povo, mas para apascentá-lo, protegê-lo e conduzi-lo à segurança.
Essa perspectiva possui enorme força para a Teologia latino-americana. A história não deve ser lida somente a partir dos vencedores. É necessário olhar para a realidade a partir dos pobres e excluídos. A periferia pode tornar-se lugar teológico porque é nela que Deus continua manifestando sua presença.
Belém pode ser comparada, em nossa realidade, às periferias urbanas, às comunidades rurais, às aldeias indígenas, aos territórios quilombolas, às ocupações populares e a tantos lugares considerados insignificantes pelos centros econômicos e políticos.
A pergunta pastoral torna-se inevitável: onde estão hoje as nossas “Beléns”?
São os lugares onde vivem aqueles que não possuem voz nos grandes projetos econômicos; são os territórios ameaçados pela mineração e pelo agronegócio predatório; são as periferias onde a juventude sofre com a violência; são as comunidades esquecidas pelo poder público; são os lugares onde a fome e o desemprego revelam a desigualdade estrutural.
2. Mateus 1,1-16: a genealogia de Jesus e os sujeitos esquecidos da história
Mateus inicia seu Evangelho com uma genealogia: “Livro da origem de Jesus Cristo, filho de Davi, filho de Abraão” (Mt 1,1).
À primeira vista, uma longa lista de nomes pode parecer pouco significativa. Entretanto, a genealogia possui profunda importância teológica. Mateus deseja mostrar que Jesus está inserido concretamente na história de Israel. Ele não aparece como alguém desconectado da humanidade. Jesus possui uma história, uma genealogia e uma pertença a um povo.
A genealogia também não é uma lista de personagens perfeitos. Nela encontramos conflitos, pecados, violência, deslocamentos, relações familiares complexas e situações que revelam a fragilidade humana.
Particularmente significativo é o fato de Mateus mencionar mulheres como Tamar, Raab, Rute e a mulher de Urias. Em uma sociedade patriarcal, a presença dessas mulheres na genealogia do Messias possui grande força simbólica. Elas são mulheres marcadas por histórias complexas e, em alguns casos, pela condição de estrangeiras. Mesmo assim, entram na história da salvação.
Mateus parece afirmar que Deus não constrói a história da salvação excluindo aqueles que a sociedade considera inadequados, estrangeiros ou marginalizados.
Essa dimensão é extremamente importante para as CEBs. Uma comunidade cristã inspirada pelo Evangelho não pode reproduzir mecanismos de exclusão. A Igreja precisa reconhecer que Deus também se manifesta nas histórias daqueles que foram colocados à margem.
A genealogia de Jesus convida a comunidade a recordar seus próprios nomes: os nomes das mães que sustentam suas famílias, dos trabalhadores, dos agricultores, dos indígenas, dos quilombolas, dos migrantes, das pessoas negras, das crianças, dos idosos, das mulheres vítimas de violência e de tantos outros sujeitos frequentemente esquecidos.
Deus conhece os nomes que a história oficial prefere apagar.
3. Mateus 1,18-23: Maria e José diante de uma história que não controlam
Na segunda parte do texto, Mateus apresenta a concepção de Jesus. Maria encontra-se grávida antes de viver com José. José, “justo”, decide não expô-la publicamente e pensa em abandoná-la secretamente.
O relato mostra uma situação de profunda vulnerabilidade. Maria poderia ser submetida à vergonha e à exclusão social. José, por sua vez, encontra-se diante de uma realidade que não compreende.
É justamente nesse momento que aparece a intervenção divina: “José, filho de Davi, não tenha medo de receber Maria como tua esposa” (Mt 1,20).
A ação de Deus acontece dentro de uma situação humana concreta, marcada pelo medo, pela insegurança e pela possibilidade de rejeição.
Maria, embora não seja protagonista de discursos nesse trecho, está no centro da ação de Deus. Sua maternidade participa do cumprimento da promessa anunciada pelos profetas. Mateus cita Isaías: “Eis que a virgem conceberá e dará à luz um filho, e ele será chamado pelo nome de Emanuel” (Mt 1,23).
“Emanuel” significa “Deus conosco”.
Esse é o centro teológico da passagem: Deus não permanece distante da história humana. Ele entra na história, assume nossa condição e se faz presente entre os pequenos.
A Natividade de Maria, portanto, pode ser contemplada como parte dessa longa história de esperança. Antes mesmo de contemplarmos o nascimento de Jesus, somos convidados a reconhecer a importância daquela mulher cuja vida se encontra profundamente ligada ao projeto libertador de Deus.
4. Maria, a mulher do povo, e a espiritualidade das CEBs
A tradição latino-americana possui uma profunda devoção mariana. Entretanto, a leitura libertadora de Maria não pode reduzi-la a uma imagem distante da realidade. Maria precisa ser contemplada em sua condição histórica de mulher de um povo submetido a estruturas de dominação.
Ela viverá em uma Palestina marcada pela presença do Império Romano, pela pobreza, pela tributação e pela desigualdade social. Por isso, sua imagem pode aproximar-se das mulheres pobres de nossas comunidades que enfrentam diariamente a violência, a insegurança alimentar, o trabalho precarizado e a responsabilidade de sustentar suas famílias.
A celebração da Natividade de Maria torna-se, assim, uma oportunidade para afirmar a dignidade das mulheres, especialmente das mulheres pobres e marginalizadas.
Nas CEBs, Maria não deveria ser apresentada somente como objeto de veneração, mas também como mulher que participa ativamente da história da salvação. Sua presença ajuda a fortalecer uma Igreja na qual as mulheres sejam reconhecidas como sujeitos de evangelização, liderança comunitária, reflexão teológica e transformação social.
Celebrar o nascimento de Maria significa também reconhecer que cada nascimento é promessa de futuro e que nenhuma criança deveria nascer condenada à fome, à violência, ao abandono ou à exclusão.
5. Uma leitura sociotransformadora: das “Beléns” de hoje ao Reino de Deus
Mq 5 e Mt 1 apresentam uma lógica que atravessa toda a Bíblia: Deus começa a transformação da história a partir dos pequenos.
Belém é pequena. Maria é uma jovem mulher de uma sociedade periférica. José é um trabalhador. As mulheres da genealogia carregam histórias complexas. Jesus nasce em meio a um povo submetido a poderes estrangeiros.
A boa notícia começa nas periferias.
Essa perspectiva desafia a ação pastoral das CEBs. Não basta falar dos pobres; é necessário caminhar com eles. Não basta defender a dignidade humana; é necessário enfrentar as estruturas que produzem indignidade.
Uma pastoral inspirada nesses textos pode:
- fortalecer círculos bíblicos nos quais a Palavra seja lida a partir da realidade concreta das comunidades;
- valorizar a participação e a liderança das mulheres;
- defender crianças e adolescentes contra a fome, a violência e toda forma de exploração;
- apoiar comunidades indígenas, quilombolas e camponesas na defesa de seus territórios;
- acolher migrantes e pessoas em situação de vulnerabilidade;
- combater o racismo, a violência contra as mulheres e todas as formas de discriminação;
- articular fé e compromisso com políticas públicas de saúde, educação, moradia, trabalho e segurança alimentar;
- promover uma espiritualidade que una oração, organização comunitária e transformação social.
As CEBs podem tornar-se, assim, verdadeiras “Beléns”: pequenas comunidades onde Deus continua fazendo nascer esperança.
Conclusão
Na Festa da Natividade da Bem-aventurada Virgem Maria, Miqueias e Mateus nos ajudam a contemplar uma verdade fundamental da fé bíblica: Deus escolhe os pequenos e faz nascer deles caminhos de salvação.
De Belém, pequena entre as cidades de Judá, surgirá o pastor prometido. De uma jovem mulher, inserida na realidade simples de um povo dominado, nascerá aquele que será reconhecido como Emanuel, Deus conosco.
Para a Teologia latino-americana, essa mensagem possui uma consequência pastoral decisiva: os pobres não estão nas margens do projeto de Deus; eles ocupam lugar privilegiado na história da salvação.
Celebrar Maria é, portanto, celebrar a esperança que nasce nos lugares aparentemente insignificantes. É reconhecer a presença de Deus nas periferias, nas mulheres do povo, nas crianças, nos trabalhadores, nos indígenas, nos quilombolas, nos migrantes e em todos aqueles que lutam para que a vida tenha a última palavra.
Que nossas Comunidades Eclesiais de Base sejam hoje pequenas Beléns: comunidades onde os esquecidos recuperem seu nome, os excluídos encontrem lugar à mesa e a esperança renasça todos os dias.
Maria, mulher do povo e serva do Deus da vida, ajude nossas comunidades a reconhecer que, dos pequenos e dos pobres, Deus continua fazendo nascer a esperança de um mundo novo.
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