A graça que transforma e reintegra
Por Pe. Hermes A. Fernandes
A Liturgia da Quinta-feira da 24ª Semana do Tempo Comum coloca diante de nós duas experiências profundamente transformadoras. Na Primeira Carta aos Coríntios, Paulo recorda o núcleo do Evangelho que recebeu e transmitiu: Cristo morreu, foi sepultado, ressuscitou e se manifestou às suas testemunhas. O próprio Paulo se apresenta como alguém alcançado pela graça, apesar de ter perseguido a Igreja. No Evangelho de Lucas, uma mulher socialmente identificada como “pecadora” aproxima-se de Jesus, rompe barreiras religiosas e sociais e encontra nele não condenação, mas acolhimento, perdão e dignidade.
Lidos à luz da Teologia Latino-americana e da experiência das Comunidades Eclesiais de Base, esses textos nos convidam a perguntar: que Evangelho anunciamos quando encontramos pessoas marcadas pela exclusão? A nossa fé produz reintegração ou reforça julgamentos? E de que maneira a experiência da graça pode transformar não apenas indivíduos, mas também as estruturas que produzem exclusão?
1. “Transmiti-vos aquilo que eu mesmo recebi”: o Evangelho como memória viva
Em 1Cor 15,1-11, Paulo começa recordando aos cristãos de Corinto o Evangelho que lhes havia anunciado. A comunidade recebeu essa mensagem e permanece nela. O centro da proclamação é o acontecimento pascal: Cristo morreu, foi sepultado e ressuscitou.
É importante perceber que Paulo não apresenta a ressurreição como uma ideia abstrata ou uma simples consolação espiritual. Ele recorda uma experiência que foi transmitida por uma comunidade de testemunhas: Cefas, os Doze, mais de quinhentos irmãos, Tiago, os apóstolos e, finalmente, ele próprio. A fé cristã nasce, portanto, de uma experiência comunitária e histórica que proclama que a morte não teve a última palavra sobre Jesus.
Para a Teologia Latino-americana, esse dado possui enorme força. O Ressuscitado é justamente aquele que foi crucificado. Deus não ressuscita um poderoso segundo os critérios do mundo, mas aquele que foi rejeitado, condenado e executado. A ressurreição é, assim, a confirmação divina da vida e da missão daquele que anunciou o Reino, aproximou-se dos pobres, acolheu os marginalizados e confrontou estruturas religiosas e sociais que produziam exclusão.
Paulo introduz ainda um elemento autobiográfico decisivo: “sou o menor dos apóstolos”, porque havia perseguido a Igreja. Contudo, acrescenta: “É pela graça de Deus que eu sou o que sou”. Sua história demonstra que o Evangelho não transforma apenas aqueles que se consideram dignos. A graça alcança também quem traz consigo uma história de erros, contradições e fracassos.
Essa perspectiva é particularmente importante para as Comunidades Eclesiais de Base. Uma CEB não pode ser simplesmente uma comunidade daqueles que “já estão prontos”, dos que se consideram moralmente superiores ou dos que possuem uma trajetória religiosa impecável. Ela deve ser espaço onde pessoas possam experimentar que a graça de Deus é maior que o passado de cada uma delas.
2. Uma mulher sem nome diante de uma religião que a nomeou
O Evangelho de Lc 7,36-50 apresenta uma cena de grande força simbólica. Jesus é convidado para comer na casa de Simão, um fariseu. Durante a refeição, aparece uma mulher conhecida na cidade como “pecadora”. O texto não especifica qual era exatamente sua situação. É importante não reduzir sua identidade à hipótese de prostituição. O evangelista simplesmente registra que ela carregava uma marca social e religiosa que a colocava à margem.
Ela aproxima-se de Jesus, leva um frasco de perfume, chora aos seus pés, enxuga-os com os cabelos, beija-os e unge-os. Seu gesto é corporal, afetivo e público. Ela não se aproxima escondida. Aproxima-se justamente no espaço onde poderia ser julgada.
Simão, porém, não consegue enxergar aquela mulher para além do rótulo que carregava. Ele pensa: “Se este homem fosse profeta, saberia que tipo de mulher está tocando nele”. Para Simão, o problema não é a mulher estar sofrendo ou buscando uma nova vida. O problema é Jesus permitir que ela se aproxime.
Aqui encontramos uma das grandes questões da narrativa: quem é capaz de enxergar uma pessoa para além do rótulo que a sociedade lhe atribuiu?
Jesus vê aquilo que Simão não consegue ver.
Ele não começa discutindo a reputação da mulher. Conta uma pequena parábola sobre dois devedores. Um devia muito; outro, pouco. Nenhum dos dois tinha como pagar. O credor perdoou ambos. Jesus então pergunta qual deles demonstraria maior amor. Simão responde corretamente: aquele a quem foi perdoada a maior dívida.
A parábola conduz Simão a reconhecer uma verdade que ainda não consegue aplicar à própria situação: a misericórdia de Deus não funciona segundo a lógica da classificação humana das pessoas.
Quando Jesus afirma que os muitos pecados daquela mulher estão perdoados porque ela demonstrou muito amor, não devemos interpretar a frase como se o amor fosse uma espécie de pagamento pelo perdão. O próprio movimento da narrativa aponta para uma experiência de graça que produz amor. A mulher se aproxima de Jesus porque encontrou nele um espaço onde sua vida não é reduzida à condenação. Seu amor é a expressão visível de uma transformação já experimentada.
Por isso, as palavras finais são fundamentais: “Tua fé te salvou. Vai em paz!”
Jesus não apenas perdoa. Ele devolve àquela mulher a possibilidade de caminhar novamente. A paz anunciada por Jesus é também reintegração. Aquela que havia sido definida socialmente pelo pecado recebe novamente um futuro.
3. A graça que levanta pessoas e transforma relações
Quando colocamos os dois textos lado a lado, percebemos uma profunda convergência.
Paulo poderia ser identificado pelo seu passado: perseguidor da Igreja. A mulher poderia ser identificada pelo rótulo de “pecadora”. Entretanto, o Evangelho olha para ambos a partir daquilo que a graça pode fazer.
A pessoa não é seu pior erro.
Esta afirmação possui enorme importância para uma pastoral comprometida com os pobres e excluídos. Muitas vezes, a sociedade cria mecanismos para transformar determinadas pessoas em rótulos: “morador de rua”, “dependente químico”, “presidiário”, “prostituta”, “migrante”, “sem-terra”, “favelado”, “jovem infrator”, “desempregado”, “pobre”, “pecador”.
Quando o rótulo substitui a pessoa, a exclusão torna-se mais fácil.
Jesus faz o contrário. Ele restitui rosto, voz e dignidade. Ele não ignora o pecado, mas também não permite que o pecado seja utilizado como justificativa para destruir a pessoa.
Essa é uma dimensão essencial da espiritualidade das Comunidades Eclesiais de Base: olhar para a realidade a partir dos últimos. A leitura popular da Bíblia começa muitas vezes justamente onde a sociedade prefere não olhar.
A mulher de Lucas 7 continua presente em nossas cidades. Está nas mulheres vítimas de violência, nas mães que sustentam sozinhas suas famílias, nas pessoas exploradas sexualmente, nas mulheres marginalizadas por sua condição social, nas pessoas que carregam histórias de dependência e abandono, nas vítimas de preconceito e nas tantas pessoas que entram em nossas comunidades esperando não ser julgadas mais uma vez.
4. A ressurreição como força sociotransformadora
A afirmação de Paulo — Cristo ressuscitou — não pode ser separada da vida concreta. Se o Crucificado está vivo, então nenhuma cruz humana pode ser considerada normal ou inevitável.
A fé na ressurreição questiona uma sociedade que se acostuma com pessoas crucificadas pela fome, pelo desemprego, pela violência, pelo racismo, pela falta de moradia, pela exploração do trabalho, pela destruição ambiental e pela indiferença.
Uma Igreja que proclama a ressurreição precisa colocar-se ao lado daqueles cuja vida está ameaçada.
É aqui que a experiência das CEBs se torna profundamente atual. A comunidade reúne a Palavra, a oração e a realidade. Lê o Evangelho e, simultaneamente, pergunta: quem está sendo crucificado hoje? Quem está sendo considerado descartável? Quem foi reduzido a um rótulo? Quem precisa recuperar sua dignidade?
A resposta não pode limitar-se à assistência. A caridade cristã precisa também enfrentar as causas da exclusão.
Por isso, uma ação pastoral inspirada nesses textos pode assumir alguns compromissos concretos: visitar e escutar pessoas em situação de vulnerabilidade; criar espaços comunitários de acolhida; acompanhar famílias em situação de pobreza; fortalecer iniciativas de economia solidária; defender trabalho e moradia dignos; combater todas as formas de discriminação; apoiar migrantes, pessoas em situação de rua, comunidades tradicionais e trabalhadores precarizados; e participar das lutas sociais pela justiça, pela paz e pela preservação da Casa Comum.
5. Uma Igreja que não pergunta primeiro “que tipo de pessoa é esta?”
O episódio da casa de Simão constitui também uma provocação para nossas comunidades cristãs. Antes de acolher alguém, podemos ser tentados a perguntar: “Quem é essa pessoa?”, “De onde veio?”, “O que fez?”, “Qual é sua situação?”, “Ela merece estar aqui?”
Jesus nos ensina a inverter a pergunta.
Antes de perguntar “quem é esta pessoa?”, precisamos perguntar: “o que esta pessoa está vivendo e de que maneira podemos ajudá-la a recuperar sua dignidade?”
As CEBs podem ser lugares privilegiados dessa conversão pastoral. Não comunidades fechadas sobre si mesmas, mas pequenas comunidades abertas às periferias humanas e sociais. Não espaços onde os pobres são apenas destinatários de assistência, mas sujeitos da evangelização e da transformação da realidade.
A mulher de Lucas 7 também nos recorda que os pobres e marginalizados não chegam às nossas comunidades apenas para receber alguma coisa. Eles chegam trazendo dons, fé, sensibilidade, resistência, sabedoria e capacidade de amar. Às vezes, são justamente aqueles que a sociedade despreza que nos ensinam o significado mais profundo do Evangelho.
Conclusão: a graça que se transforma em compromisso
1Cor 15,1-11 e Lc 7,36-50 apresentam pessoas transformadas pela graça. Paulo não é mais o perseguidor: torna-se testemunha do Ressuscitado. A mulher não é mais simplesmente aquela que a cidade chamava de “pecadora”: torna-se testemunha de uma experiência de misericórdia, fé e amor.
O Evangelho nos chama, portanto, a superar uma religião que classifica pessoas e construir uma Igreja que reintegra, cura, acolhe e transforma.
Para as Comunidades Eclesiais de Base, a mensagem é clara: anunciar o Ressuscitado significa defender a vida dos crucificados de hoje; celebrar a graça significa criar espaços onde ninguém seja condenado definitivamente pelo seu passado; falar de perdão significa trabalhar pela reconstrução das relações; e proclamar a salvação significa participar da construção de uma sociedade onde pobres, marginalizados e excluídos sejam reconhecidos como sujeitos de dignidade e direitos.
A mulher de Lucas 7 ouviu de Jesus: “Vai em paz!” Paulo descobriu que a graça de Deus não havia sido estéril em sua vida. A mesma graça continua chamando nossas comunidades à conversão.
Onde a sociedade ergue muros, o Evangelho abre caminhos. Onde os rótulos condenam, Jesus devolve nomes e rostos. Onde a morte parece ter a última palavra, a comunidade anuncia: Cristo ressuscitou, e a vida dos pobres também tem futuro.
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