Reflexão da Segunda-feira da 25ª Semana do Tempo Comum: Festa de São Mateus – Apóstolo e Evangelista

Chamados para caminhar com os últimos: a vocação de Mateus e a missão de uma Igreja servidora

Por Pe. Hermes A. Fernandes

A Liturgia da Festa de São Mateus apresenta duas passagens que se iluminam mutuamente. Na Carta aos Efésios, Paulo exorta a comunidade a viver de acordo com a vocação recebida, preservando a unidade e colocando os diferentes dons a serviço do crescimento do Corpo de Cristo. No Evangelho de Mateus, Jesus chama um homem considerado pecador e socialmente suspeito, o publicano Mateus, e faz dele discípulo e apóstolo.

Lidos à luz da Teologia Latino-americana e da experiência das Comunidades Eclesiais de Base (CEBs), esses textos apresentam uma Igreja que não se fecha sobre si mesma, mas sai ao encontro das pessoas, especialmente daquelas que a sociedade e a religião costumam colocar à margem. O Evangelho não transforma somente indivíduos: ele também questiona os critérios pelos quais pessoas são classificadas como dignas ou indignas de pertencer à comunidade.

1. “Eu, prisioneiro no Senhor, vos exorto”: viver segundo a vocação recebida

Efésios 4 inicia uma nova seção da carta. Depois de apresentar, nos capítulos anteriores, a ação de Deus em Cristo e o mistério da salvação, o autor passa às consequências práticas dessa fé. A comunidade é chamada a viver de modo coerente com a vocação que recebeu.

A exortação começa pela humildade, mansidão, paciência e capacidade de suportar-se mutuamente no amor. O objetivo é “conservar a unidade do Espírito pelo vínculo da paz”. A unidade mencionada não significa uniformidade. O próprio texto afirma que há diversidade de dons e ministérios: apóstolos, profetas, evangelistas, pastores e mestres. Esses ministérios existem “para o aperfeiçoamento dos santos, para a obra do ministério, para a edificação do Corpo de Cristo” (Ef 4,12).

A imagem do Corpo de Cristo impede que qualquer ministério seja compreendido como privilégio pessoal. O dom recebido não existe para alimentar prestígio, poder ou autorreferencialidade. Existe para servir.

Essa perspectiva possui grande importância para a Teologia Latino-americana. Uma Igreja verdadeiramente evangelizadora não pode organizar seus ministérios segundo uma lógica de dominação, mas segundo a lógica do serviço. A autoridade cristã encontra seu sentido quando contribui para que a comunidade cresça, participe e se coloque a serviço da vida.

Nas CEBs, essa compreensão aparece de maneira muito concreta. A Palavra de Deus é lida em comunidade; homens e mulheres assumem responsabilidades; lideranças populares, ministros, catequistas, agentes de pastoral, jovens e idosos colaboram na missão. A diversidade não deveria produzir competição, mas complementaridade.

O Espírito distribui dons para que o povo tenha vida.

2. “Jesus viu um homem chamado Mateus”

O Evangelho apresenta uma cena extremamente simples: Jesus passa, vê Mateus sentado na coletoria e lhe diz: “Segue-me!”. Mateus levanta-se e segue Jesus.

O detalhe de Mateus estar sentado na coletoria não é secundário. Os publicanos eram associados à cobrança de impostos para o poder imperial e frequentemente eram vistos pelos contemporâneos de Jesus como pessoas comprometidas com um sistema de exploração e como pecadores. O texto não esconde o conflito social e religioso que envolve essa profissão.

Jesus, entretanto, não começa perguntando a Mateus se ele é digno. Ele simplesmente o vê, chama-o e estabelece com ele uma nova relação.

Aqui encontramos uma característica fundamental da prática de Jesus: ele olha para pessoas que outros preferem não olhar.

A narrativa continua com Jesus à mesa na casa de Mateus, juntamente com publicanos e pecadores. A mesa é, no mundo bíblico, um poderoso sinal de comunhão. Comer juntos significa estabelecer vínculos. Por isso, a atitude de Jesus provoca escândalo entre os fariseus: “Por que vosso mestre come com publicanos e pecadores?”

A resposta de Jesus é decisiva: “Não são os que têm saúde que precisam de médico, mas os doentes.” E acrescenta: “Misericórdia quero, e não sacrifício.”

Jesus desloca o centro da religião: o critério fundamental não é a separação dos “puros” em relação aos “impuros”, mas a misericórdia que restaura a vida.

3. Uma Igreja que atravessa as fronteiras da exclusão

A vocação de Mateus possui uma dimensão pessoal, mas também profundamente comunitária e social. Jesus não chama Mateus para permanecer isolado. O chamado o insere em uma comunidade de discípulos e inaugura um novo caminho.

A mesa de Mateus torna-se espaço de encontro entre pessoas que a sociedade religiosa havia separado. Jesus não ignora a realidade do pecado, da injustiça ou da necessidade de conversão. Mas sua resposta à situação humana não é a exclusão. É misericórdia, encontro e possibilidade de uma vida nova.

Aqui a Teologia Latino-americana encontra uma chave hermenêutica importante: a evangelização precisa partir da realidade concreta dos pobres, marginalizados e excluídos. O Evangelho deve ser lido a partir da vida daqueles que experimentam, diariamente, mecanismos de exclusão.

Hoje também existem “coletorias” e “mesas” onde pessoas ficam socialmente marcadas: pessoas em situação de rua, desempregados, migrantes, moradores das periferias, encarcerados e suas famílias, dependentes químicos, trabalhadores precarizados, povos indígenas e comunidades tradicionais ameaçadas, pessoas vítimas de racismo e tantas outras que carregam o peso do preconceito e da invisibilidade.

A pergunta do Evangelho permanece atual: quem são aqueles que nossa sociedade prefere não ver?

E uma segunda pergunta se dirige à Igreja: estamos sentados à mesa com eles ou apenas falando sobre eles?

4. “Misericórdia quero”: a opção pelos pobres como prática pastoral

A palavra de Jesus aos fariseus não é uma condenação da religião, mas uma crítica a uma religiosidade que coloca o cumprimento exterior acima da misericórdia. Citando o profeta Oseias, Jesus recorda que Deus deseja relações fundamentadas na compaixão e na justiça.

Para a Teologia Latino-americana, essa afirmação possui consequências pastorais profundas. A opção preferencial pelos pobres não significa transformar os pobres em objetos de assistência. Significa reconhecer neles sujeitos da evangelização, portadores de dignidade, saberes, experiências e dons.

As CEBs podem ser expressão concreta dessa Igreja que se deixa evangelizar pelos pobres. A comunidade que se reúne em torno da Palavra não pergunta apenas: “Como podemos ajudar os pobres?”, mas também: “O que Deus está nos revelando através da vida, da resistência e da esperança dos pobres?”

Essa mudança de perspectiva é essencial.

Mateus estava sentado à coletoria quando Jesus o chamou. O Evangelho mostra que ninguém deve ser reduzido ao lugar social que ocupa, aos erros que cometeu ou ao rótulo que recebeu. A graça de Deus abre possibilidades que os sistemas sociais frequentemente negam.

Isso não significa relativizar a justiça ou legitimar estruturas de exploração. Significa afirmar que a transformação cristã envolve simultaneamente conversão pessoal e transformação das relações sociais.

5. Os dons existem para o serviço

Efésios oferece o complemento necessário ao Evangelho. Depois de chamar Mateus, Jesus o incorpora a uma comunidade na qual existem diferentes ministérios e dons.

A Igreja não é uma realidade construída em torno de poucos protagonistas. Ela é o Corpo de Cristo, no qual cada pessoa possui uma responsabilidade. O ministério tem como finalidade “edificar” e conduzir todos à maturidade da fé.

Para as CEBs, isso significa valorizar a participação efetiva do povo. Uma pastoral sociotransformadora não pode tratar os leigos como simples executores de decisões tomadas por outros. É necessário criar espaços de escuta, discernimento comunitário, formação bíblica, participação e corresponsabilidade.

A Festa de São Mateus, portanto, pode tornar-se ocasião para renovar a compreensão da própria missão eclesial: Deus chama pessoas concretas, com suas histórias e contradições, e transforma seus dons em instrumentos de serviço ao Reino.

6. Uma mesa aberta para todos

Os dois textos convergem numa mesma visão de Igreja. Efésios fala de unidade, diversidade de dons e serviço. Mateus apresenta acolhida, misericórdia, conversão e mesa compartilhada.

A Igreja sonhada pelo Evangelho não é uma comunidade formada por pessoas consideradas perfeitas. É uma comunidade de discípulos e discípulas que reconhecem sua própria necessidade da misericórdia de Deus e, justamente por isso, aprendem a acolher.

A missão das CEBs pode ser compreendida como uma contínua preparação dessa mesa aberta: mesa da Palavra, da Eucaristia, da solidariedade, da justiça e da fraternidade. Uma mesa onde ninguém seja descartado e onde os pobres não sejam apenas convidados, mas reconhecidos como irmãos, irmãs e protagonistas da caminhada.

Celebrar São Mateus é recordar que Jesus continua passando pelas nossas coletorias de hoje. Ele continua vendo pessoas que outros ignoram. Continua chamando aqueles que carregam histórias difíceis. Continua formando uma comunidade na qual diferentes dons devem convergir para o serviço.

Por isso, a pergunta fundamental desta Liturgia talvez seja: quem Jesus está nos ensinando a enxergar?

Quando a comunidade aprende a olhar como Jesus, a Palavra deixa de ser apenas discurso religioso e torna-se prática de misericórdia. Quando os dons são colocados a serviço, a Igreja deixa de buscar privilégios e torna-se Corpo de Cristo. E quando a mesa se abre aos excluídos, o Reino de Deus começa a tornar-se visível no meio do povo.

São Mateus nos recorda que ninguém está definitivamente condenado ao lugar que a sociedade lhe atribuiu. O olhar de Jesus pode transformar uma coletoria em lugar de vocação, uma mesa em espaço de comunhão e uma vida marcada pela exclusão em testemunho do Evangelho.


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